Desafios para a política monetária: em torno do Simpósio de Jackson Hole, em torno de grandes temas que afligem o mundo,hoje – 3. O governador do Banco de Inglaterra diz na conferência de Jackson Hole: O sistema financeiro existente não se irá manter. Por Nick Beams

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

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3. O governador do Banco de Inglaterra diz na conferência de Jackson Hole: O sistema financeiro existente não se irá manter

Nick Beams Por Nick Beams

Publicado por World Socialist Web Site em 27 Agosto de 2019 (ver aqui)

Uma das ficções mais assiduamente promovidas pelos representantes ideológicos da economia capitalista é que os responsáveis pela política monetária e económica têm um sólido conhecimento do sistema a que presidem e uma ideia clara do que estão a fazer. Tais operações assumem grande importância quando acontecimentos como o crash financeiro de 2008 revelam às massas trabalhadoras que não é esse o caso.

O colapso de há onze anos foi precedido de afirmações sobre a “eficiência” do mercado. Estabeleceu-se uma “grande moderação” na qual os males do passado foram finalmente vencidos, com qualquer um que ousasse diferir dessa opinião a ser declarado culpado de blasfémia contra deuses como o presidente do Fed, Alan Greenspan.

Assim, quando se revelou que o sistema financeiro era na realidade uma serpente de corrupção e conflitos de interesses, isso foi um enorme problema para todos aqueles que estavam nesse barco justificarem os milhões de milhões de dólares colocados à disposição dos próprios bancos e instituições financeiras cujas atividades haviam desencadeado a crise, enquanto centenas de milhões de trabalhadores em todo o mundo foram obrigados a pagar com cortes salariais e medidas de austeridade.

Os resgates podem ter sido lamentáveis, foi argumentado, mas estas medidas eram necessárias para evitar algo ainda pior. Novos regulamentos estavam a ser implementados para evitar uma recorrência e, após um período de medidas “não convencionais” – principalmente a distribuição de dinheiro praticamente gratuito aos “malfeitores de grande riqueza” – as coisas voltariam ao “normal”.

Esta parte da ficção foi exposta na conferência de banqueiros centrais e especialistas financeiros realizada em Jackson Hole, Wyoming, na semana passada.

A reportagem do Financial Times sobre esta reunião observou que “havia um sentimento de que as coisas nunca mais seriam as mesmas novamente”. Numa entrevista com o jornal o presidente da Reserva Federal de St Louis, James Bullard, disse que tinha havido uma “mudança de regime” nas condições económicas.

As suas manifestações são todas demasiado evidentes. A oferta de moeda ultra barata, por meio de cortes nas taxas de juros ou da compra de ativos financeiros pelos bancos centrais, a chamada “flexibilização quantitativa”, fracassou em proporcionar qualquer estímulo significativo à economia real, a inflação continua abaixo da meta fixada pelos bancos centrais de 2% e as taxas de juros permanecem em mínimos históricos.

Este fenómeno é tão persistente que o sistema financeiro entrou numa espécie de Alice no País das Maravilhas, onde cerca de US$ 16 milhões de milhões em títulos estão a ser negociados com rendimentos negativos, o que significa que um investidor que os mantivesse até à maturidade sofreria uma perda.

Algo está a acontecer“, disse Bullard ao Financial Times, “e isso está a provocar um repensar total do banco central e de todas as nossas queridas noções sobre o que pensamos que estamos a fazer. Só temos que parar de pensar que no próximo ano as coisas voltarão ao normal“.

Por mais que procurem promover a ilusão de que estão no controle, os responsáveis pelo sistema financeiro têm que se empenhar numa discussão sobre os crescentes problemas que enfrentam e o que pode ser feito para aliviá-los. E alguns documentos apresentados na reunião foram significativos desse ponto de vista.

Nos últimos meses, começou a crescer a perceção de que a guerra comercial não é uma fase passageira, mas que é agora uma característica permanente da vida económica e política. Isto está associado ao reconhecimento de que o papel do dólar americano como base da estabilidade do sistema financeiro está agora a ser cada vez mais posto em causa.

Mark Carney, o reservado governador do Banco da Inglaterra, disse na conferência que o atual sistema monetário internacional baseado nos EUA “não se vai manter” e que um novo sistema monetário internacional precisaria de ser construído.

Ele observou que os EUA representavam apenas 10% do comércio global e 15% do PIB global, mas o dólar formou a base para metade da faturação do comércio mundial e dois terços do global das emissões de títulos. Os movimentos do dólar, portanto, foram de fundamental importância para as outras economias, mesmo que tivessem poucos vínculos comerciais com os EUA. Foram obrigados a acumular dólares para se precaverem contra a fuga de capitais.

O dólar era tão importante como em 1971, quando o Presidente dos EUA, Nixon, lhe retirou o suporte em ouro e pôs fim ao sistema de relações em moeda fixa de Bretton Woods, ancorado pelo ouro.

Nessa altura, o Secretário do Tesouro dos EUA, John Connally, rejeitou as preocupações de outros países com o ditado “o nosso dólar, o vosso problema”. Isto agora alargou-se, disse Carney, para “qualquer um dos nossos problemas é um problema vosso”.

Durante décadas, a opinião dominante foi a de que os países podiam alcançar a estabilidade de preços e regular o crescimento económico através da fixação de objetivos em matéria de inflação e da adoção de taxas de câmbio flutuantes. Este consenso era agora “cada vez mais insustentável”. Tal deveu-se ao facto de os desenvolvimentos nos EUA terem agora “repercussões significativas sobre o desempenho comercial e as condições financeiras dos países, mesmo com uma exposição direta relativamente limitada à economia dos EUA”.

Afirmou que pouco se podia fazer a curto prazo e que os bancos centrais tinham de “jogar as cartas que lhes foram dadas da melhor forma possível“.

No entanto, a longo prazo, “precisamos de mudar o jogo“. O sistema monetário internacional não poderá ser reformado da noite para o dia, mas igualmente “a aceitação alegre do status quo é um erro “.

Os riscos estão a aumentar, e são estruturais. Como [o falecido economista] Rudi Dornbusch alertou, ‘Na economia, as coisas demoram mais tempo a acontecer do que se pensa, e depois acontecem mais depressa do que se pensava que poderiam acontecer’.”

A médio prazo, Mark Carney propôs que o Fundo Monetário Internacional aumentasse os seus recursos e criasse um fundo global para lidar com a fuga de capitais. A longo prazo, era necessário que houvesse uma economia global multipolar e que se considerasse o estabelecimento de uma “moeda hegemónica sintética“, possivelmente através de uma rede de moedas digitais do banco central, a fim de “atenuar a influência dominante do dólar dos EUA no comércio mundial“, para que os choques americanos não se repercutissem em todo o mundo como agora.

Em essência, esta é uma versão moderna da proposta apresentada pelo representante britânico John Maynard Keynes na conferência de Bretton Woods em 1944 para o estabelecimento de uma moeda global, a bancor. Nessa altura, os EUA afirmaram o seu poder e insistiram que o dólar, apoiado pelo ouro, tinha de ser a moeda internacional. Mas desde a retirada da sua ligação ao ouro, como seu suporte em 1971, como âncora estável, o sistema financeiro mundial tornou-se cada vez mais afetado pelos movimentos do dólar americano.

As deficiências do sistema monetário e financeiro internacional tornaram-se cada vez mais potentes“, concluiu Carney e que “mesmo um conhecimento passageiro da história monetária sugere que este centro não se vai aguentar“.

Alertas semelhantes de instabilidade financeira foram dados num outro trabalho apresentado pelos economistas da Universidade de Stanford, Arvind Krishnamurthy e Hanno Lustig, que apontaram o papel desempenhado pelos investimentos denominados em dólares no fornecimento de ativos seguros aos investidores globais.

Estes autores lembraram os avisos do economista Robert Triffin em 1960 sobre a contradição essencial no coração do sistema de Bretton Woods. Triffin salientou que a expansão do comércio e das finanças globais dependia da saída contínua de dólares americanos. Mas isso significava que esse conjunto de dólares superaria o apoio do ouro que era a sua âncora, levando a uma crise. Essa crise eclodiu quando Nixon pôs fim à convertibilidade entre o dólar e o ouro.

Os autores observaram que a lógica de Triffin poderia ser estendida à situação atual. “A oferta de ativos em dólares seguros não é mais apoiada por ouro; no entanto, a oferta é alimentada por aumentos na alavancagem pública e privada. A alavancagem em dólares será fornecida de forma consistente com a estabilidade financeira? Os acontecimentos dos últimos 15 anos sugerem que os decisores políticos devem prestar muita atenção a esta questão“.

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O autor: Nick Beams [1948 – ] é um economista inglês, é membro do Conselho Editorial Internacional do sítio World Socialist Web Site e especialista internacionalmente reconhecido em economia política marxista. Para além da realização de inúmeras conferências abertas ao público, nomeadamente sobre a crise financeira mundial e a globalização, escreve regularmente em Global Research (https://www.globalresearch.ca/author/nick-beams).

 

 

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