NOS 25 ANOS DA MORTE DE MIGUEL TORGA (1907-1995) – por MANUEL SIMÕES

(1907 – 1995)

 

É de toda a justiça recordar aqui o grande poeta Miguel Torga – pseudónimo, como se sabe, do seu verdadeiro nome Adolfo Coelho da Rocha – que atravessou todo o século XX, agora que passaram 25 anos sobre a sua morte (em Coimbra, a 17 de Janeiro de 1995), salientando o aspecto que seguramente marcou toda a sua obra: a conflitualidade latente com o sagrado.

De facto, a sua escrita – quer nos contos, quer na poesia, no diário ou noutras formas narrativas – é a expressão de uma natural essencialidade e, além disso, de uma simbologia que remete para o mundo da cultura, numa exigência ética que se aplica a si próprio e aos outros. Não é por acaso que muitas vezes o Autor se serve das mitologias como elemento da cultura, mas quase sempre (e é nisso que a obra se distingue) com a finalidade de distorcer o mito, clássico ou cristão, recriando-o num contexto obviamente diverso, com o objectivo de afirmar a liberdade humana em relação a uma divindade considerada tirânica e destruidora. Num seu conto do livro que deveria ser de leitura obrigatória (Bichos, 1940), Vicente é o símbolo revelador da posição do Autor em relação ao sagrado. E assim Vicente, o corvo negro, que na mitologia bíblica é um animal impuro e abominável, através do processo de “distorção” e recriação do mito, torna-se símbolo da revolta individual e social – tudo como afirmação da liberdade.

A sua obsessão por este tema leva-o a escrever o romance A Criação do Mundo, em cinco volumes, romance que, porém, tem um fundo autobiográfico: por um deles conheceu até as prisões da Pide. Mas o arquétipo bíblico reaparece noutros lugares textuais de Miguel Torga, incluindo os seus volumes de poesia. Já no seu primeiro livro (Rampa, 1930) se pode detectar o conflito entre o sujeito e a divindade relativamente ao mistério da criação, e a perplexidade do homem em relação à morte. Assim se lê no poema de abertura: «Quero / amar este sol da terra / que mostra o calor do céu./ O alto céu onde mora / um Deus que na mesma hora / nos criou e nos perdeu». Trata-se de uma conflitualidade que, como se disse, acompanha toda a obra de Torga. No volume O Outro Livro de Job (1936) recupera-se o mito da criação, partindo do Génesis através de três poemas – três lamentações – em que o sujeito é simultaneamente Adão-o Homem-Autor: «E por tão pouco me mandaste embora! / Por tão pouco a tua mão / me apontou a Vida, fora / do teu coração / de Pai / (Por tão pouco / a crosta divina / cai!…)». E na terceira lamentação a voz poetante abandona qualquer sentimento de culpa  relativamente à queda do Homem, pelo contrário, a palavra poética manifesta-se contra a ‘castração’ inatural da condição humana: «E não te peço perdão de ser assim… / Sou tal e qual como vim / de teu celeste jardim / para as selvas brutais da Natureza. / Não tenho culpa de a Obra / cair por causa da Cobra, / das tuas mãos sem firmeza». É uma posição que tem que ver com o mito de Prometeu, como sucederá noutros momentos, assumido como rebelião contra todas as formas que ponham em causa a liberdade do Homem. O que lhe interessa, de modo até radical, é a condição humana, como se pode ler num poema inserido no Diário XIII (1983) intitulado “Perfil”: «Não. Não tenho limites./ […] Já nascido em pecado, / todos os meus pecados são mortais. / Todos são naturais / à minha condição».

Na obra de Miguel Torga há outros arcanos bíblicos, sempre como ponto de partida para uma reflexão à volta da  Liberdade. O poema “O Lázaro” (ainda de O Outro Livro de Job) é uma composição paradigmática da posição do Autor sobre as relações entre sagrado e profano. Em contraposição com o Lázaro bíblico, o sujeito assume aqui na primeira pessoa o nome e as conotações para as transfigurar numa série de contrastes que, ao mesmo tempo, revelam e negam, enquanto transgressivamente atribui a si mesmo os sinais divinos: «Sou eu, o Alfa e o Ómega», tudo isto para se autoafirmar o «Lázaro real que não vem nos Evangelhos, / mas é!…», quer dizer, para sustentar a categoria do ser como atributo da criação, de resto o tema que a poética de Torga continuará a privilegiar até ao fim.

Ao recordar aqui o grande escritor, não posso deixar de evidenciar o seu extraordinário livro de contos, Bichos, que outorgam a Miguel Torga, quanto a mim,  o título de maior contista de toda a literatura portuguesa do século passado.

 

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