A GALIZA COMO TAREFA – world wide web war – Ernesto V. Souza

Não por mais anunciado, foi que estávamos precavidos. O conflito comercial Estados Unidos da América vs. República Popular da China, com Google e Huawei, como modernas esquadras tecnológicas em rumo de colisão, deflagrou assim, como qualquer uma das grandes guerras idiotas cheias de espetaculares batalhas inúteis.

Suspendemos a respiração, de bocas escancaradas, na calma tensa e pausa prévia, como tantas vezes antes os nossos antepassados, desde que há memória escrita no decorrer da história e antes nas lendas, ante o choque iminente de duas grandes potências, com os seus contingentes, vassalos, alianças, obrigações, pressões, impedimenta, recursos, marchas e contramarchas velozes, bloqueios, terrestres, navais, agora extrapolados os índices bursáteis, empresas, chips, componentes, terras-raras, coberturas, bytes e à rede.

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How Mordred was Slain by Arthur, and How by Him Arthur was Hurt to the Death, by Arthur Rackham (1917)

Conservo, como documento e memória, uns apontamentos impressos, fotocopiados, em papel: “A rede internet”, de um curso lecionado a professores e estudantes de doutoramento no Departamento de Filologia Galego-Portuguesa da Universidade da Crunha, por um novíssimo José Ramon Pichel Campos, em abril do ano 1996.

Aí deveu ser a primeira vez que ouvi falar de protocolos de transmissão, TCP/IP, domínios, endereços, utilizadores, FTP, diretórios, correios eletrônicos, grupos de notícias… daquela a via era Telnet, e o mais para procuras eram o Archie e o Gopher.

Os apontamentos começam com esta frase: “A conexión ao mundo da Internet produce unha sensación cando menos curiosa, mas non tan vital como muitos meios de comunicación queren fazer-nos ver.”

Uma página depois, logo da introdução, do que era, e como funcionava internet, aparece esta pergunta e declaração, que não posso passar sem digitalizar:

QUEN GOVERNA A INTERNET?
Por muitas razóns podemos ver a rede como a unha cooperativa: conta con un grupo de conselleiros, cada membro ten unha opinión sobre como deben facer-se as cousas e poden decidir facer algo ou non. É unha elección persoal. Internet non ten presidente, director executivo ou mandador. As redes que compoñen a Internet poden ter presidentes ou directores executivos, mas en Internet, iso é distinto, non existe a figura de autoridade máxima como un todo. “

Desde essa data, e já antes, venho conversado com o amigo Pichel a respeito da rede, das possibilidades das ferramentas, da sua importância nos negócios, na educação, na cultura, na análise e definição das línguas e as nações sem Estado, na socialização velha em formatos novos, nos projetos distribuídos, na tradução, e na filosofia variada e pensamento que nos abria, em abstrato e concreto a rede de redes.

O trimestre final de 1996 passei em Pelotas, RS, Brasil, como na Crunha, havia um aula habilitada com computadores, alguns com modem, na Universidade; na primavera de 1997 estava em Chicago, nos Estados Unidos, num aula “futurista” cheia de computadores ligados à rede e estudantes coloridos, lá abri o meu correio hotmail, que continua em funcionamento; em 1998, em Montevideu, trabalhando de Leitor de galego, já havia um computador com internet na Biblioteca da Faculdade e não era raro intercambiar correios.

É curioso pensar que a rede medrou e evoluiu em paralelo às nossas amizades e maturidades. Com internet e os computadores, com a Galiza e a língua sempre de fundo, temos pensado, sonhado, fantasiado, até projetado algum que outro fracasso em muita medida pioneiro. Internet facilitou-me uma ligação a amizades distantes, retomar conversas interrompidas, tem-me permitido recuperar o ativismo, a militância, fazer parte de equipas, projetos e uma escrita e presença, virtual, que seria impossível pela distância e as circunstâncias emigrantes dos meus últimos 20 anos de vida.

Porém, de mais em mais estou cético com o uso da tecnologia, desligado de mais em mais das redes sociais e em permanente fugida das APPS e sindicações automatizadas. Há já anos, venho confirmando (e mais, quanto mais sei de livros velhos) que a história da internet parece decalque da da imprensa. Em espiral de volume e números, obviamente, mas igual em fases e passos. Invenção, reticências, explosão, internacionalização, utopia de conhecimento universal, intercâmbio intelectual, expansão comercial, advertências, censura, controlo nacional, ferramenta de construção dos Estados, das línguas e das literaturas nacionais, contra o humanismo, contra o latim e a internacionalização do saber e a cultura, e pelo meio, guerras de religião e comerciais.

Para Tim Berners-Lee e para outros humanistas modernos, a neutralidade da rede é uma espécie de direito humano. Códigos abertos, acesso livre e neutralidade, são fundamentais para manter a rede de redes – não apenas para continuar a revolução digital, mas para uma prosperidade universal e até mesmo para nossa liberdade – como a própria democracia.

Infelizmente, os humanistas do passado e os modernos, são técnicos, eruditos e inteligentes, incapazes de compreender que o bem coletivo, a cooperação e o conhecimento universal não tem preferencia sobre os interesses particulares, as ideologias e as restrições religiosas, políticas e culturais. Desconhecem ou não são quem de enxergar que, na história, a mesquinharia, a imbecilidade, as paixões, a falta de sentido comum e a vontade de controlo, acaparação e a aniquilação preventiva do outro jogam um destacado papel nas nossas dinâmicas evolutivas.

Colonialismo na internet. Imperialismo eletrônico. Corsários do Ciberespaço.  Contrabandistas de big-data. Monopólios do byte. Senhores da manipulação digital e criadores da opinião. Vigilância e controlo das corporações e estados. Espionagem. Novas Companhias das Índias digitais. Guerras de religião, de fronteiras e comerciais à espreita, confirmando-nos que a era da tecnologia entrou em uma fase nova, diferente, mais fechada e movimentada por interesses corporativos e nacionais.

Mas, saibam, afinal, ninguém ganha nunca as guerras. Toda a gente perdemos. Mordreth perpassa toda vez Artur com a sua lança e este mata-o, indefectivelmente, às espadeiradas. Arredor montes de cadáveres, devastação e retrocesso. Uma e outra vez, sempre em Camlann.

O futuro está aí, às portas. Vaiam juntando um W mais com os três que já havia.

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