A Galiza como tarefa – o moucho – Ernesto V. Souza

As cousas da vida e a família levaram-me a ter de visitar, com alguma frequência, nos últimos meses, Royal Leammington Spa, (Warwickshire, UK). Vilinha de origem, medieval, entre os rios Lem e Avon e com uma canle dos tempos da revolução industrial para as mercadorias; antigo balneário às modas do século XIX , hoje cidade residencial e pátria de Aleister Crowley. Uma pequena e tranquila localidade inglesa, como eu gostaria que fossem as nossas, desenhada para passear, gente amável, bastante vida cultural e eventos populares, amplos jardins, árvores e verde por toda a parte, centro vitoriano, boas carpintarias conservadas nas lojas e nas mais das casas, ferragens e tijolo industrial, velhas chaminés em uso e agrupações de pequenas casas baixas estendendo-se ordenadamente em épocas e estilos construtivos bastante bem preservados em uso em todas as direções.

Nas ruas do centro há várias lojas de caridade e ONGs, reciclagem, antiquários e segunda mão, as mais delas com livros de oportunidade. Best seller de hoje e de antes, maravilhas de qualquer época, por junto outras chilindradas, roupas e fedelhos vintage para colecionismo e decoração. Dada a muita mercadoria, pode-se passar horas e dias pervagando nelas, e até se pode ir, de comboio, auto-carro ou caminhando até as de Warwick, aí pertinho, que têm mais antiquários.

A surpresa foi, numa delas, à primeira visita, topar dous inconfundíveis e coloridos volumes da coleção O Moucho da Editorial Castrelos. Chegaram longe estes livrinhos, bem seguro que têm uma história.

dous mouchos

Pouco depois, tomando um café tranquilo, num bar muito luminoso, na Warwick st., comecei a pensar sobre a noção de livro popular, o que implica a respeito da ideia da cultura, e a impressionante síntese que realizou dissimulando e a mão-tenta X. Mª Álvarez Blázquez, quando desenhou e manteve esta coleção em andamento.

Castrelos fundara-se em 1964, em Vigo, como empresa familiar dos irmãos Emilio e Xosé Maria Alvarez Blázquez. Projetou uma filosofia de edição popular para o livro galego, destinada a editar obras literárias para públicos amplos, em edições acessíveis, baratas e didáticas. A primeira coleção que ensaiaria Castrelos seriam os Cuadernos de Arte Gallego. Logo aparecem as coleções mais conhecidas: Pombal, O Moucho, e as mais cuidadas, Pico Sacro e Mogor.

Pombal estava orientada à recuperação e difusão de clássicos, obras traduzidas e autores galegos, em formatos escolares, pequenos, contextualizados e prologados. Na primeira época imitava, nas capas, formato e cor os livros da británica Penguin ou as coloridas Coleções da Austral; depois passou a ter capas ilustradas.  Mogor, um formato mais cuidado, papel de mais qualidade e desenho contemporâneo publicava a obra de poetas novos. Pico Sacro, apenas editou dous volumes especiais: O romanceiro da Terra Chá de Darío Xohán Cabana e Canle segredo do próprio Xosé María Álvarez Blázquez.

Os libros d’O Moucho foram “libros do pobo e para o pobo”, uma tentativa sucedida durante bastantes anos, de biblioteca popular galega, afastada da política e temática culturalista e de livro de elite que tinham outras editoras. Livros de formato pequeno (16 cm.), arredor das 50 páginas, branco e preto e tapas a cor, encadernação à rústica, colada. Tinham, na altura do mercado, o formato dos romancinhos bélicos, de detetives e do faroeste. Isto permitia uma comercialização pensada não apenas para livrarias quanto para quiosques, armazéns, lojas de vilas e de bairro.

catecismo-do-labregoO primeiro título foi O Catecismo do labrego, de Valentín Lamas Carvajal. Apareceu no ano 1967, e em edições sucessivas, imprimiram dele mais de trinta mil exemplares. Sendo possivelmente o primeiro livro em galego que entrou em muitos lares.

Com o sucesso económico, e demanda constante de várias das publicações, a coleção e a editora receberam uma injeção de capital que permitiu desenhar mais títulos, e dar uma seguridade económica à editora.

E não foi o único. De muitas das publicações – nomeadamente das 15 primeiras da série – fizeram-se duas e até três edições, o que diz muito e bem do acerto da proposta.

Não tenho visto, até a data, um formato assim de cuidado e original, como o d’O Moucho para livro de peto. Essa combinação de tapas a cor variando, com ilustração individualizada naïf, quase de banda desenhada (ou cantar de cego). Pode ser que haja alguma coleção dos 50 francesa ou inglesa da que pudesse tomar a ideia, mas de qualquer jeito é o formato, o desenho e a fatura o que dá qualidade a esses livros.

Os livros d’O Moucho destacavam pelas características ilustrações na capa, com os quadrinhos desenhados por Pedro R. Bofill, e a cuidada impressão da Serigrafía Gallega, propriedade de Álvaro Álvarez Blázquez, especializada em cartazes, reproduções artísticas e publicidade.

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A qualidade das serigrafias e o desenho de Bofill para a personagem do Catecismo (uma atualização da capa original), foi um sucesso, repetindo-se a personagem em todas as capas posteriores, conferindo os livrinhos uma unidade editorial e ajeitando-a simbolicamente os conteúdos de cada publicação individual.

Em palavras do desenhador:

–[…] una época que trabajaba para la Serigrafía Gallega e hice la colección de “O Moucho”, de Editorial Castrelos. Yo hacía todas las portadas, y me dijeron: “Esto es un libro gallego, tiene que tener un carácter gallego, pero gallego folclórico, antiguo, que recuerde el final del siglo XIX o el principio del XX”. Querían hacer un personaje que saliera siempre y algunos datos que tuvieran relación con Galicia. Entonces hice un paisano con el gorro, las bolitas, el traje un poco de finales del siglo XIX, esos pantalones que no llegan hasta abajo, la cazadora, una faja, una bufanda. Intenté que ese personaje, dentro de la caricatura, recordara a Galicia. Inclusive, había una serie de datos que recordaban a Galicia: una piedra y una mazorca de maíz. Todos los dibujos tenían ese personaje y les ponía una piedra y un maíz. (em Félix Caballero: “Bofill: cuarenta años en ‘Faro de Vigo'”, Vigo 7/11/2016)

rosaliaOs volumes d’O Moucho foram moi variados normalmente dentro de um repertório humorístico, didático e sapiencial: cantigas, poemas populares, teatro, refraneiros, humor, antologias preparadas por Álvarez Blazquez, obras breves de Castelao, Manuel María, Otero Pedrayo, Lois Diéguez, Xoán Cabana, Labarta Pose e até Méndez Ferrin.

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Quanto a conteúdos, alinham com as Coleções populares divulgativas de começos do século XX e da república, como as de Calpe, a CIAP,  as coleções populares da pré-guerra: as galegas, Lar, Céltiga e as castelhanas e catalãs. sal e pementa

Os pequenos formatos, coloridos, simpáticos e rechamantes de prezo popular, têm também ecos da cultura pop, e compartilham estética com autocolantes, cartazes e com iniciativas diversas da cultura popular e reivindicativa em debate aberto na Galiza e na Espanha dos últimos anos do 60 e transição.

retorno a tagen

Penso em Erasmo, no seu Elógio famoso e no seu trabalho como tradutor e orientador editorial nos primeiros tempos da imprensa, penso no Quixote e em Quevedo, e dalgum jeito intuo que o Moucho afunda as suas raigames nesta tradição, e nos discursos críticos, crípticos (que tão lucidamente nos descobriu Marcel Bataillon) e humanísticos dos erasmistas hispánicos.

Acompanhem-me à detetive na evocação e considerem para seguir o fio que “El Buho gallego”, atribuído ao Conde de Lemos, fora publicado por Monterrey, em 1951, com introdução e estudo do próprio Álvarez Blázquez, quem, sabemos, foi livreiro de lance e conhecedor de raros papéis e gravados dos séculos XVII a XX.castelao

Portanto, a conexão, podemos dizer é segura, profunda e também elaborada. Entra em jogo e arredor do Moucho, passaro totêmico da tribo e da erudição galega,  uma alegoria conceitual (sabedoria), nacional (galega), e iconográfica incardinada no douto humor humanista que se combina com uma segunda; a da cultura popular e a ilustração que podemos tracejar com facilidade nos catecismos populares e democráticos que dirigidos ao povo penetram na península a começos do século XIX.chispas

As capas e as escolhas de títulos têm, por tanto, um componente simbólico, erudito e popular, muito mais elaborado do que aparentam. São constantes referencias a outros gravados, imagens e capas. Podem se ler como encenações, como mensagens de um conjunto coerente. Cervantes, Erasmo, Lemos, Fandinho, o Tio Marcos tudo num combo; erasmismo humanista, liberalismo, sabedoria popular, discurso anticaciquil e anti-culturalista, paisanagem, proselitismo de catecismo liberal e cultura de massa republicana.

Livros hoje para colecionistas, a sua presença, tão habitual por toda a parte, e a durabilidade no tempo de muitos dos volumes, a baixo prezo nas lojas, livrarias e nas casas provocou que esta iniciativa fundamental de livro popular do tardo franquismo e na transição, passara muito mais discretamente, livro a livro individualmente, no sentido e valor que tem como conjunto.

moucho logo

 

Colección O Moucho 

(Elaborei esta listagem. Acho que esteja completa, a falta de perfilar bem e exatamente os títulos, autores e determinar todas as edições.

O formato não dá para colocar todas as capas, mas aparecem numa procura simples por imagens em qualquer navegador em internet).

 

  1. Catecismo do labrego /Marcos da Portela .- Vigo : Castrelos, 1967 (1970, 1973, 1975, 1978, 1981)
  2. Foliadas do gaiteiro : do libro “A gaita gallega tocada polo gaiteiro” (Pontevedra, 1853) / Xoán Manuel  Pintos Villar, .- Vigo : Castrelos, 1968 (1972)
  3. Refraneiro do viño : 505 sentenzas recollidas do pobo / Castrelos. 1968, (1971, 1973)
  4. Sal e pementa : escolma de epigramas / Varios autores .- Vigo : Castrelos, 1968 (1973)
  5. O Soño das Caliveras : seguido de O Algoacil algoacilado / Francisco de Quevedo .- Vigo : Castrelos, 1968 (1970)
  6. Cantigas do viño : seguidas de recitados, ensalmos i esconxuros / Literatura Popular .- Vigo : Castrelos, 1968 ( 1974 3a.)
  7. O Libro do Marisco : antoloxía / Ordeación, limiar e notas de Xosé M.ª Álvarez Blázquez .- antoloxía .- Vigo : Castrelos, 1968 (1971)
  8. Barriga verde : farsa pra bonecos / Manuel María .- Vigo : Castrelos, 1968 (1973)
  9. O tío Miseria e outros contos / Enrique Labarta Pose.- Vigo : Castrelos, 1968 (1970, 1972)
  10. Cantigas sociales / (Escolma, presentación e notas de X. Alonso Montero) .- Vigo : Castrelos, 1969 (1971, 1973)
  11. Pedro Madruga / Vasco de Aponte .- Vigo : Castrelos, 1969 (1972)
  12. A virxe do cristal : lenda / M. Curros Enriquez .- Vigo : Castrelos, 1969 (1971, 1973)
  13. Contos que non son contos / Manuel Casado Nieto .- Vigo : Castrelos, 1969 (1971)
  14. O libro da caza / Recadádiva, limiar e notas de Xosé Mª Alvarez Blázquez .- Vigo : Castrelos, 1969 (1972)
  15. Contos do pobo / Rosalia Castro .- Vigo : Castrelos, 1970 (1975)
  16. Pauto do demo / FOLE, Ánxel .- Vigo : Castrelos, 1970 (1972)
  17. A carón do lar : contos / M. Lugrís Freire .- Vigo : Castrelos, 1970 (1973)
  18. A barca do inferno / Gil Vicente ; (Tradución, limiar e notas de Xosé Landeira Yrago). – Vigo : Castrelos, 1970 (1975)
  19. Retorno a Tagen Ata / X.L. Mendez Ferrin .- Castrelos, 1971 (1972)
  20. A pega Rabilonga e outras historias de tesouros / Xosé M.ª Álvarez Blázquez .- Vigo : Castrelos, 1971
  21. ¡Máscara Fora! Ou seña: Os rogos dun gallego establecido en Londres, dedicados ós seus paisanos para abrirlles os ollos sobre certas iñorancias, e o demáis que verá o curioso lector. / M. Pardo de Andrade ; Limiar de Xulián Maure .- Vigo : Castrelos, 1971
  22. O Menciñeiro á forza / Versión e adaptación de “Le medecin malgre Lui” de Moliere ; de Xosé Manuel Carballo Ferreiro .- Vigo : Castrelos, 1971 (1975)
  23. Chispas da roda / Fernando Quesada Ilustrador: Quesada .- Vigo : Castrelos, 1972 [ continuada nos 31, 43, 51, 58]
  24. Cantares de cego / Anónimo .- Vigo : Castrelos, 1972 (1974)
  25. Contos de pantasmas / Leandro Carré .- Vigo : Castrelos, 1972
  26. O libro do Porco / Recadádiva, limiar e notas de Xosé Mª Alvarez Blázquez .- Vigo : Castrelos, 1972
  27. O tempo sin saída / Lois Diéguez .- Vigo : Castrelos, 1972
  28. Hestorias e lendas. / Afonso R. Castelao.- Vigo : Castrelos, 1972 (1975)
  29. Contos do fiadeiro / Ben-Cho-Shey .- Vigo : Castrelos, 1973
  30. Noticias dunha aldea / Darío Xohán Cabana ; pról. X. Ma Álvarez Blázquez .- Vigo : Castrelos, 1973
  31. Chispas da roda, II / Fernando Quesada Ilustrador: Quesada .- Vigo : Castrelos, 1973
  32. Contos con reviravolta : arando no amencer / Isaac Alonso Estravís .- Vigo : Castrelos, 1973
  33. Kricói, Fanói e Don Lobonís / Manuel María .- Vigo : Castrelos, 1973
  34. Viaxeiro da risa / Francisco Barxa .- Vigo : Castrelos, 1973
  35. Cousas da morte : antoloxía. / Afonso R. Castelao.- Vigo : Castrelos, 1973 (1975)
  36. Galegos en Europa / Vázquez Fernández, Lois .- Vigo : Castrelos, 1973
  37. Xan Labrego : antoloxía / VV.AA. .- Vigo : Castrelos, 1974
  38. Os tesouros de Galicia ou seña Historia verdadeira acontecida no Reino de Galicia e máis Relación dos tesouros e encantos. / O Ciprianillo .- Vigo : Castrelos, Vigo: 1974
  39. O Maroutallo / Otero Pedrayo, Ramón .- Vigo : Castrelos, 1974
  40. As Romaxes da Franqueira con máis o Romance i o Diálogo do Mouro i o Cristiano. Colección / Ramon Cabanillas ; limiar de X. Filgueira Valverde .- Vigo : Castrelos, 1974
  41. O libro do amor. / Escola e limíar de .Dario Xohán Cabana .- Vigo, Vigo : Castrelos, 1974.
  42. Cousas : terceiro Libro / Afonso R. Castelao.- Vigo : Castrelos, 1975
  43. Chispas da roda, III. / Fernando Quesada .- Vigo. Vigo : Castrelos, 1974 (1975 2ª)
  44. De ida e volta / Xosé Vázquez Pintor .- Vigo : Castrelos, Castrelos 1974
  45. Os inmortáis / Xoán Ignacio Taibo .- Vigo : Castrelos, 1975
  46. Os ovos da pita choca / Francisco Barxa.- Vigo : Castrelos, 1975
  47. Os Nomes da Terra : recollidos do pobo / [por] Celso de Baión .- Vigo : Castrelos, 1976
  48. Homes do espacio /, Lois F. Marcos .- Vigo : Castrelos, 1976
  49. Refraneiro da muller / Recadádiva e limiar de Xosé Sesto López .- Vigo : Castrelos, 1976
  50. O desengano do Prioiro / Ramón Otero Pedrayo .- Vigo : Castrelos, 1976
  51. Chispas da roda, IV/ Fernando Quesada .- Vigo : Castrelos, 1977
  52. Cousas de nenos /, Alfonso R. Castelao .- Vigo : Castrelos, 1976
  53. Dous dramas populares / W. B Yeats,. ; Tradución ao galego de Plácido R. Castro e os irmáns Vilar Ponte.- Vigo : Castrelos, , 1977
  54. Sancho na Insua Barataria / Cervantes.- Vigo : Castrelos, 1977
  55. A taberna do galo / Celso Emilio Ferreiro .- Vigo : Castrelos, 1978
  56. A Romaxe do Faro / Nicanor Rielo Carballo .- Vigo : Castrelos, 1978
  57. A fronteira da fame : Drama vital en duas bandas / Lois Vázquez Fernandez .- Vigo : Castrelos, 1978
  58. Chispas da roda , V / Fernando Quesada .- Vigo : Castrelos, 1979
  59. A boda do Reimundo e outras verídicas historias / Manuel Casado Nieto .- Vigo : Castrelos, 1980
  60. Parábolas chairegas. / Xosé Manoel Carballo ; prol. R. Piñeiro .- Vigo : Castrelos, 1981
  61. A boda de Esganarello / Moliere : trad. de Francisco Pillado .- Vigo : Castrelos, 1982
  62. A regueifa / Andrés Suárez .- Vigo : Castrelos, 1982
  63. Refraneiro galego / Xaquín Lorenzo Fernández [recopilador] .- Vigo : Castrelos, 1983
  64. Refendas de vida e de morte / Manuel Casado Nieto .- Vigo : Castrelos, 1983

One comment

  1. Diego

    Adorei o artigo, Ernesto. Há anos que coleciono estes livrinhos, sempre me fascinárom. Grande abraço! Diego

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