A crítica demolidora de Michael Pettis à teoria e à política económica neoliberal – 17. Será que a redução de impostos a favor dos ricos conduz a uma maior taxa de crescimento? Por Michael Pettis

egoista

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

17. Será que a redução de impostos a favor dos ricos conduz a uma maior taxa de crescimento?

michael pettis Por Michael Pettis

Publicado por Carnegie Michael Pettis em 26 de junho de 2017

 

As políticas que aumentam a desigualdade de rendimento podem, em alguns casos, levar a poupanças mais elevadas, a mais altos níveis de investimento e a um maior crescimento a longo prazo. Mas, em outros casos, tais políticas ou reduzem o crescimento e aumentam o desemprego ou forçam ao aumento do fardo da dívida. O que determina qual desses resultados finais se obtém depende de as poupanças serem ou não serem escassas e se correspondentemente têm constrangido ou não o investimento a realizar.

 

Alguma vez terá funcionado o lado trickle-down da economia pelo lado da oferta? Num artigo, no Financial Times do mês passado [21/05/2017], Rana Foroohar assinalou que o recente historial da economia dita de trickle-down pode não ser tremendamente admirável:

O argumento é que a economia trickle-down vai sempre, de alguma forma, magicamente começar a funcionar para reforçar o crescimento, mesmo que não haja nenhuma evidência que nos últimos 20 anos tenha sido este o caso. Os cortes de impostos em 2001 e 2003 durante a administração de George W Bush não alimentaram nenhum crescimento, e o mesmo se passou com os cortes da era de Obama.

Infelizmente, qualquer discussão económica sobre o tema rapidamente degenera no que é muitas vezes um debate político e não uma discussão sobre a economia da distribuição de rendimento. Qualquer um de nós ou está no campo dos que acreditam que a economia fica automaticamente melhor com as reduções dos impostos que beneficiam os ricos, ou está no campo oposto que rejeita a questão totalmente e assume-a como fazendo parte da economia voodoo. A discussão geralmente acaba por aqui.

Este é um tema importante e que pode ter um impacto substancial sobre as perspetivas de crescimento futuro para uma qualquer economia. A questão importa especialmente para os Estados Unidos, uma economia com um elevado nível de desigualdade de rendimentos, entre as mais altas do mundo, mais típica das economias em desenvolvimento do que de economias avançadas.

17 Será que a redução de impostos a favor dos ricos conduz a uma maior taxa de crescimento

N.T. Quadro retirado do relatório da OCDE citado por M. Pettis.

 

Mas, ao invés de ser um tema de resposta clara e imediata quando se trata dos Estados Unidos, eu diria que houve momentos em que o impacto económico da desigualdade de rendimento apoiou um crescimento a longo prazo como houve outras alturas em que funcionou como travão ao crescimento.

O artigo acima mencionado de Foroohar sublinha que “os americanos não se importam de pagar impostos“, mas pelo contrário importam-se se a tributação for injusta; os americanos são suficientemente pragmáticos, em geral, para considerarem as perspetivas de crescimento a longo prazo como relevantes na definição do que é e não é injusto. Uma das políticas que a administração Trump propôs — e políticas semelhantes foram propostas diretamente por quase todas as administrações republicanas desde Ronald Reagan e indiretamente talvez pela maioria das administrações democráticas desde Jimmy Carter — é cortar nos impostos sobre os muito ricos. As reformas de Hartz na Alemanha, em 2003-2005 tiveram um impacto semelhante, embora ao invés de reduzir os impostos sobre os ricos alemães, essas reformas impuseram um crescimento salarial lento em relação ao crescimento do PIB, impulsionando os lucros das empresas em cerca de 50 por cento. O efeito líquido tem sido bastante semelhante, e embora a desigualdade de rendimentos na Alemanha seja bastante baixa, provavelmente não é apenas uma coincidência que, nos últimos anos, a desigualdade de rendimentos se tenha agudizado muito mais rapidamente na Alemanha do que no resto da Europa.

O ponto-chave é que os ricos conservam uma parte maior do seu rendimento e consomem uma parte menor do que fazem os pobres. A transferência de $100 de lares pobres para famílias ricas provocaria imediatamente uma queda no consumo. Também provocaria um aumento imediato na poupança ex ante, mas, como iremos mostrar mais abaixo, se a poupança ex-post realmente sobe ou desce é muito mais complicado do que a maioria das pessoas poderia à primeira vista pensar.

O argumento a favor do corte de impostos sobre os muito ricos assenta sobre o impacto que isso tem sobre a poupança e o investimento e é então o seguinte: este corte de impostos sobre os mais ricos permite-lhes redirecionar o seu património para aumentos no investimento produtivo, e sendo esses investimentos realizados, eles subsequentemente aumentam a capacidade produtiva da economia. Porque a única maneira sustentável que o cidadão médio tem em qualquer país para pode ficar mais rico é que a produtividade do trabalhador aumente, o que, por sua vez, leva a maiores salários para todos, incluindo para os menos ricos.

Neste ensaio, mostrarei que nas economias em que as poupanças são escassas, e em que, consequentemente, sofrem com níveis de investimento inferiores ao que o mercado escolheria de outra forma, a desigualdade de rendimentos pode aumentar o crescimento a longo prazo. Quando as poupanças não são escassas, no entanto, a desigualdade de rendimentos resulta, a longo prazo, em menor crescimento e em desemprego mais elevado, embora isso possa ser temporariamente adiado pelo aumento do endividamento.

 

Investimento desejado e investimento efetivo

A fim de compreender as condições em que os cortes fiscais do lado da oferta para os ricos vão levar a mais crescimento ou a mais desemprego, temos de fazer uma distinção entre o investimento efetivo e investimento desejado. O investimento efetivo, tal como o seu nome implica, consiste simplesmente no nível de investimento atual, o investimento materialmente concretizado, que é feito, isto é, a soma do valor de todos os projetos de investimento que estão a ser financiados.

Em contrapartida, o investimento desejado consiste [também] em projetos de investimento que não foram financiados porque não havia capital disponível para os financiar. A chave aqui é a disponibilidade de financiamento, ou seja, se sim ou não as poupanças são escassas. Há muitos projetos potenciais no mundo para os quais as injeções de capital de investimento beneficiariam essas economias. Isso elevaria os níveis de produtividade para valores acima do que custa o financiamento desses investimentos, caso em que estes projetos seriam uma criação de riqueza e em que haveria ganhos positivos líquidos para essas economias.

Se esses projetos não foram implementados porque as poupanças são escassas e não há capital disponível para os financiar a um custo razoável, eles fazem parte do investimento desejado. Se, no entanto, estes projetos não foram implementados devido a outras razões- por exemplo, por oposição política, ou porque o seu valor consiste em externalidades que não podem ser realizadas pelos investidores, ou por outras razões semelhantes- eles não estão incluídos na categoria de investimento desejado.

Em alguns países, o investimento desejado excede substancialmente o investimento efetivo. Estes países são geralmente países em desenvolvimento com baixa credibilidade que têm necessidade de elevados níveis de investimento que não foram satisfeitos em virtude de as poupanças internas serem baixas e haver uma disponibilidade limitada de poupanças estrangeiras. Esta circunstância caracterizou os Estados Unidos durante uma grande parte do século XIX e hoje caracteriza a situação da maioria dos países em vias de desenvolvimento.

Noutros países, o investimento desejado está aproximadamente em consonância com o investimento efetivo. Este é o caso para a maioria das economias avançadas, em que a credibilidade é elevada e o acesso ao financiamento a custos razoáveis é relativamente automático, especialmente agora, quando o mundo está inundado com poupanças excedentárias e sofre de uma procura agregada limitada.

Finalmente, em alguns poucos países, o investimento efetivo pode exceder o investimento desejado. Estes são os países que seguiram o que eu chamei o modelo de desenvolvimento Gershenkron [1] em que a poupança é poupança forçada, a decisão de investimento é centralizada, e em que são mantidos elevados níveis de investimento durante muito tempo depois de uma determinada economia ter alcançado o seu nível de investimento ótimo. Este foi o caso no Japão na década de 1980, e talvez ainda hoje o seja, em certa medida, e é também o caso na China hoje.

 

O que acontece quando os impostos sobre os ricos são cortados?

Em qualquer economia, as duas principais fontes de procura são o consumo e o investimento. Há uma terceira fonte de procura, o excedente comercial, que é o excesso de consumo e de investimento estrangeiro relativamente à própria produção estrangeira, mas isso é geralmente eclipsado pelo consumo interno e investimento interno. Uma economia vai crescer de forma sustentável, principalmente se houver um crescimento sustentável no consumo interno e no investimento interno. O crescimento sustentável no consumo é em grande parte uma função de crescimento no rendimento das famílias.

O crescimento sustentável no investimento depende do crescimento no investimento desejado e do excesso, se existe algum, do investimento desejado sobre o investimento efetivo. O crescimento do consumo determina geralmente o crescimento no investimento do setor privado, por razões óbvias, de tal maneira que estes dois itens frequentemente crescem ou decrescem.

A consequência de um corte de impostos sobre os ricos é basicamente uma transferência de riqueza dos agregados familiares médios para as famílias ricas, e se é para gerar um maior crescimento esta transferência deve então, e de forma sustentada, gerar um crescimento da procura, seja na forma de mais elevado consumo, de mais elevado investimento ou sob a forma de aumento sustentado nestes dois itens simultaneamente.

  1. Se os impostos sobre os ricos são cortados sem nenhuma mudança nas despesas públicas, o resultado líquido é que os ricos pagam uma parcela menor das despesas totais, e assim – com o corte dos seus impostos- a riqueza é transferida efetivamente das famílias médias ou mesmo pobres para os ricos.
  2. Porque quanto mais rico for o agregado familiar, menor é a parcela do seu consumo em relação aos seus rendimentos, o impacto líquido de tal transferência é que o consumo global desce em simultâneo com a descida da parcela do consumo no PIB. Como a parcela do consumo no PIB diminui, por definição, a parcela da poupança relativamente ao PIB deve aumentar.
  3. Mas a poupança total não tem obrigatoriamente que subir. Aqui está uma das grandes confusões que tende a estragar quase todas as discussões sobre o impacto dos cortes de impostos sobre os ricos. Uma diminuição do consumo só será acompanhada de um aumento da poupança se o PIB permanecer constante, mas o PIB só se manterá constante se uma diminuição do consumo corresponder, dólar por dólar, com um aumento do investimento. A poupança total só aumenta, por outras palavras, se o investimento total aumentar. [2]
  4. Mas aumentará o investimento? Verifica-se que, se o investimento desejado exceder o investimento efetivo, as poupanças adicionais serão emprestadas e investidas, e o investimento vai subir pela mesma quantidade pela qual diminui o consumo. O efeito líquido é converter a procura de bens de consumo em procura de bens de investimento, de tal modo que a procura agregada permaneça constante. Consequentemente, não há redução do PIB atual, o que significa que a poupança aumenta [e está materializada nos bens de investimento].
  5. Como o consumo é transferido para o investimento, os padrões de vida atuais declinam para os agregados familiares comuns, mas os padrões de vida futuros sobem tanto quanto um investimento maior conduz ao crescimento mais rápido da produtividade. Por outras palavras, ao princípio, as famílias comuns e as famílias pobres ficam em pior situação e as famílias ricas ficam em melhor situação, mas quando os benefícios de um maior investimento são alcançados, a riqueza escorre das famílias mais ricas para as famílias comuns e para as famílias pobres, o que acaba por levar a uma situação em que todos ficam em melhor situação [3], [mesmo que os ricos melhorem mais que as famílias comuns ou as pobres]
  6. Mas isto não é necessariamente o que acontece. Se o investimento desejado está em consonância com o investimento real, a existência de um nível superior de poupança ex ante não vai aumentar o investimento, porque as empresas já investiram tudo o que queriam investir. Se for esse o caso, o investimento não vai aumentar, exceto temporariamente na forma de investimento indesejado como aumentos de inventário (um menor consumo para a mesma produção deixa mercadorias por vender, o que faz esta situação parecer-se à primeira vista como se estivesse a ocorrer o que se explicou no ponto 4 acima).
  7. Isto significa que a procura em bens de consumo não é convertida em procura de bens de investimento (exceto, talvez, temporariamente), e diminui a procura total, levando assim o PIB a descer, juntamente com a descida da procura agregada. Embora haja neste caso um declínio no consumo, este não se traduz em nenhum aumento proporcional na poupança.
  8. Mas os ricos poupam mais do que os pobres, então como é possível que não haja aumento na poupança total, se houver uma transferência de riqueza de lares médios para os ricos? A poupança dos ricos definitivamente subiu.
  9. Mas a poupança total não sobe porque deve acontecer alguma coisa para reduzir as poupanças algures na economia. Como o consumo diminui, aqueles que produzem bens de consumo e serviços devem cortar na produção, e fazem-no, ou seja, têm de despedir trabalhadores. Estes trabalhadores mudam de uma situação de poupança zero ou de poupanças positivas para a situação de poupança negativa [dito em linguagem técnica, o desentesouramento] de modo que a redução na poupança dos novos desempregados contraria o aumento da poupança dos ricos.
  10. Há três coisas que podem interferir temporariamente neste processo. Em primeiro lugar, como o consumo cai, e antes que as empresas que produzem os bens de consumo e serviços diminuam a produção e despeçam trabalhadores, estas veem os inventários a aumentar ou os lucros a baixar. O aumento dos inventários provoca um aumento no investimento (investimento não desejado) o que à primeira vista se parece com os pontos número 4 e número 6, como se estes se tenham verificado. Mas, como os lucros em declínio reduzem as poupanças das empresas, estas reduções irão contrariar o aumento da poupança dos ricos.
  11. Em segundo lugar, a riqueza adicional dos ricos derrama-se sobre os mercados imobiliários e gera um crescimento especulativo dos bens imobiliários. Isto causa um aumento no desenvolvimento deste setor económico. Em tal caso, o investimento sobe temporariamente mas em conjunto com a dívida e, de novo, à primeira vista parece estar a ocorrer o que se descreveu no ponto 4.
  12. Em terceiro lugar, a riqueza adicional dos ricos derrama-se no sistema bancário e os bancos respondem baixando as taxas de empréstimo e baixando também os requisitos para concessão de empréstimos às famílias. As famílias com maior apetência pelo risco ou mais otimistas que anteriormente não tinham podido obter empréstimos para o consumo são agora capazes de o fazer, e assim o consumo não diminui, mesmo que o dinheiro seja transferido de lares médios para os ricos. Nesse caso, a procura total mantém-se inalterada. Não há, consequentemente, nenhuma redução do PIB, o que significa que a poupança dos ricos aumentou tanto quanto a poupança das famílias comuns ou pobres diminuiu e o PIB é mantido através do aumento da dívida.
  13. Em resumo, se o investimento desejado exceder o investimento efetivo, as transferências das famílias ordinárias e pobres para as famílias ricas levarão imediatamente o investimento a subir à custa do consumo, da mesma forma que caiem os níveis de vida destes grupos sociais. Mas a economia global aumentará a sua produção total de bens e serviços e, dependendo de como o rendimento mais elevado futuro é distribuído, as famílias ordinárias e pobres poderão eventualmente vir a usufruir de melhores níveis de rendimento e de consumo.
  14. Se o investimento desejado está em linha com o investimento efetivo, então o investimento não vai aumentar de forma sustentável. Em primeiro lugar, ou o consumo global não vai cair porque se dá entretanto um aumento no consumo possibilitado por um maior endividamento que irá contrariar a queda de rendimento disponível entre as famílias ordinárias e pobres, ou o investimento global vai aumentar por causa de um aumento temporário no investimento improdutivo – ou seja, nos inventários indesejados ou no desenvolvimento excessivo do setor imobiliário — implicando qualquer uma destas vias também um aumento da dívida. Mais cedo ou mais tarde, no entanto, o desemprego vai aumentar, de tal forma que quando o consumo cai, este não é substituído por um investimento mais elevado, mas é acomodado por um PIB inferior. As poupanças totais permanecerão inalteradas porque a poupança mais elevada dos ricos será contrabalançada pelas mais baixas poupanças dos desempregados.
  15. Tenho discutido como é que as balanças de transações correntes e a de capital levam as poupanças a ajustarem-se e as consequências económicas da desigualdade de rendimento no meu livro, The Great Rebalancing, e em vários dos textos editados neste blog.

 

O investimento desejado excede o investimento efetivo

Quando se trata de determinar se sim ou não os cortes de impostos pelo lado da oferta beneficiam a economia, a chave para responder a esta questão está na relação entre o investimento desejado e investimento efetivo. Por alguma razão, a maioria dos participantes do debate não conseguem entender que esta é a chave para se saber se sim ou se não, as políticas que forçam ao aumento da taxa de poupança beneficiam uma economia, mas a lógica é bastante clara. Se o investimento desejado exceder o investimento efetivo, a economia dita de trickle-down funciona, e eventualmente todos poderão beneficiar de cortes de impostos a favor dos ricos, porque eles levam a um aumento no investimento que conduz à melhoria da produtividade que garante que o crescimento do PIB no futuro vai ser mais alto do que de outra maneira o seria.

Este foi o caso nos Estados Unidos durante grande parte do século XIX e é geralmente verdade para as economias em desenvolvimento com necessidades de investimento elevado e de baixa poupança. Os Estados Unidos no século XIX podem ser pensados como fazendo parte de um único sistema que igualmente incluía a Grã-Bretanha (os Países Baixos e a França em menor extensão). A significativa desigualdade de rendimento na Grã-Bretanha não levou a um aumento correspondente no investimento nacional britânico, mas, como o excesso de poupanças fluiu para os Estados Unidos, isto levou a níveis de investimento mais elevados nos Estados Unidos, um país com substanciais necessidades de investimento e com poupanças insuficientes.

Os Estados Unidos beneficiaram-se, é claro, porque foram capazes de aumentar o seu investimento produtivo para níveis muito mais elevados do que poderiam ter feito sem estas poupanças externas, ou seja, se utilizassem apenas a poupança interna. Os britânicos beneficiaram porque a desigualdade de rendimento não resultou em maior desemprego ou em maior endividamento, mas sim num mais elevado excedente comercial (uma vez que a exportação de capital é o mesmo que a de importação procura externa).

 

O investimento desejado está em linha com o investimento efetivo

Se o investimento desejado está em linha com o investimento efetivo, no entanto, a maior poupança ex ante dos ricos não leva a uma maior produtividade, não leva a uma maior taxa de crescimento nem mesmo leva a um aumento da riqueza que eventualmente poderia escorrer a favor de todas as famílias se houvesse aumento do PIB, o que não há. Temporariamente pode conduzir a que não haja nenhuma mudança no PIB enquanto os aumentos não produtivos do investimento (principalmente na forma de aumento de existências) ou os aumentos no consumo possibilitados por um maior endividamento mantiverem o consumo total inalterado. Mas de qualquer forma, o PIB só pode ser mantido com um aumento insustentável da carga da dívida e, a longo prazo, o crescimento do PIB deve cair.

Nesse caso, em vez de aplicar reduções de impostos para as famílias ricas ou outras políticas que aumentam a desigualdade de rendimento, a economia fica em melhor posição com a situação inversa. Se a riqueza for transferida das famílias ricas para as famílias comuns e pobres, o consumo aumentará sem uma redução correspondente no investimento, porque os trabalhadores desempregados serão colocados de volta ao trabalho, ou o consumo permanecerá constante, mas já não será alimentado por um aumento na carga da dívida. Por outras palavras, ou o PIB aumenta e a riqueza realmente escorre para cima [dos mais pobres ou das famílias comuns para os mais ricos] ou, então mantém-se constante mas sem um aumento correspondente do peso da dívida.

A propósito, é importante não ignorar o impacto do consumo mais elevado no investimento. À medida que o consumo sobe, resulta que o investimento desejado irá aumentar também, uma vez que as empresas devem produzir mais bens e serviços para satisfazer a maior procura pelos seus produtos. Nesse caso, o crescimento do PIB aumentará ainda mais, uma vez que o aumento do PIB não é totalmente impulsionado por um aumento do consumo. Como o rendimento das famílias comuns e pobres sobe, isto significa que parte deste aumento será aplicado em mais consumo, mas parte dele será também aplicado em mais investimento, o que por sua vez vai aumentar a produtividade.

Vimos como isso aconteceu na Alemanha, ou melhor, vimos como uma redução no consumo pode realmente fazer com que o investimento diminua, e não com que ele suba. Depois de as reformas laborais de 2003-2005 terem levado efetivamente à redução do peso dos rendimentos dos agregados familiares no PIB o que se dá a favor dos lucros empresariais, as poupanças alemãs aumentaram. Mas isso não aconteceu porque as poupanças ex-ante mais altas tenham sido canalizadas para um investimento mais elevado, mas sim porque elas foram exportadas para a Europa periférica, de modo que a Alemanha — que até então estava a ter défices da balança corrente — começou a ter excedentes cuja dimensão atingiu níveis que eram historicamente sem precedentes. Na verdade, como a parte de poupança alemã no PIB aumentou, a parte de investimento alemão no PIB realmente declinou uma vez que as empresas alemãs responderam ao menor consumo interno com menor investimento do setor privado.

Foi por esta razão que o brilhante Presidente do FED, Marriner Eccles, no tempo de Franklin Delano Roosevelt, um multimilionário que se vez à sua própria custa, insistiu na década de 1930 que a riqueza tinha de ser redistribuída de cima para baixo. Ele não defendeu esta política porque queria dar a sua riqueza aos pobres, mas sim porque ele queria mantê-la. Esta é a mesma razão porque Warren Buffet também quer reverter a desigualdade de rendimento. É muito melhor possuir uma fábrica, insistia Eccles, e Buffett provavelmente concordaria com ele, quando as pessoas estão ansiosas para comprar as coisas que produz e podem ter recursos suficientes para o fazer, do que quando as pessoas não dispõem de recursos para tal. Durante o seu testemunho de 1933 ao Congresso, Eccles citou, em sinal de aprovação, um economista não identificado, provavelmente William Trufant Foster:

É absolutamente impossível, tal como este país tem repetidamente demonstrado, que os ricos consigam poupar tanto quanto têm tentado poupar, e que poupem tudo o que valha a pena poupar. [Ao quererem poupar tanto quanto têm tentado poupar] eles podem preservar fábricas paradas e carruagens de caminhos-de-ferro inúteis; podem preservar edifícios de escritórios vazios e bancos encerrados; podem preservar documentos comprovativos de empréstimos estrangeiros; mas enquanto classe não conseguem preservar nada que valha a pena poupar, para além do que se torna rentável pelo aumento das compras dos consumidores.

É no próprio interesse dos ricos, para os proteger das consequências da sua própria insensatez – que lhes devemos tirar um montante suficiente dos seus excedentes para permitir que os consumidores consumam e para que as empresas possam operar lucrativamente.

 

O investimento efetivo ultrapassa o investimento desejado

Há casos em que o investimento efetivo excede o investimento desejado, por estranho que pareça. A China, como assinalei acima, é o caso mais óbvio por causa de sua dependência de aumentos massivos de investimento para gerar uma procura interna suficiente de modo a manter a economia a funcionar, mas há outros exemplos.

Isto geralmente significa que o investimento desde há muito que deixou de ser produtivo e está a ser desperdiçado -e numa grande escala, que pode muito bem ser sem precedentes no caso da China. Quando o investimento efetivo excede o investimento desejado, é de vital importância reduzir o crescimento do investimento, e o mais rapidamente possível, de modo a poder evitar que a procura caia e o desemprego dispare, devendo-se incentivar o consumo o mais rapidamente possível. Isto é exatamente o que significa reequilibrar no contexto de China.

 

Conclusão

A economia trickle-down realmente tanto pode efetivamente funcionar como pode funcionar o seu oposto, a economia trickle-up, em que é o corte nas poupanças dos ricos a favor das famílias comuns ou pobres que fará com que sejam todos a beneficiar, dependendo das condições subjacentes que não são difíceis de especificar. A chave é a relação entre investimento desejado e investimento efetivo. Quando o primeiro excede o último, as políticas que aumentam a desigualdade de rendimento geralmente levam as poupanças a crescer e a despesa desloca-se dos bens de consumo para os bens de investimento; Isso leva a um crescimento futuro mais elevado que, eventualmente, mais do que compensa as famílias comuns e pobres pelo acréscimo da desigualdade de rendimento.

Quando o investimento desejado está genericamente em linha com o investimento efetivo, no entanto, não há nenhum efeito trickle-down. As políticas que aumentam a desigualdade de rendimentos devem permanentemente diminuir o crescimento a longo prazo, embora, a curto prazo, o crescimento mais baixo possa ser adiado por um aumento na carga da dívida.

Em economias avançadas, como são as dos Estados Unidos e da Europa, não há nenhum constrangimento da poupança sobre o investimento desejado, de modo que aumentar a desigualdade de rendimento só pode resultar em maior dívida ou maior desemprego e em crescimento mais lento. É apenas nos países em desenvolvimento que a desigualdade de rendimento pode impulsionar o crescimento, embora em países que têm prosseguido a aplicação do modelo Gershenkron de forçar a poupança interna, como é o caso da China, o investimento efetivo pode exceder substancialmente o investimento desejado. Isso faz com que a redução da desigualdade de rendimento ou a canalização de riqueza do Estado a favor das famílias comuns e das famílias pobres seja uma questão urgente.

 

MICHAEL PETTIS, Carnegie Endowment,  Does Cutting Taxes on the Wealthy Lead to Greater Growth?. Texto disponível em: http://carnegieendowment.org/chinafinancialmarkets/71359

 

Notas

[1] Nota de tradutor. Num outro texto diz-nos Michael Petis  a propósito da China: “Como os muitos exemplos anteriores de milagres de crescimento impulsionado pelo investimento, a China embarcou num programa para resolver as principais limitações identificadas por Alexander Gershenkron na década de 1950 e 1960 como condicionantes do crescimento nas economias não desenvolvidas : a) poupanças  insuficientes para financiar necessidades de investimento interno, que teve de ser resolvido por políticas que constrangiam o crescimento do consumo, restringindo o crescimento dos rendimentos familiares, e b) o fracasso generalizado do setor privado para se empenhar em investimentos produtivos, talvez por causa das incertezas jurídicas  e da sua incapacidade em  captar muitas das externalidades associadas a esses investimentos, o que poderia ser ultrapassado com o Estado a identificar o investimento necessário e a controlar e a alocar as poupanças  que foram gerados pela imposição  do condicionalismo  sobre  a  poupança.”

[2] Nota do Tradutor. Na nossa opinião, Michael Petis assume aqui uma posição idêntica à de Lautenbach, de que é o investimento que determina a poupança quando nos diz que a “poupança total só aumenta, por outras palavras, se o investimento total aumentar”. Aqui o autor refere-se à poupança ex-post.

[3] Nota do Tradutor. Isto confirmaria assim o aforisma de Alan Blinder, segundo o qual “uma maré que cresce levanta todos os barcos”.

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