A GALIZA COMO TAREFA – na solaina – Ernesto V. Souza

Saio à varanda da casa, que é muito agradável no outono e primavera; e mais neste, que parece querer prolongar-se nas últimas semanas; e leio, ao solinho, de sobremesa. Adoito fazer um chá, um mate, ou uma infusão e passo aí bastante das tardes. Deixo-me estar num calor confortável que contrasta com o frio das manhãs, que se mete na casa até que ligam a calefação central.

Nestes últimos tempos esse foi o programa. Com os filhos fora, e a mulher trabalhando pelas tardes, toda a casa fica para mim. Posso dedicar um tempo tranquilo às tarefas domésticas e o resto à desconexão do mundo. Fui desligando telefone e todos os computadores, agora apenas uso nas horas de trabalho. Com as redes sociais e o telefone acontece-me, como com o carro, estou a desenvolver uma alergia brutal, em exagero; mistura de ódio e incapacidade para entender o “mundo moderno”, as suas exigências e a omnipresente necessidade, a cruel dependência de uso desses trebelhinhos do demo não apenas para toda operação administrativa, sanitária, bancária ou comercial, quanto também para se relacionar ou simplesmente consumir.

Mas não sou o único. Bastante gente arredor, amizades de idades diversas, concordam nisto. Conforta saber que partilhamos quando menos ódios, mesmo que sejam como de senhores antigos.

Abofé, eu também gostava de viver numa vila, de construir uma casinha ou de restaurar com jeito, de viver a um ritmo mais pausado. Por vezes, ultimamente mais, será a idade, fantasio com que o que teria sido a minha vida de ter conseguido, na casa dos primeiros trinta, uma vaga de professor de liceu. Teria procurado isso, uma vila qualquer galega ou simplesmente teria ficado a fazer a vida no primeiro destino que me tocar. Teria uma hortinha, um galpão ou barraca, com máquinas e ferramentas, uma cozinha aconchegante e um lugar tranquilo para ler.

Nestes últimos tempos, reconheço, desliguei muito, escrevi pouco, mas li. Edições espanholas de começos do século 20, francesas e inglesas, algumas cousas jeitosas.

As Memórias de La Rochefoucauld, publicadas na coleção de bolso universal de Calpe e em tradução de Rivas Cheriff. Bem interessantes (e densas de personagens, títulos nobiliários, episódios) para o ciclo Maria de Medici-Richelieu-Mazarin-Rainha Ana, com as guerras civis internas, jogo de tronos e as soçobras da Monarquia antes de Luis XIV. E que conectam bem com as que li há uns meses, a ficção novelada das Memoirs of a Cavalier de Defoe sobre a guerra dos 30 anos, a escocesa e a Civil. Aponta-se aí o início da modernidade, as mudanças que agitarão as transformações dos séculos por vir. Mas também o momento de triunfo mal gerido, prévio ao declínio, do Império da monarquia Católica Espanhola.

Por isso talvez vinha a quadrar com os Dez Anos de Desterro da Madame de Staël, também lhes falei deles, ambientadas na oposição a Napoleão. Tenho também em castelhano, traduzidas estas por Manuel Azaña, na mesma coleção universal da Calpe, que tão importante, cada vez mais, me parece para entendermos a cultura espanhola de princípios do século XX.

Li também numa bela edição francesa, reliure, sem capa que comprara há anos em Bruxelas, uma antologia das Vies des Dames Illustres Françaises et Etrangères, de Brantôme (Paris : Garnier, [s.d., 189_?], nouvelle edition avec une introduction et des notes par Louis Moland). E já que estava andei a fisgar na personagem autorial, em Perigord na Gascunha, e na família; não sabia que o pai fora companheiro de armas do afamado cavaleiro Bayard.

Dirá o leitor ou a leitora: malpocado, deu-lhe pela leitura de cortesãos desenganados.

E pode ser, que andava desanimado. Completei com Stendhal e reli, devagarinho, La Chartreuse de Parme, numa edição Argentina bem impressa e ilustrada dos anos 50, ecoado os trechos dos que mais gostei, numa versão francesa na Wikipedia e li, por vez primeira, e com imenso prazer as Chroniques italiennes, numa ed. de Gallimard de 1936.

Daí continuei com Infância-Adolescência-Juventude de Tolstoi, as memórias de Nicolás Petrovich Irteneff, uma verdadeira re-escrita do eu, que ocupou ao autor entre 1851-1857. Estas numa edição espanhola, de Mauci, em tradução castelhana a partir do francês de J. Santos Hervás. Livro, encadernado em tela e sem capa, também sem data de impressão, mas dos anos 1914-17, e com uma tipografia e formatação à moda, no mínimo, 10 anos mais antiga. Tem um carimbo das Bibliotecas circulantes do Patronato de misiones pedagógicas, da República espanhola e até a ficha e recibo do último empréstimo legal de dezembro de 1935.

Presta-me ler nestes livros. Enfim, tenho de ver se encontro alhures as Máximas numa boa edição, bem encadernadinha e em papel, portuguesa ou francesa. Há anos trato de conseguir uma de Guerra e Paz em Português, já postos a pedir com gravuras do grande ilustrador soviético Dementy Shmarinov e qualquer clássico em edições a poder ser anteriores a 1960. Mas infelizmente, não acho pela rede, ou encontro em preços loucos.

Bem que gostaria de ler ou re-ler, agora, os mais dos clássicos europeus em boas edições. A poder ser na língua original ou em português. Realmente acho que Cunqueiro e Otero Pedrayo e antes a Pardo Bazán, Valle-Inclán e mais antes Murguia e Vicetto, não se podem entender sem estes (e muitos mais) livros. E mais que ninguém sem Stendhal, Theophilo Braga e sem Eça de Queiroz.

Resulta curioso ler com vagar nestes queridos clássicos, ou re-ler, passado tanto tempo. A leitura é sempre outra, a cada vez diferente nos matizes ou atenções. Como é absurdo fazer uma tese aos 30 anos, sobre literatura galega (ou qualquer outra) sem ter lido profundamente tanta cousa na que bebiam os devanceiros. E com profundamente quero dizer com algo de perspetiva ou simplesmente com a bagagem da idade e boa parte da vida já consumida.

Leio nestes, não apenas por fetichismo, mas por contexto, e porque fui encontrando por aí a preços bons e meio naufragados. E também porque me fascina essa literatura barata, essa explosão esquecida de grandes edições populares anteriores aos fascismos europeus, tanto a do primeiro ciclo nas duas primeiras décadas do século, quanto a vanguardista e de avançada que termina com o fim da Guerra Civil Espanhola.

Essa explosão de cultura e de negócio editorial, de traduções, de circulação de novidades de toda cor e ideologia, especialmente da que bebe dessa corrente de internacionalismo pacifista de esquerda e que acompanha a aparição do público de massa; que se desintegra à chegada das ditaduras pela Europa e que se prolonga nos países não atingidos pelos bombardeamentos até a Guerra fria.

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