O ROBINSON CRUSOE FEZ TREZENTOS ANOS EM 2019 – por João Machado

 

O Robinson Crusoe, ou melhor, A Vida e as Estranhas e Surpreendentes Aventuras de Robinson Crusoe, de York, Marinheiro, Que viveu Vinte e Oito Anos, totalmente só numa ilha desabitada na Costa da América, perto da Foz do Grande Rio Orenoco; Tendo sido atirado à costa devido ao naufrágio de um navio, tendo todos os marinheiros perecido, menos ele. Com um Relato de como foi estranhamente libertado por PIRATAS, de Daniel Defoe, foi publicado em 1719, em Londres, por W. Taylor.

Curiosamente, como se pode verificar pela imagem acima, prestimosamente disponibilizada pela Wikipedia, apareceu na altura como se tratando de uma autobiografia.

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     Este quadro está no National Maritime Museum, em Londres. Autor desconhecido. Estilo de Sir Godfrey                                                                     Kneller. Obrigado à Wikipedia.

 

Pensou-se durante muito tempo que Daniel Defoe (c. 1660 – 1731), para escrever o Robinson Crusoe,  se teria sido inspirado na história de Alexander Selkirk, um marinheiro escocês que viveu quatro anos numa ilha do Pacífico, após abandonar o seu navio, devido a uma briga com o respectivo capitão. Sabe-se hoje em dia que Defoe teria conhecimento de várias outras histórias de navegações, naufrágios e de desembarques em ilhas distantes, ocorridas na época, para além da de Selkirk. Atravessava-se então uma fase de crescimento da Inglaterra como grande potência, com a consolidação da paz interna e aceleração da expansão marítima e colonial. Em 1662 a Inglaterra recebeu Bombaim, incluída no dote de Catarina de Bragança, e em 1664 ocorreu a tomada de Nova Amesterdão, que se tornou Nova Iorque. Em 1690 ocorreu a batalha de Boyne, que consolidou no trono Guilherme III e o domínio sobre a Irlanda. Em 1707 foi assinado o tratado de união com a Escócia.

Filho de um fabricante de velas de sebo, que depois se tornou talhante, Defoe tornou-se negociante de produtos alimentares para ganhar a vida. Tinha começado por estudar para ser sacerdote, mas depois optou por outros caminhos, participando activamente na vida política de então, exercendo o jornalismo, e escrevendo centenas de livros, poemas e outros textos, abordando os temas mais diversos. Viajou pela Europa (terá estado em Portugal), apesar de nunca ter frequentado a universidade, falava e lia várias línguas, foi lojista, fabricante, jornalista e espião, segundo nos diz Walter Allen (1911 – 1995), crítico literário e romancista inglês. Era um conhecedor profundo do seu país, cujo dia a dia acompanhava intensamente, e certamente chegavam-lhe os mais diversos relatos de viagens e peripécias, como os de William Dampier, que foi oficial de marinha, pirata, e explorador, participou em três viagens de circum-navegação e explorou a Austrália e outras terras. Ou a história de Henry Pitman, cirurgião do Duque de Monmouth, que fugiu do degredo nas Antilhas, para onde tinha sido enviado após o falhanço da revolta do seu patrono contra Jaime II (peripécia em que Defoe também participou), tendo também naufragado e sido obrigado a viver numa ilha deserta.

O nosso João Gaspar Simões (1903 – 1987), que traduziu e prefaciou várias obras de Daniel Defoe, precisamente numa introdução à sua tradução de A Journal of the Plague Year considera que este “… não foi apenas o criador do moderno romance inglês, foi, por assim dizer, o criador do moderno romance europeu.” E assinala ele nunca se apresentou como romancista. Em A Journal of the Plague Year, obra que só foi publicada em 1922, descreve os sofrimentos do povo de Londres em 1665, quando da grande epidemia de peste bubónica, e que terá inspirado Albert Camus, o narrador apresenta-se como um espectador directo dos acontecimentos (assina H. F. e numa nota final levanta-se a hipótese de se tratar de um tio do próprio Defoe). De notar que Daniel Defoe era criança na altura e vivia mesmo em Londres. No ano seguinte declarou-se o grande incêndio de Londres, igualmente destruidor.

Walter Allen, em The English Novel (tradução portuguesa de Carlos Alberto Secco) dedica várias páginas ao Robinson Crusoe, ao seu autor, e à sua obra em geral. Frisa a importância decisiva de Defoe para a literatura inglesa, e mesmo para a vida cultural e científica no país nos anos que se seguiram, isto apesar de, para ele a arte e a teoria literária nada significarem. Não hesita em classificá-lo como um dos homens mais notáveis que jamais existiu, e afirma que terá inspirado as personalidades do seu tempo e dos seguintes, relacionando-se com eles “na analogia dum Leonardo da prosa” (os termos são de Walter Allen).

Samuel Johnson (1709-1784) e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) também exprimiram grande admiração pelo Robinson Crusoe. O segundo, no seu Émile, ou de L’Éducation, defende que este deveria ser o único livro a dar a ler a uma criança com menos de doze anos, para que esta se habituasse a contar só consigo para prover às suas necessidades. Assim, saberia determinar melhor as suas prioridades. Outros autores, como Jonathan Swift (1667-1745) e Robert Louis Stevenson (1850-1894), embora tenham seguido as pisadas de Defoe, não mostraram tanta admiração por ele. O primeiro, nas suas Gulliver’s Travels, procurou mesmo refutar a fé na natureza humana patente no Robinson Crusoe. James Joyce (1882-1941), ao que julgo  quando vivia em Trieste, escreveu um ensaio sobre a obra de Daniel Defoe, em que trata favoravelmente A Journal of the Plague Year e The Storm, obras de carácter jornalístico e outras como A Political History of the Devil. Sobre o Robinson Crusoe, Joyce, sempre fazendo elogios ao realismo e à qualidade da escrita do autor, afirma que o herói é o protótipo do colono britânico, e que a obra é como que uma antevisão do império.

Joyce terá alguma razão no que afirma. Mas o Robinson Crusoe é inegavelmente uma história tremendamente verosímil, que pode até conter imprecisões nas suas descrições, mas que no conjunto o leitor da época sentia sempre como perfeitamente possível, enquadrável na vida de tantos homens e mulheres que procuravam ir fazer as suas vidas noutras paragens. Apresentado como uma autobiografia, quando foi publicado pela primeira vez, terá vendido quarenta mil exemplares em pouco tempo. Não será descabido afirmar que Defoe, ao escrevê-lo, também se inspirou na sua própria vida, que, é verdade, não decorreu numa ilha deserta, mas por vezes lhe deve ter parecido uma luta contra tudo e contra todos. Permanentemente endividado, sempre envolvido em questões políticas e pessoais, sempre em luta, tendo passado,  ainda criança, por experiências terríveis como a epidemia de peste bubónica e o grande incêndio de Londres, a escrever o Robinson Crusoe, deve-se ter sentido como que a escrever um manual de sobrevivência num ambiente diferente. Ao fim e ao cabo, trata-se do homem, que condenado ao pelourinho em 1703 por ter escrito um panfleto considerado como sedicioso, compôs um poema intitulado Hymn To The Pillory.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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