O MENINO QUE LIA NO SUPERMERCADO por Luísa Lobão Moniz

 

Ontem, sábado em Lisboa, o Sol deu ar da sua graça e acolheu os lisboetas com os seus quentes raios.

Não havia melhor coisa a fazer do que ir apanhar um pouco de ar e de Sol. E onde? Na feira do Livro no encantador Parque Eduardo VII.

As alas da feira estavam a transbordar de pessoas em grupos de amigos, famílias, pessoas sozinhas, muitos estrangeiros, muitos adultos, muitos jovens, muitas crianças e até bebés que sentadinhos nas suas cadeirinhas choravam sem parar assustados com as pessoas que iam em sentido contrário. O que lhes valeu foi a protecção do pai ou da mãe que caminhava de costas, à frente do carrinho, para poder sossegar a sua criancinha que se estreava na azáfama de tabuleiros cheios de livros que eram mexidos e remexidos pelos adultos.

Algumas crianças, ao colo, faziam questão de ver o mesmo livro que a mãe e esticava o braço para agarrar uma folha, a mãe torcia-se para que o livro não ficasse com menos uma folha… outras diziam “este não, este não…” pois já percebia que livros sem ilustração não eram para elas….e outros ainda agarravam-se ao seu livro preferido enquanto a mãe ou o pai diziam “esse não, não é para ti, és ainda muito pequenino,” e mostravam-lhe um livro de capa mole, de plástico que podia levar para o banho.

“eu não sou bebé” respondia a criança do alto dos seus quatro ou cinco anos.

Foi uma situação bonita de se ver e ouvir. Não sei de que livros se tratavam, mas sei que com carinho e afecto se trocavam argumentos sem medos.

Não houve um grito, não houve uma lágrima, houve um livro para uma criança que acabou por ser mostrado por um desconhecido que resolveu desempatar a situação.

Foi bonito ver uma relação pais/filho sem agressividade, sem ameaças, sem prepotências.

Foi bom ver e pensar que nem todas as crianças tiveram a pouca sorte de nascer em famílias analfabetas e desestruturadas, ou em famílias esclarecidas, mas igualmente desestruturadas que tratam mal as suas crianças.

Entenda-se famílias desestruturadas aquelas cujas relações afectivas se prendem pelas agressividades e violências que nada têm a ver com a classe social a que pertencem, mas sim com causas multidimensionais que não têm que ser necessariamente problemas de desemprego ou falta de recursos económicos.

Basta ter lido ultimamente casos de violência em casas de pessoas tidas como exemplos sociais.

Imediatamente me veio à memória a história de um menino que conheço bem, esse sim maltratado e mal-amado pela mãe e pelo pai. Esse menino levou algum tempo a aprender a ler e a escrever. Quando descobriu como se lia ia até a um supermercado, pegava num livro para crianças, e sentava-se no chão para ler.

Esse menino um dia foi à feira do livro e aceitou como oferta um livro sobre Camões, não para o ler, mas para oferecer ao pai.

As histórias, os livros são para todas as crianças. Não há criança, que viva numa terra sem guerra, que não goste de ter entre as suas mãos um livro com capa dura ou com capa mole, que não goste de ver as ilustrações mesmo que não as entenda.

A história do menino que ia para o supermercado ler, passou-se quando as escolas do 1º ciclo não tinham bibliotecas, ou se as tinham o corpo docente tinha receio de colocar os poucos livros que estavam guardados em armários fechados à chave. Se algum desaparecesse ou se se estragasse o responsável era o professor…!

Bem-vindas as Bibliotecas Escolares, a rede das bibliotecas escolares, que mesmo com as muitas falhas que lhes possam ser apontadas, tiveram a coragem de por os livros nas mãos dos alunos, desde os mais novos aos mais velhos, tiveram a ousadia de levar escritores às escolas, de fomentar as semanas da leitura…

São milhares os professores, que melhor ou pior, têm nos seus planos de aulas o dia de ir à Biblioteca.

Não passem a vida a falar mal do que hoje se pode fazer nas escolas, primeiro porque por vezes desconhecem a realidade, segundo porque Roma e Pavia não se fizeram num dia.

O menino já não vai ao supermercado, mas vai à biblioteca do bairro onde vive.

A Feira do Livro é também o dia da Criança, de qualquer Criança. É urgente não haver guerra, mas haver o direito ao conhecimento e à felicidade!

One comment

  1. Maria de sa

    *Sou um resto de uma geração de profs para quem foi possível lidar com a biblioteca da Escola .* *Actualmente nada sei .Outro modo de olhar “profs” aposentados .* *Acontece .* *Foi gratificante ler o texto .* *Obrigada .*

    *Maria *

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: