CARTA DE BRAGA – “de títulos e de vaidades” por António Oliveira

As desigualdades são um dos maiores problemas, se não o maior, da realidade social deste país. Aliás, os títulos das notícias, das que não refiram só vedetas e artistas dos estádios ou ecrãs, até servem para alertar para alguns dos problemas com que temos de nos preocupar cada dia.

Compete depois a cada um aprofundar e aquilatar da realidade e do modo como os pode enfrentar, adaptar atitudes e comportamentos e, até por isso, creio que os títulos aproveitados para esta Carta, serão um bom exemplo

Os preços da electricidade em Espanha só são ultrapassados pelos da Alemanha e Portugal’, título a abrir um noticiário matinal da Cadena Ser, aqui ao lado!

Nesta época de torneios e campeonatos, é um bronze merecido mas não de envaidecer, antes pelo contrário!

Na mesma altura, um jornal nacional, traz outro título de se lhe poder juntar sem desprimor, ‘os ricos entram em cursos de prestígio e os pobres no politécnico!’ e, como é óbvio, aqui e  de vaidades nem pensar!

Mas também logo pensei nos ricos a poder pagar máquinas e iluminação nos ginásios, contratar ‘personal trainers’, entrar em escolas concertadas, dispensar autocarros e evitar cantinas, nas também nos pobres a penar passes sociais quando os há, sandes do que calhar, aulas de apoio se também houver e, ouvir a toda a hora, ‘ala prá fila que se faz tarde!’. Vaidades de quê e para quem?

A questão (há sempre uma questão atrás de uma afirmação!) é um dos mais importantes problemas sociais deste tempo, ‘hoje, mais do que estratégias de mudança, temos gestos improdutivos, agitação compatível com paralisação, encenações sem consequências, impulsos estéreis e movimentos falsos!’, garante Daniel Innerarity (El País,05).

Innerarity salienta que a agitação social é muito mais simpática do que a disciplina burocrática, mas a questão é saber ‘como fazer para que as coisas corram de acordo com os nossos desejos, para não que nos passem em frente só como hipóteses, que rapidamente se esfumem!

Mas, voltando àqueles dois títulos, como é possível que se tenha chegado a uma situação tão irracional e injusta e ‘qual o impedimento para se estabelecer um compromisso político para transformar as coisas, para estar ao lado dos que sofrem, gerar igualdade e melhorar a qualidade de vida, para que a maioria venha a ser estética, cultural e socialmente valorizada?’ pergunta Juan António Molina (Nueva Tribuna,05)

Não se pode abandonar a luta pelo compromisso mesmo antes de a iniciar, pois ‘só fracassa quem não o tenta e essa é a responsabilidade do ofício de viver’ escreveu Cesare Pavese no seu diário pois ‘ viver é um ofício e ninguém no-lo ensina

E por falar de compromissos e viveres, não resisto em recorrer outra vez aos clássicos, aqueles que o ensino actual vai atirando, lenta mas minuciosamente, para o baú das inutilidades.

Na Grécia antiga, Aristóteles ensinou ‘A dignidade não consiste em possuir honrarias, mas em merecê-las’ e Marco Aurélio imperador que foi na Roma do séc. II, garantiu ‘Aqueles que vivem mais tempo e os que vivem menos tempo, perdem a mesma coisa. O presente é a única coisa que se pode perder, pois é tudo o que temos e ninguém pode perder o que não é seu!

Mas também podemos recorrer aos de cá (de cá no tempo e de cá pelo lugar!), porque ‘Vaidosos somos todos nós! A questão está em saber se há alguma razão para o ser, ou se se é vaidoso sem razão nenhuma

Uma garantia de Saramago que também ‘assistiu’ a títulos assim!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: