CARTA DE BRAGA – “de filas e migrantes” por António Oliveira

Tive de entrar num supermercado numa triste manhã de sábado. Triste não pelo tempo mas pelas inumeráveis pessoas já alinhadas nas filas das caixas.

Fiz a compra que ali me levou e ‘instalei-me’ na posição nove ou dez da fila com cartaz ‘compras até dez unidades’, mas há sempre pessoas que reclamam por isto ou por aquilo, outras que se esquecem de alguma coisa e ouço uma voz tranquila atrás de mim ‘os nossos avós sabiam apreciar melhor a vida!

Viro-me para trás com a confiança que as filas sempre ‘autorizam’, vejo um cavalheiro com idade próxima da minha, pergunto porquê e a resposta dá origem a uma gargalhada que se estende à fila do lado ‘Meu caro senhor, eles não trabalhavam a semana inteira, para se meterem ao sábado num supermercado!

Alguma coisa correu mal no espaço de tempo que nos separa dos nossos avós porque, além das pressas e das urgências que os incontornáveis smartphones mostram (a maioria dos esperantes olhava um), a preocupação com o consumo é patente e inenarrável, pois nem sequer vou nomear as compras que dei conta de ver passar pelo leitor de barras da caixa.

Não há acto político maior que o consumo. O que e como o consumimos, marca o modelo de sociedade em que vivemos. E a filosofia não passa de ser só um instrumento para a construção de cada um’, explica Eduardo Infante, professor de filosofia no ensino superior.

O pensamento ‘antigo’ de ter sempre mais, está a ser substituído por modos de vida e de relações que já não passam pela propriedade e acumulação, mas sim pelo uso. Vamos ter uma economia do usuário, não do proprietário, que vai mudar todas as relações de poder.

Vivemos numa época fascinada pela velocidade e superada pela própria aceleração ‘que já passou além de certo valor crítico, adquirindo uma nova qualidade que destruiu a linearidade e a sequencialidade com que percebíamos a realidade’.

A afirmação é do filósofo Daniel Innerarity em ‘O futuro e os seus inimigos’ e alerta para este fascínio e consequente renúncia a dar um tratamento coerente aos problemas sociais.

 A emigração é um dos problemas mais graves pois ‘Em 2019, o número de migrantes situou-se num espantoso 272 milhões, mais 51 milhões que em 2010 e os internacionais representam cerca de 3,5% da população mundial’.

São inúmeros os problemas que os levam sair do seu país, além da pressão da pobreza e da melhoria económica. Também tem de se ter em conta a guerra e outras formas de violência e ainda se devem considerar os sonhos e o achamento de novos horizontes, os mesmos que nos levaram a partir também, nos tempos dos nossos avós!

A democracia liberal está baseada no respeito pelos direitos humanos. Mas está a crescer o número de países que dá prioridade ao desenvolvimento, isto é, assegurar antes a defesa nacional e ideológica face aos centros de poder mundiais.

Mas tem sempre ligada ‘uma atitude defensora de uma identidade e de uma comunidade, logo racista e xenófoba, uma ameaça portadora de guerra’ afirma o sociólogo francês Alain Touraine.

Na entrevista que concedeu ao ‘El País’ adianta ‘a União Europeia atribuiu-se como lema «vivamos juntos com as nossas diferenças». Isto dá uma importância maior à defesa dos emigrantes e dos refugiados’. Quem a assume?

Uma interrogação que me leva a uma afirmação de Zygmunt Bauman, perfeitamente adequada ‘Estamos numa situação na qual e de modo constante, somos incentivados e nos predispõem a agir de maneira egocêntrica e materialista’.

E uma pergunta para terminar esta Carta – será que, 75 anos depois de Auschwitz e vendo supurar saudosos e outras semialmas de todos os lados, ainda se deve continuar a acreditar no homem e nos valores da civilização?

António M. Oliveira
 
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor


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