Luzes e sombras do processo de destituição de Trump – 2. Nixon e Trump: A política do procedimento de destituição. Por George Friedman

Impeachment de Trump luzes e sombras

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

2. Nixon e Trump: A política do procedimento de destituição

george friedman gPF por George Friedman

Editado por friedman logo em 8 de outubro de 2019 (ver aqui)

Republicado por Gonzallo Rafo em 23 de outubro de 2019 (ver aqui)

 

A evolução do sistema político americano tem inevitavelmente um impacto no sistema global. Se os Estados Unidos mudarem de direção mesmo em questões menores, haverá consequências regionais. Os eventos políticos são difíceis de prever, mas as variáveis-chave do processo podem ser identificadas comparando a evolução atual com um evento anterior mais ou menos semelhante. A minha intenção é comparar o atual inquérito de procedimento de destituição do Presidente Donald Trump com aquele que forçou Richard Nixon a demitir-se. É uma tentativa de definir o que importa e o que não importa dentro do processo de destituição, mais do que o potencial resultado global desencadeado por eventos hipotéticos.

O escândalo do Watergate

Nixon renunciou ao cargo de presidente em agosto de 1974. As fitas de gravação com ele a discutir os arrombamentos na sede do Partido Democrata no edifício Watergate foram divulgadas em 5 de agosto, e ele renunciou quatro dias depois. Até esse momento, um segmento substancial do eleitorado continuou a apoiá-lo. Ele tinha ganho a reeleição em 1972, derrotando George McGovern, que concorria contra ele na base de uma plataforma antiguerra. Essa plataforma foi encarada por muitos como um apoio ao que era então chamado de “contracultura”, o que foi visto como um ataque sistemático por parte de um grupo marginal aos valores da classe média americana. Nixon posicionou-se como o porta-voz da “maioria silenciosa”, que era vista como o núcleo politicamente subjugado da sociedade e dos valores americanos.

Nixon não concorreu simplesmente contra McGovern ou contra a contracultura. Ele concorreu contra os media , que ele via como sendo-lhe hostis e desde muito antes da sua primeira eleição, hostis à guerra no Vietname desde o início e não estavam dispostos a elogiá-lo pelas suas iniciativas de política externa (incluindo a abertura para com a China e uma política de abrandamento (détente) para com os soviéticos) e a sua defesa dos valores da classe média americana. Olhando para as conferências de imprensa de Nixon, a hostilidade e o desprezo dos repórteres eram palpáveis, assim como a raiva defensiva de Nixon.

O escândalo de Watergate começou em agosto de 1972 e desenvolveu‑se com intensidade crescente durante dois anos. Houve muita discussão sobre o procedimento de destituição ou de acusação criminal do presidente, mas isso era impossível. Uma parte substancial do eleitorado apoiou-o, vendo o escândalo como algo fabricado pelos seus inimigos políticos e pelos media. Curiosamente, apesar da vitória esmagadora de Nixon, ambas as casas do Congresso foram controladas pelos democratas, que realizaram audiências sobre o caso Watergate no verão de 1974.

Os democratas sabiam que embora pudessem levar avante a destituição do presidente na Câmara dos Representantes, eles não tinham nem estavam perto da maioria de dois terços necessária para o condenar no Senado. Dadas as paixões de ambos os lados, os democratas estavam relutantes em levar à votação na Câmara a destituição do Presidente, sabendo que a condenação era impossível O procedimento poderia ser visto como um melodrama político inútil. Além disso, eles não poderiam julgá-lo pela mesma ofensa mais tarde. Da mesma forma, os senadores não queriam que a Câmara os colocassem em posição de realizar uma votação que poderia não ser aprovada. Como as duas Câmaras eram controladas pelo mesmo partido, eram igualmente solícitas uma para com a outra.

O problema para os democratas, então, era a profunda divisão do país. Segundo sondagens, a maioria dos eleitores era hostil a Nixon, mas ele mantinha apoio suficiente – na faixa de 40% – para impedir os democratas de avançarem nos estados que estavam próximos (e muitos estavam em 1974). Como o procedimento de destituição é um processo político, e não judicial, uma minoria poderosa de eleitores viu isso como um desejo de reverter a derrota de McGovern. De facto, o número de eleitores que se opunham politicamente a Nixon era maior que o número de eleitores que o queriam destituído. O risco político de alienar esses eleitores era demasiado grande.

O debate podia ter durado indefinidamente, exceto pelo surgimento de uma “arma do crime”, um pouco de evidência tão conclusiva que nem mesmo os apoiantes republicanos de Nixon puderam atribuí-lo à manipulação democrata ou dos media. A arma do crime foi a revelação de que Nixon havia gravado muitas das suas conversas no escritório e que algumas incluíam conversas sobre Watergate. A Câmara e o Senado exigiram as fitas, mas Nixon recusou-se a libertá-las. Só isso é que começou a corroer o seu apoio político na base da teoria de que ele só esconderia as fitas se elas lhe fossem prejudiciais.

Depois dos tribunais terem ordenado a entrega das fitas descobriu-se que uma delas havia sido apagada, enquanto outras implicavam claramente que Nixon tinha conhecimento do encobrimento ou ordenou ele próprio o arrombamento. O clima entre os seus partidários republicanos e no Senado mudou então. Um grupo de senadores com posições importantes na estrutura política americana disse a Nixon que ele seria condenado pelo Senado se fosse votado e convenceu-o a renunciar.

A chave deste evento tinha pouco a ver com os membros do Congresso. Tinha tudo a ver com os eleitores republicanos, que foram convencidos de que, embora os ataques a Nixon tivessem sido realizados por razões políticas, ele era culpado e tinha que ser destituído. A arma do crime levou-os até este ponto (e a raiva republicana face aos media e aos democratas não era menor do que é hoje). Portanto, apesar da aversão aos inimigos de Nixon, houve uma mudança radical entre os seus apoiantes, como nunca ocorreu durante o procedimento de destituição de Clinton. Durante o procedimento de destituição de Clinton, os eleitores democratas não concordaram que houvesse uma arma do crime que exigisse condenação e, portanto, o Senado considerou Bill Clinton inocente.

Nem a Câmara nem o Senado detinham o poder de destituir Nixon do cargo. Nem os que o desprezavam. Esse poder foi exercido pelos apoiantes de Nixon, que representavam uma minoria substancial em 1974 que poderia influenciar as eleições estaduais e locais. O seu padrão para uma destituição era muito mais alto do que o dos outros e, sem uma arma do crime [ou prova irrefutável], o escândalo provavelmente continuaria indefinidamente. Mas havia uma arma do crime que destruía as ilusões sobre Nixon. Mas os partidários de Nixon nunca perdoaram os democratas por tentarem destituí-lo antes de terem uma arma do crime e, durante 12 anos depois de Jimmy Carter, os republicanos dominaram a presidência.

O caso da Ucrânia

Os Estados Unidos hoje estão numa posição semelhante à que estavam em 1974. O país está dividido em dois campos, tão alienados um do outro quanto estavam a América média e a da contracultura. Os democratas estão-se a tornar o partido político da cultura atual, e os republicanos são os que procuram apegar-se a valores passados. Trump tem o apoio de uma minoria de eleitores, que ainda representa um segmento significativo do eleitorado. Ele e os seus apoiantes responsabilizam os media pela crise política, e os media estão fortemente agrupados contra Trump. A paixão de ambos os lados é extrema. Os opositores e apoiantes do presidente não apenas são extraordinariamente convencidos das suas posições, mas, mais importante, têm pouco contacto entre si. Ambos os grupos representam tribos hostis, muito como foi o caso durante a crise de Nixon.

Mas o importante a ter presente é que a oposição ao procedimento de destituição é maior que a própria base de apoio de Trump. Este é o facto mais importante que determinará o curso futuro deste debate. Assim como os republicanos em 1974 só se decidiram em face de existir uma arma do crime para apoiar a destituição, o mesmo acontece com o sistema hoje.

A questão é se o caso da Ucrânia é essa arma do crime. Houve muitas alegações contra Trump que era suposto serem armas fumegantes – mas resultou que não eram. Em última instância, será o público, e não os políticos, quem decidirá o que realmente é uma arma do crime. E, se alguma for encontrada, o estado de ânimo do público mudaria em apoio ao procedimento de destituição. Reduziria o apoio a Trump para os 20 pontos ou menos. Isso mudaria o processo de tomada de decisões dos políticos de ambos os partidos. O que aconteceu com Nixon teve muitos antecessores, mas não foi senão quando as fitas foram divulgadas que a sua presidência colapsou. Também existem muitos antecessores de Trump, mas nenhum foi suficientemente convincente para causar uma mudança drástica nos eleitores. E, como em 1974, não são os eleitores democratas que são decisivos, mas os republicanos. Foi a mudança deles que libertou os senadores republicanos para mudarem de posição e garantirem a destituição de Nixon do cargo. Hoje, os democratas têm posições fixas e não podem remover Trump do cargo. Somente os republicanos podem, e os seus eleitores não estão convencidos.

Há dois aspetos que os processos de destituição de Nixon e Trump têm em comum. O primeiro é que a divisão social durante os dois eventos foi profunda. A segunda é que, por alguns anos antes do fim de Nixon, e antes deste momento para Trump, houve inúmeras afirmações de infrações passíveis de levar à destituição que alienaram a fação Nixon e dinamizaram os seus inimigos. Esse processo elevou a fasquia da condenação, porque tornou essencial a arma do crime. Tantas acusações surgiram, todas as quais acabaram por chegar a lugar nenhum, de tal modo que evidências incontestáveis – as fitas – se tornaram necessárias.

No que se refere à queixa atual contra Trump – de que ele tentou convencer o governo ucraniano a investigar Joe Biden – a minha opinião ou a de qualquer leitor realmente não importa. A chave é saber se essa acusação reduz drasticamente o seu apoio. Na era de Nixon, as fitas gravadas ultrapassaram todas as outras provas. A questão agora é que se haverá alguma coisa a aparecer que esgote e ultrapasse até à exaustão tudo o que até agora se disse neste caso. Se o apoio político de Trump permanecer, ele não será condenado. A maioria entende que o procedimento de destituição e a condenação são um processo político, não judicial, mas muitos não conseguem entender que isso não significa que sejam os políticos a decidir o que acontece. Os políticos querem ser reeleitos de modo que, por fim, o povo decidirá essa questão. E as pessoas vão decidir se a Ucrânia é uma arma do crime ou não.

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O autor: George Friedman é um analista geopolítico internacionalmente reconhecido e estrategista em assuntos internacionais e fundador e presidente da Geopolitical Futures. O Dr. Friedman é um autor best-seller do New York Times e o seu livro mais popular, The Next 100 Years, é mantido vivo pela presciência das suas previsões. Outros livros mais vendidos incluem Flashpoints: The Emerging Crisis in Europe, The Next Decade, America’s Secret War, The Future of War e The Intelligence Edge. Os seus livros foram traduzidos para mais de 20 idiomas. O Dr. Friedman informou várias organizações militares e governamentais nos Estados Unidos e no exterior e aparece regularmente como especialista em assuntos internacionais, política externa e inteligência nos principais meios de comunicação. Por quase 20 anos antes de renunciar em maio de 2015, o Dr. Friedman foi CEO e então presidente da Stratfor, uma empresa que fundou em 1996. Friedman recebeu o seu bacharelado pela City College da City University of the City University of New York e é doutor em Governação pela Cornell University.

 

 

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