Sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos – 11. Duas Universidades, dois discursos, dois textos. Aqui apresentamos o texto da Wharton School, “As tarifas americanas sobre as suas importações: Porque é que o custo será elevado”

Tensão EUA China 0

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

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Depois do texto apologético, na minha opinião, de Barry Eichengreen, da Universidade de Berkeley, publicado com o número 10 desta série, sobre as virtudes pressupostas do mais puro imperialismo americano, veja-se agora o presente texto da Wharton School (Economia e Gestão) da Universidade da Pensilvânia, que nos explica como é que Trump negoceia as “suas tarifas”. E o texto dá a voz aos parceiros neoliberais do G-7, falando-nos dos seus ressentimentos face ao desprezo com que a América de Trump vê os seus aliados. Ilustrativo. Ilustrativo, do ponto de vista da Democracia e das não verdades de Eichengreen.

JM

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11. Duas Universidades, dois discursos, dois textos. Aqui apresentamos o texto da Wharton School, “As tarifas americanas sobre as suas importações: Porque é que o custo será elevado”

Por Ann Harrison (Wharton School), Patrick Leblond (Centre for International Governance Innovation) e Mary E. Lovely (Syracuse University)

Publicado por Wharton School em 5 de junho de 2018 (texto original aqui)

11 As tarifas americanas sobre as suas importações 1

 

A decisão da administração Trump na semana passada de impor tarifas sobre as importações de aço e alumínio do Canadá, México e da União Europeia terá ramificações dispendiosas, de acordo com especialistas em finanças internacionais, comércio e economia.

As tarifas – 25% sobre o aço e 10% sobre o alumínio – irão comprometer os laços dos americanos com os seus aliados de longa data e irão aumentar os preços dos bens que utilizam aço e alumínio, prejudicando assim a procura, o investimento em fábricas e empregos em ambos os lados da equação, advertem eles. As tarifas de retaliação são inevitáveis, e esta questão poderá levar em consequência a grandes desafios na Organização Mundial do Comércio, dizem-nos.

De acordo com Ann Harrison, professora de economia de gestão e negócios e política pública da Universidade de Wharton, a jogada das tarifas é “chocante”, tanto porque poucos esperavam que Trump materializasse as suas ameaças quer porque envolvia os aliados mais próximos dos EUA. “Todos estes estão indignados e muito preocupados”, disse ela, referindo-se ao Canadá, México e à UE. “Este movimento viola o direito internacional, e [estes aliados] veem-no como uma rejeição de relações de longa data.”

O Canadá provavelmente irá retaliar com as suas próprias tarifas sobre as suas importações de produtos norte-americanos, enquanto prosseguem as negociações para encontrar uma solução mutuamente aceitável, disse Patrick Leblond, um alto quadro do Centre for International Governance Innovation em Ontário, Canadá. Leblond é também professor associado e com a área de Empresas e Política Pública da Graduate School of Public and International Affair da Universidade de Otava.

Leblond observou que o primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau tem o forte apoio dos canadianos para forçar os americanos a recuarem na sua aplicação de tarifas. “Os canadianos estão prontos a… morder a bala durante todo o tempo que seja necessário”, disse ele. Eles também analisam a forma como as tarifas se aplicam aos produtos americanos exportados para o Canadá no contexto das eleições intercalares americanas para o Congresso em novembro de 2018.

Este movimento viola o direito internacional, e [os aliados dos EUA] veem-no como uma rejeição de relações de longa data – Ann Harrison

“A administração Trump continua a pedir coisas que sabe que são impossíveis, uma vez que parece pensar que tem uma vítima presa no anzol “, disse Mary E. Lovely, professora de Economia na Syracuse University’s Maxwell School of Citizenship and Public Affairs e uma especialista não-residente do Peterson Institute for International Economics. “Os nossos aliados estão a ter cada vez mais consciência disso mesmo e começam a ter alguma solidariedade entre eles ao aperceberem-se que estão todos a ser tratados de uma forma que é contrária ao direito internacional, e que é politicamente inviável dentro dos seus próprios países. Portanto, não parece que eles têm muitas opções para além de resistir.”

Avizinha-se uma guerra comercial

A UE já impugnou as tarifas Trump na OMC, mas isso poderia levar muito tempo para se chegar a uma resolução, disse Harrison. Alguns países como o México optaram por atuar sem esse processo mais longo “porque eles estão muito enfurecidos com essas ações”, acrescentou. Outros países descreveram a movimentação dos Estados Unidos como uma “ação da salvaguarda” – um termo calão para tentativas de proteger as suas indústrias por razões de ordem interna – anotou. “Esta situação acrescenta uma tremenda pressão e começa a reduzir o sistema de comércio global assente em regras que os EUA estabeleceram ao longo dos últimos 60 anos.”

Este tema é suscetível de pesar fortemente na reunião do G-7 este fim de semana em Quebec, Canadá, com uma divisão acentuada entre os EUA de um lado, e os outros seis membros indignados com a introdução das tarifas Trump. A administração Trump tinha originalmente anunciado as tarifas em março, abrangendo vários outros países, mas suspendeu-as para dar lugar a negociações sobre a melhor forma de reduzir as ameaças de segurança nacional sentida pela Administração Trump no que se refere aos Estados Unidos. A administração já alcançou acordos com a Coreia do Sul, Austrália, Argentina e Brasil sobre o aço; e com a Austrália e a Argentina sobre o alumínio. Não conseguiu chegar a acordos semelhantes com o Canadá, com o México e com a UE, o que levou à reinstituição das tarifas de importação, efetiva a partir de 1 de junho.

Leblond disse que Trudeau estava esperançado em que se chegasse a algum tipo de acordo antes da última ação pautal, mas cancelou uma visita planeada a Washington, quando soube que os EUA insistiriam na sua exigência de uma “cláusula de caducidade” nas renegociações de NAFTA (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio) que se estavam a desenrolar simultaneamente. Sob a proposta de caducidade, os três membros de NAFTA-Canadá, México e os EUA –devem renovar o acordo estabelecido há 23 anos, num intervalo de cinco anos, ou então ele caducaria. Trudeau também rejeitou a justificação dos EUA das tarifas por motivos de segurança nacional. “A ideia de que somos de alguma forma uma ameaça à segurança nacional para os Estados Unidos é muito francamente insultuosa e inaceitável”, disse ele numa conferência de imprensa na semana passada.

Mary E. Lovely referiu que os EUA sempre tiveram problemas com a UE, como por exemplo a sua exigência para que esta última baixasse as suas tarifas sobre automóveis. Ela disse que com a sua última ação, os EUA estão a seguir um padrão de “pedir coisas que são bastante extraordinárias no contexto da Organização Mundial do Comércio e sobre a forma como a liberalização do comércio sempre se desenrolou.”

Ao entrar em antagonismo com os seus aliados e parceiros comerciais, os EUA também estão a prejudicar as possibilidades de forjar uma frente comum para lidar com a China, disse Leblond. Leblond esperava que os líderes de outros países que faziam parte da cimeira do G-7 fizessem compreender a Trump a necessidade de preservar esse potencial de uma frente comum, mas não estava esperançado de que essas explicações funcionassem. “Eu não estou seguro de que vão ser bem sucedidos, porque é assim que Trump tende a negociar: ele bate primeiro e depois diz: ‘bem, se quer que eu deixe de lhe bater, é melhor então aceitar todas essas outras coisas que eu gostaria de obter de si .” Os outros dirigentes dirão: ‘ isso não vai funcionar, e assim é o senhor que escolhe o que quer fazer. “

Aumentando a aposta?

Trump tem dito repetidamente que os EUA têm sido “roubados por outros países” durante anos no comércio e considerou estes países responsáveis pelos problemas do défice comercial da América. De acordo com Harrison, “os EUA têm jogado um jogo de tentar abrir mercados de outros países para os seus bens durante gerações e gerações.” Ela vê as tarifas mais como uma posição de negociação por parte de Trump. “Ele é verdadeiramente gentil ao aumentar a pressão e dizer-nos que nós nos sentimos violados.” Ela também salientou que a exigência de Trump sobre os défices comerciais é deslocada. “[O défice comercial] não tem nada a ver com as exportações por parte de outros países. Diz mais respeito ao facto de o nosso país contrair mais empréstimos do que aquilo que essencialmente produz e necessita de financiar isto de alguma forma.”

A secção 232 [da lei de expansão comercial de 1962] “proporciona a maior discricionariedade ao presidente, é uma ferramenta que ele pode sacar da gaveta e usar bastante rapidamente” – Mary Lovely

As tarifas vão acabar por prejudicar toda a gente, de acordo com Harrison. “A melhor maneira de entender isso é pensar num brutamontes num espaço de recreio “, disse ela. O brutamontes acha que ele é a pessoa mais forte no recreio e faz exigências aos seus amigos, mas acontece que ele julgou erradamente o comportamento dos seus aliados e que de facto está a viver mentalmente num mundo que é diferente do de há 30 ou 40 anos atrás, acrescentou. “Eles vão contra atacar. E conclui com o que é conhecido como o dilema do prisioneiro, onde toda gente luta contra todos e em que todos irão, por fim, ficar numa situação bem pior do que a que tinham antes”. A UE pode ser um espaço onde Trump poderia realmente conseguir o que quer, porque é um espaço fragmentado com interesses diferentes entre os seus membros, especialmente com as negociações Brexit, acrescentou.

Consumidores, empregos, investimentos

Harrison estima que as tarifas e as ações de retaliação de outros países levariam a preços mais elevados dos produtos que utilizam aço como, por exemplo, os automóveis. “Mesmo que as empresas redirecionem as suas cadeias de abastecimento para outras partes do mundo para evitar as tarifas, isso ainda significará preços mais elevados em termos de transporte, por exemplo”, acrescentou Leblon.

Os preços mais elevados daí resultantes significarão volumes mais baixos, uma vez que os consumidores podem compram carros mais baratos ou retardam a compra de carros, disse Leblon. A incerteza e os custos mais elevados, por sua vez, obrigam as empresas a deferir os seus investimentos, ou a investirem noutros mercados em crescimento como a China, advertiu. Contas feitas, tudo dito terá repercussões sobre a criação de emprego e de riqueza.

Os construtores de automóveis estimaram que as tarifas adicionariam aproximadamente 1% ao custo dos carros, e podem transferir para o preço de venda entre dois terços e a totalidade deste aumento, disse Lovely. “Se é um imposto de $5000, este será canalisado diretamente para a carteira do cliente”, acrescentou ainda.

Em risco estão também os empregos dos metalúrgicos tanto nos Estados Unidos como nos países que estão do outro lado da cadeia de formação de valor e que são alvo das tarifas sobre importações nos EUA, como um estudo recente mostrou. Lovely disse ainda que a indústria automobilística, por exemplo, é um setor tão bem integrado nos EUA, Canadá e México que “nós nem sabemos sequer como separar o conteúdo americano e canadiano.” Apanhados no fogo cruzado estão os sindicatos que representam metalúrgicos em ambos os lados, e estes estão contra as tarifas sobre o Canadá, acrescentou.

O prejuízo global poderia ser atenuado porque a economia americana está agora numa situação de retoma, sublinhou Lovely. “No entanto, já vimos um [chamado] mercado de trabalho de ciclo dourado que não é verdadeiramente convidado para a retoma, porque embora o desemprego seja muito baixo, os salários não evoluem na verdade como todos gostaríamos que evoluíssem em sintonia com a retoma. Isso pode constituir uma ameaça para a própria retoma. “

As tarifas também irão prejudicarão a base eleitoral do Trump. “Trump está ostensivamente a dizer que faz tudo pelo povo americano mas as pessoas cujos interesses mais provavelmente serão afetados são contra essas tarifas”, disse Harrison, referindo-se aos sindicatos metalúrgicos. “Parte da razão pela qual eles se estão a opor é porque os seus camaradas no Canadá, e na mesma União Sindical estão também a ser atingidos.”

Harrison também recusou a ideia de que as tarifas poderiam melhorar o bem-estar dos americanos que não são ricos. “O salário médio [anual] dos 50% da população de mais baixas remunerações é cerca de $18000, o que é assustador, mas as tarifas não são a forma de resolver esse problema”, disse ela. “Os próprios metalúrgicos estão a dizer-nos isso.”

A questão da segurança nacional

Lovely diz que Trump utilizou a segurança nacional como pretexto para as tarifas em virtude da secção 232 da lei Trade Expansion Act de 1962. “O Presidente goza da máxima discricionariedade; é uma ferramenta que ele pode tirar da prateleira e utilizar muito rapidamente. “

“Esperemos que a resposta de retaliação dos canadenses e mexicanos seja suficiente para pressionar a administração Trump a recuar… ” – Patrick Leblond

Harrison sublinhou dois efeitos resultantes das tarifas Trump. “Em primeiro lugar, Trump denegriu o direito internacional, no sentido de que todos nós sabemos que este não está a ser utilizado para a segurança nacional”, disse ela. Se outros países levarem as tarifas para a OMC e esta decide contra os EUA, “enfraquece esse corpo”, observou. “O segundo custo, é claro, é que ele aliena os nossos aliados. Por conseguinte, o facto de pretender isso enfraquece a segurança nacional, porque coloca uma grande barreira entre nós e os nossos aliados mais próximos, que estiveram ao nosso lado numa variedade de diferentes situações e com os quais nos poderíamos voltar a encontrar num futuro próximo. “

 

Esperanças de uma reversão

O governo canadiano desencadeou um processo de consulta pública de um mês, no decurso do qual irá receber os comentários da indústria e outros intervenientes sobre a melhor forma de tratar as tarifas alfandegárias. Se a administração Trump não reverter as tarifas até então, o Canadá poderia impor tarifas de retaliação sobre as importações dos EUA, disse. Se Trump prossegue com a sua ameaça de impor tarifas especificamente sobre os automóveis e outros produtos, isso irá agravar a situação atual, advertiu.

No entanto, Leblond tinha esperança numa reversão de Trump. “Estamos à espera que a resposta de retaliação dos canadianos e mexicanos seja suficiente para pressionar a administração Trump de modo a que esta recue e volte a negociar de boa-fé, e tente alcançar um novo acordo NAFTA que seja bom para todos “, disse ele.

Entretanto, o Canadá está disponível para colaborar com os seus parceiros comerciais nos EUA a vários níveis — Congresso, Assembleias legislativas dos Estados, governadores, Presidentes de Câmaras de grandes cidades e da comunidade empresarial, acrescentou Leblond. Nesse exercício, o Canadá, essencialmente, esforçar-se-ia em exercer a máxima pressão possível sobre a administração Trump para que esta abandone a sua pretensão pautal, disse Leblond. “[A esperança é] de que possamos pôr um fim em tudo isto. Toda a gente está a ser prejudicada com isso. Ninguém sai beneficiado com esta política pautal de Trump. “

 

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