JEREMY CORBYN, UM POLÍTICO QUE SE DISTINGUE PELA SUA SERIEDADE – DESTRUIR O INIMIGO (I): OS CONSERVADORES E AS FORÇAS MEDIÁTICAS, por THIERRY LABICA

 

Détruire l’ennemi (I): les conservateurs et les forces médiatiques, por Thierry Labica

Contretemps, 20 de Dezembro de 2016

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Neste terceiro artigo de uma série dedicada à situação política na Grã-Bretanha, Thierry Labica faz uma retrospectiva da formidável ofensiva política e mediática que tomou como alvo  Jeremy Corbyn desde que se tornou o lider do Partido Trabalhista.

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Aqueles que regressam ao partido, aqueles que se juntam a ele em massa pela primeira vez, a confiança renovada dos sindicatos na sua liderança, as manifestações de massas, alguns êxitos eleitorais, a expansão e o aumento da visibilidade de uma área crítica da comunicação social em linha (internet), formam em conjunto uma convergência de forças potencialmente conducentes a uma renovação do Partido Trabalhista britânico. No entanto, esta dinâmica despertou fortes ventos contrários por parte da maioria conservadora, do bloco mediático dominante, e mesmo dentro do próprio Partido Trabalhista, o que nos três casos não deve ser surpreendente.

Os Conservadores e a Guerra Fria sempre recomeçada

De certa forma, de facto, é talvez do lado dos Conservadores oficiais que encontramos menos polémica febril, dado o zelo já demonstrado ao seu opositor parlamentar de se  despedaçarem uns aos outros.

Deve ser notado, no entanto, que para os conservadores rotulados, até mesmo as saudações rituais do novo líder da oposição se tornaram impossíveis de articular. Corbyn, neste novo papel, representou nada menos do que um “perigo para a nossa segurança nacional”, particularmente devido às posições da esquerda histórica do partido em torno de Tony Benn, contra os programas de armas nucleares do Reino Unido. Corbyn prolonga assim uma linha associada ao “Bennismo”, mas também aos poderosos movimentos sociais dos anos 70 impulsionados pela Campanha pelo Desarmamento Nuclear [CND], na qual o famoso historiador do movimento operário britânico, Edward Palmer Thompson, se distinguiu.

Os Conservadores também puderam apontar as iniciativas diplomáticas tomadas pelo parlamentar de esquerda para promover e construir o diálogo com o IRA durante o período dos “acontecimentos” [“agitação”] na Irlanda do Norte. É demasiado previsível que estes mesmos Conservadores pudessem ter “esquecido” que tais iniciativas – secretas, é verdade – eram também suas. Não foi a primeira vez que o canto marcial da “recusa de concessões aos terroristas” cobriu o ruído abafado dos jogos diplomáticos arcanos.

O facto de Corbyn ter organizado uma reunião em 2009, num contexto parlamentar, com personalidades ligadas ao Hezbollah e ao Hamas, foi amplamente utilizado na mesma campanha, numa espécie de actualização de um argumento já conhecido e que agora visa associar Corbyn, não só ao terrorismo, mas também ao anti-semitismo. Corbyn, que não é anti-semita nem a favor do terrorismo, considera, como disse e repetiu, que “para que as coisas progridam, não vale a pena falar apenas com aqueles com quem já concordamos” e, portanto, acredita que a diplomacia e algumas das suas fórmulas apropriadas são melhores do que absolutizações do inimigo  e  os consequentes bombardeamentos.

Além disso, não podemos ignorar por completo que tais acusações provêm de líderes conservadores que, por exemplo, sabem como disponibilizar  as competências britânicas adequadas ao serviço do sistema prisional saudita, prestando – tal como os líderes trabalhistas – o seu apoio incondicional a um Estado de Israel nas mãos de uma extrema direita religiosa determinada a cortar o abastecimento de água à prisão a céu aberto que é  Gaza  e a acelerar uma colonização maciça da Cisjordânia, um processo que envolve a simples intimidação e o terrorismo sobre o povo palestiniano.

Estas acusações também vêm de participantes directamente envolvidos nas desestabilizações regionais catastróficas e duradouras no Médio Oriente, onde o terrorismo e a morte em massa floresceram durante anos. E foram estas mesmas grandes autoridades morais que ofereceram um funeral “cerimonial” (uma marcha logo abaixo do funeral do Estado, reservada aos monarcas) a um dos seus próprios – Margareth Thatcher -, uma admiradora declarado do General Pinochet e opositora do “terrorista” Nelson Mandela, para citar apenas isto.

A acusação duplamente infame (de terrorismo e anti-semitismo) repete  quase mecanicamente o repertório rotineiro da excomunhão e só vale em face da  exaustiva repetição industrial de que beneficia.

Vale a pena lembrar aqui que essas mesmas acusações foram usadas durante a campanha eleitoral para a câmara de Londresl em 2016. Zach Goldsmith e David Cameron praticaram-nas contra o candidato trabalhista, Sadiq Khan, com bastante rudeza e má fé racista, de modo a provocar a indignação mesmo entre os seus próprios eleitores. Uma vez terminada a eleição, porém, Cameron não teve mais nenhum problema em fazer campanha com o homem que um mês antes representava uma séria ameaça ao país; Khan podia agora ser visto como a própria imagem dos melhores valores da Grã-Bretanha onde “um muçulmano altivo se pode  tornar o prefeito da maior cidade do mundo”.

Essa inversão não é surpreendente, dado que o mesmo Cameron tinha acabado de fazer um volte-face completo relativamente à  UE nos meses anteriores. Mais surpreendente, talvez, seja a disponibilidade com que Sadiq Khan, a ameaça pró-terrorista do dia anterior, se aliou ao seu difamador para defender a manutenção na UE (antes de colocar a sua autoridade recentemente adquirida como Presidente da Câmara de Londres ao serviço da campanha anti-Corbyn ). Se quisermos procurar razões para a rejeição da política em geral, ou a baixa credibilidade dos apoiantes da manutenção na UE em particular, observar o minueto executado por Cameron e Khan é claramente um bom ponto de partida para esta análise.

Deveria ser preciso tempo para restaurar este tipo de fabricação  difamatória numa história mais longa de manipulação estratégica por parte da direita britânica durante a Guerra Fria, em ligação com os serviços secretos. Tal história iria desde a falsa “carta de Zinoviev” revelando uma conspiração vermelha na Grã-Bretanha quatro dias antes das eleições parlamentares de outubro de 1924, até ao “dinheiro líbio” de Arthur Scargill e da União Nacional de Mineiros durante a Grande Greve de 1984-1985 e o tempo em que Muammar Gaddafi foi considerado um inimigo público global número um. Esta manipulação  deter-se-ia a meio  caminho  sobre as intrigas  que envolveram um Harold Wilson, “agente de Moscou” na década de 1970.

No caso de Corbyn, a visão de um possível primeiro-ministro socialista, declarado anti-imperialista de longa data, contrário ao programa militar nuclear (Trident), à NATO, favorável às organizações sindicais, à causa dos trabalhadores ou da libertação da Palestina e à campanha BDS, campanha esta a favor da Palestina,  é  pesadelo suficiente para que um alto funcionário superior anónimo e de alto grau se permita declarar que se Corbyn for eleito, devem ser consideradas as demissões em massa de oficiais e um “motim” do exército britânico. A declaração, feita menos de uma semana após a eleição de Corbyn como líder do partido, causou aparente embaraço e proclamações vibrantes de que ainda estávamos num país democrático[1].

No entanto, a condenação pública das palavras deste representante das forças armadas, em particular do Ministro da Defesa, Michael Fallon, não pode fazer-nos esquecer que este grave passo em falso foi apenas a sequência lógica dos elementos de linguagem difundidos contra Corbyn, logo que a sua eleição foi anunciada.

O próprio Primeiro Ministro David Cameron colocou um tweet em 13 de setembro explicando que “o Partido Trabalhista agora representa uma ameaça à nossa segurança nacional, à nossa segurança económica e à segurança das nossas  famílias”[2]. A mensagem foi repetida da mesma forma pelo próprio Fallon: “Este é um momento sério para o nosso país. Essa eleição mostra que o Partido Trabalhista agora representa um sério risco para a nossa segurança nacional, para a  nossa segurança económica e para a segurança das nossas famílias”, uma mensagem que o ministro vai repetir quase identicamente três vezes em pouco mais de um minuto numa entrevista da BBC: [3] Talvez ainda mais impressionante que o discurso feito de frases ocas foi o secretário de Estado do Trabalho, Priti Patel, na estação de rádio AML, questionando-se  sobre a eleição de Corbyn:

Patel: Penso que a eleição de Jeremy Corbyn mostra que o Partido Trabalhista representa agora uma ameaça muito séria à segurança da nossa nação, da nossa economia, bem como à segurança das famílias em todo o país. Especialmente quando pensamos na nossa defesa, nas implicações para a nossa economia, é óbvio que o Partido Trabalhista liderado por Jeremy Corbyn vai atingir e fazer mal a  todos os que trabalham.

Jornalista: Se eu fosse a si, teria começado por dizer que felicito Jeremy Corbyn pela sua esplêndida vitória.

Patel (no tom de impaciência contida): De facto, ele representa agora, e o Partido Trabalhista representa agora, uma enorme problema, um enorme risco para a segurança da nossa nação e da nossa economia e, em última análise, uma grave ameaça para a segurança das nossas famílias e dos trabalhadores em todo o país.

Bem, está bem. Dei-lhe duas oportunidades para felicitar…

Patel interrompe fortemente: O que vos estou a dizer é que a eleição de Jeremy Corbyn mostra que o Partido Trabalhista representa riscos para a nossa segurança nacional… Está bem, já o repetiu quatro vezes…]… e para a nossa economia.

Jornalista. Priti, muito obrigado. Era Priti Patel, a Secretário de Estado do Partido Conservador para o Emprego.

Fazer de um líder da oposição um “perigo para a nossa segurança nacional” é geralmente um pré-requisito para procedimentos judiciais ou extrajudiciais contra uma pessoa designada como criminosa[4]. É interessante notar que, neste caso, os elementos da linguagem nem sequer incluíam, ou mesmo se recusavam deliberadamente a praticar o próprio ritual de felicitar o novo líder da oposição, quanto mais não seja num registo estritamente cosmético em que  uns e outros são tão capazes de se destacarem.

O oficial de alta patente permaneceu anónimo (e as suas visões de “motins” estão por acontecer), portanto, tinha entendido muito bem a mensagem perfeitamente clara dos próprios líderes conservadores. A este respeito, a sua declaração era apenas a demonstração da lealdade que a estes líderes  lhes dedicava.

Os media e as distorsões bilionárias

A questão do papel dos principais meios de comunicação social pode ser  uma questão sensível. A denúncia  dos meios de comunicação social não é demasiado  praticada para que possa continuar a ser honrosa? Não haverá, na  “culpa dos media”, a clássica articulação da conspiração imaginária?  A resposta é “não”, pelo menos neste caso, e tomaremos a liberdade de adiar a discussão sobre este belo tema. Devemos ficar   satisfeitos com duas ou três observações preliminares.

Em primeiro lugar, a denúncia dos “media” tem para  eles uma base objetiva: como apontou a citação do editor do site independente de notícias, The Canary, a sua concentração capitalista constituiu-os, de  facto, como poderosos complexos estratégicos e notoriamente capazes de moldar o clima da vida política britânica, neste caso.

Em particular, o grupo de Rupert Murdoch News International merece ser tratado como uma força política de direito próprio, uma força cuja penetração, influência e, digamos, influência na arena política britânica veio à luz durante o escândalo de 2011, expondo um conluio orgiástico  ao mais alto nível do Estado entre um primeiro-ministro conservador e um supercapitalista do mundo da “info”. Sem sequer atingir um tal grau de promiscuidade, é notório, por exemplo, que a chegada de Blair ao poder em 1997 foi também o produto de uma aliança estratégica sem precedentes entre o dirigente neoliberal e o grupo Murdoch, que colocou o seu tablóide emblemático de direita, The Sun,   ao serviço da sua campanha [5].

De um modo mais geral, basta recordar que, no Reino Unido, dois grupos – a News Corp UK e o grupo Daily Mail (propriedade de Lord Rothmere) – detêm 60% da imprensa nacional. Se alargarmos o âmbito da elite desta indústria, seis empresas partilham 80% da imprensa local, ou seja, “mais de quatro vezes o total de títulos dos restantes cinquenta e seis editores, e oitenta e cinco por cento das receitas geradas”[6]. Não há necessidade, portanto, de assumir conspirações (que certamente existem noutros lugares); num jantar de grandes animais selvagens, os convidados não precisam de conciliábulos prévios para se ofenderem em coro com a presença inesperada de um menu vegetariano à la carte.

Mas, além desta situação de concentração maciça, das práticas e desequilíbrios que induz, há uma experiência passada. Quem quer que tenha guardado a memória de 1984-85 no Reino Unido será tentado a estabelecer um paralelo entre o tratamento da Esquerda Trabalhista nos meios de comunicação social nacionais britânicos e a grande greve dos mineiros de há trinta anos atrás.

Este assunto foi desde então amplamente abordado e as mentiras e manipulações de proporções industriais da época foram denunciadas ou mesmo publicamente desculpadas, particularmente ao líder do então sindicato nacional dos mineiros, Arthur Scargill[7]. Mas também podemos pensar na campanha sistemática de difamação da Esquerda Trabalhista durante a campanha legislativa de 1987, na qual Tony Benn, Ken Livingstone e alguns outros se tornaram os protagonistas de uma esquerda extremista, perigosa e ridícula.

Hoje, o  denegrir dos  anti-Corbyn, a produção de histórias de todos os tipos em seu detrimento, a sobre-representação de posições políticas hostis a Corbyn, a falta de espaço para a sua expressão e a apresentação das  suas orientações foram identificadas e estudadas por vários investigadores  da London School of Economics e da Coalition for Media Reform (MRC), em colaboração com investigadores do Birkbeck College da Universidade de Londres.

Os primeiros observaram, entre outras coisas, que nos principais títulos da imprensa nacional, 74% do conteúdo da informação relativa a Corbyn ou não reflectia o ponto de vista e as ideias de Corbyn ou apenas propunha versões distorcidas[8]. O segundo inquérito, mais centrado na televisão, revelou, nomeadamente, o seguinte:

“O tempo de antena dado aos críticos de Corbyn foi duas vezes maior do que aquele dado aos seus apoiantes; um apoio amplamente desproporcional às questões levantadas pelos críticos de Corbyn na BBC e nos boletins noticiosos matinais da ITV, uma desproporção particularmente evidente no texto dos títulos. A observação também notou uma tendência pronunciada entre os apresentadores de jornais da BBC à noite para usar linguagem depreciativa nas suas descrições de Jeremy Corbyn e dos seus apoiantes”[9].

Essa campanha dos  mídia levou até mesmo o ex-presidente da BBC Trust, Michael Lyons, a acreditar que “ataques extraordinários haviam sido lançados contra o líder eleito do Partido Trabalhista”. Bastante extraordinário, devo dizer. Compreendo que haja a preocupação de que alguns dos principais redactores possam ter perdido a sua imparcialidade neste caso. Estou simplesmente a repetir preocupações já expressas por outros”[10].

O quadro do trabalho mediático feito no ano passado levaria muito tempo para ser pintado aqui. É suficiente indicar alguns dos episódios mais salientes (além da inércia geral das práticas partidárias e, em última análise, pesquisas muitas vezes erróneas ou esforços de desmoralização pré-eleitoral). Entre os muitos exemplos disponíveis, no verão de 2015, houve a construção de um “anti-semitismo” do líder de esquerda na tentativa de desqualificá-lo por associação.

Também podemos mencionar o “caso do comboio” (“traingate”) que ocupou muitos comentadores  por mais de uma semana no final de agosto de 2016 e que foi a ocasião para um ataque severo a um aspecto central da imagem pública de Corbyn. Após uma gravação em que Corbyn, sem assento num comboio da Virgin, denunciou a situação do transporte ferroviário, foi feita uma tentativa de demonstrar que se tratava de uma encenação deliberada destinada a apoiar o argumento a favor da renacionalização da indústria ferroviária. Virgin revelou as fitas de vídeo vigilância a bordo do comboio para provar que ainda havia assentos e, ao mesmo tempo, que a reputação do líder trabalhista como um homem honesto era uma farsa. Corbyn recebeu apoio de testemunhos de passageiros confirmando a sua versão da história e o facto de que os lugares aparentemente livres nas imagens de vigilância por vídeo já estavam reservados.

Esta história não seria tão miseravelmente anedótica se, evidentemente, não transmitisse o confronto latente entre um líder político da oposição a favor da renacionalização dos serviços ferroviários e um grande beneficiário da sua privatização, o sorridente Richard Branson (figura emblemática entre alguns outros do capitalismo da nova era, simpático, artista, típico dos belos anos do New Labour de Blair).

A ilegalidade da divulgação pública de imagens de videovigilância, a sua natureza inconclusiva, os depoimentos de passageiros, entre outros, têm sido de pouca importância diante do acumular de imagens e comentários que fazem Jeremy Corbyn parecer tanto mentiroso quanto manipulador, ou seja, atacar uma retidão que muitos oponentes ainda querem reconhecer-lhe. Trata-se também de fazê-lo parecer um homem comum (“um tipo”), a ler o seu diário sentado no chão na entrada de uma carruagem de comboio..

Esta reconstrução da normalidade de Corbyn em “o Sr. Igual a Todos”, sobretudo um pouco desamparado, não pretende, obviamente, fazer dele uma figura política de âmbito nacional capaz de “encarnar” uma certa ideia do povo (categoria suburbana de longa distância, neste caso). Este homem comum é impróprio para o consumo político, porque está fundamentalmente privado da aura da dignidade cerimonial esperada das personalidades chamadas a assumir as mais altas funções do Estado.

Um artigo no Daily Mirror, um jornal tradicionalmente anti-Labour, forneceu uma ilustração particularmente selecionada das mobilizações hostis desta “história”. Em “O regresso de Jeremy Corbyn no caso do comboio prova a sua estupidez terminal e a da sua equipa”, a polémica Carole Malone, uma colaboradora de longa data do jornal, explora sem reservas a oportunidade de uma desmistificação radical assistida das imagens fornecidas por Virgin: Corbyn não é o homem da “política limpa” e da “conversa directa” que afirma ser. Ele é um mentiroso, um fabricante de baixo nível, “no estúpido estágio terminal”[11].

Este comentário, na sua maioria, é um simples registo  ao serviço do “buzz”, uma frágil moda exibicionista da qual depende a sobrevivência de muitos plumitivos. Mas, como muitos outros, deve ainda ser‑lhe ser reconhecido um interesse, pois prolonga e enriquece, de certa forma, a indignação causada pela recusa de Corbyn em cantar “que Deus salve a nossa graciosa rainha” durante uma comemoração oficial da Primeira Guerra Mundial que ocorreu imediatamente após a sua eleição em setembro de 2015. Podia-se aí descobrir esse Corbyn republicano, considerado seriamente comprometido com os republicanos independentistas irlandeses do Sinn Fein.

Assume-se também que a hostilidade anti-Corbyn prolonga  uma história longínqua da histeria antianabaptista dos séculos XVI e XVII, de que um dos “méritos” foi reconciliar muitos inimigos jurados durante pelo menos um tempo. Pode-se ainda ler, a partir dessas mesmas longas ondas de história cultural e política, a figura de um Corbyn “hipócrita”, ou seja, de um Corbyn puritano com falso rigorismo, alegando defender o trabalhador  ao mesmo tempo que se aproveita largamente da generosidade do Estado.

A este respeito, o Mail Online explicou aos seus leitores que “Corbyn tinha custado aos contribuintes três milhões de libras esterlinas até agora”[12], uma mentira  que se queria arrasadora da  reputação de um parlamentar cujas despesas ascendiam a 8 libras e 95 pence para a compra de um cartucho de impressora.

Pelo menos dois outros “casos” contribuíram para o ruído que deve absolutamente cercar Corbyn e as forças que o apoiam. Ambos os casos  estão directamente ligados aos meios de comunicação social, minando o trabalho e a ofensiva do trabalho institucional, nomeadamente através de jornais nacionais hostis, mesmo muito hostis, como o Guardian e o Daily Mirror.

O primeiro desses casos foi o que nós nos devemos  resignar a chamar de “escândalo dos tijolos”. Na sequência do resultado do referendo sobre a UE e da demissão em massa de membros do governo sombra, uma figura parlamentar trabalhista, Angela Eagle, iniciou a campanha para expulsar Corbyn. A antiga responsável sobre a indústria, inovação e qualificações da primeira equipe de oposição sob a direção de  Corbyn, Angela Eagle, propôs reconstruir a unidade e a credibilidade eleitoral (“elegibilidade”, novamente) da liderança do partido e, portanto, de todo o partido.

No entanto, a ela juntou-se-lhe logo e como concorrente  neste papel um  outro candidato para a unidade e credibilidade eleitoral do partido, Owen Smith. Este último tinha a vantagem, pelo menos aparente, de não ter participado em nenhum governo trabalhista nos anos 2000 e tinha apenas ocupado o cargo de Secretário de Estado do País de Gales no governo sombra de Ed Miliband antes da derrota nas eleições legislativas de maio de 2015. Para além do facto de Angela Eagle poder aparecer imediatamente como a própria personificação do que as eleições internas tinham rejeitado alguns meses antes, a sua campanha mal lançada transformou-se rapidamente em humilhação.

Na primeira conferência de imprensa, quando os jornalistas foram convidados a apresentar-lhe  perguntas, ficou claro, após alguns segundos de hesitação embaraçosa, que uns e outros já se tinham ido embora. Subsequentemente, as primeiras entrevistas políticas foram bastante catastróficas quando aquela  que se  propôs substituir Corbyn se revelou incapaz de responder a perguntas tão previsíveis como: “De que orientações de Jeremy Corbyn é que a senhora  discorda? “ou “à parte o programa nuclear-militar (Trident), quais são as suas outras diferenças [com Corbyn]? »[13]. Verificou-se então que a maioria dos membros do Partido Trabalhista no seu próprio círculo eleitoral tinha votado a favor de Corbyn.

Então veio o “escândalo do tijolo”: no final de julho de 2015, um grande número de títulos da imprensa nacional e os seus sítios electrónicos  correspondentes anunciaram que um tijolo havia sido  atirado pela  janela da sede parlamentar de Angela Eagle. Tal como acontece com o “caso do  comboio ” mais tarde, a apresentação dos “factos” foi rapidamente corrigida, de uma forma bastante inédita, no entanto: o vidro não era o do lado em que se abrigava a dita permanência, mas de uma escadaria localizada do outro lado do edifício de habitação onde se abrigava a referida permanência. Mas os benefícios do tijolo tornaram os factos do tijolo muito secundários: a agressão intempestiva,  anónima e covarde documentou a verdade do que realmente eram os apoiantes  de Corbyn: indivíduos violentos, preferindo “intimidação” a qualquer intercâmbio civilizado, movidos por motivos “sinistros”, conseguiram ganhar  a liderança do partido e agora estavam a trabalhar  para destruí-lo pelos métodos desonestos e brutais, típicos e tão previsíveis da “esquerda dura” trotskista.

Aqui novamente, apesar de sua aparente gentileza e slogans a favor da recuperação da credibilidade do discurso público, Corbyn era  realmente considerado o homem com projetos perigosos que avançou escondido, levado por uma escória de militantes ou, então, o homem fraco, ultrapassado por forças que ele não controlou, e, portanto, incapaz de liderar. Em todo o caso, o tijolo permitiu arrastar a atualidade mediática da direção do Labour  para a categoria de actos criminosos diversos.

Nos dias que se seguiram, houve um forte relato de uma queixa ao Presidente da Câmara dos Comuns, John Bercow, por outro membro demissionário do gabinete sombra, Seema Malhotra (Secretária Chefe do Tesouro). Era o caso da chave.

A antiga ministra fantasma disse ter notado  que os assistentes parlamentares de John Mcdonnell e Jeremy Corbyn tinham tentado entrar duas vezes no seu gabinete. Falou-se de possível “violação”, “entrada ilegal” e “invasão de propriedade”. Além disso, durante a segunda tentativa, uma dessas pessoas alegadamente tinha uma atitude “agressiva e intimidante”. John Bercow indicou por escrito que não houve violação do privilégio parlamentar do antigo membro do gabinete sombra e dos seus assistentes neste caso[14].

As acusações feitas por Seema Malhotra também podem ter sido menos convincentes tanto quanto ela  deveria ter deixado o cargo há várias semanas atrás, daí a suposição de que as instalações estavam vazias. Malhotra acaba por pedir  desculpa às pessoas que foram primeiro incriminadas, expressando o seu “pesar pelo sofrimento” causado pelas suas acusações.

Este segundo facto, tão irrelevante quanto  o primeiro (que se baseava numa apresentação inventiva dos factos), ao seguir-se imediatamente ao caso do tijolo, permitiu, no entanto, refinar a narrativa em construção. Neste caso, havia agora razões para crer que McDonnell e Corbyn estavam eles próprios a utilizar métodos desonrosos, ou mesmo, francamente, desonestos, para com os seus próprios colaboradores da equipa da oposição parlamentar.

E que o crédito se deve dar aos convites para a calma e o respeito mútuo dentro do partido emitidos nos dias anteriores, quando se verificou que esses convites vieram de líderes que se tornavam eles próprios responsáveis pela espionagem, até mesmo pela agressão e intimidação dos  seus próprios colegas? Não reconhecemos essas tendências totalitárias, esse atavismo de Moscou, que são a disposição crónica dos seguidores do socialismo?

Estes “casos” permitiram manter o ruído mediático que ainda era urgentemente necessário para cercar  a nova Direcção do Labour, de modo a que as propostas políticas, os projectos, as prioridades e os programas se tornassem o mais que possível  inaudíveis.  Parecia então mais fácil e talvez ainda mais credível, nestas circunstâncias, culpar os líderes por não poderem fazer ouvir as suas propostas. E, claro, era ainda mais urgente que a opinião pública em geral, e o eleitorado trabalhista em particular, finalmente tomassem consciência desta incapacidade de comunicar, mas também deste vandalismo e deste espírito de manipulação da “esquerda dura”.

Na altura em que estava a ser lançada uma nova campanha para a eleição da liderança do partido, não era urgente dar a conhecer estas verdades para que os eleitores trabalhistas pudessem finalmente tomar uma decisão informada?

 

Fonte: Thierry Labica,  Détruire l’ennemi (I) : les conservateurs et les forces médiatiques, 20 de Dezembro de 2016 e disponível em:

Notas

[1] « Ministry of defence condemn army general behind Jeremy Corbyn mutiny threat », The Independent, 20 septembre 2015, http://www.independent.co.uk/news/uk/politics/

[2] https://twitter.com/david_cameron/status/642984909980725248?lang=fr

[3] BBC, 12 setembro 2015, http://www.bbc.com/news/uk-politics-34231727. Em 69 segundos, o Ministro da Defesa conseguiu repetir cinco vezes “risco” ou “risco muito grave” em relação à “segurança” (nacional ou das próprias famílias), tendo-as  repetido nove vezes numa série de respostas estritamente idênticas a três perguntas diferentes

[4] Como George Galloway assinala no seu comentário sobre esta campanha conservadora. Para ver a gravação de Michael Fallon, Priti Patel e o comentário de Galloway, veja : https://www.youtube.com/watch?v=8c8tixhkvW4

[5] Reeves, A., et al., « It’s The Sun Wot Won It : Evidence of media influence on political attitudes and voting from a UK quasi-natural experiment », Social Science Research (2015), http://dx.doi.org/10.1016/j.ssresearch.2015.11.00

[6] « Who owns the UK media ?», A comprehensive report on media ownership in the UK – October 2015, Media Reform Coalition, http://www.mediareform.org.uk/who-owns-the-uk-media

[7] A fabricação  mais notória  foi a  do “dinheiro líbio de  NUM “. Os relatos detalhados deste episódio podem ser encontrados em “Ici commence la défaite: la grande grève des mineurs britannique trente ans après,”  , dir. M. Bertrand, C. Crowley, T Labica, Syllepse, 2016, a publicar.

[8] B. Cammaerts, B; DeCillia, J. Magalhães, C. Jiminez-Martinez « Journalistic representations of Jeremy Corbyn in the British press: from watchdog to attackdog », London School of Economics and Political Sciences, 2015

[9] « Should he stay or should he go? Television and online news coverage of the labour party in crisis », Dr J: Schlosberg, Media Reform Coalition and Birkbeck College University of London, 2016. Esta é uma referência implícita mas certa aos comentários, ‘análises’ e entrevistas propostas pela Chefe do Serviço Político da BBC, Laura Kuenssberg, e  de Cathy Newman da Channel four news, uma entrevista que é comentada utilmente aqui:

 : « Anti-Corbyn propaganda techniques broken down », https://www.youtube.com/watch?v=7ZOdtapoycU

[10] « BBC may be biased against Jeremy Corbyn, says former BBC Trust chairman », The Independent, 12 maio de 2016.

[11] « Carole Malone : Jeremy Corbyn’s traingate stunt proves he and his team are terminally stupid», Mirror, 28 Agosto de  2016, http://www.mirror.co.uk/news/uk-news/

[12] « How Corbyn has cost us £3m… so far», Mail Online, 14 septembre 2015, http://www.dailymail.co.uk/debate/ . Para uma reformulação irónica desta revelação, ver “How rich is the labour leader Jeremy Corbyn”, London Loves Business, 28 de Janeiro: http://www.londonlovesbusiness.com/business-news/politics/

[13] Peston Show on Sunday, https://www.youtube.com/watch?v=vCyPBFBr7J4  e  Andrew Neil, Sunday Politics, https://www.youtube.com/watch?v=ifldzS_9oHg; em ambos os casos, Angela Eagle recordou que era de esquerda, que provinha de uma família modesta no início de uma narrativa autobiográfica destinada a enraizá-la numa autenticidade operária tradicionalmente associada ao norte da Inglaterra

[14] Voir : http://www.bbc.com/news/uk-politics-36898841

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