Sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos – 12. A China joga as suas cartas com serenidade. Por John Mauldin

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

12. A China joga as suas cartas com serenidade

john mauldin Por John Mauldin

Publicado por mauldin economics logo em 20 de abril de 2018 (texto original aqui)

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Photo: Getty Images

 

A China é o elefante dentro da sala da economia mundial. Não podemos ignorá-lo, embora muitos o tentam de qualquer modo. Admitir a influência da China obriga-nos a admitir que o mundo está a mudar — e que todos teremos de mudar com ele.

Este ano a China está nas notícias de destaque porque o presidente Trump quer melhorar os termos de troca no comércio. Isso é importante, mas constitui somente uma peça de uma história chinesa muito maior que se tem vindo a desenrolar lentamente desde há décadas. Periodicamente, verifico os últimos desenvolvimentos. Hoje, veremos em que ponto estamos, com a ajuda das minhas fontes de confiança.

Em primeiro lugar, espero que tenham visto o anúncio que estamos a terminar Outside the Box depois da próxima semana. É um passo nos meus esforços de reorganização em curso. Gostei muito enviar-vos essas histórias de meio da semana e sei que vocês gostaram delas também. Fiquem descansados, em breve oferecer-vos-emos algo ainda melhor. No vídeo vídeo aqui poderão ver mais informação.

 

Controle Central

Um dos grandes prazeres da minha vida é a leitura da excelente investigação económica de Gavekal. Posso fazê-lo graças a uma longa amizade com os três fundadores da empresa: Charles Gave, Louis Gave, e Anatole Kaletsky. De outro modo, só está disponível para os seus clientes, e o seu custo está para lá do meu orçamento de investigação normal.

Uma coisa que aprecio nos analistas e redatores de Gavekal é que todos eles são independentes e livres de discordarem uns dos outros. Até mesmo os fundadores Charles, Louis, e Anatole muitas vezes diferem significativamente — tanto em mensagens públicas como em privadas que leio. Francamente, muitas vezes é quando mais aprendo.

Na semana passada, Arthur Kroeber de Gavekal Dragonomics enviou uma fascinante apresentação sobre a rivalidade estratégica EUA-China. De um modo geral, corresponde ao meu próprio modo de ver, mas também me proporcionou alguns momentos de admiração. A propósito, é assim que aprendo. A minha mente é uma grande misturadora na qual lanço informação de múltiplas fontes. Zumbe e rearranja os ingredientes para algo novo, como por exemplo os pensamentos que se seguem sobre a China. Eles são uma resultante de mim, de Gavekal, e dos meus muitos outros contactos da China (e devo tirar o meu chapéu a Leland Miller e ao China Beige Book). Devo destacar que quaisquer conclusões erradas são minha responsabilidade e por elas não devem ser responsabilizadas as minhas fontes. Estou perfeitamente capaz de cometer os meus próprios erros, muito obrigado…

O primeiro ponto que há que reconhecer: Xi Jinping está firme no comando. Provavelmente terão ouvido falar da alteração constitucional que o tornou presidente vitalício. Isso não significa que Xi seja invulnerável ou possa fazer o que muito bem entende. Ele tem restrições, como qualquer líder nacional. Mas não tem que se preocupar com reeleições, ou com rivais a tentarem mudar a agenda, ou com congressos para aprovarem as suas políticas e orçamentos. Xi define a agenda. Todos os outros seguem-na.

Há cerca de dois anos assinalei quanto à presidência de Xi que era claro que ele era o mais importante líder chinês desde Deng Xiaoping. Já não é esse o caso. Ele é a figura mais importante da moderna história chinesa desde Mao e possivelmente Sun Yat-sen. Na minha opinião, Mao foi um desastre para o povo chinês. Milhões morreram sob as suas desastrosas políticas económicas. Desde Deng e subsequentes líderes chineses e continuando com Xi, houve uma notável reviravolta.

Sim, muitos na China ainda vivem em profunda pobreza, mas o facto de se terem movido mais de 250 milhões de pessoas da agricultura de subsistência para estilos de vida urbana de classe média, em menos de duas gerações, é um milagre económico sem precedentes. A impressionante foto do início deste texto é de Shenzhen, cuja população passou de 30.000 em 1979 para os mais de 10 milhões atuais. Dezasseis cidades chinesas têm uma população de mais de 10 milhões. são histórias impressionantes de crescimento de que a maioria dos ocidentais nunca ouviu falar. Os EUA apenas têm duas áreas metropolitanas de tamanho comparável.

Diga-se o que se disser, os historiadores olharão para trás daqui a 100 anos e ficarão maravilhados. E Xi parece determinado a tornar a vida melhor para aqueles que ainda se encontram em situação de pobreza.

Arthur destacou outra, menos notada, mudança constitucional que poderá ajudar. Estendeu a disciplina partidária até aos responsáveis locais, quer pelo que façam quer por aquilo que possam deixar de fazer. Isto dá a Pequim um mecanismo mais eficaz de execução e deverá resultar em políticas mais consistentes.

O meu primeiro pensamento sobre isto foi que controles ainda mais centralizados poderão não ser uma coisa assim tão maravilhosa para a China. Não funcionou assim tão bem noutros lugares. Arthur concorda que a China poderá enfrentar problemas pelo caminho, mas pensa que, nos próximos anos, as novas medidas serão positivas. Ele espera um crescimento do PIB de 6.5% este ano, tal como Pequim prevê (o que, claro, atinge o que querem). O colapso da atividade bancária paralela no ano passado conteve de algum modo o excesso de alavancamento, pelo menos por agora.

A dívida rapidamente crescente da China, quer privada quer patrocinada pelo Estado, será um problema em algum momento. Xi e a sua liderança estão a tentar evitar o problema, mas a dívida tem a sua realidade própria. Acesso cada vez mais fácil ao crédito torna difícil controlá-lo. Os “investidores” chineses enchem-se de dívida para investir em “coisas seguras” encontrando-as, afinal, assim não tão seguras.

Por agora, no entanto, a estabilidade de curto prazo dá espaço a Xi para se centrar em prioridades económicas de longo prazo, em particular em duas: a política industrial do “Made in China 2025” e a iniciativa de infraestruturas “Belt and Road”. Como veremos brevemente, ambas são muito mais do que parecem.

Entretanto, os Estados Unidos vêem a China simultaneamente como parceiro e como rival. Obviamente, as duas economias estão interligadas e dependem uma da outra. O Presidente Trump observa, corretamente, que a China nem sempre retribui os direitos comerciais que os Estados Unidos e outros governos atribuem. A China é na verdade bastante protecionista — muito mais que os outros países “BRIC”, tal como indica a medida do índice de restritividade do investimento direto estrangeiro da OCDE. Trump tem razão ao pressionar por uma melhoria da paridade no comércio. Quando a China pode enviar carros para os Estados Unidos com uma tarifa de 2,5%, e os automóveis dos Estados Unidos têm de pagar 25% para entrarem na China, algo está desequilibrado. Literalmente, existem dezenas de exemplos como esse. E para isto deixámo-los entrar na OMC e demos à China o estatuto de nação mais favorecida?

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Mas na sua essência, a rivalidade EUA-China não é, na verdade, uma guerra comercial. Esta situação tem vindo a desenrolar-se desde há muito tempo. As ameaças tarifárias de Trump são apenas a jogada mais recente e não será a última.

 

Duas cartas em jogo

Pequim tem dois grandes programas económicos, nenhum dos quais considera negociável. São prioridades estratégicas que o resto do mundo terá de encarar.

Made in China 2025 é uma ampla política industrial com múltiplos objetivos:

  • Melhorar a produtividade da indústria transformadora
  • Construir setores de tecnologia intensiva
  • Ganhar 70% de auto-suficiência em materiais e componentes chave

À primeira vista, não há realmente nada de errado com esta política. Muitas nações fizeram durante muito tempo coisas similares, nomeadamente os Estados Unidos. Mas olhemos mais além da superfície.

O governo, as empresas detidas pelo Estado e as empresas privadas estão a conceder ao programa Made in China 2025 financiamento verdadeiramente massivo. A despesa em investigação e desenvolvimento foi de US$232 mil milhões só no ano de 2016. De modo inquietante, uma nova comissão governamental, criada no ano passado, está a supervisionar a “integração” deste desenvolvimento tecnológico com um possível uso militar. E não nos enganemos, este “financiamento”, sejam ações, empréstimos ou subsídios, em última análise, provêm do Estado ou a instância do Estado.

Assinale-se o mais recente objetivo de 70% de auto-suficiência em certos mercados. Made in China 2025 é, por natureza, um programa anti-comércio. Favorecer os produtores internos necessariamente desfavorece os importadores. Outros governos, nomeadamente os Estados Unidos fazem om mesmo, é claro, mas raramente nesta escala bastante imensa. Assim, será inevitavelmente um ponto de discussão.

A Iniciativa Belt & Road parece um programa gigante de infraestruturas, e assim é, mas isso não é tudo. É a versão mercantilista de Xi do programa Marshall dirigido pelos Estados Unidos no pós-guerra. Onde forjamos a liderança através das instituições e acordos comerciais, ao mesmo tempo que se fornecia o tão desejado dinheiro, a China procura fazer o mesmo ligando-se fisicamente ao continente euroasiático. Disse-o desde o início, esta pode ser uma das políticas mais disruptiva e transformadora da carreira de Xi. Havia algum cepticismo quando foi anunciada dada a imensidão do seu âmbito, mas penso que agora todos o creem. A China está empenhada em investir os seus dólares neste projeto que tem uma visão para várias décadas.

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Como o meu amigo George Friedman diz muitas vezes, o principal desafio estratégico da China é que os Estados Unidos controlem os mares. A geografia significa que as importações e as exportações da China têm de atravessar estrangulamentos costeiros que os Estados Unidos poderiam fechar facilmente se quisessem. Isso é intolerável se o teu objetivo for ser uma superpotência, e isso é definitivamente o que Xi quer.

One Belt, One Road é a resposta. Ligará a massa terrestre euroasiática num gigantesco bloco comercial com a Europa numa ponta e a China na outra. O projeto abrirá rotas terrestres que os Estados Unidos não podem interditar, deixando por conseguinte a China assumir o que sente ser o seu legítimo lugar de liderança. O alcance é de perder o fôlego, mas Pequim está determinada a torná-lo realidade. De novo, eu não apostaria contra Xi nesta questão.

Reparem em todos os pequenos países asiáticos que One Road atravessa. Dará acesso não só ao leste da Ásia mas também à Europa. A China está a construir uma “conduta principal” não muito diferente do sistema interestadual de estradas. E isso significa que todos aqueles pequenos países terão acesso à estrada principal. Em última análise, a China quer pagar em Renminbi todos os produtos que adquire e ter esses pequenos países a fazerem parte dos seus ativos no banco central. Isso faz parte do processo de se tornar uma moeda de reserva, que é algo que a China cobiça. O mesmo é válido para as vertentes oceânica e portuária do projeto.

Sejam quais forem os sentimentos que se têm sobre a liderança chinesa, há que admirar um país que pode empreender um projeto tão grande que levará décadas a realizar. Embora Xi e a sua equipa estejam a iniciá-lo, é improvável que qualquer um dos que se encontram agora na liderança continue a estar no topo dqui a 30 anos. Isto é Visão, com um V maiúsculo.

Grande batalha

Este mundo que Pequim vislumbra é incompatível com as prioridades de Washington. Daí o atual choque de titãs. Os líderes dos Estados Unidos estão a compreender que a China não lhes vai dar aquilo que querem. Não estou muito seguro sobre a razão porque isso os surpreende. A China é governada pelo Partido comunista. É diferente do comunismo soviético ou dos vários grupos socialistas no Ocidente. É largamente diferente do comunismo maoísta. Parece capitalismo em alguns aspetos, mas trata-se mais de mercantilismo e construção de império. Essa ideia de que a China evoluiria lentamente para um sistema de livre empresa ao estilo americano foi sempre uma fantasia. Penso que as pessoas estão agora a dar-se conta disso.

Isso não quer dizer que não possamos fazer negócios com a China, tal como fazemos com a Rússia e outros opositores geopolíticos. Podemos e continuaremos — mas é o país deles e fá-lo-emos em termos mutuamente acordados ou então não o faremos de modo nenhum. Arthur Kroeber disse na apresentação em Gavekal que podemos “ou co-existir ou conflituar.” Penso que o resume bem. O problema é ter as pessoas do nosso lado para aceitarem isso.

Assim, neste momento existe uma grande batalha em Washington para redefinir como interagir com a China. Múltiplas alas estão a lutar pela posição. De momento, o Presidente Trump é o jogador mais importante. Apesar de alguma da sua retórica, não penso que ele seja, ideologicamente, contra o comércio. Penso que ele apenas quer que os Estados Unidos “vença” e que é flexível quanto ao que isso significa.

No entanto, as ideologias sobre o comércio existem. Steve Bannon e Peter Navarro são dois importantes exemplos, e Navarro ainda tem (infelizmente) audição junto do presidente. Eles também querem uma “vitória” mas têm ideias muito diferentes sobre o que isso seja. Os Estados Unidos ficariam muito mais pobres se a sua visão fosse a vencedora. Algumas das suas ideias não interessam de modo nenhum a Pequim mas, sendo ideólogos, eles não se inclinam para compromissos. Nem a China, pelo que não espero grande movimento. Existem áreas em que penso que a China assumirá compromissos (como as tarifas sobre automóveis, etc.), mas tornar-se um estado vassalo dos Estados Unidos está fora de questão. E não devia.

Depois temos os falcões da segurança nacional, que não se importam negociar com a China desde que continuemos dominantes em matéria de segurança. Penso que o Secretário de Defesa James Mattis pertence a este grupo. Ele gostaria da ajuda da China na resolução do problema da Coreia do Norte e provavelmente sabe que os Estados Unidos devem dar alguma coisa em troca. Ele aconselhou cautela na recente questão das tarifas sobre o aço e alumínio, por exemplo. O problema é onde parar. Negociar com a China dá-lhe necessariamente acesso à tecnologia, dados e capital ocidentais. Assim, é muito difícil ter as duas coisas.

Finalmente, temos as empresas dos Estados Unidos. Elas vêem um enorme mercado na China e querem ter acesso a ele. Pequim está contente em dar-lhes as boas vindas, pelo preço certo, o que normalmente implica partilhar códigos de software e outras propriedades intelectuais. Elas não gostam disto, mas a maioria fez as pazes. Sabemos disto porque vemo-las a estabelecerem operações na China. Elas gostariam que o governo dos Estados Unidos as tirasse da negociação mas não podem dizer isso muito alto. Elas estão numa posição difícil.

Não havendo um plano acordado, o lado dos Estados Unidos está mais ou menos a agitar-se contra a China, cuja liderança está 100% unida porque assim o determina Xi. O lado daqui tem o presidente a ameaçar com tarifas, os aliados empresariais como o meu amigo Larry Kudlow a dizerem que todos devem acalmar-se, o Departamento do Tesouro e CFIUS a tentarem travar acordos tecnológicos, o Pentágono a trabalhar silenciosamente com a China para conter a Coreia do Norte, e os grandes negócios a fazerem o que for necessário para ficarem do lado bom de Pequim — tudo isto ao mesmo tempo.

A China olha para esta confusão, francamente, e vê que a melhor estratégia é permanecer serena, tentar parecer generosa e esperar. Quanto mais tempo discutirmos, mais tempo tem a China para comprar a nossa tecnologia e convertê-la para seu uso. Combine isso com a sua própria investigação, que está a progredir rapidamente em certos segmentos (especialmente na inteligência artificial!), e eles têm um plausível roteiro para a superioridade em algumas áreas, ou pelo menos para a paridade.

Não penso que iremos ver qualquer tipo de grande acordo que afaste toda esta desordem. Se Trump e Xi alcançarem algum acordo sobre tarifas, manter-se-ão outras questões. Ultimamente, a China está “magnanimamente” a oferecer a permissão de que as empresas estrangeiras adquiram a propriedade de mais ativos locais. Isso soa esplendidamente, mas para mim não é claro que os empresários de Pequim e dos EUA compartam o mesmo conceito de “propriedade.” Como disse, eles são comunistas, autocratas, e mais importante ainda, mercantilistas.

E mesmo que resolva tudo isso, a rivalidade geopolítica muito maior permanece. Seria bom pensar que a China pode ser nosso aliado trans-pacifico como o Reino Unido é no Atlântico. Não vejo isso acontecer. Não temos o mesmo tipo de laços culturais e geográficos com a China.

A situação atual em relação à China e aos EUA pode ir em muitas direcções. Na pior das hipóteses, poderíamos cair numa espécie de Guerra Fria económica com a China, com ambos os lados a aplicarem políticas protecionistas agressivas. Receio que isso possa desencadear uma recessão global. Não estou a ser hiperbólico. É um beco escuro em que não queremos entrar.

Sendo mais otimista, Pequim poderia fazer concessões suficientes para satisfazer Trump e comprar mais alguns anos de relativa harmonia. Mas, como eu disse, a rivalidade subjacente vai voltar a menos que Xi faça algumas mudanças maciças que ele não mostra sinais de sequer considerar.

Por isso, penso que a perspetiva provável a curto prazo é muito barulho com tarifas moderadas ou outras restrições. Uma verdadeira guerra comercial não serve os interesses de ninguém. Mas as pessoas cometem erros e fazem coisas irracionais, pelo que alguém poderia fazer um cálculo errado.

Esperemos que as cabeças mais sábias e mais frias prevaleçam.

Um Conto da História do Comércio

Enquanto viajo e falo com velhos e novos amigos, ouço muitas histórias fascinantes das suas próprias origens. Às vezes eu posso conectá-las com outras histórias de pessoas diferentes, e elas tornam-se ainda mais fascinantes. Aqui está uma que está na minha cabeça há algum tempo e que agora é relevante. Eu não posso confirmar tudo isto, mas é tão interessante que eu queria compartilhar. Vem de fontes que achei altamente confiáveis e eles estavam familiarizados com a situação. Talvez alguns de vocês tenham mais informações.

Na década de 1990, Robert Rubin, Secretário do Tesouro de Bill Clinton, estava negociando os termos sob os quais a China seria autorizada a entrar na Organização Mundial do Comércio. As minhas fontes dizem que ele estava basicamente a pedir muitas das mesmas coisas que Trump quer agora. Quem ia dizer que Trump e Rubin estavam filosoficamente na mesma página comercial?

Mas em 1998, no meio do escândalo Monica Lewinsky, Clinton queria uma “vitória”. (Não diferente do atual presidente.) E Rubin não estava a proporcioná-la, mantendo-se firme nas suas exigências por acesso ao mercado e garantias de propriedade intelectual, etc. Clinton então tirou as negociações chinesas de Rubin e deu-as à Secretária de Estado Madeleine Albright com as instruções para as concluir.

Não sendo especialista em comércio, Albright não entendia as questões subjacentes. Os chineses reconheceram que ela estava jogando uma mão fraca e mantiveram-se firmes. Para encurtar a história, as minhas fontes dizem que ela efetivamente cedeu. Clinton conseguiu a sua “vitória” e nós ficamos presos a um péssimo acordo comercial.

Quando Trump alega que fomos enganados em um mau acordo comercial, ele está certo – embora eu me pergunte se ele entende a história. Talvez alguém lhe tenha dado o historial, mas nunca saiu em nenhum dos seus discursos. Esse acesso à OMC, que finalmente aconteceu em 2001, permitiu que a China começasse a captar mercados através de meios legais e a aceder à propriedade intelectual dos EUA sem pagar por isso. O meu problema pessoal com as questões comerciais chinesas é o roubo da propriedade intelectual e a falta de direitos de propriedade. Se querem vender-nos t-shirts e outros produtos a preços baixos, então o consumidor americano beneficia. Quando o fazem com aquilo que é essencialmente propriedade intelectual dos EUA, as empresas americanas perdem. E isso significa empregos. Os EUA não são o único país do mundo desenvolvido a queixar-se desse mesmo problema. É um tema comum no Ocidente industrializado.

Isto faz alguma diferença agora? Provavelmente não. Nem Xi nem Trump estavam envolvidos naquela época. Mas chega à rivalidade que discutimos acima. É possível que tanto os EUA como a China permaneçam numa organização como a OMC? Trump parece duvidar disso, já que ele ameaçou retirar-se da OMC. É possível que algum dia olhemos para trás, para este período de uma única instituição que governa o comércio internacional como uma aberração – um belo sonho que nunca foi realista. Se assim for, preparem-se para grandes mudanças.

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O autor: John Mauldin: reputado especialista financeiro, com mais de 30 anos de experiência em informação sobre risco financeiro. Editor da e-newsletter Thoughts from the Frontline, um dos primeiros boletins informativos semanais proporcionando aos investidores informação e orientação livre e imparcial. É presidente da Millennium Wave Advisors, empresa de consultoria de investimentos. É também presidente de Mauldin Economics. Autor de Bull’s Eye Investing: Targeting Real Returns in a Smoke and Mirrors Market, Endgame: The End of the Debt Supercycle and How It Changes Everything, Code Red: How to Protect Your Savings from the Coming Crisis, A Great Leap Forward?: Making Sense of China’s Cooling Credit Boom, Technological Transformation, High Stakes Rebalancing, Geopolitical Rise, & Reserve Currency Dream, Just One Thing: Twelve of the World’s Best Investors Reveal the One Strategy You Can’t Overlook e The Little Book of Bull’s Eye Investing: Finding Value, Generating Absolute Returns and Controlling Risk in Turbulent Markets.

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