CARTA DE BRAGA – “o que é a beleza” por António Oliveira

Quarenta milhões é o número de árvores abatidas ou destruídas no mundo, cada dia que passa.

Este número espantoso, de pôr os cabelos em pé neste ‘Dia do Ambiente’, foi dado pelo naturista Joaquín Araújo, bem conhecido em todo o mundo, numa entrevista em que acusa os políticos de nada fazerem, apesar de saberem como a alteração climática está a pôr tudo, mas absolutamente tudo, em perigo.

Estes políticos ignoram que estão vivos, ignoram que o ar também precisa de respirar, que a água necessita beber, ignoram que estamos a queimar o ar! Devem ser de outro planeta, devem viver de substâncias químicas contaminantes e só devem comunicar-se com ruído!

Um lamento amargurado a acompanhar um outro, o de o clima não ser objecto de direitos no ordenamento jurídico, mesmo sabendo eles que ‘o clima é a vida da vida! E há leis de defesa do ambiente, tratados internacionais e o compromisso perante a humanidade e nada fazem!

Quando reina a boa sorte, o mundo ordena-se mas quando intervém a má sorte o mundo está em perigo

É uma frase tirada de uma novela chinesa onde se lamenta o modo como a arrogância ocidental, teima em chamar fatalismo oriental, a algo que não passa da modéstia de saber que nem sempre entendemos como as coisas se passam.

E tem razão o autor da novela pois, a ver pela quantidade de ‘incêndios’ que os mais díspares ‘fornalheiros’ estão a atiçar ou querem começar a acender por este mundo, temos de pensar estarem a chegar tempos de má fortuna!

Não é necessário nomeá-los nem numerá-los, mas se pensarmos jornais e noticiários antes ou depois do desporto, teremos noção da frigideira bem quente onde já temos os pés.

Alguém já afirmou que o maior problema da democracia seria o da liberdade de expressão, por também permitir a existência de grupos a espalhar medos irracionais, para de imediato se apresentarem como os salvadores desses medos por eles ajudados a criar!

Fernando Aramburu, que em Março apresentou em Lisboa o romance ‘Pátria’ refere, de algum modo isso mesmo, ao afirmar ‘tenho grande confiança na cultura porque civiliza o ser humano. Já deu origem a sociedades democráticas, ainda imperfeitas, mas já incompatíveis com a violência

Mas não sou tão optimista, ao ver os ‘loiros’ da política à solta por aí fora! Abri depois um jornal e fui ter a uma crónica assinada por J. Lluís Goas, com o título ‘O rio da vida’, logo seguido do que parecia ser um poema:

No fim, todas as coisas se juntaram numa só e dela sai um grande rio.

O rio foi criado pelo grande dilúvio e corre por um leito de tempo.

Há gotas de chuva eterna em algumas rochas. Debaixo das rochas estão as palavras.

E alguma dessas palavras são suas.

Vivo obcecado pelas águas

O cronista tinha passado ao papel mais uma das muitas versões do ‘Dilúvio Universal’, depois de ter regressado de uma expedição aos rios do Equador.

Não cita origem nem autor, mas serve-se dela para encimar a crónica e mostrar o ambiente em que decorreu a viagem, onde foi confrontado com o mito do ‘monstro da selva’, comum nos povos na bacia do sagrado rio Napo.

Ficará para outra crónica se houver tempo, se ele a escrever, se os ‘loiros’ e os ‘fornalheiros’ deixarem, se os políticos se lembrarem que vivem e dependem de gente para quem a beleza é, explicou-o bem, clara e singelamente, o pintor Fernando Botero ‘apenas um equilíbrio, uma tranquilidade, uma coerência, onde nada sobra e nada falta e isso faz a paz!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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