Sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos – 20. China, o país que não fracassou (2/2). Por Philip P. Pan

Tensão EUA China 0

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Este texto constitui a parte 1 de uma série de textos editados pelo New York Times sob o título de “Regras da China, Eles não gostaram do livro de regras do Ocidente. Assim, escreveram o seu próprio livro.” Dada a sua extensão será editado em 2 partes.

JM

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20. China, o país que não fracassou (2/2)

Philip P Pan Por Philip P. Pan, fotografias de Bryan Denton

Publicado por New York Times, em 18 de novembro de 2018 (aqui)

Republicado por Gonzallo Rafo , em 28 de novembro de 2018 (aqui)

 

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O Ocidente tinha a certeza de que a via seguida pelos Chineses nas últimas décadas iria falhar. Bastava esperar. E o Ocidente continua à espera.

 

(conclusão)

‘Abertura’

Em dezembro, o partido comunista celebrará o 40 º aniversário das políticas de “reforma e abertura” que transformaram a China. A propaganda triunfante já começou, com o Sr. Xi a colocar-se em primeiro plano e ao centro, como se estivesse a dar a volta de vitória para a nação.

Ele é o líder mais poderoso do partido desde Deng e é filho de um alto funcionário  que serviu Deng, mas mesmo quando ele se envolve no legado de Deng, o senhor Xi fá-lo distinguindo-se dele de uma forma muito importante: Deng incentivou o partido a procurar ajuda e experiência no exterior mas o Sr. Xi defende a autossuficiência e adverte contra as ameaças colocadas por “forças estrangeiras hostis”.

Por outras palavras, ele parece fazer menos uso da ideia de “abertura” que fazia parte da palavra de ordem de Deng.

Dos muitos riscos que o partido assumiu na sua obsessão pelo crescimento, talvez o mais importante fosse deixar entrar o investimento estrangeiro, o comércio e as ideias. Era um jogo excecional por um país que estava tão isolado como está agora a Coreia do Norte, e isso foi pago de uma maneira excecional: a China entrou numa onda de globalização que varreu o mundo e dela emergiu como a fábrica do mundo. A China abraçou a Internet, dentro de limites, e isso ajudou a torná-la líder em tecnologia. E os conselhos estrangeiros terão ajudado a China a remodelar os seus bancos, a construir um sistema jurídico e a criar empresas modernas.

O Partido prefere atualmente uma narrativa diferente, apresentando o forte crescimento económico como “saído de dentro da China” e primeiramente como resultado da sua liderança política. Mas isto esconde uma das grandes ironias da ascensão de China – que foram os antigos inimigos de Pequim que ajudaram a torná-la possível.

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Observação a partir da Torre de Shangai, o Segundo edifício mais alto do mundo: O presidente Xi Jinping não mostrou nenhum sinal de abandonar o que ele chama de “o grande rejuvenescimento da nação chinesa”.

 

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Um Congresso do partido comunista. O Presidente parece acreditar que a China tem sido tão bem sucedida que o partido pode regressar ao seu passado autoritário.

 

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A China entrou numa onda da globalização e dela emergiu como a fábrica do mundo. Cartazes do dia do Trabalhador em Shenzhen.

 

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Um desenhador de roupa numa exposição de vestidos de noiva em Pequim pode ter aproveitado a ocasião para descansar, mas já ninguém considera a China um gigante adormecido.

 

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Instalação de painéis solares num prédio de 47 andares. A China teve êxito ao deixar intacta uma economia planificada e permitir em simultâneo que uma economia de mercado prospere e a ultrapasse.

 

Os Estados Unidos e o Japão, ambos rotineiramente denegridos pelos propagandistas do partido, tornaram-se em principais parceiros comerciais e eram importantes fontes de ajuda, de investimento e de criação de competências. Mas são pessoas como Tony Lin, um dirigente fabril que fez a sua primeira viagem ao continente em 1988, que são os verdadeiros agentes da mudança.

O Sr. Lin nasceu e cresceu em Taiwan, a ilha autónoma para onde aqueles que perderam a guerra civil chinesa fugiram após a revolução comunista. Enquanto aluno foi-lhe ensinado que a China continental era o inimigo.

Mas no final dos anos 1980, a fábrica de sapatilhas que ele geria no centro de Taiwan estava a ter dificuldades em encontrar trabalhadores, e o seu maior cliente, a Nike, sugeriu deslocar alguma produção para a China. O Sr. Lin deixou de lado os seus medos e fez a viagem. O que ele encontrou surpreendeu-o extraordinariamente: uma grande força de trabalho disposta a trabalhar e autoridades tão ansiosas por capital e know-how que lhe ofereceram a utilização gratuita de uma fábrica do Estado e uma redução de cinco anos dos impostos.

O Sr. Lin passou a década seguinte num vaivém para e do Sul da China, passando meses inteiros fora de casa onde voltava apenas por curtas pausas para ver a esposa e os filhos. Ele construiu e dirigiu cinco fábricas de sapatilhas, sendo o maior fornecedor chinês da Nike.

“As políticas da China foram tremendas”, lembrou. “Eles eram como uma esponja absorvendo água, dinheiro, tecnologia, tudo.”

O Sr. Lin era parte de uma corrente de investimento dos enclaves chineses étnicos em Hong Kong, Formosa, Singapura e outros lugares que veio para a China e que levou este país a ultrapassar outros países em vias de desenvolvimento. Sem esta diáspora, argumentam alguns economistas, a transformação do continente podia ter ficado ao nível de um país como a Indonésia ou o México.

Tinha chegado o momento para a China que se abriu ao mundo numa altura em que a Formosa estava a aumentar a sua importância na corrente global da indústria transformadora. A China beneficiou do dinheiro da Formosa, mas igualmente da sua experiência em gestão, em tecnologia e em relações dentro da cadeia global de produção. Na verdade, Taiwan relançou o capitalismo na China e colocou este país no centro da economia global.

Pouco tempo depois, o governo em Formosa começou a preocupar-se de se estar a confiar muito no seu antigo inimigo e tentou mudar o investimento para outras regiões. Mas o continente era muito barato, demasiado perto e, com uma língua e uma herança comuns, era pois muito familiar. O Sr. Lin tentou abrir fábricas na Tailândia, Vietname e Indonésia, mas regressou sempre à China.

Agora Taiwan encontra-se cada vez mais dependente de uma China muito mais poderosa, que está a forçá-la cada vez mais para a unificação e o futuro da ilha é incerto.

Há ecos da situação da Formosa por todo o mundo, onde muitas pessoas estão a ter dúvidas sobre a forma como se ligaram a Pequim com o comércio e investimento.

O remorso pode ser mais forte nos Estados Unidos, que trouxe a China para a Organização Mundial do Comércio, que se tornou o maior cliente da China e agora acusa-a de roubo de tecnologia em grande escala -o que uma autoridade americana chama de “a maior transferência de riqueza na história.”

Muitos em Washington previram que o comércio traria uma mudança política. Foi assim, mas não na China. “A abertura” acabou por fortalecer o poder do Partido em vez de enfraquecê-lo. O choque da ascensão da China como um colosso exportador foi, entretanto, sentido nas cidades fabris em todo o mundo.

Nos Estados Unidos, os economistas dizem que pelo menos 2 milhões de empregos desapareceram como consequência, muitos deles nos distritos que acabaram por votar no Presidente Trump.

Repressão seletiva

Durante o almoço num luxuoso clube privado no 50 º andar de uma torre de apartamentos no centro de Pequim, um dos magnatas mais bem sucedidos da China no imobiliário explicou porque razão é que tinha deixado o seu trabalho num centro de investigação governamental após a repressão sobre o movimento democrático estudantil na Praça Tiananmen.

“Foi muito fácil”, disse Feng Lun, o Presidente da Vantone Holdings, que gere um portfólio multibilionário de propriedades em todo o mundo. “Um dia, acordei e todos tinham fugido. Então eu fugi, também.”

Até ao momento em que os soldados abriram fogo, disse ele, tinha planeado passar toda a sua carreira na função pública. Em vez disso, como o partido estava a expulsar aqueles que tinham simpatizado com os estudantes, então juntou-se ao êxodo de funcionários que recomeçaram as suas vidas como empresários na década de 1990.

“Na época, se alguém participasse numa reunião e nos dissessem para ir para o setor privado, não teríamos ido”, lembrou ele. “Então, este incidente, não intencionalmente, terá contribuído para colocar sementes na economia de mercado.”

Este tem sido o modelo da mudança para o sucesso do partido.

O movimento pró-democracia em 1989 foi o mais perto que o partido esteve da liberalização política depois da morte de Mao, e a repressão que se lhe seguiu foi mais longe noutra direção, para a repressão e o controlo. Após o massacre, a economia estagnou e a contenção parecia ser um dado. No entanto, três anos mais tarde, Deng aproveitou uma viagem pelo Sul da China para levar o partido de volta para “a reforma e a abertura”, uma vez mais.

Muitos dos que tinham deixado o governo, como o Sr. Feng, de repente, encontraram-se à frente do movimento que estava a transformar a China, por fora da função pública, como a sua primeira geração de empresários privados.

Agora o Presidente Xi está novamente a dirigir o partido para a repressão, aumentando o seu poder sobre a sociedade, concentrando o poder nas suas próprias mãos e preparando-se para governar para a vida, abolindo o limite do mandato presidencial. Será que o partido se irá flexibilizar novamente, como fez alguns anos depois de Tiananmen, ou trata-se agora de uma viragem mais duradoura? Se for este o caso, que consequências trará para o milagre económico chinês?

O receio é que o Presidente Xi esteja a tentar reescrever a receita por trás da ascensão da China, substituindo a repressão seletiva por algo mais severo.

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Durante décadas, a China oscilou entre a abertura e a repressão, incluindo a da minoria étnica Uighur.

 

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Desde o movimento Tiananmen, o governo tem sido vigilante no esmagamento de ameaças potenciais. Câmaras de vigilância em Pequim.

 

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A rede de comboios de alta velocidade da China, a maior do mundo, mudou a forma como os chineses se deslocam. Em Hangzhou, os passageiros à espera fora da estação de caminhos-de-ferro.

 

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Com a abertura da China, os agricultores foram autorizados a cultivar e vender as suas próprias culturas, enquanto o Estado mantém a posse da terra. Estufas cheias de couves chinesas e de repolhos amarelos junto a propriedades de investimento e de campos de golfe.

 

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Sob o regime de Mao, muitos chineses de alta formação foram enviados para “as escolas de quadros” onde fizeram trabalhos manuais. Em maio, os empregados da agência imobiliária foram correr numa manhã como exercício de coesão de equipa da empresa.

 

O Partido sempre foi vigilante no esmagamento de ameaças potenciais – um partido da oposição incipiente, um movimento espiritual popular, mesmo um escritor dissidente premiado com o prémio Nobel da Paz. Mas com algumas grandes exceções, o Partido também geralmente não interferia na vida pessoal das pessoas e dava-lhes liberdade suficiente para manter a economia a crescer.

A Internet é um exemplo de como a economia beneficiou ao procurar uma posição de equilíbrio. O partido deixou que a nação se ligasse à Internet sem uma ideia clara do que isso poderia significar, a seguir colheu os benefícios económicos ao controlar a difusão da informação que o poderia prejudicar.

Em 2011, confrontou-se com uma crise. Depois de um acidente de comboio de alta velocidade no leste da China, mais de 30 milhões de mensagens criticaram a manipulação do partido sobre o acidente fatal inundando os media sociais -mais rapidamente do que censores as poderiam conter.

As autoridades em pânico consideraram a hipótese de encerrar o serviço mais popular, Weibo, o equivalente chinês do Twitter, mas as autoridades estavam com medo de como é que o público iria responder. No final, eles deixaram a Weibo ficar aberta, mas investiu muito mais em apertar os controlos e ordenaram que as empresas fizessem o mesmo.

O compromisso funcionou. Agora, muitas companhias atribuem centenas de empregados a tarefas de censura – e a China transformou-se num gigante na paisagem global do Internet.

“O custo da censura é bastante limitado em comparação com o grande valor criado pela Internet”, disse Chen Tong, um pioneiro da indústria. “Ainda assim, continuamos a ter a informação que precisamos para o progresso económico.”

Uma ‘Nova Era’

China não é o único país a ter conciliado as exigências de um regime autoritário com as necessidades do mercado livre. Mas tem-no feito por mais tempo, em maior escala e com resultados mais convincentes do que qualquer outro.

A questão agora é se a China consegue manter este modelo com os Estados Unidos como adversário e não como parceiro.

A guerra comercial ainda só começou. E não é apenas uma guerra comercial. Os navios de guerra e os aviões americanos desafiam cada vez mais frequentemente as exigências chinesas relativamente às águas disputadas, ao mesmo tempo que a China aumenta as suas despesas militares. E Washington está a manobrar para contrariar a crescente influência de Pequim em todo o mundo, avisando que um frenesim de despesa chinesa na infraestrutura global está cheia de condições subjacentes.

As duas nações ainda podem chegar a algum compromisso.  Mas tanto a esquerda como a direita americana retrataram a China como o campeão de uma ordem global alternativa, uma ordem que abraça valores autocráticos e mina a concorrência equitativa. É um consenso raro para os Estados Unidos, que está profundamente dividido sobre tantos outros temas, incluindo a forma como tem exercido o poder no exterior nas últimas décadas-e como é que o deve agora fazer.

O Presidente Xi, por outro lado, não demonstrou nenhum sinal de abandonar o que ele chama de “o grande rejuvenescimento da nação chinesa.” Outros chineses estão impacientes por enfrentar os Estados Unidos desde a crise financeira de 2008 e veem as políticas da Administração Trump como a prova do que sempre suspeitaram – que a América está determinada a manter a China na mó de baixo.

Ao mesmo tempo, há também uma inquietação generalizada sobre a nova acrimónia, porque os Estados Unidos há muito que inspiraram admiração e inveja na China., e porque se tem o sentimento de que a fórmula do partido para o sucesso pode vacilar.

A prosperidade trouxe expectativas crescentes na China; as pessoas querem mais do que apenas o crescimento económico. Querem ar mais limpo, alimentos e medicamentos mais seguros, melhores cuidados de saúde e escolas, menos corrupção e maior igualdade. O partido está a ter dificuldade em responder a estes anseios e os ajustamentos aos boletins que utiliza para medir o desempenho dos funcionários não parecem ser suficientes.

“O problema básico é, crescimento económico para quem?”, disse o Sr. Xu, o funcionário aposentado que escreveu o relatório Moganshan. “Nós não resolvemos este problema.”

O crescimento começou a abrandar, o que pode ser melhor para a economia a longo prazo, mas pode abalar a confiança das pessoas. O partido está a investir cada vez mais na censura para controlar a discussão dos desafios que a nação enfrenta: o alargamento das desigualdades, perigosos níveis de dívida, uma população a envelhecer.

O próprio Presidente Xi reconheceu que o partido deve-se adaptar, declarando que a nação está a entrar numa “nova era” exigindo novos métodos. Mas a sua prescrição é em grande parte um regresso à repressão, incluindo vastos campos de internamento visando minorias étnicas muçulmanas. “A abertura” foi substituída por um avanço para o exterior, com enormes créditos que os críticos descrevem como predatórios e outros esforços para ganhar influência – ou interferirem – na política de outros países. Internamente, a experimentação está fora de moda enquanto a ortodoxia e a disciplina políticas estão na ordem do dia.

Na verdade, o Presidente Xi parece acreditar que a China tem sido tão bem sucedida que o partido pode voltar a uma postura mais convencionalmente autoritária – e que esta é necessária para sobreviver e ultrapassar os Estados Unidos.

Certamente, esta linha política tem o apoio do partido. Ao longo das últimas quatro décadas, o crescimento económico na China tem sido 10 vezes mais rápido do que nos Estados Unidos, e ainda é mais do que duas vezes mais rápido. O partido parece desfrutar de amplo apoio público, e muita gente à escala mundial está convencida de que o Presidente Trump e a América estão em retirada, enquanto o momento da China está apenas a começar.

Então, de novo, a China tem uma maneira de desafiar as expectativas.

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O autor: Philip P. Pan, licenciado pela Universidade de Harvard, vive em Hong-Kong, é editor do Ásia New York Times e autor de “Out of Mao’s Shadow: The Struggle for the Soul of a New China.” Viveu e fez reportagem sobre as China durante quase duas décadas. Anteriormente, foi correspondente do Washington Post para a China e a Rússia durante mais de uma década.

Jonathan Ansfield e Keith Bradsher contribuiram para este texto com relatos desde Pequim. Claire Fu, Zoe Mou e Iris Zhao deram contributos de investigação desde Pequim, e Carolyn Zhang desde Xangai.

Desenho: Matt Ruby, Rumsey Taylor, Quoctrung Bui. Edição: Tess Felder, Eric Nagourney, David Schmidt. Edição de fotografia: Craig Allen, Meghan Petersen, Mikko Takkunen. Ilustrações: Sergio Peçanha

 

 

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