A MTM Paraíso e a MTM Inferno para o Investimento Chinês e para a Despesa Pública dos EUA. Por Michael Pettis

Espuma dos dias MMT

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

A MTM Paraíso e a MTM Inferno para o Investimento Chinês e para a Despesa Pública dos EUA

michael pettis por Michael Pettis

Editado por Carnegie Michael Pettis  em 11 de outubro, 2019 (ver aqui)

 

Há condições sob as quais os governos podem criar dinheiro – ou dívida – sem receio de inflação ou de encargos excessivos com a dívida. Existem outras condições em que a criação de dívida ou de moeda pode levar à inflação e a problemas de balanço.

 

A moderna teoria monetária (MTM) não é muito discutida nas universidades chinesas, tanto quanto posso dizer, exceto por alguns dos meus amigos e antigos estudantes chineses que trabalham principalmente em bancos e na finança. Analistas no exterior muitas vezes afirmam que a China é, de alguma forma, a prova de que a MTM “funciona”, mas para mim e para a maioria dos meus amigos chineses, essa afirmação é ininteligível ou simplesmente errada.

Cada tarde de domingo, alguns dos mais brilhantes estudantes de matemática, finanças e economia da Universidade de Pequim convergem para o pátio da minha casa para um seminário informal sobre questões relacionadas com a dívida. Para a nossa primeira reunião do novo ano letivo, mandei-os ler sobre o Moderna Teoria Monetária e investigarem sobre os debates em torno da MTM para que pudéssemos saber como é que tudo isto se poderia aplicar à sua própria reflexão em economia.

A partir dessas leituras (incluindo uma peça de 1943 sobre “finança funcional” do economista Abba Lerner), assumimos que o principal contribuição da Moderna Teoria Monetária não é que a dívida não seja importante, como opiniões estereotipadas erradas parecem assumir, mas sim que os governos que emitem a sua própria moeda fiduciária não têm restrições de financiamento na medida em que não precisam emitir dívida ou elevar os impostos para gastar dinheiro. Eles simplesmente orçamentam as despesas e, em seguida, seguem em frente e gastam o dinheiro.

Há muita confusão sobre isto. Um artigo do Financial Times de janeiro de 2019 vem-nos  dizer:

“Os defensores da moderna teoria monetária argumentam que, para um país soberano com a sua própria moeda, não existe um nível inerentemente inaceitável de dívida pública – esse país não começa automaticamente a entrar em colapso quando a dívida atinge 90 por cento do PIB, ou mesmo 200 por cento do PIB. O país apropria-se do que acredita ser necessário para os programas internos, independentemente das suas receitas.”

Isto, no entanto, é quase certamente uma caricatura injusta da Moderna Teoria Monetária. Nesta apresentação do Financial Times assume-se que se um país aumenta a dívida para financiar a despesa pública até que a economia esteja a funcionar em plena capacidade, isso fará com que a relação dívida/PIB do país aumente. Mas se a despesa pública, direta ou indiretamente, fizer com que o investimento produtivo aumente de acordo com a dívida, esse tipo de despesa aumenta tanto a dívida quanto o PIB, de modo que nem a relação da dívida relativamente ao PIB nem a carga da dívida se alteram.

Só quando a moeda é obtida por empréstimo (ou pura e simplesmente criada do nada) e gasta de forma a não gerar aumento do PIB é que o peso da dívida aumenta. Por essa razão, um aumento do rácio dívida/PIB a médio prazo é quase uma prova prima facie de que o governo deve reduzir as suas despesas (a curto prazo, pode haver diferenças temporais entre o momento em que um investimento é feito e o momento em que começa a compensar). Isto também se aplica à inflação: se o governo “imprime dinheiro” para gastar em projetos que reduzam o excesso de capacidade, [ou seja que para uma dada produção aumentem a procura], ou que empreguem trabalhadores produtivamente, o resultado não será inflacionário na medida em que o aumento na procura causado pela impressão do dinheiro será acompanhado por um aumento na oferta.

O que a MTM realmente diz é que os governos devem emitir dívida [absorver moeda que está nas mãos dos agentes económicos] ou aumentar os impostos se for necessário para controlar o impacto económico potencialmente adverso da procura adicional criada pelo gasto do dinheiro adicional. Como diz Lerner:

“A primeira responsabilidade financeira do governo (uma vez que ninguém mais pode assumir essa responsabilidade) é manter o crescimento total de despesa no país em bens e serviços nem maior nem menor do que esse crescimento monetário que, a preços correntes, permitiria comprar todos os bens que é possível produzir. Se se permitir que a despesa total ultrapasse a produção global, haverá inflação, e se se permitir que a despesa se situe a abaixo disso, haverá desemprego. O governo pode aumentar a despesa total gastando mais consigo próprio ou reduzindo os impostos para que os contribuintes tenham mais dinheiro para gastar. Inversamente, pode reduzir a despesa total gastando menos consigo próprio ou aumentando os impostos para que os contribuintes tenham menos dinheiro para gastar. Por estes meios a despesa total pode ser mantida ao nível exigido, em que isto será suficiente para comprar os bens que podem ser produzidos por todos os que querem trabalhar, e isso sem qualquer dúvida não é suficiente para que haja  inflação, uma vez que para esta existir (a preços correntes)  é necessário que a procura seja superior ao que é possível produzir.”

Lerner ressalta que essa ideia, “como quase todas as descobertas importantes”, é muito simples (ainda que contraintuitiva), a ponto de que, quando os académicos a entendem, rejeitam-na muito frequentemente como sendo “simples lógica”. Ele prossegue explicando:

“Um corolário interessante, e para muitos chocante, é que a tributação nunca deve ser feita apenas porque o governo precisa fazer pagamentos em dinheiro. De acordo com os princípios da Finança Funcional, a tributação deve ser julgada apenas pelos seus efeitos. Os seus principais efeitos são dois: o contribuinte fica com menos dinheiro para gastar e o governo com mais dinheiro disponível O segundo efeito pode ser conseguido muito mais facilmente através da impressão do dinheiro do que o primeiro efeito e muito mais significativo. Por conseguinte, a tributação só deve ser imposta quando é desejável que os contribuintes tenham menos dinheiro para gastar, por exemplo, quando de outra forma gastariam o suficiente para gerar inflação”.

Parece ser aqui que reside grande parte da confusão. Uma das principais críticas à MTM é que esta parece implicar para algumas pessoas que os governos podem gastar em qualquer projeto que queiram sem se preocuparem com as consequências. Por extensão, estes críticos também assumem que, por esta razão, não existem limites efetivos ao endividamento público: a dívida pode sempre ser servida através da criação de moeda fiduciária adicional com o único objetivo de servir a dívida.

Para resolver estas várias objeções, o nosso seminário decidiu concentrar-se nas condições em que não existem restrições intrínsecas à despesa pública, um estado que pode ser chamado de paraíso da MTM. Também considerámos as condições em que existem restrições, caso em que os governos teriam de aumentar os impostos para equilibrar as despesas públicas. Para simplificar as coisas, decidimos que o governo poderia basicamente gastar o dinheiro de três maneiras:

1. Dar aos ricos : O governo pode financiar projetos que efetivamente dão dinheiro a empresas ou aos ricos, que, por uma questão de simplificação, podem ser definidos como entidades que consomem pouco ou nada de qualquer aumento incremental de rendimento e que, portanto, economizam a totalidade ou a maior parte desse aumento de rendimento. O governo pode fazê-lo reduzindo os impostos sobre as empresas e sobre os ricos, ou através de políticas que direta ou indiretamente aumentam o rendimento ou a riqueza dos ricos, tais como certos tipos de flexibilização quantitativa, que tendem a provocar um aumento dos preços dos ativos, a maioria dos quais são propriedade dos ricos.

2. Dar aos pobres : O governo pode financiar projetos que efetivamente dão dinheiro a famílias médias ou pobres, que podem ser definidas como entidades que consomem a maior parte de qualquer aumento incremental no seu rendimento e que, portanto, economizam pouco. O governo pode fazê-lo cortando impostos, financiando redes de segurança social, criando empregos, ou estabelecendo políticas de rendimento mínimo básico, e assim por diante.

3. Construir infraestruturas: o governo também pode gastar mais em infraestruturas.

Em todos estes três casos, o resultado final é o seguinte: se o governo pode gastar estes fundos adicionais de forma a que o PIB cresça mais rapidamente do que a dívida, os políticos não têm de se preocupar com a inflação desenfreada ou com a acumulação de dívida. Mas se esse dinheiro não for usado produtivamente, o oposto é verdadeiro. O fluxograma abaixo mostra como é que cada uma dessas formas de despesa pública pode ou não afetar a economia.

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DAR MAIS DINHEIRO AOS RICOS

Tomando o primeiro caso, assume-se que o governo implementa políticas orçamentais ou do banco central que efetivamente proporcionam rendimentos adicionais aos ricos, que (por definição) poupam todo ou a maior parte destes rendimentos adicionais. Estas políticas poderiam ser aplicadas em dois conjuntos diferentes de circunstâncias. No primeiro cenário, assume-se que existem restrições ao investimento do lado da oferta e que as taxas de juro são bastante elevadas. As empresas têm muitas oportunidades de investimento lucrativo que aumentariam a produtividade, por outras palavras, mas são incapazes de investir em muitas ou na maior parte delas porque o custo do capital excede o retorno esperado ajustado ao risco. Por outras palavras, o investimento desejado nesta economia excede o investimento real.

Nestas condições, criar dinheiro e transferi-lo para os ricos pode levar, no início, à inflação, dependendo da escassez de recursos e dos mercados de trabalho, mas este efeito deve ser temporário. Estas políticas aumentam a poupança e, consequentemente, reduzem o custo do capital. Isto faz com que as empresas invistam mais e a produtividade do trabalho aumente, pelo que o valor total dos bens e serviços produzidos na economia (PIB) também aumenta. Porque o PIB sobe mais do que a quantidade de dinheiro adicional criado, no final não há inflação e o valor adicional criado é mais do que suficiente para servir a dívida.

Essencialmente, o governo pode criar dinheiro do nada ou emitir dívida, por assim dizer, para financiar transferências para as empresas ou para os ricos sem se preocupar em financiar as despesas através de impostos ou empréstimos. Isto é o que se entende pela aplicação da MTM no céu.

Mas admitamos agora que não há restrições ao investimento do lado da oferta: este segundo cenário parece-se muito com o mundo de hoje, com taxas de juros baixas, procura fraca e empresas acumulando enormes quantidades de dinheiro para as quais eles podem encontrar pouco mais do que especular sobre recompras ou aquisições de ações. Por outras palavras, a razão pela qual as empresas não investem não é porque não conseguem aceder a capital a preços razoáveis, mas sim porque a procura dos seus produtos é demasiado fraca para justificar o investimento em capacidade adicional.

Se for esse o caso, o que acontece quando o governo empresta ou cria dinheiro e o passa para os ricos? Como discuti num texto publicado no blog em junho de 2017 [1], quando tais políticas são promulgadas sob tais condições, não há aumento correspondente no investimento porque a incapacidade de aceder à poupança nunca foi uma restrição ao investimento. Isso também significa que, numa economia fechada (ou em uma economia aberta cuja conta de capital, como a dos Estados Unidos, é determinada pelas condições externas), não pode haver aumento da poupança dentro da economia. Isso pode parecer estranho, já que a poupança dos ricos teria aumentado definitivamente, mas isso só significa que o aumento da poupança dos ricos teria que resultar em uma diminuição da poupança em outros lugares da economia. (Numa economia aberta, é claro, o aumento da poupança dos ricos sairia sob a forma de um défice da balança de capital).

Há muitas maneiras de que as poupanças numa outra parte da economia possam diminuir. Se o governo pedisse dinheiro emprestado, por exemplo, a diminuição correspondente da poupança poderia ser explicada por um aumento da dívida pública (que é apenas poupança negativa). Se, em vez disso, o banco central criasse a moeda e a utilizasse para comprar ativos, o consequente aumento dos preços dos ativos poderia criar um efeito riqueza que levaria as famílias a consumir uma parte maior do seu rendimento (e, por conseguinte, a poupar menos), ou poderia levar os mutuantes a baixar os seus padrões de crédito e encorajar um aumento da dívida das famílias. Ou se o aumento da poupança fluísse para o estrangeiro, seria acompanhado por um excedente da balança corrente, uma vez que alguns dos bens produzidos no país eram exportados. Como quer que aconteça, o ponto mais importante é que como o aumento da procura interna ou externa não é satisfeito por um aumento do valor dos bens e serviços produzidos, em última análise estas políticas quando adotadas nestas condições devem resultar numa inflação mais elevada, o que, por sua vez, reduziria o rendimento real das famílias para equilibrar o aumento da riqueza dos ricos.

Um segundo efeito adverso poderia facilmente ocorrer também. Porque esta política transferiria efetivamente a riqueza dos pobres para os ricos, haveria uma redução líquida do consumo. Numa economia fechada (ou numa economia que tem pouco ou nenhum controlo sobre a sua balança de capital, como expliquei num outro texto- veja aqui [2]), essa redução líquida resultaria numa nova diminuição do investimento empresarial e com ela, teríamos pois uma nova diminuição da poupança nacional, impulsionada por um aumento do desemprego, da dívida das famílias ou do défice orçamental.

Mais uma vez, criar dinheiro ou contrair empréstimos não aumenta a riqueza de um país, a menos que isso resulte direta ou indiretamente num aumento do investimento produtivo. Neste segundo cenário, criar dinheiro a partir do nada ou emitir dívida tomando empréstimos no mercado e transferir esse valor para as empresas ou para os ricos só redistribui a riqueza daqueles que não são beneficiados com as políticas governamentais para aqueles que são beneficiados com elas. Isso requer que o governo aumente os impostos para reduzir a procura e prevenir a inflação indesejada {garantindo assim essa transferência de riqueza].

 

DAR MAIS DINHEIRO AOS POBRES

No segundo caso, o governo adota políticas que, direta ou indiretamente, dão mais dinheiro às famílias médias ou pobres. Mais uma vez, estas políticas poderiam ser implementadas em dois cenários diferentes. Para o primeiro cenário, assume-se que a economia opera sob restrições do lado da procura. Isto significa que a economia sofre de uma procura fraca – consumo e investimento – e que existe uma falta de recursos e de mão-de-obra, ou ineficiências na economia.

Nestas circunstâncias, entregar dinheiro aos pobres aumenta diretamente o consumo (porque, por definição, eles consomem a maior parte do rendimento adicional) e indiretamente aumenta o investimento à medida que as empresas aumentam a capacidade para satisfazer esta procura adicional. Há várias iterações em que o aumento do rendimento familiar seria parcialmente consumido e parcialmente poupado, com a parcela poupada a financiar novos investimentos para servir o aumento do consumo, o que aumenta ainda mais o rendimento familiar e, ao fazê-lo, cria consumo e poupança adicionais, e assim por diante. A aritmética é básica (encontrada em qualquer livro introdutório de economia) pelo que não vale a pena entrar em mais desenvolvimentos, mas é fácil mostrar que, enquanto houver folga na economia, [tanto quanto o PIB potencial é superior ao PIB efetivo] tanto o investimento como a poupança irão aumentar à medida que o consumo for aumentado.

Mais uma vez, o resultado é a MTM no céu. O governo pode criar dinheiro ou emitir dívida, por assim dizer, para financiar transferências para os pobres, mas como a consequência é que o investimento cresce pelo menos tanto quanto a quantidade de dinheiro ou dívida emitida, não há inflação nem um aumento no peso da dívida do país (uma vez que a dívida cresce menos do que o PIB, que é um indicador da capacidade de serviço da dívida).

No segundo cenário, no entanto, assume-se que não existem restrições do lado da procura. Neste mundo, o crescimento é condicionado por elevados custos de capital, regulamentações ou outras restrições do lado da oferta. Nestas condições, a entrega de dinheiro aos pobres aumenta o consumo, mas como as restrições do lado da oferta não são abordadas, não há um impulso equivalente no investimento ou no PIB. Isto significa que, a preços correntes, a procura total de bens e serviços aumentou sem um aumento equivalente da oferta, pelo que o país deve sofrer de inflação ou, se ao contrário dos Estados Unidos, tiver controlo sobre a sua balança corrente, deve registar um défice comercial, que é equilibrado por saídas de capital equivalentes. A forma de evitar qualquer um destes resultados é que o governo aumente os impostos o suficiente para reduzir a procura agregada ao seu nível original.

 

GASTAR DINHEIRO EM INFRAESTRUTURAS

No terceiro caso, um governo poderia investir dinheiro na construção de novas infraestruturas. Mais uma vez, assuma que esta política poderia ser implementada num de dois cenários: ou há um espaço substancial para gastos com infraestrutura produtiva ou não há. No primeiro cenário, se o governo emite dívida ou imprime dinheiro para financiar despesas em infraestrutura produtiva, o resultado é o paraíso da MTM, e mais uma vez assim porque o valor total do PIB – ou seja, os bens e serviços produzidos pela economia – aumenta mais rapidamente do que o dinheiro criado, portanto não há inflação, e o PIB aumenta mais rapidamente do que a dívida criada, de modo que o peso da dívida do país não aumenta.

No segundo cenário, os gastos do governo em infraestrutura são em grande parte não produtivos e criam pouco valor para a economia – como é o caso da China de hoje. Desta vez, as consequências são um pouco mais complicadas porque podem envolver transferências de riqueza de um grupo para outro. Mas, em última análise, ou o dinheiro aumenta mais rapidamente do que o valor dos bens e serviços produzidos, caso em que há inflação, ou a dívida aumenta mais rapidamente do que a capacidade global de serviço da dívida do país.

Para um exemplo da MTM a funcionar sob o primeiro cenário, considere a China na década de 1990. A criação de dinheiro e a dívida foram principalmente para financiar as empresas e os ricos (já que as famílias comuns foram forçadas a subsidiar fortemente os custos dos empréstimos), forçando assim as taxas de poupança chinesas; os recursos foram então despejados no investimento produtivo, gerando crescimento suficiente para chegar aos pobres a uma taxa substancial. Talvez seja isso o que as pessoas querem dizer quando dizem que a China supostamente prova a validade da MTM. Parecia não haver restrições à capacidade do país de expandir a sua oferta de dinheiro diretamente ou através de aumentos na dívida, porque o PIB real cresceu pelo menos tão rapidamente quanto a oferta de dinheiro e a dívida, então houve pouca inflação e nenhum aumento na carga da dívida do país (uma vez que a dívida não cresceu mais rapidamente que o PIB).

Mais recentemente, porém, a China representa o segundo cenário. A criação de dinheiro ou dívida ainda vai principalmente para financiar empresas e ricos, mas restam poucas oportunidades de investimento produtivo. Embora o investimento ainda continue a crescer rapidamente, grande parte desse investimento é não produtivo e só aparece como aumento do PIB porque as entidades responsáveis pelo investimento não estão sujeitas a duras restrições orçamentais, de modo que nunca depreciam os maus investimentos nos seus livros. Assim sendo, a criação de dívida causa um aumento no peso da dívida do país, uma vez que a dívida aumenta muito mais rapidamente do que a capacidade de liquidar a serviço da dívida do país. Por causa da distribuição de rendimento, a criação de moeda aparece mais como inflação de preços de ativos do que como inflação de preços ao consumidor.

 

QUANDO É QUE OS AUMENTOS DE DINHEIRO OU DÍVIDAS IMPORTAM?

Como sempre na economia, isso depende das circunstâncias. É fácil considerar os casos em que o aumento da dívida ou a criação de moeda resulta num aumento equivalente ou superior do PIB total ou da capacidade de serviço da dívida. Nestes casos, no agregado, um aumento da dívida ou da moeda não tem importância na medida em que resulta numa maior riqueza e numa diminuição do grau de esforço da dívida. Também é fácil considerar os casos em que o aumento da dívida ou a criação de moeda não resulta num aumento equivalente da capacidade total de serviço da dívida. Nestes cenários, no agregado, isso importa porque o aumento da dívida ou da moeda resulta em menos riqueza devido à inflação e/ou a um aumento do grau de esforço da dívida.

Por uma questão de simplicidade, pode-se assumir que o aumento da dívida ou da criação de moeda não é matéria de preocupações relevantes sob as seguintes condições que caracterizam a MTM no céu:

– Quando isso envolve uma transferência de riqueza para os ricos ou para as empresas – de uma forma que estimule a poupança interna – numa economia com restrições de oferta e com elevados custos de capital (tipicamente, países em desenvolvimento);

– Quando envolve uma transferência de riqueza para os pobres numa economia com procura limitada e com muita folga ou ineficiência (a maioria das economias avançadas hoje em dia);

– Quando envolve a construção de infraestrutura necessária.

Dito isto, não quero ser demasiado apressado com o aumento dos níveis de dívida nominal. As condições e restrições do balanço patrimonial são importantes para o crescimento económico futuro de um país de pelo menos três maneiras não discutidas acima.

Primeiro, uma economia impulsionada pelo aumento da dívida tende a  ajustar-se de forma a incorporar sistematicamente fortes mecanismos de reação positivos ditos ainda de repercussão positivos (como explico aqui), o que afasta os balanços internos das suas estruturas ideais. Estes desajustamentos do balanço podem levar a uma alocação de recursos subótima e podem fazer com que o crescimento futuro abrande.

Em segundo lugar, níveis elevados de dívida aumentam diretamente a volatilidade dos ganhos e do rendimento, pelo que um país com mais dívida tem menos espaço para suportar choques temporários, mesmo que com mais dívida se tenham mais ativos que possam servir a dívida ao longo do tempo.

Em terceiro lugar, quando os níveis da dívida são suficientemente elevados e os balanços financeiros suficientemente frágeis para que haja incerteza sobre a forma como os custos futuros do serviço da dívida serão eventualmente afetados, os diferentes sectores da economia que poderão ser forçados a absorver os custos do serviço da dívida irão alterar o seu comportamento de formas concebidas para se protegerem. Como mostra a teoria da incerteza financeira, as formas pelas quais eles mudam o seu comportamento quase sempre reduzem o crescimento, aumentando ainda mais a fragilidade do balanço patrimonial, ou ambas as coisas.

Não está claro para mim que a pura criação de moeda sob as circunstâncias positivas citadas acima venha com problemas comparáveis [aos da emissão de dívida], então talvez isso signifique que os governos devam financiar transferências de rendimento ou investimentos produtivos que aumentem a riqueza principalmente através da criação de dinheiro, e não através de empréstimos. Isto sugere que os principais defensores da MTM estão certos quando dizem que os governos não contraem empréstimos nem aumentam os impostos para financiar as despesas. Em vez disso, eles simplesmente gastam. O objetivo de contrair empréstimos ou aumentar impostos nessas circunstâncias é contrariar o impacto que a MTM pode ter em alguns casos, mas não em todos.

Há, por outro lado, casos em que os governos podem simplesmente criar dinheiro ou contrair empréstimos sem efeitos negativos, ou seja, sem impacto inflacionário e sem aumento do peso da dívida. Como sempre na economia, o resultado depende das condições subjacentes.

Então, como é que estas ideias se aplicam ao mundo de hoje? Se assim o desejarem, os governos dos EUA e da Europa devem ser capazes de criar dinheiro ou de emitir dívida sem efeitos negativos se as receitas forem utilizadas para financiar as infra-estruturas necessárias ou para inverter a desigualdade de rendimentos, aumentando os rendimentos dos pobres e das classes médias. De qualquer forma, o investimento produtivo aumentaria mais rapidamente do que a dívida ou do que a oferta de dinheiro, assim como aumenta mais do que o valor total dos bens e serviços produzidos.

Quanto à China, a criação de dinheiro ou a emissão de dívida já não podem ser usados para financiar infra-estruturas porque os aumentos resultantes (em dinheiro ou dívida) não serão acompanhados por aumentos do PIB real. Pequim deveria, no entanto, ser capaz de criar dinheiro ou de emitir dívida sem efeitos negativos se os lucros fossem usados para reverter a desigualdade de rendimento, aumentando os rendimentos das classes mais desfavorecidas  e as classes médias.

 

NOTAS

[1] Texto publicado em A Viagem dos Argonautas em 30/10/2018 (ver aqui)

[2] Texto publicado em A Viagem dos Argonautas em 5 e 6/11/2018 (ver aqui e aqui)

 

________________________

O autor: Michael Pettis tem MBA em Finanças, pela Universidade de Columbia e Master em International Affairs, Desenvolvimento Económico, pela Universidade de Columbia. É membro senior não residente do Programa Carnegie Ásia sedeado em Pequim. Especialista em economia da China, Pettis é professor de finanças na Escola de Gestão Guanghua da Universidade de Pequim, onde se especializou em mercados financeiros da China. Entre 2002 e 2004, lecionou na Escola de Economia e Gestão da Universidade de Tsinghua e, entre 1992 e 2001, na Faculdade de Gestão da Universidade de Columbia.

É membro do Conselho Consultivo do Instituto de Estudos Latino Americanos da Universidade de Columbia, bem como do Conselho Consultivo do Reitor da School of Public and International Affairs.

Pettis trabalhou em Wall Street em investimento financeiro, mercados de capitais e financiamento de empresas desde 1987, quando se juntou à equipa de negociação de dívida soberana do Manufacturers Hanover (agora JPMorgan).

De 1996 a 2001, Pettis trabalhou no Bear Stearns, onde era director executivo das equipas dos mercados de capitais latino americanos e de gestão de passivos. Trabalhou também como sócio de uma loja de banca de negócios que se especializou na securitização de ativos latino americanos e no Credit Suisse First Boston, onde chefiou a equipa de negociação em mercados emergentes.

Além dos mercados de investimento e de capitais, Pettis esteve envolvido em serviços de consultadoria soberana, nomeadamente para o governo mexicano na privatização do seu sistema bancário, para a República da Macedónia na reestruturação da sua dívida bancária internacional, e para o ministro das finanças sul-coreano na reestruturação da dívida da banca comercial do país.

Anteriormente foi membro do Conselho de Diretores de ABC-CA Fund Management Company, uma joint venture sino–francesa sedeada em Xangai.

É autor de vários livros, nomeadamente The Great Rebalancing: Trade, Conflict, and the Perilous Road Ahead for the World Economy (Princeton University Press, 2013).

Fonte: http://carnegieendowment.org/experts/444

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