A ITÁLIA NA ENCRUZILHADA – VI – por ANNA ROSA SCRITTORI

 

Nestes últimos tempos a opinião pública italiana está a viver momentos de grande tensão, sobretudo por causa do complexo tema da emigração, sobre o qual Salvini fundou a sua fortuna eleitoral, até nas recentes eleições europeias, apresentando-a como um perigo para a segurança e a integridade da nação.

No passado dia 12 de Junho o navio “Sea Watch 3”, propriedade de uma ONG alemã, navegando sob bandeira holandesa, depois de ter salvo 52 náufragos em águas líbicas, dirigiu-se para o porto de Lampedusa como lugar mais seguro para desembarcar os 42 refugiados que estavam a bordo. Matteo Salvini negou-lhe imediatamente o acesso, declarando o encerramento do porto, que não reabriu nem sequer quando, depois de lentíssimas negociações com a Europa, alguns países voluntariosos (entre os quais Portugal) se declararam disponíveis para acolher os emigrantes. A comandante Carola Rackete decidiu então entrar no porto, forçando o bloqueio e chocando, na manobra, contra uma motovedeta da Guarda Fiscal, que queria impedir o desembarque. Deve notar-se que, durante os 17 dias em que o navio, à espera de licença para desembarcar, vagueou pelo Mediterrâneo com a carga de pessoas expostas a uma temperatura de 40 graus, dezenas de barquinhos-“fantasmas” provenientes da Tunísia, com poucos emigrantes a bordo, chegaram livremente às praias de Lampedusa e os mesmos foram acolhidos na geral indiferença das autoridades.

Carola, pelo contrário, apenas desembarcada na noite de 29 de Junho, foi logo presa com diversas acusações: instigação à emigração clandestina, ataque a navio de guerra, etc.

Os comentários

Logo que pôs os pés no cais de Lampedusa, Carola foi objecto de violências verbais inenarráveis. A este propósito escreve o comentador de “Avvenire”, jornal da Conferência Episcopal Italiana: «Quando o contraste político se torna invectiva sexista…é necessário dizer que a vergonha não diz respeito só aos gestos que se têm em público, mas refere-se também às palavras… Aqueles Italianos que em Lampedusa disseram aquelas coisas envergonham-me e fazem-me ter vontade de pedir desculpa, como italiano, à comandante do Sea Watch».

A comandante violou a lei do Estado e merece uma punição exemplar (de 3 a 10 anos de prisão) – dizem os seus muitos detractores; Carola violou a lei – contrapõem os seus defensores – mas fê-lo obedecendo a leis internacionais (salvar vidas humanas em perigo) que prevalecem sobre a legislação nacional. Carola, em conclusão, cumpriu um acto de desobediência civil, que, segundo o colunista do jornal“Foglio” , é «uma prática séria que impõe ao desobediente rigor e sentido de responsabilidade»,… uma prática que «tem um passado nobre (batalhas, falências, vitórias) de Antígona a Rosa Parks até Gandhi, um culto grupo intelectual capaz de fornecer à prática um modelo teórico de grande força».

Trata-se talvez das mesmas considerações que induziram a juíza do inquérito preliminar, de Palermo, a conceder a Carola a liberdade à espera da sentença do tribunal competente. Para além das intervenções vulgares e meramente propagandistas do Ministro do Interior, que acusou a juíza palermitana de ter posto em liberdade uma criminosa por razões puramente políticas, a situação está a tornar-se muito difícil; de facto, outros navios, com a sua carga de desesperados salvos do inferno líbico, pedem para atracar em Lampedusa, travando um “braço de ferro” com Salvini, que não os quer aceitar.

Chegados aqui, uma pergunta se coloca: porque é que a Europa não consegue impor a TODOS OS ESTADOS MEMBROS uma revisão funcional do tratado de Dublin, gerindo assim a emigração, fenómeno epocal não transitório, com uma acção política partilhada, capaz de conjugar solidariedade e segurança? No actual panorama geo-político, a relação correcta com a África é, para a nova Europa, uma aposta para o futuro.

(tradução de Manuel Simões)

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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