CARTA DE BRAGA – “os olhos de Maria” por António Oliveira

 

Estas Cartas também vão servir para dizer das minhas memórias.

Será apenas quando alguma me atenazar, se atenazar!, a pedir para ser libertada e ganhar vida outra vez, mas carregada de distância, de diferenças e singularidades!

Hoje vou dizer de uma senhora que conheci há muitos anos, já nem me lembro bem quantos e numa terra muito longe daqui.

Corpo pequeno, algo dobrada sobre si, cabelo totalmente branco e uns olhos vivos de também saber rir quando a expressão se abria e, depois, um riso aberto e solto, daqueles de deixar sulcos na cara ao lado da boca e de lhe arrepanhar o pescoço fino.

Lembro-me bem daquele jeito, por nunca a ter visto rir de outro modo e, quando a graça era grande, batia as mãos já encarquilhadas dos anos e dos desgostos, para rir com gosto, arrebanhando e enrolando depois o pano largo de lhe tapar o corpo.

Passava por lá de quando em vez, para deixar coisas de lá não haver, para ela não penar faltas de que nunca se queixava, mas eu percebia ao ver os olhos brilhar, ao apartá-las para guardar.

Juntamente com ela havia uma rapariga de uns onze ou doze anos, alta para a idade que aparentava, espigadota e algo presa do braço esquerdo, embora a fazer tudo o que faria qualquer outra rapariga da mesma idade.

Sorriu quando viu que eu tinha reparado no problema mas logo adiantou, sem o tentar esconder e desafiando-me ‘não precisa olhar! Faço igual que as outras!

Fiz-lhe uma festa na face, não se encolheu, descobri que tinha ali mais uma amiga, mas logo se virou e avançou para os joelhos da velha senhora que tinha assistido a tudo com muita atenção.

Qual é o nome da pequena?’ perguntei à senhora mas foi a menina a responder com um sorriso lindo, os olhos a rir como a senhora ‘Maria, como ela’ disse, abraçando-a.

E riram as duas, como sempre faziam quando eu aparecia, às vezes só davam conta quando batia na porta da entrada da casa de adobe e ouvia a voz algo alquebrada ‘pode entrar!

Um dia, ao final da tarde, o sol quase a entrar na vastidão do mar, bati à porta, a senhora abriu, espreitou do lado de dentro e só disse ‘entra’. Entrei, apontou para um canto onde estava um banco e fez-me sinal para não falar nem fazer barulho.

No outro lado da casita de adobe, estava uma fogueira pequena com um lata cheia de um líquido a borbulhar. Ela botou algumas ervas lá para dentro, depois um pedaço de ramo ou tronquito de planta pequena e, apagado o fogo, logo começou a entoar uma lengalenga em voz baixa.

Quando terminou, fez sinal à garota que prontamente se sentou nos calcanhares a seu lado e, desta vez para eu poder ouvir e entender, as duas terminam a dizer entoando

«Não tem vento de levar

Não tem chuva de dobrar

Não tem sol de queimar

Não tem luz de cegar»

Depois a senhora, pegou num pano, mergulhou-o na lata e passou-o algumas vezes pelo braço de Maria. Quando a cerimónia findou, fez sinal à pequena para se sentar bem em frente e ‘Aprendeste bem? Das ervas também?

Maria acenou que sim, mãos postas nos joelhos com as palmas para cima, a senhora faz uma festa no braço esquerdo e ‘Esta foi para ti! Tens de aprender bem!

Fiquei com a impressão de que a cerimónia tinha sido para me mostrar e mais ainda, quando a senhora lhe pôs depois as mãos nos ombros e ‘Esta vai ser a tua vida quando eu for embora! Tens de aprender tudo bem! Aqui no povo, tem muita gente à espera e os teus mais velhos, estão contigo também!

Maria sorriu, ainda não tinha sulcos na cara e os olhos riam também quando a boca ria.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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