Ainda sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos – “O Livro Branco da China sobre as Conversações Económicas e Comerciais com os EUA” (1ª parte)

Tensão Import Export

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

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Acabámos de editar uma pequena série de textos sob o tema Sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos. Em sequência publicámos dois textos de Michael Pettis – “Porque é que a dívida dos Estados Unidos vai continuar a aumentar” e “Os Estados Unidos devem ter um excedente comercial?” – nos quais este especialista em macroeconomia analisa aprofundadamente o problema do desequilíbrio comercial dos EUA, e vem colocar o problema em termos muito, ou mesmo radicalmente diferentes daqueles que nos são apresentados pelos economistas do mainstream e pelos meios de comunicação dominantes.

Pensamos que todos aqueles que percorrem o caminho estabelecido pela Viagem dos Argonautas terão ficado esclarecidos sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos. Porém, haverá alguns, não muitos creio, que terão ficado com dúvidas ou permanecido mesmo renitentes em aceitar os múltiplos argumentos que foram levantados. Mas a realidade é teimosa e força sempre em abrir o caminho da realidade para quem ainda tenha dúvidas, para quem ainda não viu esse caminho.

Neste sentido, publicamos dois textos diretamente ligados ao tema, um de Martin Wolf, do Financial Times, e o outro, o Livro Branco publicado pelo governo chinês, onde se traça o que têm sido estes longos meses de tensões e de negociações entre a China e os Estados Unidos, meses tanto mais difíceis quanto a politica de negociação da Administração americana parece ser : “o que o nosso poder pode impor é o que está certo”. A estes dois textos adicionamos dois outros, mas sobre Hong Kong, uma vez que esta antiga colónia inglesa acaba agora de se transformar em mais um foco de tensão entre a China e os Estados Unidos. Sobre Hong Kong, apresento-vos um texto de Ambrose Evans-Pritchard, publicado por The Telegraph, intitulado Washington pode pôr um fim ao modelo económico de Hong Kong a qualquer momento, E um segundo texto de Laurent Schiaparelli, editado por Thé D’Orient e publicado por Antipress, nº 188 de 7 de Julho de 2019, intitulado Hong Kong: uma revolução em papel… colorido!

Os leitores que ficaram esclarecidos com os textos anteriormente publicados na série Sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos verão com estes quatro textos confirmadas as suas certezas e os segundos, os que até aqui ficaram renitentes, esperamos que venham a ver dissipadas as suas incertezas.

JM

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In Full: China’s White Paper on U.S. Economic and Trade Talks, Publicado por bloombergNews em 3 de junho de 2019 (ver aqui)

[Nota de editor: dada a sua extensão, o texto é publicado em duas partes. A primeira parte constituída pelo Prefácio e título I. As tensões económicas e comerciais provocadas pelos EUA prejudicam os interesses de ambos os países e do resto do mundo. A segunda parte que é constituída pelos título II. Os EUA recuaram no cumprimento dos seus compromissos no âmbito das consultas económicas e comerciais entre a China e os EUA e título III. A China está empenhada em realizar consultas credíveis baseadas na igualdade e no benefício mútuos e pela Conclusão.]

Ainda China EUA 2 O livro branco China EUA 1

No domingo, 2 de junho, a China lançou um livro branco do governo de mais de 5.000 palavras sobre as suas negociações comerciais com os E.U. e o Vice-Ministro do Comércio Wang Shouwen deu uma conferência de imprensa para discutir o assunto naquele dia. O que se segue é uma tradução inglesa do Livro Branco.

Posição da China sobre as consultas económicas e comerciais entre a China e os EUA (Junho 2019)

Gabinete de Informação do Conselho de Estado da República Popular da China

ÍNDICE

Prefácio
I. As tensões económicas e comerciais provocadas pelos EUA prejudicam os interesses de ambos os países e do resto do mundo
Caixa 1: A inovação tecnológica da China baseia-se na autossuficiência. Acusar a China de roubo de propriedade intelectual e transferência forçada de tecnologia é totalmente infundado
Caixa 2: As economias chinesa e americana estão interligadas e o comércio bilateral e o investimento são mutuamente benéficos para a China
(I) As medidas pautais impostas pelos EUA prejudicam os outros e não trazem vantagens para os Estados Unidos
(II) A guerra comercial não “tornou a América grande, novamente”
(III) A intimidação comercial criada pelos EUA prejudica o mundo
II. Os EUA recuaram no cumprimento dos seus compromissos no âmbito das consultas económicas e comerciais entre a China e os EUA.
(I) O primeiro recuo dos EUA nas negociações
(II) O segundo recuo dos EUA nas negociações
(III) O terceiro recuo dos EUA nas negociações
(IV) O Governo dos EUA deve assumir a responsabilidade única e total por este grave revés para as consultas económicas e comerciais entre os EUA e a China
III. A China está empenhada em realizar consultas credíveis baseadas na igualdade e no benefício mútuos
(I) As consultas devem basear-se no respeito mútuo, na igualdade e no benefício mútuo
(II) A consulta envolve trabalhar para o mesmo objetivo em boa fé
(III) A China não cederá em questões de princípio
(IV) Nenhum desafio travará o desenvolvimento da China
Conclusão
Notas

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Prefácio

A relação comercial China-EUA funciona como lastro e como hélice da relação bilateral total. Estão em jogo os interesses fundamentais dos dois povos e a prosperidade e estabilidade do mundo. Desde o estabelecimento de relações diplomáticas entre a China e os EUA, o comércio bilateral e as relações económicas evoluíram muito, tendo-se expandido os domínios de cooperação a níveis mais elevados. Forjou-se uma relação de ganhos e benefícios mútuos com forte complementaridade e interesses interligados, beneficiando não só os dois países, mas também o mundo inteiro.

Dadas as diferenças de estádio de desenvolvimento e de sistema económico, é inevitável que os dois países experimentem diferenças e fricções na sua cooperação comercial. A história das relações comerciais e económicas China-EUA conheceu reviravoltas e situações difíceis. Ao adotarem uma atitude racional e cooperativa, os dois países conseguiram resolver conflitos anteriores, ultrapassar divergências e amadurecer as relações comerciais bilaterais através do diálogo e da consulta.

Desde que tomou posse em 2017, a nova administração dos EUA tem ameaçado com tarifas adicionais e outras medidas e provocado frequentes atritos económicos e comerciais com os seus principais parceiros comerciais. Em resposta à tensão a nível económico e comercial iniciada unilateralmente pelos EUA desde março de 2018, a China teve que tomar medidas enérgicas para defender os interesses da nação e do seu povo. Ao mesmo tempo, comprometida com a resolução de disputas através do diálogo e da consulta, a China realizou múltiplas rondas de consultas económicas e comerciais com os EUA num esforço para estabilizar a relação comercial bilateral. A posição da China tem sido consistente e clara – que a cooperação serve os interesses dos dois países, que o conflito só pode prejudicar ambos e que a cooperação é a única escolha correta para ambos os lados. Quanto às suas diferenças e fricções na frente económica e comercial, a China está disposta a trabalhar em conjunto com os EUA para encontrar soluções e alcançar um acordo mutuamente benéfico e vantajoso para ambas as partes. No entanto, a cooperação tem de assentar em princípios. Existem linhas limites nas negociações. A China não transigirá em questões de princípio importantes. A China não quer uma guerra comercial, mas não tem medo dela e, se necessário, irá combatê-la. A posição da China nesta matéria nunca mudou.

A fim de proporcionar uma visão global das negociações económicas e comerciais entre a China e os EUA e apresentar a posição política da China sobre essas negociações, o Governo chinês publica o presente Livro Branco.


I. As tensões económicas e comerciais provocadas pelos EUA prejudicam os interesses de ambos os países e do resto do mundo

Com o slogan de Trump “America First”, a atual administração dos EUA adotou uma série de medidas unilaterais e protecionistas, empunhou regularmente as tarifas como um “grande bastão” e coagiu outros países a aceitarem as suas exigências.

Os EUA iniciaram investigações frequentes ao abrigo das há muito não utilizadas Seções 201 e 232 contra os seus principais parceiros comerciais, causando perturbações no cenário económico e comercial global. Visando especificamente a China, em agosto de 2017 lançou uma investigação unilateral ao abrigo da Secção 301. Fechando os olhos aos esforços incessantes da China e ao notável progresso na proteção da propriedade intelectual e na melhoria do ambiente de negócios para investidores estrangeiros, os EUA emitiram uma miríade de observações tendenciosas e negativas, e impuseram tarifas adicionais e restrições de investimento à China, provocando tensões económicas e comerciais entre os dois países.

Caixa 1: A inovação tecnológica da China baseia-se na autossuficiência. Acusar a China de roubo de propriedade intelectual e transferência forçada de tecnologia é totalmente infundado.

A China é uma nação inovadora e diligente. Criou uma civilização altamente sofisticada e contribuiu significativamente para o progresso humano ao longo de 5.000 anos. Desde a fundação da República Popular da China em 1949, e em particular desde o início da reforma e abertura em 1978, os empreendimentos científicos e tecnológicos da China passaram por uma série de fases. Começaram por um início difícil, avançaram ao longo da evolução da reforma e agora alcançaram vários avanços com a criação de uma variedade de inovações. Estas realizações ganharam reconhecimento mundial. Os registos históricos confirmam que as realizações da China em matéria de inovação científica e tecnológica não são algo que tenhamos roubado ou tirado à força a terceiros; foram conquistadas através da autoconfiança e do trabalho árduo. Acusar a China de roubar propriedade intelectual para apoiar o seu próprio desenvolvimento é uma argumentação sem fundamento.

A China está totalmente empenhada na proteção da propriedade intelectual. Estabeleceu um sistema jurídico para a proteção da propriedade intelectual que é coerente com as regras internacionais em vigor e adaptado às condições internas da China. A China valoriza o papel de liderança das medidas judiciais na proteção da propriedade intelectual e obteve resultados impressionantes. A compreensão da importância da propriedade intelectual entre o público em geral e a comunidade empresarial na China aumentou, o valor dos royalties pagos aos detentores de direitos estrangeiros cresceu de modo significativo e o número de pedidos e registos de propriedade intelectual aumentou fortemente.

O impacto efetivo da proteção à propriedade intelectual da China ganhou amplo reconhecimento internacional. O ex-diretor geral da OMPI, Arpad Bogsch, elogiou a estrutura jurídica chinesa para proteção à propriedade intelectual, observando que as realizações da China são “inigualáveis na história da proteção à propriedade intelectual”. A Câmara de Comércio dos EUA reconheceu que a China está a fazer progressos concretos na criação de um ambiente de propriedade intelectual adequado ao século 21 [1]. No seu relatório sobre o inquérito China Business Climate de 2018, a Câmara Americana de Comércio na China observou que, entre os principais desafios enfrentados pelas suas empresas associadas que operam na China, a preocupação com a propriedade intelectual caiu do 5º lugar em 2011 para o 12º lugar em 2018. Um artigo no The Diplomat previu que a China se tornará líder em propriedade intelectual global. Muitas das preocupações levantadas pelas empresas estrangeiras que fazem negócios na China já foram abordadas por meio da reforma judicial e de um mecanismo de aplicação reforçado.

Respeitando as leis da economia de mercado, a China tem vindo a melhorar ativamente o sistema político para a inovação, aumentando continuamente o investimento em investigação e desenvolvimento, acelerando o desenvolvimento de inovadores e reforçando a cooperação internacional em matéria de inovação tecnológica de forma generalizada.

Em termos de alguns dos principais índices de inovação, a China já se encontra entre os principais atores mundiais. Como a China continua a testemunhar uma série de grandes conquistas científicas e tecnológicas, as suas indústrias estão a gravitar em direção à parte média e alta, e a influência internacional do país está a aumentar acentuadamente. Em 2017, o investimento total em R&D na China atingiu RMB 1,76 milhões de milhões, ficando em segundo lugar no mundo. O número de pedidos de patentes atingiu 1,382 milhões, ocupando o primeiro lugar no ranking mundial pelo sétimo ano consecutivo. O número de patentes de invenção concedidas atingiu 327.000, um aumento de 8,2% ano a ano. A China ocupa o terceiro lugar no mundo em termos de patentes de invenção válidas detidas [2].

A China sempre procurou a cooperação técnica internacional num espírito de benefício mútuo e tendo como orientação básica a criação de valor. O desenvolvimento económico da China beneficiou da transferência e divulgação internacional de tecnologia. Os países detentores de tecnologia também colheram enormes benefícios deste processo. A China incentiva e respeita a cooperação técnica voluntária entre empresas chinesas e estrangeiras baseada nos princípios do mercado. Opõe-se firmemente à transferência forçada de tecnologia e toma medidas firmes contra a violação da propriedade intelectual. As acusações contra a China de transferência forçada de tecnologia são infundadas e insustentáveis.

Fechando os olhos sobre a natureza da estrutura económica e do estágio de desenvolvimento da China e dos EUA, bem como a realidade da divisão industrial internacional do trabalho, os EUA insistem que as políticas comerciais “injustas” e não recíprocas da China criaram um défice comercial nas trocas comerciais bilaterais que constitui “uma vantagem de que a China se aproveita”, levando à imposição unilateral de tarifas adicionais à China. De facto, no mundo globalizado de hoje, as economias chinesa e americana são altamente integradas e, juntas, constituem toda uma cadeia industrial. As duas economias estão ligadas por uma união que é mutuamente benéfica e ganhadora para ambos, por natureza. Equacionar um défice comercial para ganhar uma vantagem é um erro. As medidas restritivas que os EUA impuseram à China não são boas para a China nem para os EUA, e ainda são piores para o resto do mundo.

Caixa 2: As economias chinesa e americana estão interligadas e o comércio bilateral e o investimento são mutuamente benéficos para a China.

A China e os EUA são o maior parceiro comercial um do outro e uma importante fonte de investimento. Em 2018, o comércio bilateral de bens e serviços ultrapassou os 750 mil milhões de dólares e o investimento direto bidirecional aproximou-se dos 160 mil milhões de dólares. A cooperação comercial entre a China e os EUA trouxe benefícios substanciais a ambos os países e a ambos os povos.

De acordo com a Alfândega Chinesa, o comércio de mercadorias entre a China e os EUA cresceu de menos de US$ 2,5 mil milhões em 1979, quando os dois países forjaram laços diplomáticos, para US$ 633,5 mil milhões em 2018, um aumento de 252 vezes. Em 2018, os EUA eram o maior parceiro comercial e o principal mercado de exportação da China e a sexta maior fonte de importações. Segundo o Departamento de Comércio dos EUA, em 2018 a China era o maior parceiro comercial dos EUA, o seu terceiro maior mercado de exportação e a sua maior fonte de importações. A China é o principal mercado das exportações americanas em termos de aviões, soja, automóveis, circuitos integrados e algodão americano. Durante os dez anos de 2009 a 2018, a China foi um dos mercados de exportação de bens americanos com maior crescimento, com um aumento médio anual de 6,3 por cento e um crescimento agregado de 73,2 por cento, superior ao crescimento médio de 56,9 por cento representado por outras regiões do mundo [3].

O comércio de serviços entre a China e os EUA é florescente e altamente complementar. Os dois países desenvolveram uma cooperação ampla, aprofundada e mutuamente benéfica nos domínios do turismo, da cultura e da propriedade intelectual. A China é o maior destino para os turistas dos EUA no Pacífico Asiático e os EUA é o maior destino no exterior para estudantes chineses. De acordo com dados chineses, o comércio de serviços de duas vias aumentou de US$ 27,4 mil milhões em 2006, o primeiro ano com estatísticas disponíveis, para US$ 125,3 mil milhões em 2018, um aumento de 3,6 vezes. Em 2018, o défice comercial de serviços da China com os EUA atingiu 48,5 mil milhões de dólares.

Nos últimos quarenta anos, o investimento bidirecional entre a China e os EUA cresceu de quase zero para cerca de 160 mil milhões de dólares, e esta cooperação tem-se revelado frutuosa. De acordo com o MOFCOM, no final de 2018, o investimento direto acumulado dos negócios chineses nos EUA ultrapassou os 73,17 mil milhões de dólares. O rápido crescimento do investimento empresarial chinês nos EUA tem contribuído para o crescimento económico local, criação de emprego e receitas fiscais. De acordo com o MOFCOM, o investimento dos EUA na China foi de 85,19 mil milhões de dólares no final de 2018. Em 2017, a receita total anual de vendas das empresas americanas que investiram na China foi de US$ 700 mil milhões, com lucros superiores a US$ 50 mil milhões.

Portanto, se o comércio de bens e serviços e o investimento de duas vias forem levados em conta, as relações comerciais e económicas entre a China e os EUA são mutuamente benéficas, em vez “de se aproveitarem dos EUA”.

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(I) As medidas pautais impostas pelos EUA prejudicam os outros e não trazem vantagens para os Estados Unidos

A administração dos EUA impôs direitos aduaneiros adicionais aos produtos chineses exportados para os EUA, impedindo a cooperação comercial e de investimento bidirecional e minando a confiança no mercado e a estabilidade económica nos dois países e a nível mundial. As medidas tarifárias dos EUA levaram a uma queda no volume de exportações da China para os EUA, que caiu 9,7% em termos anuais nos primeiros quatro meses de 2019 [4], caindo por cinco meses consecutivos. Além disso, como a China impôs tarifas como contramedida ao aumento das tarifas dos EUA, as exportações dos EUA para a China caíram por oito meses consecutivos [5]. A incerteza trazida pela tensão económica e comercial entre a China e os s EUA tornou as empresas de ambos os países mais hesitantes em investir. O investimento da China nos EUA continua a cair e a taxa de crescimento do investimento dos EUA na China também desacelerou. De acordo com as estatísticas chinesas, o investimento direto das empresas chinesas nos EUA foi de 5,79 mil milhões de dólares em 2018, uma descida de 10% face ao ano anterior [6]. Em 2018, o investimento dos EUA na China foi de 2,69 mil milhões de dólares [7], um aumento de apenas 1,5 por cento face a um aumento de 11 por cento em 2017. [8]

(II) A guerra comercial não “tornou a América grande, novamente”

As medidas tarifárias não impulsionaram o crescimento da economia americana. Em vez disso, prejudicaram gravemente a economia dos EUA.

Em primeiro lugar, as medidas pautais aumentaram significativamente os custos de produção das empresas norte-americanas. Os setores manufatureiros da China e dos EUA são altamente dependentes um do outro. Muitos fabricantes americanos dependem das matérias-primas e bens intermediários da China. Como é difícil para eles encontrar bons fornecedores alternativos a curto prazo, terão de suportar os custos dos aumentos tarifários.

Em segundo lugar, as medidas tarifárias conduzem a aumentos dos preços internos nos EUA. A importação de bens de consumo produzidos na China com uma muito boa relação qualidade preço é um fator chave por trás da baixa inflação de longo prazo nos EUA. Após as tarifas adicionais terem sido impostas, o preço de venda final dos produtos chineses aumentou, levando os consumidores americanos efetivamente a suportarem alguns custos tarifários. De acordo com uma pesquisa da Federação Nacional de Retalhistas dos EUA, as tarifas adicionais de 25 por cento apenas em móveis custarão ao consumidor americano um adicional de 4,6 mil milhões de dólares por ano [9].

Em terceiro lugar, as medidas pautais têm um impacto no crescimento económico dos EUA e nos meios de subsistência das populações. Um relatório conjunto da Câmara de Comércio dos EUA e do Grupo Rhodium em março de 2019 mostrou que, sob o impacto da tensão económica e comercial entre os EUA e a China, o PIB dos EUA em 2019 e nos próximos quatro anos poderia diminuir em US$ 64,91 mil milhões por ano, cerca de 0,3 a 0,5% do PIB total dos EUA. Se os EUA impuserem tarifas de 25 por cento sobre todos os produtos chineses exportados para os EUA, o PIB dos EUA diminuirá US$ 1 milhão de milhões nos próximos dez anos cumulativamente [10]. De acordo com um relatório de investigação de fevereiro de 2019 da Trade Partnership, um grupo de reflexão americano, se os EUA impuserem tarifas adicionais de 25% sobre todos os produtos chineses importados, o PIB dos EUA diminuirá em 1,01%, com 2,16 milhões de perdas de empregos e uma carga anual adicional de US$ 2.294 sobre uma família de quatro pessoas [11].

Em quarto lugar, as medidas pautais conduzem a barreiras às exportações dos EUA para a China. O relatório State Export de 2019, publicado pelo US China Business Council em 1 de maio de 2019, indicava que, nos dez anos de 2009 a 2018, as exportações dos EUA para a China foram o suporte de mais de 1,1 milhões de empregos. O mercado chinês continua a ter a sua importância para o crescimento económico dos EUA. Quarenta e oito estados dos EUA aumentaram as suas exportações de bens para a China durante a última década, 44 deles em dois dígitos, enquanto em 2018, quando a fricção económica e comercial piorou, apenas 16 estados aumentaram as suas exportações de bens para a China. Trinta e quatro Estados exportaram menos bens para a China, com 24 deles a registarem uma diminuição de dois dígitos. Os Estados agrícolas do Centro-Oeste foram particularmente atingidos. Sob medidas tarifárias, as exportações de produtos agrícolas americanos para a China diminuíram 33,1% em taxa anual, incluindo uma queda de 50% na soja. As empresas americanas estão preocupadas com a possibilidade de perderem o mercado chinês, que têm vindo a cultivar há quase 40 anos.

(III) A intimidação comercial criada pelos EUA prejudica o mundo

A globalização económica é uma tendência firmemente estabelecida dos tempos atuais. O unilateralismo e o protecionismo como instrumentos para colocar nas costas dos outros os seus próprios problemas são políticas impopulares. As medidas protecionistas comerciais tomadas pelos EUA vão contra as regras da OMC, prejudicam o sistema de comércio multilateral, perturbam seriamente as cadeias industriais e de abastecimento globais, minam a confiança dos mercados e representam um sério desafio à recuperação económica global e são igualmente uma grande ameaça à tendência de globalização económica.

Em primeiro lugar, as medidas dos EUA estão a minar a autoridade do sistema de comércio multilateral. Os EUA lançaram uma série de investigações unilaterais, principalmente as relativas às secções 201, 232 e 301, e impuseram medidas pautais. Estas são uma violação grave das regras mais fundamentais e centrais da OMC, incluindo o tratamento da nação mais favorecida e a vinculação tarifária. Tais ações unilateralistas e protecionistas têm prejudicado os interesses da China e de outros membros da OMC. Mais importante ainda, elas minaram a autoridade da OMC e o seu sistema de solução de conflitos, e expuseram o sistema de comércio multilateral e a ordem de comércio internacional ao perigo.

Em segundo lugar, as medidas dos EUA ameaçam o crescimento económico global. Com a sombra da crise financeira internacional ainda a pairar sobre a economia mundial, o governo dos EUA intensificou a tensão económica e comercial e aumentou os direitos aduaneiros adicionais, provocando medidas correspondentes por parte dos países envolvidos. Isto perturba a ordem económica e comercial mundial, amortece a recuperação económica mundial e prejudica o desenvolvimento das empresas e o bem-estar das pessoas em todos os países, mergulhando a economia mundial na “armadilha da recessão”.

As Perspetivas Económicas Globais divulgadas pelo Banco Mundial em janeiro de 2019 reviram a sua previsão de crescimento económico global à baixa, para 2,9%, citando a contínua fricção comercial como um grande risco à baixa de crescimento [12]. O Fundo Monetário Internacional também reduziu a sua projeção de crescimento económico mundial em 2019 para 3,3%, em comparação com a estimativa de 2018 de 3,6% publicada em abril de 2019 no seu relatório World Economic Outlook, sugerindo que a tensão económica e comercial pode diminuir ainda mais o crescimento económico global e enfraquecer o investimento já anémico [13].

Em terceiro lugar, os movimentos dos EUA perturbam as cadeias industriais e de abastecimento globais. A China e os EUA são ambos elos fundamentais das cadeias industriais e de abastecimento mundiais. Dado o grande volume de bens intermediários e componentes de outros países em produtos finais chineses exportados para os EUA, o aumento das tarifas dos EUA prejudicará todas as multinacionais, sobretudo as dos EUA que trabalham com empresas chinesas. As medidas tarifárias aumentam artificialmente os custos das cadeias de abastecimento e prejudicam a sua estabilidade e segurança. Como resultado, algumas empresas são forçadas a reajustar as suas cadeias de abastecimento globais à custa de uma afetação ótima dos recursos.

É previsível que os últimos aumentos tarifários dos EUA sobre a China, longe de resolverem as questões, só venham piorar as coisas para todas as partes. A China mantém-se firme na oposição. Recentemente, a administração dos EUA impôs uma longa jurisdição e sanções contra a Huawei e outras empresas chinesas na base inventada da segurança nacional, à qual a China também se opõe firmemente.

(continua)

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Notas

[1] Em fevereiro de 2018, Global Innovation Policy Center da Câmara do Comércio dos Estados Unidos publicou o International Intellectual Property Index 2018, sublinhando que em 2018, a China com a notação de 19.08 subiu para o 25º lugar numa escala constituída por 50 economias, dois lugares acima da sua notação obtida em 2017. http://www.theglobalipcenter.com/wp-content/uploads/2018/02/GIPC_IP_Index_2018.pdf

[2] Em 18 de janeiro de 2018, a conferência de imprensa de CNIPA sobre as estatísticas mundiais em 2107 e atualizações relacionadas. http://www.sipo.gov.cn/twzb/gjzscqj2017nzygztjsjjygqkxwfbk/

[3] USCBC: 2019 Relatório State Export , https://www.uschina.org/reports/2019-state-export-report, May 1, 2019.

[4] General Administration of Customs of China, http://www.customs.gov.cn/customs/302249/302274/302275/2418393/index.html, May 8, 2019.

[5] General Administration of Customs of China, http://www.customs.gov.cn/customs/302249/302274/302275/2418393/index.html, May 8, 2019.

[6] MOFCOM statistics.

[7] MOFCOM: National FDI Briefing for January to December, 2018, http://www.mofcom.gov.cn/article/tongjiziliao/v/201901/20190102832209.shtml , January 15, 2019

[8] WTO: “WTO trade forecasts: Press conference”, https://www.wto.org/english/news_e/spra_e/spra255_e.htm, April 2, 2019.

[9] US National Retail Federation: “NRF Warns USTR Tariffs Would Cost Americans Billions, Releases New Study on Consumer Impact”, https://nrf.com/mediacenter/press-releases/nrf-warns-ustr-tariffs-would-cost-americans-billions-releases-new-study , August 22, 2018.

[10] US Chamber of Commerce and Rhodium Group: Assessing the Costs of Tariffs on the US ICT Industry: Modeling US China Tariffs, https://rhg.com/research/assessing-the-costs-of-tariffs-on-the-us-ict-industry March 15, 2019.

[11] Trade Partnership: Estimated Impacts of Tariffs on the U.S. Economy and Workers (2019), https://tradepartnership.com/reports/estimated-impacts-of-tariffs-on-the-u-s-economy-and-workers-2019, February 5, 2019.

[12] World Bank: Global Economic Prospects, https://www.worldbank.org/en/publication/global-economic-prospects , January 8, 2019.

[13] IMF: World Economic Outlook, https://www.imf.org/en/Publications/WEO/Issues/2019/03/28/world-economic-outlook-april-2019, April 2, 2019.

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