A crítica demolidora de Michael Pettis à teoria e à política económica neoliberal – 22. O défice comercial dos EUA não é provocado pelo baixo nível de poupança nos EUA (2ª parte-conclusão). Por Michael Pettis

egoista

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

22. O défice comercial dos EUA não é provocado pelo baixo nível de poupança nos EUA (2ª parte-conclusão)

michael pettis Por Michael Pettis

Publicado por Carnegie Michael Pettis em 8 de agosto de 2018

 

Será que um aumento da poupança dos EUA levará o investimento a aumentar?

Para colocar a questão em termos mais simples, assumamos por um momento que os estrangeiros têm $100 como poupança excedentária que eles decidiram investir nos Estados Unidos. Obviamente, isso cria um excedente na balança de capital [entrada de capital] dos EUA e no montante de $100 e um défice correspondente na balança corrente de $100 [3]; Isso também requer que o investimento americano exceda a poupança americana exatamente de $100.

O que aconteceria se, como propõe Stiglitz, Washington implementasse políticas projetadas para aumentar as poupanças dos EUA em, digamos, $20? Se os estrangeiros continuassem a direcionar $100 do seu excesso de poupança para adquirirem ativos dos EUA, a diferença entre o investimento dos EUA e a poupança dos EUA não cairia para $80, como Stiglitz supõe. Esta diferença ainda permaneceria em $100, porque essa diferença é determinada pela decisão do exterior de investir $100 nos Estados Unidos.

Como é possível que a poupança aumente sem se contrair a diferença entre investimento e poupança? Acontece que se Washington fosse implementar políticas projetadas para aumentar a poupança interna dos EUA em $20, e se a diferença entre investimento e poupança permanecesse em $100, existem basicamente duas maneiras pelas quais as novas políticas poderiam ser acomodadas (ou alguma combinação das duas):

  1. No primeiro caso, o investimento americano subiria de $20 dado que os americanos tirariam proveito da maior poupança nacional para aumentar o investimento interno. Isto seria verdade se os Estados Unidos fosse um país em desenvolvimento em que o investimento desejado excederia o investimento real, e um país limitado por poupanças internas e externas insuficientes. Nesse caso, as poupanças e os investimentos aumentariam em $20, e o défice da balança corrente manter-se-ia inalterado.
  2. Mas no segundo caso, se as poupanças são já abundantes e as taxas de juro são baixas, na medida em que todo o investimento desejado foi financiado, o investimento dos Estados Unidos não iria aumentar. Se a diferença entre o investimento americano e a poupança interna permanece inalterada (e o investimento não sobe), então as poupanças não podem aumentar. Isto significa que as políticas projetadas para aumentar o nível de poupança dos EUA em $20 podem somente fazer com que as poupanças aumentem $20 numa parte da economia e simultaneamente levar a que a poupança de uma outra parte diminua exatamente na mesma quantidade.

Esta é a parte complicada de que quase nunca se fala. As políticas destinadas a aumentar a poupança só o farão se a poupança adicional financiar investimento adicional ou for exportada para o estrangeiro. Caso contrário, estas políticas simplesmente levam a que as poupanças subam num setor da economia e diminuam num qualquer outro, como expliquei em maio de 2017 num texto intitulado “Porque é que um excesso de poupança não aumenta a poupança” [4].

Há dois pontos importantes a assinalar aqui. Primeiro, se o excedente da balança de capitais dos EUA for determinado por condições no exterior — que é quase certamente o caso — as políticas projetadas para aumentar a poupança dos EUA não terão nenhum impacto sobre o défice comercial dos EUA. Isto porque (contrariamente à opinião convencional), no mundo de hoje, a balança de capital impulsiona a balança comercial, e não o contrário. Novamente, isto pode parecer contra intuitivo mas eu expliquei porque razão este deve ser o caso num texto de fevereiro de 2017 intitulado “Estará Peter Navarro errado sobre o comércio internacional?”[5]

Em segundo lugar, isto não significa que as políticas projetadas para aumentar as poupanças nos EUA não terão qualquer impacto na economia. O que importa é se estas políticas resultam ou não num investimento mais elevado. Se o fizerem, a economia dos EUA fica provavelmente melhor. Esta é a economia básica pelo lado da oferta. Mas se estas políticas não resultam num investimento mais elevado, então é quase certo que a economia dos Estados Unidos ficará pior do que estava.

Antes de explicar porque é que estas políticas deixariam a economia dos EUA em pior situação do que antes, deixem-me explicar porque é que é improvável que o investimento venha a aumentar. Num mundo caracterizado por excesso de poupança, é pouco provável que exista uma quantidade significativa de investimento por realizar nos EUA por falta de poupança. Os Estados Unidos precisam de investir em infraestruturas, com certeza, mas a sua incapacidade em fazê-lo é política, não por falta de capitais. Na verdade, o capital está facilmente disponível para qualquer mutuário americano credível (e até para alguns não credíveis) com as taxas de juro mais baixas da história, nada menos do que isso. E, no entanto, ao invés de investir massivamente em projetos produtivos, as empresas americanas (e as da maioria das economias avançadas) recusam levantar dinheiro nos mercados de capitais para investir e, em vez disso, estão sentadas sobre montes de dinheiro para o qual elas parecem incapazes de encontrar utilização produtiva.

 

Aumentar a poupança americana significa maior desemprego ou mais dívida

É por isso que é provável que as políticas destinadas a aumentar as poupanças dos EUA deixem a economia do país em pior situação. Se Washington fosse cortar o défice orçamental ou reduzir os impostos sobre os ricos, de modo a aumentar a desigualdade de rendimento, o resultado não seria nem um maior nível de investimento interno (como o afirmam os defensores da economia pelo lado da oferta) nem um défice da balança corrente menor (como diz Stiglitz). O resultado seria um desemprego mais elevado ou uma dívida mais elevada.

Porquê? Voltemos ao exemplo anterior. Suponha que Washington põe em prática políticas projetadas para aumentar a poupança dos EUA em $20. Se os estrangeiros ou as condições no exterior determinam o excedente da balança de capitais dos EUA, não haverá redução no défice comercial dos EUA. Vivendo num mundo de poupanças em excesso significa que não há nenhuma procura de capitais não satisfeita para aplicar em investimento produtivo adicional americano que poderia, teoricamente, ser satisfeita pela existência de um aumento potencial $20 na poupança, e se não há nenhuma procura de capitais não satisfeita para investimento isso significa que o investimento não pode aumentar.

Mas a diferença entre investimento e poupança deve permanecer inalterada (porque não houve alteração na quantidade de dinheiro que os estrangeiros investiram nos Estados Unidos). Sendo este o caso, as políticas projetadas para aumentar a poupança dos EUA em $20 inevitavelmente só podem fazer com que as poupanças numa parte da economia aumentem em $20 ao mesmo tempo que numa outra parte da economia geram uma diminuição da poupança exatamente do mesmo montante. A poupança nacional como um todo não pode aumentar se o défice comercial não se contrai ou se o investimento não aumenta.

Como é que podem as políticas que causam um aumento $20 na poupança americana num setor da economia provocarem igualmente uma diminuição de $20 de poupanças num algum outro setor da economia? Discuti esta questão já antes, talvez mais extensivamente num texto editado em maio de 2017 (vd. nota 4). Em poucas palavras, essas políticas podem resultar num aumento do desemprego, o que reduz a poupança interna ou então as políticas praticadas podem aumentar a dívida das famílias, reduzindo as taxas de juros, gerando a expansão de crédito ou levando à criação de efeitos de riqueza.

Este é o ponto principal que espero conseguir explicar aqui. As políticas que Washington implementaria para tentar aumentar as taxas de poupança americanas podem ter efeitos muito diferentes sobre a economia americana, alguns benignos, mas alguns muito prejudiciais. O resultado depende das condições subjacentes que estão implícitas nas hipóteses que estão por detrás do modelo de balança de pagamentos que utilizamos. Podemos resumir de um modo geral as hipóteses implícitas e suas consequências da seguinte forma:

  1. Se os estrangeiros exportaram capital para os Estados Unidos principalmente para financiar o défice da balança comercial americana, as políticas projetadas para aumentar a poupança americana fariam com que o défice comercial americano se contraia [6].
  2. Se os estrangeiros exportam o capital para os Estados Unidos principalmente para aplicarem o seu excesso de poupanças internas, e se o investimento desejado nos Estados Unidos exceder o investimento real, as políticas projetadas para aumentar o nível de poupança nos EUA farão com que o investimento americano aumente mas não terá nenhum impacto no défice comercial.
  3. Se os estrangeiros exportam capital para os Estados Unidos, principalmente para aplicarem o seu excesso de poupanças internas, e se não há escassez de capital nos Estados Unidos, o que significa que o investimento desejado no país está amplamente em consonância com o investimento efetivo, as políticas projetadas para aumentar a poupança nos EUA não terão nenhum impacto sobre o défice comercial, mas irão causar um aumento do desemprego nos Estados Unidos ou um aumento da dívida.

 

O que pode Washington fazer?

Então, quais são as implicações políticas se Washington encara com seriedade a redução do défice da balança corrente? Mais uma vez, depende de quais são as condições subjacentes que se aplicam à situação económica existente.

  1. Se os estrangeiros exportaram o capital para os Estados Unidos principalmente para financiar o défice comercial americano, Washington deve aplicar políticas que forçam ao aumento da taxa de poupança interna se quer reduzir o défice comercial.
  2. Mas se os estrangeiros exportam o capital para os Estados Unidos principalmente para aplicação das suas poupanças internas excedentárias, Washington deve aplicar políticas que tornem mais difícil que os estrangeiros coloquem o excesso das suas poupanças nos Estados Unidos ou políticas que tornem mais fácil aos americanos reenviar estes fluxos para o exterior. Somente reduzindo os fluxos líquidos de capital estrangeiro é que Washington será capaz de reduzir o défice comercial. (Uma via para que Washington possa ser capaz de reduzir os fluxos de capital estrangeiro seria exigir que os bancos centrais deixem de acumular dólares nas suas reservas, mas sim que acumulem uma moeda sintética que seja apoiado por todas as principais moedas globais – talvez mesmo os Direitos de Saque Especiais (SDR) do Fundo Monetário Internacional.)

Se tenho razão, então não é certo que os Estados Unidos tenham um défice da balança corrente porque os americanos poupam muito pouco. É exatamente o contrário: os americanos economizam muito pouco porque os Estados Unidos têm um défice de balança corrente ou porque têm um excedente na balança de capital: as entradas de capital estrangeiro deprimem automaticamente a poupança americana.

Tão contra intuitiva quanto esta conclusão possa parecer, esta é a implicação de pressupostos muito plausíveis sobre o modo como o mundo funciona. A razão pela qual a maioria dos economistas não estão conscientes disso mesmo é simplesmente porque eles não tornaram explícitas as hipóteses que estão subjacentes nos modelos que utilizam. Consequentemente, não reconheceram como é que as mudanças nos mercados globais tornaram obsoletos os seus modelos.

 

Versão original de The U.S. Trade Deficit Isn’t Caused by Low American Savings em http://carnegieendowment.org/chinafinancialmarkets/77009

Versão portuguesa de The U.S. Trade Deficit Isn’t Caused by Low American Savings

Notas

[3] Nota de tradutor. Tomemos uma situação no início de um período a que chamos de t1 e em que vai haver investimento direto estrangeiro nos USA. Confrontemos então o início e o fim do período já com o investimento estrangeiro materializado para aumentar a produção, aumento este que se produzirá a partir do período t2 nos USA.

Suponhamos que a Toyota, antecipando 500 milhões de lucros no Japão, contrai um empréstimo no Japão desse montante junto da banca a fim de investir nos USA. O banco concede-lhe um crédito desse montante em ienes que são depois trocados em dólares.

Este dinheiro, antecipação dos seus lucros no período é investimento no início de t1 nos Estados Unidos e isto significa dinheiro feito a partir de nada (thin air) a transformar-se em capital produtivo. Considere-se tudo o resto constante.

O investimento americano e feito por americanos é, por hipótese, igual à poupança americana. Neste caso a balança de capitais regista uma entrada de 500 milhões. O investimento total na América aumenta de 500 milhões aos quais não corresponde nenhuma poupança americana americano.

Vejamos o que se passa com a relação (S-I). Esta diferença assumia o valor zero no final do período to e assume o valor -500 milhões no final do período t1. Investiu-se pois 500 milhões a mais do que foi gerado pela poupança americana. Porém a poupança corresponde ao valor dos produtos que foram vendidos menos o valor do que foi consumido improdutivamente. Donde, por definição, só pode ser comprado como bens de investimento pelos americanos o que foi produzido e não consumido improdutivamente, ou seja, o valor de S então materializado em bens de investimento. Nada mais pode ser materializado em bens de investimento para além de S. Mas o investimento global (Ia+Ie) materializado nos Estados Unidos é o Investimento feito por americanos (Ia) mais o investimento vindo do exterior, (Ie) sendo este último financiado pela entrada de capitais que serve para comprar os bens que constituíram o investimento direto japonês nos USA. A balança de capitais americana apresenta um excedente de 500 milhões e a balança comercial apresenta um défice de 500 milhões, que corresponde aos bens de investimento aplicados nos Estados Unidos e que não foram produzidos nos USA. A balança de capitais comanda aqui a balança comercial.

Por outro lado, vamos assumir que os japoneses da Toyota compraram via empresas de import-export os 500 milhões de bens do estrangeiro, do Japão mais precisamente para simplificar. As empresas japonesas recebem os 500 milhões de dólares que vendem aos bancos. Os bancos japoneses recebem os 500 milhões de dólares e neutralizam as suas contas em dólares. A Toyota, por sua vez teve os seus lucros de 500 milhões de dólares em ienes com os quais pagou aos bancos o empréstimo feito a partir de nada. De novo, a balança de capitais comandou a balança comercial.

[4] N.E. Texto publicado na presente série, sob o número 4, em 27 e 28 de setembro, vd. https://aviagemdosargonautas.net/2018/09/27/a-critica-demolidora-de-michael-pettis-a-teoria-e-a-politica-economica-neoliberal-4-porque-e-que-um-excesso-de-poupanca-nao-aumenta-a-poupanca-1a-parte-por-michael-pettis/ e seguinte.

[5] N.E. Texto publicado na presente série sob o número 8, entre 4 e 10 de Outubro, vd. https://aviagemdosargonautas.net/2018/10/04/a-critica-demolidora-de-michael-pettis-a-teoria-e-a-politica-economica-neoliberal-8-estara-peter-navarro-errado-sobre-o-comercio-internacional-1a-parte-por-michael-pettis/ e seguintes.

[6] Nota do Tradutor. Com efeito, aumentando a poupança, a investimento dado, diminui a necessidade de financiamento externo e diminuindo este diminui a entrada de capitais e consequentemente diminui o défice comercial.

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