OS MEUS DOMINGOS – BREVES DESCONSIDERAÇÕES SOBRE O PERU – por ANDRÉ BRUN – I

(1881 – 1926)

 

Prefiro dizer-lhes toda a verdade: embirro com o peru vivo e detesto o peru assado. É talvez uma falha da minha educação filosófica, mas, se o ver esse desgraçado reptil da família dos galináceos passear pelas ruas nos arredores do Natal me causa uma impressão em que o desprezo se mescla à indignação e o dó se baralha ao ressentimento, confesso-lhes que preferia ter de comer uma costeleta panada da D. Sofia Galini a ver no meu prato qualquer trecho anatómico do molusco acima referido.

É muito provável que, aproveitando esta ocasião tão dadivosa das festas do fim do ano, alguns leitores entusiastas – e só Deus sabe quantos tenho – estejam pensando na prenda que me deverão enviar para me provarem a respeitosa simpatia e a sincera admiração de que se sentem possuídos a meu respeito. Pois aceito tudo: pianos de cauda, roupa branca em zéfir de cor e às riscas, géneros de mercearia, notas de cinquenta escudos para cima, um chalet no Estoril. Podem mesmo remeter-me inclusas as obras do poeta Sevilha e doze milhões de coroas austríacas. Só o que lhes peço, pelas almas dos seus maiores que tenham a arder no inferno, é que não me mandem um peru, quanto mais um casal, como provavelmente era intuito de muitos que me lêem. Tenho em casa uma dúzia de granadas de mão que trouxe do front. Pois o primeiro galego que cruze a minha porta com semelhante dádiva debaixo do braço, julgar-se-á em Neuve Chapelle numa noite de raid, de raid que o parta infalivelmente em tantos bocados que nunca mais esse cidadão de Espanha tenha concerto, nem sequer de Blanch, maestro castelhano da minha estima.

Então que querem? Embirro com o peru. Dificilmente se encontrará passaroco mais feio e que mais nos dê a impressão da estupidez. É possível que, pelo contrário, entre a grei voadora, o peru seja no seu silêncio um intelectual, um pensador, ao invés do papagaio, que, como os deputados, fala muito para não dizer nada. O certo é que disfarça bem o seu jogo. Depois, é um diabo que podia ser esquisito e arranjar-se bem para sair à rua. Isso sim! Quando está gordo e tem a plumagem toda, parece trazer sobre o lombo um daqueles vestidos de seda, luzidios de mais, com que as parteiras nos levam à pia na hora desagradável do baptismo. Um peru gordo é, porém, uma excepção. Quase todos que tenho conhecido eram magros e tinham a menos no corpo as penas que traziam a mais no olhar resignado e triste. Metiam nojo. Davam vontade de os limpar com café, com benzina ou de lhes dar um casaco velho.

Aqui para nós, o fim que têm não é muito agradável. Ao passo que as vítimas habituais do assado: galinhas, pombos, codornizes, galinholas, engordam tranquilamente numa capoeira abrigada ou são mortas a tiro rápido num voo incauto e livre, os pobres perus da minha embirração apanham umas calças tremendas e ainda em cima uma formidável camoeca forçada antes de darem o pescoço ao cutelo da algosa.

Fartam-se de andar, os malditos! Nos primeiros dias, calculo que os deve interessar o aspecto da cidade que não conhecem ainda; mas depois, quando começa chovendo e as ruas que palmilham são um mar de lama que os enxovalha até ao monco, mal indicam a sua intenção de se meterem numa escada para esperar uma aberta, logo a cana do leader ou do sub-leader lhes assenta nos costados e lhes diz como Jeová ao Judeu Errante:

– Caminha! Caminha!

E o pobre peru lá vai sacudindo o traseiro depenado, o que faz com que essa fase da vida dum bicharoco essencialmente lusitano se possa, afinal, definir, embora em estilo telegráfico, com o nome de quatro nações e de uma cidade americanas: Canadá, Equador, Peru, México, Habana.

Às pessoas pouco versadas em trocadilhos, explicarei que isto deverá ler-se assim: Cana dá e co’a dor, peru mexe e pescoço francês abana.Perceberam? Ora ainda bem!

(continua)
Nota – manteve-se a ortografia da altura em que o texto foi escrito (1922) 

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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