JEREMY CORBYN, UM POLÍTICO QUE SE DISTINGUE PELA SUA SERIEDADE – O FUTURO DA SOCIAL-DEMOCRACIA BRITÂNICA: LIÇÕES DE ANTHONY CROSLAND – por PATRICK DIAMOND

British Politics and Policy

The future of British social democracy: lessons from Anthony Crosland, por Patrick Diamond

LSR – British politics and policy, 19 de Setembro de 2016

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

O Labour está a ser despedaçado por divisões amargas. A crise é frequentemente atribuída às insuficiências da sua liderança, mas vai mesmo mais longe: é causada pela ausência de uma missão ideológica definida. Patrick Diamond inspira-se em “O Futuro do Socialismo” de Anthony Crosland para explicar como o Labour e o centro-esquerda podem fazer com que a mudança progressista se torne realidade.

O Partido Trabalhista Britânico chegou à beira do precipício. Ao afastar-se da crise existencial em direção à rutura, as perspetivas para a social-democracia britânica, uma década depois da última vitória dos trabalhistas nas eleições nacionais, não podiam parecer mais desfavoráveis. As pressões económicas e a contenção fiscal estão a criar um clima frio para o centro-esquerda. A globalização acompanhada pela descentralização a favor da Escócia, do País de Gales e da Irlanda do Norte destruíram o apoio tradicional dos Trabalhistas. No rescaldo do Brexit, o Estado britânico unificado, outrora fundamental para a visão de progresso social exposta pela esquerda do pós-guerra, está à beira do abismo.

O colapso do Partido Trabalhista não se deve apenas às manifestas inadequações de sua liderança, mas à ausência de qualquer missão intelectual ou ideológica bem definida. O partido já esteve assim antes, é claro: na sequência da derrota em 1951, após os dias de Halcyon dos governos Attlee, o Partido Trabalhista deslocou-se sem rumo; foi dilacerado por divisões amargas entre “modernizadores” partidários e “fundamentalistas” sobre a direção futura, particularmente quanto ao papel do Estado e à propriedade pública na indústria. Os assuntos externos foram uma fonte ainda maior de conflitos: surgiram disputas acrimoniosas sobre a moralidade das armas nucleares e a causa da unidade europeia.

Há sessenta anos, Anthony Crosland publicou o seu tratado seminal sobre O Futuro do Socialismo, ajudando a incutir no seu partido doente a direção de que tanto necessitava. Crosland era um revisionista trabalhista, um intelectual, mas também um ministro de gabinete em exercício que acreditava que o partido tinha de aplicar os seus valores a um mundo em mudança para ganhar eleições e ser capaz de servir no governo.

Se ele tivesse observado o partido trabalhista contemporâneo, Crosland teria ficado consternado: ele teria visto a atual liderança como um reviver das políticas socialistas de Estado que foram propostas pela primeira vez na década de 1970, fora de contacto com a nova sociedade. Ele teria ficado enervado com a emergência do comunitarismo “Blue Labour ” como um meio de se reconectar aos apoiantes da classe trabalhadora do partido. Crosland descartou a tendência recorrente de romantizar a vida da classe trabalhadora inglesa; ele nunca acreditou que a “comunidade” fosse adequada como o único princípio orientador para a esquerda.

A visão de Crosland em O Futuro foi moldada por cinco ideias poderosas ainda hoje relevantes. Primeiro, ele insistiu em que o Partido Trabalhista nunca ganharia como um “partido socialista baseado em classes”; ele tinha que construir apoio como um partido nacional em nome de uma sociedade genuinamente sem classes, ganhando a confiança dos eleitores “não tribais” da Inglaterra Média que podem ter apoiado anteriormente os conservadores.

Em segundo lugar, o socialismo para Crosland era um esforço moral que se referia mais do que à produção de bens materiais e à adoração do consumismo; Crosland realçava a importância da qualidade de vida ao lado de uma esfera pública que quebrava os “fatores de distância” entre as classes sociais. Em vez de pregar “abstinência e um bom sistema de arquivo”, a social-democracia deve reforçar o direito ao gozo privado e à auto-realização.

Além disso, o revisionismo de Crosland foi instintivamente cauteloso com o paternalismo que floresceu entre muitos socialistas britânicos: o papel das instituições coletivas, especialmente do estado de bem-estar social, era equipar os indivíduos com as competências e “capacidades” humanas necessárias para levar vidas florescentes. Como tal, é errado descartar Crosland como um burocrata Fabiano. Ele acreditava que a esquerda e a liberdade eram companheiras naturais; as crenças igualitárias profundamente sentidas de Crosland constituíam um ataque às “diferenças indefensáveis de status e rendimento que desfiguram a nossa sociedade”.

Em quarto lugar, Crosland argumentou que a esquerda tinha de aplicar a sua imaginação para compreender a complexidade da mudança social e cultural. Em vez de lamentar a perda das instituições tradicionais e das identidades da indústria pesada e da touca de pano que deram origem ao Partido Trabalhista no final do século XIX, o socialismo teve de abraçar positivamente o mundo moderno.

Finalmente, Crosland estava céptico quanto aos valores cosmopolitas liberais que influenciaram tantos na esquerda nos anos 50 e 60. Representando o porto inglês de Grimsby, na costa leste, ele reconheceu a importância da ligação ao Estado-nação e à comunidade local. Estas identidades permitiram às pessoas manter um sentimento de pertença, solidariedade e união face à mudança tumultuada. De igual modo, Crosland rejeitou o chauvinismo jingoísta: não tendo tempo para “velhos sonhos de império”, Crosland era um internacionalista que insistia em que “devemos ligar os nossos destinos a uma Europa dinâmica e ressurgente”.

Crosland procurou colocar a liberdade e o exercício da liberdade no centro da política trabalhista, enquanto a sua análise tem clareza e precisão duradouras. A social-democracia britânica deve abraçar a sua perspetiva revisionista se quiser influenciar decisivamente o futuro da política britânica. O veterano historiador trabalhista Kenneth O. Morgan concorda: “Não houve nenhuma declaração significativa da doutrina socialista neste país – talvez em qualquer país – desde Crosland, em meados dos anos 50”. As estratégias e a política de Crosland continuam a ser um ponto de referência crítico pelo qual a qualidade das ideias e da liderança do partido deve ser julgada. Enquanto o Partido Trabalhista navega no traiçoeiro cenário pós-referendo acompanhado por uma fragmentação sem precedentes no sistema político britânico, o partido deve reflectir sobre como construir as alianças estratégicas que levaram o Partido Trabalhista à vitória em 1945, 1964 e 1997.

A Grã-Bretanha nunca foi um país intrinsecamente conservador. Como Crosland insistiu, a mudança progressiva é possível se o Partido Trabalhista e o centro-esquerda apresentarem um argumento audacioso a favor de reformas radicais da economia, da sociedade e da constituição para todos os setores e classes da sociedade.

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Note: The Crosland Legacy: The Future of British Social Democracy is published by Policy Press. A version of this blog will appear in The Fabian Review.

Fonte: Patrick Diamond, The future of British social democracy: lessons from Anthony Crosland. Texto publicado pelo sitio British Politics and Policy, da London School of Economics e disponível em: https://blogs.lse.ac.uk/politicsandpolicy/the-crosland-legacy-the-future-of-british-social-democracy/

 

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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