JEREMY CORBYN, UM POLÍTICO QUE SE DISTINGUE PELA SUA SERIEDADE – GRÃ-BRETANHA: AS RAZÕES DE UMA DERROTA – PORQUE É QUE PERDEMOS, COMO É QUE VAMOS GANHAR…, por PAUL O’CONNELL

 

Why We Lost, How We Win/Pourquoi nous avons perdu, comment nous allons gagner, por Paul O’Connell

LEFT/Contretemps, 12/16 de Dezembro de 2019

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

“Inteligência suficiente para conceber, coragem suficiente para querer, poder suficiente para obrigar. Se as nossas idéias de uma nova sociedade são mais que um sonho, essas três qualidades devem animar a maioria dos trabalhadores; e então, digo-vos, isso será feito” (William Morris).

Porque é que o Partido Trabalhista perdeu as eleições apesar dos imensos esforços de milhares de ativistas dedicados e do manifesto eleitoral mais progressista dos últimos anos é uma questão crucial para a direção da próxima fase da política socialista e da luta de classes na Grã-Bretanha. De facto, a batalha de interpretação sobre o resultado será um fator determinante nas lutas internas em curso no seio do movimento sindical, nas discussões de estratégia e táticas para o futuro da esquerda radical e para as lições aprendidas pela classe trabalhadora em geral.

Uma interpretação já avançada pela esquerda liberal é que o Partido Trabalhista (leia Corbyn) tem sido demasiado lento para adotar  a linha estabelecida pelos Remainers em conformidade com a posição da  UE. De acordo com este argumento, o partido permaneceu no meio, quando deveria ter abraçado as virtudes de  Remain, levando consigo os eleitores recalcitrantes da classe trabalhadora. Este argumento é apresentado por grupos como “Outra Europa é Possível” e a habitual camarilha de comentadores liberais do Guardian e de outros lugares. Mas esta análise tira as conclusões erradas dos últimos cinco anos e, se ela prevalecesse, só prepararia a esquerda para outro fracasso. Outro ponto de vista, avançado pelas forças à direita do Partido Trabalhista, é que este perdeu o contacto com a classe trabalhadora “socialmente conservadora” ou “tradicional”. Esta é uma abordagem tão errada e prejudicial como a apresentada pelos liberais, e ambas terão de ser rejeitadas, no futuro, pela esquerda socialista.

Na verdade, a razão decisiva pela qual o Partido Trabalhista perdeu as eleições é que nos últimos três anos se transformou de um partido determinado a respeitar o resultado do referendo sobre Brexit em um “Partido do Remain” de facto. Naturalmente, algumas outras razões importantes pesaram, desde o preconceito não dissimulado dos meios de comunicação tradicionais até ao pessimismo enraizado em mais de trinta anos de neoliberalismo e a campanha concertada de difamação contra Corbyn conduzida nos últimos quatro meses com o apoio de muitos deputados trabalhistas e blairistas descontentes,  ataques estes promovidos pelos meios de comunicação social.

Mas a mudança de posição do Partido Trabalhista sobre o Brexit foi decisiva, pois foi a questão chave para muitos de seus eleitores nas eleições. Foi o cerne da mensagem eleitoral dos Conservadores (cuidadosamente reiterada pela comunicação social) e reflete-se nos círculos eleitorais que votaram Brexit, que os Trabalhistas perderam para os Conservadores. A meio caminho, a liderança trabalhista reconheceu claramente que esta linha estava a prejudicar a campanha e voltou a sua atenção para os círculos eleitorais do Norte e das Terras Médias, retirando dos holofotes da imprensa os apoiantes mais visíveis do Remain, como Emily Thornberry e Keir Starmer. Infelizmente, era muito pouco  e muito tarde.

A mudança na posição dos trabalhistas foi impulsionada por uma campanha concertada pelos piores  vestígios  dos anos Blair (Peter Mandelson, Alistair Campbell, Tom Watson, o próprio Blair, etc.) com o apoio da maioria dos meios de comunicação social e da classe política em geral. Uma vez que o Partido Trabalhista foi levado, através de algumas manobras, a apoiar um segundo referendo, a lógica eleitoral desta posição foi tentar captar as classes médias descontentes, que formam a base social do restante bloco eleitoral, e esperar que os estratos da classe trabalhadora que haviam votado a favor do Brexit pudessem ser conquistados com promessas de melhorar a sua situação material sob um futuro governo trabalhista. Para implementar esta estratégia, o Partido Trabalhista tentou centrar estas eleições em “tudo menos no Brexit”, mas foi uma estratégia ingénua, sem qualquer hipótese de sucesso.

Enquanto que as vidas dos trabalhadores estão a ser prejudicadas pelos efeitos da austeridade, pelos cortes no setor público, insegurança no emprego e queda dos salários, e o espectro da catástrofe climática tem estado cada vez mais em evidência nos últimos anos, a situação política britânica (no sentido restrito do termo, que se refere ao terreno eleitoral) tem sido dominada pelo Brexit durante estes quase quatro anos. O Brexit tornou-se assim o terreno em que se está a travar uma estranha, mas bem enraizada “guerra cultural”. No entanto, nas semanas que antecederam as eleições, o Partido Trabalhista recusou-se duas vezes a votar no Parlamento a favor da convocação de eleições parlamentares antecipadas, alegando que queria garantias para evitar um Brexit sem um acordo. No fim de contas, o escrutínio permaneceu,  como era perfeitamente previsível, a “eleição do Brexit”, e muitos eleitores da classe trabalhadora pró-Brexit (e até muitos outros que haviam votado no Remain) aderiram à retórica vazia e às promessas de Boris Johnson e dos Conservadores. Eles votaram na esperança de acabar com a incerteza de Brexit (o que não acontecerá), mas também votaram contra o desprezo que eles e elas perceberam na oferta enganadora  do Partido Trabalhista que lhes estava a ser oferecida. A eleição foi assim perdida porque os Trabalhistas optaram por privilegiar a política da classe média em detrimento da de grandes sectores da classe trabalhadora na crucial questão que é o  Brexit.

Esta questão também foi crucial em termos das questões fundamentais de confiança e integridade. Embora a votação a favor de Brexit seja complexa, a maioria dos trabalhadores que a escolheram (e foi a maioria dos foram às urnas em 2016) vive em regiões que viveram décadas de declínio industrial, pobreza e marginalização. Estas são regiões  onde estas pessoas têm sido ditas durante anos, explícita e implicitamente, que não há nada que elas possam fazer para mudar o seu destino. Com a votação sobre Brexit, eles tiveram uma palavra a dizer sobre uma questão crucial da política nacional, uma única vez na sua vida.  Mas quando votaram no Brexit, o establishment reagiu imediatamente tentando deslegitimar e desfazer o resultado.

Nas eleições legislativas de 2017, o Partido Trabalhista prometeu respeitar o voto Brexit e lutar pelo melhor Brexit possível. Esta posição, combinada com o seu manifesto eleitoral radical, permitiu-lhe apresentar-se como uma verdadeira força insurreccional. Nestas eleições, ao capitular às exigências do liberalismo reacionário e ao comprometer-se a convocar um segundo referendo, o Partido Trabalhista não pôde apresentar-se consistentemente como um partido de mudança e transformação radical enquanto jogava a carta do  status quo sobre a questão Brexit. Não podia ser em parte radical, por um lado e, por outro, ser em parte do lado da classe trabalhadora nas áreas pró-Brexit, não, o Partido tinha  de ser radical de todo o coração, e não o era.

O resultado das eleições  deixa-nos  com mais cinco anos de governo conservador. Não podemos ter ilusões sobre o facto de que, durante esse tempo, os conservadores vão atacar os direitos dos trabalhadores, dos migrantes, dos serviços públicos e do meio ambiente. Dado que provavelmente já estamos nas fases iniciais da próxima recessão, a austeridade e a desumanidade da última década dos governos conservadores (sozinhos ou em coligação com os democratas liberais) irão redobrar e a classe trabalhadora será, como sempre, o principal alvo desta guerra de classes. Devemos, portanto, livrar-nos do compreensível impulso de lamentar esta oportunidade perdida e, em vez disso, começar rapidamente a organizar-nos para as lutas que se avizinham.

Mas, para avançarmos, precisamos de  fazer  um balanço das experiências dos últimos anos, entender como chegámos aqui e  precisamos de nos orientar  tendo em conta as nossas próximas etapas. Para isso, temos de nos recentrar nos princípios centrais do socialismo. A política socialista baseia-se nas divisões centrais da sociedade entre a pequena minoria que possui a riqueza da sociedade e o resto de nós que temos de trabalhar para os restantes. O socialismo tem a ver com classes, interesses de classe, luta de classes e compreensão da desordem vertiginosa e confusa da sociedade moderna através do prisma da análise de classe, o que permite conferir-lhe um sentido e de trabalhar  para transformar a sociedade.

Nestas eleições, e nestes quatro anos marcados pela situação Brexit, o Labour e uma grande parte da esquerda perderam de vista a centralidade de classe no que se refere ao  Brexit. Como resultado, foi possível rejeitar o  Brexit como um mero projeto  racista, imaginar que o voto pró-Brexit poderia ser ignorado, e que a populaça que o apoiou poderia ser ganha com a promessa paternalista de fazer o que é melhor para eles. Mas esta é a política do fabianismo arrogante[1] e não a base para a construção de uma alternativa radical.

Nas eleições legislativas de 2017, o partido liderado por Corbyn registou o retorno eleitoral mais forte para os trabalhistas desde a Segunda Guerra Mundial, aceitando o resultado do referendo e ligando a energia perturbadora do voto Brexit a um manifesto que prometia uma mudança radical para as classes trabalhadoras. Nessa eleição, o Partido Trabalhista fez propostas políticas ainda mais radicais, mas não conseguiu  apresentar-se  de forma convincente como o partido da transformação radical, pois estava, de facto, determinado a ignorar e anular o voto Brexit.

Embora a situação de Brexit seja complexa, ela é antes de mais nada a de uma rejeição do status quo. Neste sentido, ela também alimentou o crescente apoio a Corbyn, pelo que não é mera coincidência que os opositores mais fervorosos do Brexit sejam também os mais hostis a Corbyn e ao seu projeto dentro do Partido Trabalhista. Nesta eleição, ele  alinhou com os  seus opositores  sobre uma questão crucial e foi rejeitado por muitos daqueles que deveriam ser a sua base natural.

A grande confusão em tudo isto é que em quase tudo o resto as propostas do manifesto eleitoral trabalhista estão de acordo com os interesses dos trabalhadores. O problema fundamental é que devido à sua abordagem do Brexit, o partido de Corbyn acabou por aparecer  a amplos setores da classe trabalhadora como uma força estrangeira, propondo o avanço do socialismo para a classe trabalhadora, mas não com  esta. Isto porque embora o sucesso de Corbyn refletisse um renascimento de ideias vagamente socialistas, ele não estava enraizado nas comunidades e locais de trabalho da classe trabalhadora. O trabalho de organização comunitária recentemente empreendido é um bom augúrio para o que pode e deve ser feito nesta frente, mas este tipo de trabalho tem sido um elemento periférico da experiência de Corbyn e do movimento mais amplo que o tem rodeado até à data.

Teremos de aproveitar a energia desta campanha eleitoral e transferi-la para a organização e mobilização para transformar os nossos sindicatos, para construir modelos alternativos de democracia e de capacitação comunitária em questões de transporte público, escolas, cuidados de saúde e ambiente. E, sobretudo, devemos reorientar a nossa política para a centralidade da classe, da classe trabalhadora como um todo, não de uma mítica classe trabalhadora “tradicional” ou “branca”. Este deve ser o centro dos nossos esforços, porque sem a classe trabalhadora não há socialismo. Na ausência de comunidades e organizações de classe trabalhadora autónomas e protagonistas, não há rutura com o status quo. Devemos aproveitar ao máximo o movimento que emergiu de Corbyn, mas também romper com os erros que nos trouxeram até onde estamos. Nós sofremos a derrota, mas a batalha de  e para as nossas vidas começa agora.

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(1) A Sociedade Fabiana foi fundada em 1884 por reformadores socialistas e desempenhou um papel importante na criação do Partido Trabalhista e na formação da sua doutrina. O tipo de socialismo que defendia era um vasto projeto de engenharia social, dando uma posição decisiva a especialistas e intelectuais e promovendo um estado de bem-estar paternalista, inspirado no Bismarckismo, bem como uma versão reformada do Império Colonial do qual os Fabianos eram fervorosos apoiantes. As principais figuras da primeira geração de Fabianos foram o casal Webb, Beatrice e Sydney, Emily Pankhurst e o escritor George Bernard Shaw. Ainda ativa, a Sociedade Fabian também desempenhou um papel significativo, embora não exclusivo, no desenvolvimento da agenda da “Terceira Via” adotada por Tony Blair e New Labour nos anos 90. (NdT– Statis Kouvelakis).

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Publicado em  leftcampaign.org/ a 13 de Dezembro de 2019. Para ler clique em:

Paul O'Connell – Why We Lost, How We Win

Para ler em Contretemps – Revue de critique communiste clique em:

https://www.contretemps.eu/author/paul-oconnell/

Paul O’Connell ensina Direito na Universidade  SOAS de Londres e milita no seio da  plataforma  LEFT (Leave-Fight-Transform : Deixar a UE-Lutar-Transformar, a favor de um Brexit de esquerda. Ele é  igualmente um dos animadores do sítio  Legal Form. A Forum for Marxist Analysis of Law (Forme Juridique. (Um Forum de Análise Marxista do Direito ) cujo endereço  legalform.blog/

 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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