A AMÉRICA VISTA ATRAVÉS DA CRISE EM GERAL E A DO ENSINO EM PARTICULAR – V – COM MAIS DE 60 ANOS, E ESMAGADOS PELA DÍVIDA DE EMPRÉSTIMOS ESTUDANTIS, por ANNAMARIA ANDRIOTIS

 

 

 

Over 60, and Crushed by Student Loan Debt. Older Americans are struggling under the burden of student loans—their children’s and their own – por AnnaMaria Andriotis 

The Wall Street Journal, 2 de Fevereiro de 2019

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Emiliano Ponzi

                                               

Uma geração de americanos devia US$ 86 mil milhões em dívidas de empréstimos estudantis na última contagem. Os seus membros têm todos 60 anos ou mais.Muitos destes americanos de certa idade contraíram empréstimos para ajudar a pagar os custos da escolaridade  dos  seus filhos na faculdade e ainda continuam a reembolsá-los.  Outros contraíram empréstimos estudantis para si mesmos na esteira da última recessão, quando voltaram à escola para aumentar  as suas próprias perspetivas de emprego.

Em média, os tomadores de empréstimos estudantis na casa dos 60 anos deviam US$ 33.800 em 2017, mais 44% do que em 2010, de acordo com dados compilados para o The Wall Street Journal pela empresa de relatórios de crédito TransUnion. A dívida total de empréstimos a estudantes aumentou 161% nas  pessoas com 60 anos ou mais, de 2010 a 2017 – o maior aumento para qualquer faixa etária, de acordo com os últimos dados disponíveis da TransUnion.

Alguns deles estão a ter confiscados os seus cheques da Segurança Social. O governo federal, que é o maior emprestador de empréstimos estudantis do país, confiscou as prestações da Segurança  Social,  os reembolsos de impostos ou outros pagamentos federais de mais de 40.000 pessoas com 65 anos ou mais no ano fiscal de 2015 porque não pagaram a dívida dos empréstimos estudantis ou dos  seus familiares próximos. Isso representa um aumento de 362% em relação à década anterior, de acordo com os últimos dados do Government Accountability Office.

Aos 66 anos, Ante Grgas-Cice deve cerca de 29 mil dólares em empréstimos estudantis. O   seu único rendimento é um cheque mensal da Segurança  Social de aproximadamente US$1.600, que o governo federal confiscou  por um período no ano passado porque ele não estava a pagar os seus empréstimos contraídos para estudar.

Mr. Grgas-Cice looks through a pile of bills inside his apartment in New York City. He owes about $29,000 in student loans.Ante Grgas-Cice do lado de fora do prédio de seu antigo restaurante na cidade de Nova York.  Photo: Michael Bucher/The Wall Street Journal 

Ante Grgas-Cice stands outside the building of his former restaurant in New York City.O Sr. Grgas-Cice olha para uma pilha de notas no apartamento dele em Nova Iorque. Deve aproximadamente $29.000 em empréstimos de estudante. Foto: Michael Bucher/The Wall Street Journal 


O Sr. Grgas-Cice disse que a sua decisão de voltar para a escola continua a assombrar a sua vida.

Ele inscreveu-se para a obtenção de um empréstimo estudantil  a fim de  frequentar o Art Institute of New York City em 2003 e 2004, depois de lhe ter falhado a obtenção de  um empreendimento para o  restaurante. No Art Institute, estudou arte culinária e design e layout de restaurantes para melhorar as suas competências profissionais, disse ele. Os empreendimentos de restaurantes subsequentes não funcionaram e ele está atualmente desempregado.

Em dificuldades para  manter o seu aluguer e outras contas, ele foi para a Croácia no verão para viver com a sua mãe, de idade já avançada. Para pagar as despesas diárias, depende da ajuda financeira da família e muitas vezes recorre a cartões de crédito para pagar a comida e outras necessidades. Ele limita as suas despesas de alimentação a cerca de $7 por dia.

“Grgas-Cice disse ainda  que era muito cauteloso nos seus gastos. Diz que é doloroso pensar sobre as suas condições atuais de vida.

A dívida dos estudantes é um dos maiores contribuintes para o aumento geral da carga da dívida dos idosos. Os consumidores americanos com 60 anos ou mais deviam cerca de US$ 615 mil milhões em cartões de crédito, empréstimos de automóveis, empréstimos pessoais e empréstimos estudantis a partir de 2017. Isso representa um aumento de 84% desde 2010 – o maior aumento de qualquer faixa etária, de acordo com os dados da TransUnion.

O acumular de empréstimos transformou  o arco tradicional da vida adulta para muitos americanos.

Os níveis médios de endividamento tradicionalmente atingem o pico para o conjunto das famílias cujo chefe de família tenha  de 45 a 54 anos de idade, de acordo com o Employee Benefit Research Institute, baseado em dados do Inquérito sobre  Finanças do Consumidor do Federal Reserve. Mas entre 2010 e 2017 as pessoas de 60 anos, como a maioria das outras faixas etárias, aceleraram sos eus empréstimos em quase todas as categorias, de acordo com os dados do TransUnion.

Estas pessoas de certa idade consideram que devem ter de trabalhar por muito mais tempo, e que por esta razão  conservam empregos que de outra maneira poderiam ser ocupados por gente mais nova.  Eles estão a contar  com cartões de crédito e empréstimos pessoais para pagar as despesas básicas. As pessoas com 65 anos ou mais respondem por uma parcela crescente dos declarantes de falência dos EUA, de acordo com o Consumer Bankruptcy Project; ao contrário da maioria dos empréstimos ao consumidor, a dívida estudantil raramente é transformável em falência.

Talvez o elemento mais surpreendente dessa onda seja a rápida aceleração dos empréstimos estudantis, uma questão que costumava estar concentrada principalmente entre os jovens adultos. As mudanças feitas na esteira da última recessão ajudam a explicar esta mudança.

Nos anos após 2008, os bancos e outros financiadores estudantis privados começaram a restringir os padrões de subscrição de seus empréstimos, exigindo que mais pais assinassem os empréstimos estudantis em conjunto com o estudante mutuário. A co-assinatura torna os pais igualmente responsáveis pelo pagamento do empréstimo, resultando daí  uma pontuação de crédito mais baixa e prejudicando a sua capacidade de contrair empréstimos se eles ou  os seus filhos falharem um pagamento.

Aproximadamente 93% de todos os novos dólares de empréstimos privados concedidos a estudantes dos primeiros anos de Universidade durante o ano académico atual também incluíram a assinaturas de pais ou de outros adultos, contra 74% no ano letivo de 2008-09, de acordo com MeasureOne. Embora os empréstimos federais ainda representem mais de 90% da dívida pendente de empréstimos estudantis, o mercado privado de empréstimos estudantis tem estado a crescer. 

Nos últimos anos, financiadores privados, incluindo a SLM Corp., mais conhecida como Sallie Mae, e o Citizens Financial Group Inc., aumentaram a sua incidência sobre os pais  dos estudantes. Eles lançaram empréstimos estudantis que são apenas para pais que querem pagar a formação universitária dos  seus filhos. O argumento principal dos empréstimos inclui a possibilidade de uma taxa de juros mais baixa para os pais que têm altas pontuações de crédito do que a taxa  que o governo federal cobra pelos  seus próprios empréstimos aos pais; também permite que os pais poupem os  seus filhos do peso da dívida assumindo-a sobre si mesmos. Um porta-voz da Sallie Mae diz que os empréstimos aos pais representaram cerca de 2% dos dólares dos empréstimos estudantis que a empresa originou no ano passado. Um porta-voz do Citizens diz que a maioria dos empréstimos dos pais vêm do programa federal.



Os adultos mais velhos estão cada vez mais endividados devido a empréstimos feitos a estudantes e a incorrerem em sérios contratempos quando são incapazes de pagar.

Outro problema: O governo federal limita o montante em dólares dos empréstimos que os estudantes do primeiro ciclo de estudos universitários podem pedir emprestado para a faculdade, mas não há limites para o montante agregado que os pais podem assumir. Isso tem contribuído para que os pais assumam cada vez mais empréstimos para cobrir a lacuna entre os custos da  escolaridade  e o valor da ajuda gratuita e dos empréstimos que os seus filhos recebem.

O governo federal desembolsou US$ 12,7 mil milhões em novos empréstimos “Parent Plus” durante o ano letivo de 2017-18, contra US$ 7,7 mil milhões na década anterior e US$ 3,3 mil milhões em 1999-2000, de acordo com uma análise dos dados do Departamento de Educação feita por Mark Kantrowitz, editor do Savingforcollege.com. Os seus padrões de subscrição são geralmente mais flexíveis do que os dos bancos e outros financiadores privados, facilitando a qualificação de mais candidatos. De acordo com Kantrowitz, os pais, em média, deviam cerca de US$ 35.600 nesses empréstimos na época da formatura dos  seus filhos na  primavera passada. Eles deviam quase US$ 6.400 em média (não ajustados pela inflação) na primavera de 1993.

Um dos pais que se enquadra nesta categoria é Christopher Raymond de North Danville, Vt., que foi professor de história do ensino médio durante 32 anos.


Christopher Raymond deve cerca de $136.000 em empréstimos Parent Plus que ele assinou para ajudar a pagar a formação universitária dos  seus dois filhos. Foto: Ian Thomas Jansen-Lonnquist para o The Wall Street Journal

A dívida acabou com a sua situação de reformado, forçando-o a encontrar um novo emprego para pagar os empréstimos. Todos os meses, ele paga cerca de $1.100 – cerca de um quarto do seu rendimento  mensal – para pagar os empréstimos. A sua ex-mulher, Lori Raymond, 56 anos, paga cerca de 800 dólares adicionais por mês para os empréstimos. Incapaz de pagar despesas de emergência, incluindo a substituição de seu fogão quebrado e conserto de seu teto, foi forçado a contrair um empréstimo pessoal para cobrir esses custos.

O Sr. Raymond, 60 anos, acredita que vai ficar completamente atado na sua vida  a pagar esta conta até aos 70 anos.

https://images.wsj.net/im-51471/mDepois de se aposentar como um professor de ensino médio, Raymond começou a trabalhar num aeroporto, a fim de ser capaz de pagar os empréstimos. Photos: Ian Thomas Jansen-Lonnquist for The Wall Street Journal


“É uma nuvem muito escura que está sempre presente na minha cabeça” acrescentou Raymond..

A sua decisão de se inscrever para os empréstimos decorre da sua  própria educação. Ambos os pais viveram durante a Grande Depressão, e sua mãe, que era um professora e o seu pai que era um professor universitário incutiram nele a crença de que uma formação  universitária era um bilhete para uma vida melhor. Quando a sua filha foi aceite na Faculdade Ursinus há mais de uma década atrás, ele achou difícil dizer-lhe que seria muito caro para se matricular.

“Como você diz a seu filho: ‘Nós insistimos que estude  a valer para alcançar  o anel de bronze’ e ‘oops, se não, não o podemos ajudar? “disse ele.

Pictures of Mr. Raymond’s children hang in his office. .Fotos da filha de  Raymond penduradas no seu escritório. . Foto: Ian Thomas Jansen-Lonnquist para o The Wall Street Journal

A sua filha recebeu algumas bolsas de estudo e assinou empréstimos estudantis.  Raymond também se inscreveu para obter empréstimos para ajudar a pagar os custos restantes da faculdade. Mais tarde, quando  o seu filho entrou para u a faculdade na Universidade do Maine,. Raymond assumiu  mais empréstimos.

Apesar do fardo da dívida,  Raymond disse que não se arrepende de ter dado aos seus filhos a oportunidade de ir para a faculdade. Ele só queria que houvesse uma maneira de fazer os seus pagamentos mensais de forma mais manejáveis.

Para os mais velhos, o somar da dívida de estudantes não é um problema isolado. Quando um mutuário mais velho tem um empréstimo estudantil, pode muitas vezes ser obrigado a contrair outros empréstimos, como cartões de crédito, para pagar as suas despesas diárias.

Raymond Abdullah, 65 anos, tem cerca de $40.000 de dívida em  cartão de crédito e um saldo de cerca de $11.000 num  empréstimo Federal Plus que ele contraiu  para pagar a mensalidade de seu filho há cerca de 22 anos. A dívida do cartão de crédito cresceu na última década depois que ele se aposentou do trabalho como joalheiro. Ele vê-se obrigado a voltar aos  cartões de crédito com mais frequência para pagar as despesas diárias, incluindo gasolina e  bens alimentares. Raymond Abdullah, diz que precisa de ter  dinheiro em mãos  para pagar outras despesas, incluindo o pagamento mensal de US$ 400 para o empréstimo da faculdade.

A dívida, diz ele, “afeta a minha  pressão arterial, afeta o meu bem-estar geral”, disse ele. “Nesta idade, não se espera estar endividado. Não é uma situação onde se tenha querido estar”.

O Sr. Grgas-Cice, entretanto, encontrou algum alívio para a sua situação. Ele consultou Evan Denerstein, advogado e chefe da equipa  de funcionários da Mobilization for Justice, uma organização de serviços jurídicos civis. O advogado ajudou a matriculá-lo num plano  federal de pagamento que pôs um fim  a confiscações a que estava sujeito devido aos seus empréstimos de estudante. Esse plano permite que pessoas com rendimento abaixo de 150% da diretriz federal para a pobreza sejam consideradas tecnicamente dentro do prazo de seus pagamentos com o empréstimo, sem fazer pagamentos a esse respeito. Enquanto anualmente o Sr. Grgas-Cice cumprir os requisitos do plano, o seu saldo continuará a crescer durante  20 anos e eventualmente será cancelado pelo governo dos EUA. No entanto, a dívida que é perdoada pode ser tributável.

“Não tenho nenhuma poupança – o que é que eles me podem tirar de impostos ?”, acrescentou ele.

Mr. Grgas-Cice at his West Village apartment in New York City.Mr. Grgas-Cice at his West Village apartment in New York City. Photo: Michael Bucher/The Wall Street Journal

 
Para ler este artigo de Anna Andriotis no original clique em:

OVER 60, AND CRUSHED BY STUDENT LOAN DEBT / THE WALL STREET JOURNAL


http://gonzaloraffoinfonews.blogspot.com/2019/02/over-60-and-crushed-by-student-loan.html
 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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