Um plano evolutivo de 6 pontos para o Partido Trabalhista Britânico. Por Bill Mitchell

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Um plano evolutivo de 6 pontos para o Partido Trabalhista Britânico

Bill Mitchell Por Bill Mitchell

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Editado por Bilbo economic outlook, em 16/12/2019 (ver aqui)

 

Nos últimos dias, desde as eleições gerais britânicas da passada quinta-feira, assisti à crescente negação dos chamados progressistas que tentam inventar todo o tipo de desculpas para a derrota devastadora do Partido Trabalhista. Vi várias agregações de votos apresentados no Twitter e noutros locais a tentarem afirmar que, na verdade, a votação foi uma votação a favor de Remain e não do Brexit. A linha que está a ser traçada é que os Conservadores não têm um mandato para implementar o Brexit, que a forte maioria dos eleitores britânicos quer permanecer na União Europeia e que a derrota dos Trabalhistas se deveu a outras coisas. Outras coisas tiveram certamente impacto – como a campanha implacável e ridícula do jornal inglês Guardian contra Jeremy Corbyn, que alimentou o truque do anti-semitismo. E a contínua insurreição passiva no seio do Partido Trabalhista Parlamentar por parte dos Blairistas, que são incapazes de se moverem para além do passado. E o enquadramento neoliberal que John McDonnell insistiu em usar para divulgar o seu plano económico, como resultado de ter sido mal aconselhado por um grupo de economistas que não conseguiram sequer acertar a sua estúpida Regra de Credibilidade Fiscal (dado que tiveram de a alterar no último minuto quando era óbvio para todos que iria falhar). E o próprio John McDonnell, que disse ao povo britânico nos meses que antecederam as eleições que apoiaria a linha dos Remain. E o líder parlamentar trabalhista que deveria ter sido expulso há muito tempo do Partido. E aqueles que conspiraram para abandonar Chris Williamson pelas razões mais espúrias e, portanto, custaram ao Partido Trabalhista a circunscrição de Derby North. E assim por diante. Mas o resultado que se seguiu confronta o Partido Trabalhista frontalmente desde o referendo de junho de 2016, e o Partido optou por ignorar as advertências. E os chamados apparatchiks progressistas, economistas e outros, que estavam a aconselhar o Partido Trabalhista, não só disseram aos líderes do partido para ignorar as advertências, mas também se empenharam ativamente em difamar os de esquerda, incluindo eu próprio, sempre que podiam. O ovo é… como se costuma dizer!

Os resultados completos das eleições britânicas não estão facilmente disponíveis numa forma que me permita fazer uma análise estatística pormenorizada. Isso acontecerá quando o conjunto completo de dados estiver disponível ao público.

Mas achei que este gráfico seria um bom resumo.

É retirado do artigo do The Telegraph (16 de Dezembro de 2019) –Election Result: Conservatives win historic majority .

O eixo horizontal representa a distribuição de votos no Referendo de junho de 2016, de elevada proporção Remain (Permanecer na UE) para elevada proporção Licença (da esquerda para a direita).

Os losangos a azul indicam os lugares  mantidos ou ganhos (preenchidos com losangos a cheio os lugares mantido ) e ganhos (os outros losangos, os que não estão a chei ) pelos conservadores nos círculos eleitorais ordenados pelo referendo.

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Os losangos a vermelho a cheio indicam os lugares mantidos (preenchidos com losangos a cheio) e os lugares ganhos (os outros losangos, os que não estão a cheio ) pelos trabalhistas nos círculos eleitorais ordenados pelo referendo

Se o leitor não consegue ver que a tradicional terra natal dos Trabalhistas nas antigas cidades industriais e mineiras do norte desertou para os Conservadores, então o leitor está politicamente cego.

E se acha que a correlação de quase 100% entre a força do voto de Leave e a mudança de lugares no coração industrial inglês não é significativa, então você não tem capacidade analítica (estou a ser polido).

Agregar o voto a favor do Partido Trabalhista, do SNP, dos Democratas Liberais, etc. num voto “Remain ” e depois afirmar que o povo britânico quer realmente permanecer em vez de sair é apenas parte do problema que causou a morte eleitoral do Partido Trabalhista.

Na quinta-feira passada, a Grã-Bretanha realizou o “segundo” referendo que todos aqueles espertalhões, urbanos, educados, cosmos exigiam, e que tanto perverteram a mensagem do Partido Trabalhista ao povo.

Se a mudança enorme para os conservadores é algo a explicar, a votação a favor do Leave intensificou-se.

E era totalmente previsível.

Poucos dias depois do Referendo de junho de 2016, escrevi este texto no blog – Why the Leave victory is a great outcome – (27 de junho de 2016) – que levou alguns dos mais importantes conselheiros trabalhistas a chamarem-me “delirante” e a acusarem-me de cedência a elementos fascistas.

Eu escrevi no texto:

A liderança trabalhista britânica esteve em grande parte ausente durante todo o processo – sem saber qual o caminho a seguir e permitindo que os elementos da esquerda pró-europeia (neoliberal) dentro do partido dominassem o seu ponto de vista público. Pelo caminho, perdeu as suas circunscrições eleitorais tradicionais.

A questão é que o Partido Trabalhista britânico tem agora de mudar drasticamente e rejeitar as suas tendências neoliberais ou então enfrentar a sua extinção.

Se não mostrar liderança e apresentar uma alternativa verdadeiramente progressista à ortodoxia neoliberal, então a raiva continuará e é possível que a direita venha a ser dominante.

Essa conclusão sumária ainda ressoa.

O Partido trabalhista mudou. Mas mudou para a direção oposta àquela para onde deveria ter ido e, finalmente, renegou o seu compromisso com os seus eleitores.

Longe de mostrar liderança na questão, os Blairistas forçaram a liderança trabalhista a hesitar e, finalmente, a ceder a uma posição de “Remain”.

Quando a maioria dos deputados do Partido Trabalhista (mais de 60 por cento) representa a maioria dos eleitores que votaram Leave e o Partido vira as costas a essas pessoas depois de lhes garantir que iria apoiar o resultado do Referendo em 2016, então o que seria de esperar seriam as consequências.

Especialmente quando os Conservadores estão a fazer uma campanha habilidosa numa base de “Get Brexit Done” e a manter com sucesso o foco nessa mensagem.

Os media podem publicar todo tipo de ‘apanhados’, como Boris Johnson a esconder-se numa congeladora  para evitar ser entrevistado e não permitir que os media pudessem fazer relatos de como ele é um mentiroso, etc.

Isto sem dúvida fez com que todos os Urban Labour Remainers se sentissem protegidos, aquecidos (desculpem a parte quente do frigorífico) e com a razão pelo seu lado, mas tudo isso se tornou insignificante quando confrontados com o facto de o Partido Trabalhista ter abandonado a sua base de apoio que claramente queria sair, renegando a sua garantia para honrar o voto.

Dizer que o Partido Trabalhista, se eleito, realizaria um segundo referendo e depois argumentaria a favor de Remain, foi o culminar do seu abandono do povo que tinha eleito a maioria dos seus deputados em 2017.

O(s) conselheiro(s) ligado(s) a essa estratégia nunca mais deveriam voltar a servir o Partido Trabalhista.

Todos aqueles que defenderam o apaziguamento da classe média, elites urbanas que de toda a maneira nunca teriam votado Conservadores à custa do abandono dos trabalhadores no Norte do país, que viam o voto Leave como uma expressão do seu desprezo pela austeridade e pelo neoliberalismo, nunca mais deveriam ser empregados pelo Partido Trabalhista.

Os seus pontos de vista devem pois ser ignorados no futuro.

(…)

Muitos dos textos por mim publicados em torno do Brexit têm tentado corrigir as afirmações dos registos públicos de que o Brexit seria devastador.

O jornal Guardian, em particular, incansavelmente deu voz à esquerda eurófila, com as suas previsões e exigências terríveis para um segundo referendo, porque estes amorosos pobres, acostumados ao privilégio e ao sucesso, não conseguiram fazer o seu próprio caminho no primeiro referendo em 2016.

Os argumentos apresentados foram sempre baseados em evidências.

Nenhuma das previsões por mim feitas foi considerada como não correspondendo a provas evidentes.

Quase todas as previsões feitas pelo campo Remain foram, até agora, falhadas, erradas.

E, as campanhas de medo sobre as perdas do Brexit, embora até agora tenham provado ser ridiculamente inflacionadas, não tiveram de toda a maneira nenhum efeito  nas comunidades da classe trabalhadora nas Midlands e mais ao norte, porque as pessoas aqui já experimentaram enormes perdas de bem-estar devidas aos anos de austeridade imposta .

O que o Partido Trabalhista deveria ter feito era assumir a corrida pelo sentimento do Brexit e tecer isso no seu Manifesto progressista.

E isso teria ultrapassado as afirmações de que o Manifesto era, de facto, incompatível com Remain, porque a UE teria proibido uma série de iniciativas propostas.

Esta foi uma das questões que levantei junto de John McDonnell quando me encontrei com ele  em Outubro de 2018.

Eu escrevi sobre este encontro em – A summary of my meeting with John McDonnell in London (17 de outubro de 2018).

Era óbvio que ele estava cativo das opiniões delirantes que lhe estavam a ser expressas pelos seus conselheiros.

Eu disse a John que o Partido Trabalhista soava como se ainda estivesse preso em meados da década de 1970, quando o Chanceler na altura, Dennis Healey, mentiu ao povo britânico sobre o facto de o Governo ter de ir recorrer ao FMI a pedir um empréstimo porque tinha ficado sem dinheiro.

Este foi o início da paranoia excessiva dentro da esquerda britânica sobre o poder da City – dos mercados financeiros.

E essa paranoia levou ao desenvolvimento da ridícula regra fiscal e do enquadramento neoliberal para dar a impressão de que o Partido Trabalhista sabia o que estava a fazer.

Enquanto aqueles que, na sua câmara de eco das redes sociais –  o leitor sabe quem são -, passaram claramente horas em linha a convencerem-se uns aos outros do quão inteligentes eram e a difamar quem, na esquerda, se atreveu a discordar, a prova está no pudim.

Os eleitores rejeitaram, obviamente, esta posição.

O problema agora é que o Manifesto realmente progressista será impugnado. Não o deveria ser.

 

O Brexit vai ajudar o Partido Trabalhista.

O Partido Trabalhista terá agora uma oportunidade fantástica, agora que a nação vai deixar a União Europeia.

Destaquei as razões neste texto do blog – Why the Leave victory is a great outcome (27 de junho de 2016) – escrito alguns dias após o referendo.

Considerei que o espaço progressista irá expandir-se dramaticamente em resultado do restabelecimento da soberania.

Em primeiro lugar, representa uma grande rejeição das estruturas políticas neoliberais que são hoje comuns. Elas deixam de ter legitimidade e o voto mostra que as pessoas comuns, em última análise, têm mais poder do que as elites.

Isto não significa que o eleitor comum do Leave saiba qual é a alternativa ou entenda a Teoria Monetária Moderna (MMT) ou qualquer outra coisa.

Significa que eles rejeitaram as ideias da classe política dominante

Em segundo lugar, se for concretizada, a saída irá restaurar inequivocamente a soberania britânica e libertá-la da Comissão Europeia e do Conselho, organismos neoliberais obcecados pela austeridade. Deixará de estar sujeita a decisões do Tribunal de Justiça Europeu.

A validade constitucional da legislação britânica, motivada e introduzida por um governo britânico eleito em vez da tecnocracia não eleita que é a Comissão Europeia, será escrutinada pelas instituições britânicas (o Supremo Tribunal, etc.).

É assim que deve funcionar uma democracia com separação de poderes.

Em terceiro lugar, foram reduzidas as oportunidades da política britânica de despolitizar as más decisões que prejudicam os interesses dos cidadãos comuns, apelando para as forças externas fora do seu controlo.

Os políticos britânicos de todos os quadrantes terão de assumir mais responsabilidade pelas suas escolhas legislativas e políticas, o que constitui um progresso em relação ao estado atual das coisas em que podem evitar essa responsabilidade, atribuindo a culpa a Bruxelas.

Em quarto lugar, a escolha não vai libertar a Grã-Bretanha do neoliberalismo, mas traz de novo o debate para a ribalta – o eleitor face a face com os políticos britânicos.

Não há garantias de que a decisão de abandonar a União Europeia conduza a bons resultados, ou seja, que conduza a ajudar aqueles que foram privados dos seus direitos pelo sistema neoliberal.

Há cenários que conduziriam à conclusão de que poderia ocorrer exatamente o contrário.

Os conservadores de direita que sempre odiaram a Europa poderiam insistir numa “concorrência” ainda maior e em cortes nas despesas e serviços públicos, o que prejudicaria ainda mais a sorte dos fracos e precários.

Os patrões podem pressionar por mais cortes nos salários e condições de trabalho.

Mas, tal como disse o economista polaco Michał Kalecki, numa situação de crise há oportunidades para a direita e para a esquerda.

A campanha de Leave foi dominada por aqueles da Direita que podiam ver o potencial de dar voz aos privados de direitos fora das elites de Londres.

A votação do Brexit foi uma rejeição do Novo Partido Trabalhista, tanto quanto uma rejeição do neo-liberalismo ao estilo do Partido Conservador.

O caminho a seguir – o meu plano inicial de 6 pontos para o Partido Trabalhista britânico

O caminho a seguir para o Partido Trabalhista, na minha opinião que é externa ao Reino Unido, é o de:

1) Fora com os Blairistas – eles são um cancro dentro de um partido progressista. As suas ambições carreiristas perverterão sempre os objetivos progressistas.

Que mais danos tem Tony Blair para infligir ao povo da Grã-Bretanha e ao Partido Trabalhista?

2) Esqueçam-se todos os conselheiros inteligentes- que pensavam que Remain era o caminho a seguir.

Não são os votos que contam para se chegar ao poder mas sim os assentos ganhos.

É óbvio que o sistema de votação britânico (FPP) é profundamente falho e escrever artigos que afirmam que, digamos, num sistema proporcional, o massacre dos Trabalhistas não foi tão mau como foi, equivale a uma negação clara.

O sistema é claro para todos. É preciso ganhar assentos. E um partido dificilmente ganhará o governo onde a maioria dos seus deputados foram eleitos por pessoas que apenas três anos antes lhes disseram que queriam exatamente o oposto do que o partido defende agora para as eleições .

E, os lugares no parlamento não serão ganhos, quando os apparatchiks trabalhistas e os media que os apoiam (o UK Guardian etc.) implacavelmente vilipendiarem esses eleitores como sendo burros, racistas, xenofóbos, ‘Little Englanders’ e todo o resto da nomenclatura abusiva que as elites de esquerda de Londres utilizaram  quando o Remain perdeu em junho de 2016.

3) Ignorem-se todos os conselheiros que defendiam as regras orçamentais  neoliberais como sendo as regras inteligentes.

Elas são estúpidas e impraticáveis e o facto de que o Partido Trabalhista mudou a Regra nas semanas antes da eleição quando o IFS apontou que elas eram incompatíveis com o Manifesto, um ponto de vista que eu tinha apresentado quando a Regra saiu pela primeira vez, é também testemunho disso.

4) Manter o Manifesto progressista sem os quadros e estruturas neoliberais.

5) Comece-se  este período de isolamento de 5 anos montando uma campanha massiva de informação para permitir que os eleitores britânicos realmente entendam quais são as capacidades do governo emitente de moeda, o que tornará muito mais fácil desmontar argumentos que começam com “Como vamos pagar por isso?

Nesse sentido, aconselho o Partido Trabalhista Britânico a encomendar uma série de workshops sobre Teoria Monetária Moderna (MMT), a partir de fevereiro, quando estarei no Reino Unido.

6) Escolha cuidadosamente a nova liderança.

Aqui está um dos candidatos para a liderança do Partido Trabalhista – numa pré-entrevista para esse trabalho, deixando claro que nenhum comité razoável jamais a consideraria como qualificada para a short-list.

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Vou desenvolver esse plano nos próximos meses

 

Conclusão

E, pelo menos Chuka e Jo Swinson e uma série de outros oportunistas neoliberais perderam os seus lugares,

Se o Partido Trabalhista Britânico não fizer uma revisão da sua narrativa económica, o que significa que ele tem que parar de receber conselhos dos Novos Keynesianos e de outros economistas que pensam que a City de Londres é toda poderosa e que o governo tem que apaziguar os mercados financeiros, então não haverá recuperação de curto prazo para o Partido Trabalhista.

E, o mais importante, o Brexit transformar-se-á num pesadelo para os britânicos quando deve este deveria ser uma alavanca progressista .

E, em Fevereiro, vou passar mais facilmente pelo fator imigração à medida que as regras de acesso dos não-residentes da UE forem mudando (assim o espero).

That is enough for today!

(c) Copyright 2019 William Mitchell. All Rights Reserved.

 

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O autor: Bill Mitchell [1952 – ] doutorado em Economia, é professor de economia na Universidade de Newcastle, Nova Gales do Sul, Austrália e um notável defensor da teoria monetária moderna. É também Professor Doutor em Economia Política Global, Faculdade de Ciências Sociais, Universidade de Helsínquia, Finlândia. Autor entre outras obras de : Macroeconomics (Macmillan, Março de 2019), co-escrito com L. Randall Wray e Martin Watts; Reclaiming the State: A Progressive Vision of Sovereignty for a Post-Neoliberal World (Setembro de 2017), co-escrito com Thomas Fazi; Eurozone Dystopia: Groupthink and Denial on a Grand Scale (Maio 2015); Full Employment Abandoned: Shifting Sands and Policy Failures (2008), co-escrito com Joan Muysken. Bill Mitchell tocou guitarra elétrica com várias bandas, a última das quais, Pressure Drop, se retirou em 2010.

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