CARTA DE BRAGA – “Tales de Mileto” por António Oliveira

Li algures uma estória bem curiosa sobre Tales de Mileto, que viveu na Grécia antiga entre 640 e 550 A.C., um homem culto, dividindo a vida entre a filosofia, a matemática e a astronomia.

Não tenho presentes as palavras exactas da estória tal como a li; aqui deixo apenas um resumo, por não querer alterar nem o sentido nem a ‘ironia’ que percebi na estória.

Era mais ou menos isto ‘Tales, passeando alheado e distraído a contemplar a magnitude do céu, caiu num poço. A reacção terá sido a de exclamar, «agora sei o que se sente, sendo deus»’

Referia o autor da estória, que o azarado filósofo até acabou por ser considerado ‘o primeiro pensador pirado da história

Mas acrescentava ainda que tal consideração não teria a carga atribuída a um qualquer Mad Doctor de novela negra, mas reflectir apenas um respeito afectuoso, até por o filósofo não ter referido nem um só dos muitos deuses de onde poderia ter escolhido!

Não sei se a estória será verdadeira, mas não tenho dúvida que ‘se non è vero è ben trovato’ diria um qualquer italiano, por não ter à mão um dito semelhante, mas em grego.

Apetece-me as vezes referir cenas do quotidiano, mesmo antigas como esta, por permitir um tratamento mais próximo e prazenteiro de eventuais leitores

Uma maneira também de me libertar dos dados digitais e dos algoritmos, o binómio de controlo que parece regimentar toda a actividade humana e, por muito que cada um possa fazer, vai acabar também por cair num poço qualquer, como o ‘herói’ desta Carta, o filósofo Tales de Mileto.

Na verdade, o mundo está hoje a evoluir, cavalgando uma evolução digital a arrastar inevitavelmente, uma nova experiência para o homem e para o poder.

Mas um ‘poder’ a ser visto como uma entidade abstracta, talvez pós-humana, baseada na fibra óptica e no silício (penso só nestes!), apenas a interiorização da técnica, já parte fundamental da ideia do humano.

Mas esse poder ordenador e igualizador assusta, por impor, de forma opressiva, uniformidade na interpretação do quotidiano e da realidade, uma uniformidade totalmente incompatível com o pluralismo, por muitos likes que tenha.

O realizador Mike Leigh afirmou recentemente (11.05) ‘É uma tragédia o desdém e o cinismo com que se olha hoje a cultura e a educação! Há que reexaminar o conceito de democracia!

E continua, mordaz ‘A imprensa faz parte dessa selva de ideias e, obviamente, a pergunta a fazer hoje é, quem é o dono dos periódicos?

Um problema com dezenas de anos pois, já em 1944 e vendo a sobrevalorização do ecrã, Adorno e Horkheimer garantiam ‘a fusão da cultura e do entretenimento não se realiza apenas como depravação da cultura, mas igualmente como espiritualização forçada da diversão, em que a fé se torna tão subtil, que perde de vista todo o objectivo e se reduz apenas ao fundo dourado projectado por trás da realidade

Parece ter sido (e continuar a ser!) o meio mais eficaz e rápido para a normalização das atitudes do ser humano, a ver pelas ‘tribos dos cabeças baixas’ enganchados nos phones, com ou sem auscultadores, com que nos cruzamos em qualquer lugar onde se vá, da rua ao restaurante.

Há mais de vinte anos, Jacques Derrida chamou a tudo isto tudo ‘A expropriação tecnológica da herança’ porque, afirmou-o depois Eduardo Galeano ‘Cada pessoa brilha com luz própria entre as outras. Não há dois fogos iguais entre todos os outros. Há fogos grandes e pequenos, há fogos de todas as cores’

No fundo, só está em causa a noção de ser humano e, mais uma vez, considerando o tal poço onde parece já terem caído os ‘cabeças baixas’, não devo esquecer ‘A esperança é o único bem comum a todos os homens; ainda a possuem mesmo aqueles que nada mais têm’, também deixou escrito Tales de Mileto!

Nem telemóvel!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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