Ajudará o rendimento básico universal à recuperação do trabalhismo britânico? – 5. Justificar-se-á o rendimento básico garantido? Parte 2. Por Bill Mitchell

Espuma dos dias_porcos podem voar

Seleção e tradução de Francisco Tavares

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Publicamos uma minisérie de 8 textos sobre o debate rendimento básico universal versus garantia de emprego. O primeiro texto (ver aqui) – de Guy Standing – datado de 15 de janeiro último, escrito no rescaldo dos resultados das últimas eleições gerais no Reino Unido, reflete sobre como construir uma aliança progressista na Grã-Bretanha, colocando à cabeça dos elementos chave “combater a desigualdade e a precariedade avançando para um rendimento básico …” e terminando com uma proposta de mudança de nome de partido Trabalhista para partido Progressista.

O segundo texto é uma certeira e bem articulada resposta de Bill Mitchell (ver aqui). Como muito bem diz: “E os porcos podem voar!” Conclui ele que “As propostas para um RBU representam antes uma rendição à mentira neoliberal de que o governo [emissor de moeda] não pode …… sempre fornecer trabalho suficiente para aqueles que o querem, caso o sector não governamental venha a falhar.”

Este quinto texto (para o terceiro e o quarto texto, ver aqui e aqui) faz parte de um conjunto de seis textos que são uma análise detalhada feita em 2016 por Bill Mitchell sobre a proposta de um rendimento básico garantido (ou universal), onde finalmente conclui que pela sua oposição à introdução deste Sistema, que cria um grupo estigmatizado por não trabalhar, que não fornece nenhum amortecedor de inflação, que não acrescenta nada produtivo à sociedade, independentemente do estado do ciclo económico, não fornece uma arquitetura para o desenvolvimento das capacidades individuais, trata as pessoas como meras unidades de consume. Afirma Mitchell que, “essencialmente, a abordagem do rendimento básico ignora o papel social intrínseco e de capacitação da participação em trabalho remunerado”. Ao contrário, “A Garantia de Emprego é um veículo muito melhor para reconstruir o sentido de comunidade e a natureza intencional do trabalho. É a única alternativa real para evitar desvantagens intergeracionais” e “Fornece também o enquadramento para que o próprio conceito de trabalho possa ser alargado de modo a incluir actividades que muitos actualmente dispensariam como sendo lazer, o que é consistente com as aspirações de alguns defensores do rendimento básico.

FT

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5. Justificar-se-á o rendimento básico garantido? Parte 2

Bill Mitchell I Por Bill Mitchell

Publicado em 21 de setembro de 2016 em http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=34454

Modern Monetary Theory … macroeconomic reality

logo bill mitchell

 

Esta é a Parte 2 desta mini-série que debate os méritos relativos da proposta de rendimento básico garantido e da proposta de emprego garantido. O tema do rendimento básico garantido parece despertar muita paixão e em todas as discussões raramente vejo alguém que analise cuidadosamente as implicações macroeconómicas de montar um sistema. Recebo muitos E-mails acusando-me, em vários graus de cortesia, de estar numa cruzada moral na minha oposição às propostas do rendimento básico. Pergunto-me quanto do meu trabalho ao longo dos anos terão lido esses correspondentes. Não muito é a minha conclusão. O que quer que se pense sobre a moralidade de um sistema em que algumas pessoas trabalham enquanto outras são apoiadas de uma forma ou outra sem terem de trabalhar, ainda que o pudessem fazer (excluo os idosos, doentes e pessoas com deficiências graves), permanece o facto de que uma proposta de política não conseguirá grande apoio da minha parte se implicar um profundo enviesamento da inflação e adotar justificações neo-liberais para resultados económicos como o desemprego. Também nunca apoiarei uma proposta que libere os governos nacionais da assunção da responsabilidade de proporcionarem suficiente trabalho através das suas capacidades monetárias e que trate os indivíduos de forma expedita como ‘unidades de consumo’ – para serem mantidos a um nível material mínimo. De qualquer modo, analisamos alguns destes aspetos neste texto.

Qual é o problema que tem de ser enfrentado?

Do mesmo modo que construímos as condições do problema assim o modo como o tentamos resolver. Mitchell e Watts (2004: 3) dizem que “é fácil levantar um ‘falso problema’ e depois desenvolver retórica para ‘o resolver’.” Apresentamos a argumentação deles no texto que se segue (as referências de página dizem respeito ao seu artigo).

Na montagem de uma política pública, é crucial elaborar o problema inicial de forma compreensível para assegurar que as soluções sejam eficazes. Assim, avançando na discussão entre proponentes do rendimento básico e proponentes do emprego garantido, qual é exatamente a natureza do problema que estão a tentar resolver?

Em primeiro lugar, e o debate de facto vai bem além disso, ambas as propostas pretendem claramente enfrentar o problema da insegurança de rendimento.

Não há dúvida que as taxas de pobreza aumentaram em muitos países em resultado da crise financeira global (CFG) e das políticas de austeridade prosseguidas no rescaldo por governos mal orientados.

Muitos investigadores e comentadores políticos tomam este tipo de dados para base da sua defesa da introdução do Rendimento Básico Garantido (RBG) como arma política primordial de luta contra a pobreza.

Sublinham eles o facto de que existe uma falta de alternativas de emprego disponíveis para os cidadãos nos países pobres e que a introdução do RBG parece uma maneira fácil de eliminar a pobreza.

O estabelecimento de um RBG incondicional, estabelecido a um nível ‘condigno para viver’ e atribuível a todos os cidadãos, é defendido por numerosos teóricos das políticas públicas como meio de enfrentar a insegurança de rendimento.

Mas uma solução eficaz requer que compreendamos “as causas subjacentes mais do que as causas próximas da insegurança de rendimento” (p.3).

Mas a questão não fica por aqui. Para montar um conjunto de soluções possíveis, temos também de compreender o poder que um Estado emissor de moeda tem em termos de resolução das causas subjacentes. Se temos uma compreensão mal informada dessas capacidades temos tendência a definir um esquema possível de políticas de forma demasiado restrita e a excluir soluções preferíveis.

Somos de opinião que esta falha é inerente à proposta de rendimento básico.

É óbvio que os defensores do rendimento básico tentam resolver o problema da insegurança de rendimento diretamente mas, ao fazê-lo assim, falham no enfrentamento das causas subjacentes – nomeadamente o desemprego.

Mas mais revelador ainda é que os proponentes do rendimento básico, em geral, não compreendem de forma categórica as realidades da moeda moderna nas economias monetárias fiduciárias. Consequentemente, funcionam dentro da falsa crença que tais governos estão financeiramente limitados.

Isto, por sua vez, expõe a abordagem do rendimento básico à crítica de que teria tendência a criar inflação em comparação com o esquema da garantia de emprego e que essa tendência inflacionária aumentaria à medida que aumentasse o nível da garantia.

O problema da insegurança de rendimento

Enquanto que os defensores do rendimento básico se concentram na segurança do rendimento como um fim em si mesmo, aqueles que defendem a garantia de emprego consideram que a insegurança do rendimento é uma manifestação de um problema mais geral do capitalismo – uma deliberada criação de ausência de crescimento do emprego, que resulta dos decisores políticos prosseguirem zelosamente objetivos de inflação tendo em pouca consideração o persistente desemprego que resulta como consequência.

A abordagem do rendimento básico à insegurança do rendimento assenta naquilo a que Mitchell e Watts (2004) designaram de “falsa premissa e uma curiosa inconsistência”.

A falsa premissa diz respeito à incapacidade de compreender que um governo com capacidade de emissão de moeda nunca está constrangido financeiramente.

A inconsistência ocorre porque as respostas políticas em concorrência (o RBG ou o emprego garantido) requerem ambas que as barreiras ideológicas e políticas, relativas à noção filosófica de cidadania e de direitos individuais, se confrontem e sejam superadas.

Neste sentido, quando os defensores do rendimento básico, como Standing (2002: 272), afirmam que o pleno emprego é inatingível “por meios razoáveis”, eles estão, de facto, a rejeitar a possibilidade de mudanças políticas que seriam requeridas para implementar um rendimento básico viável (em termos do nível de apoio de rendimento).

[Referência: Standing, G. (2002) Beyond the New Paternalism: Basic Security as Equality, Verso: London.]

E se essas mudanças podem ser conseguidas e a sociedade, uma vez mais, promove o sentimento de vontade coletiva substituindo o atual foco neoliberal sobre o individualismo, a abordagem do rendimento básico seria mesmo assim inferior porque está em contradição com a capacidade que os governos emissores de moeda possuem.

Neste contexto, Mitchell e Watts (2004: 4) sugerem:

O debate devia centrar-se realmente sobre se o rendimento básico pode ser considerado uma opção melhor numa economia monetária em que o emitente de moeda é um monopólio e os mercados privados estão limitados pelas tendências inflacionistas.

A nossa conclusão é que o prosseguimento de uma política de pleno emprego deveria constituir a base de uma abordagem progressista à insegurança do rendimento em vez da adoção de uma posição derrotista de que tal objetivo é inatingível.

Neste contexto, a proposta de rendimento básico é uma concessão desnecessária e mal informada aos mitos neoliberais da taxa de desemprego não geradora de inflação, a chamada mitologia NAIRU [1].

Quando comparado com um programa público de emprego em larga escala, o rendimento básico garantido é uma opção de quinta categoria, endemicamente inflacionista.

A causa fundamental da insegurança do rendimento

A existência e persistência de desemprego massivo e a sua ligação à insegurança de rendimento é reconhecida geralmente pelos defensores do rendimento básico garantido, mas raramente explicada.

A exceção, é o reconhecido defensor do RBG Phillipe Van Parijs que apresenta uma explicação tanto para o desemprego como um modelo associado destinado ao financiamento do rendimento básico garantido.

A questão que se coloca é como a dissociação da renda do trabalho, leva ao pleno emprego – ou seja, onde aqueles que optam por trabalhar em vez de aceitar a garantia básica de renda podem ter acesso a trabalho suficiente? A resposta a esta pergunta está em como explicar o desemprego e definir o pleno emprego.

No entanto, é aqui que as tendências neoliberais na literatura básica de renda vêm à tona, por mais que os proponentes achem que elas podem ser progressivas.

Partindo da teoria económica neoclássica dominante, Van Parijs (1991) considera que o desemprego surge porque a rigidez salarial impede as forças do mercado livre que permitiriam a redução dos salários quando houvesse um excesso de oferta de mão-de-obra (desemprego). (ver também Cowling et al., 2003; Mitchell and Watts, 2004).

[Reference: Cowling, S. and Mitchell, W.F.and Watts, M.J. (2003) The right to income versus the Right to Work’ CofFEE Working Paper 03-08, The University of Newcastle.]

[Reference: Van Parijs, P. (1991) ‘Why Surfers Should be Fed: The Liberal Case for an Unconditional Basic Income’, Philosophy and Public Affairs, 20, 101-131.]

Na sua concepção, o salário corrente é demasiado elevado em relação ao nível de produtividade e as empresas não estão dispostas a oferecer empregos a todos aqueles que procuram trabalhar com esse salário. O resultado é o desemprego.

E como os salários não podem ser facilmente reduzidos, o desemprego persiste e torna-se endémico.

Várias explicações para a rigidez salarial incluem o poder sindical, a legislação salarial mínima e os processos de negociação, que geram prémios para os “insiders” (os já empregados) e excluem os outsiders das oportunidades de emprego.

Como resultado, Van Parijs considera que o desemprego é causado pelo afastamento do equilíbrio competitivo e não por qualquer falha macroeconómica (ou seja, uma deficiência de procura agregada).

Esta disputa entre aqueles que pensam que o desemprego é o resultado de salários excessivos e aqueles que consideram que é uma falha sistémica em prover empregos suficientes para satisfazer os desejos dos trabalhadores como resultado de gastos deficientes desenrolou-se na década de 1930.

John Maynard Keynes demonstrou categoricamente que o desemprego em massa surgiu quando a despesa total na economia era deficiente e não resultado de salários excessivos.

Essa mensagem tornou-se obscurecida na era neoliberal, uma vez que os economistas voltaram às noções obsoletas e defeituosas pré-keynesianas porque são mais consistentes com as suas tendências anti-governo.

Os defensores do rendimento básico avançam em sintonia com estas narrativas neoliberais a este respeito.

A questão que Van Parijs então considera é como tornar tal situação justa.

Ele propõe uma solução bastante bizarra e muito neoliberal em termos de uma redistribuição do “direito de propriedade” (Van Parijs, 1995: 12) representada pela alegada existência de “alugueres de emprego” associados a empregos escassos. (Van Parijs, 1995, Capítulo 4).

Aplicando estes conceitos a empregos escassos, Van Parijs (1991: 124) disse:

…vamos dar a cada membro da sociedade em questão um direito comercializável a uma parte igual desses empregos.

Esta conceptualização conduz então à sua solução sobre como pagar um esquema de rendimento básico (Van Parijs, 1991: 124):

… estas rendas são dadas pela diferença entre a renda (e outras vantagens) que os empregados obtêm dos seus empregos, e a renda (mais baixa) que precisariam de obter se o mercado fosse clarificado. Numa situação de desemprego maciço e persistente, não há dúvida de que a soma total destas rendas aumentaria muito o montante disponível para financiar a subvenção.

Assim, dado que Van Parijs adota o pressuposto neoliberal de que todos os governos estão financeiramente limitados, ele pensa que uma garantia básica de renda pode ser “financiada” através da tributação de trabalhadores que desfrutam de “alugueres de emprego” para permitir aos cidadãos viverem uma vida decente, ainda que modesta, sem emprego remunerado.

Nesta concepção, ninguém é concebido para “viver do trabalho” dos outros, mas sim para viver “da sua parte, ou menos do que da sua parte, das rendas que de outra forma seriam monopolizadas por aqueles que têm os empregos produtivos de uma sociedade rica” (Van Parijs, 1991: 130-31).

Mas o conceito de ‘alugueres’ estarem disponíveis em primeiro lugar pode ser expresso de forma mais simples. Apenas surge de uma escassez de empregos. Não há nada ‘natural’ no facto de algumas pessoas terem empregos e outras não.

Os defensores da renda básica adotam uma “escassez” de empregos como ponto de partida, sem entender o que está a provocar a escassez de empregos. O facto de haver um afastamento do pleno emprego não surge como uma inevitabilidade, mas sim de uma política macroeconómica defeituosa, que reflete, entre outras coisas, a mentalidade de austeridade que dominou a era recente.

Assim, os proponentes do rendimento básico ficam presos à crença de que os governos estão limitados financeiramente e não podem fazer nada para aumentar os empregos disponíveis. Apontar, definir e coincidir com os neoliberais.

Existem problemas intransponíveis com esta representação da insegurança de rendimentos e o modelo de financiamento RBG (ver Cowling et al., 2003).

Primeiro, não se reconhece que o desemprego em massa é sempre o resultado de uma deficiência de gastos totais na economia que é uma escolha, em última instância, do governo emissor da moeda.

Esta deficiência nos gastos agregados é entendida em relação ao nível de gastos necessário para garantir que a procura de trabalho seja suficiente para satisfazer os desejos de horas de trabalho dos trabalhadores.

Como explicamos abaixo, o desemprego em massa é sempre o resultado de um défice orçamental sempre demasiado baixo (ou excedente demasiado elevado, dependendo das circunstâncias no sector não governamental).

Franco Modigliani (2000: 3) escreveu em 2000:

O desemprego é principalmente devido à falta de procura agregada. Este é sobretudo o resultado de políticas macroeconómicas erradas … [as decisões dos bancos centrais] … inspiradas por um medo obsessivo da inflação … aliado a uma negligência benigna em relação ao desemprego … resultaram sistematicamente em decisões de política monetária demasiado restritivas, aparentemente baseadas numa utilização censurável da chamada abordagem NAIRU. Os efeitos contractivos destas políticas foram reforçados por políticas orçamentais comuns e muito restritivas (ênfase na original).

[Reference: Modigliani, F. (2000) ‘Europe’s Economic Problems’, Carpe Oeconomiam Papers in Economics, 3rd Monetary and Finance Lecture, Freiburg, April 6.]

Mitchell and Muysken (2008: 6) defendem que “um dos resultados dos governos que adotam a ‘ideologia’ da inflação … tem sido o fracasso em utilizar a política orçamental de forma apropriada para garantir que haja empregos suficientes criados em suas economias”.

[Reference: Mitchell, W.F. and Muysken, J. (2008) Full Employment Abandoned: Shifting Sands and Policy Failures, Aldershot, Edward Elgar.]

Por outras palavras, tentar culpar acordos salariais, que reflictam a liberdade de associação e maximizem as decisões de ambas as partes do contrato, como “imperfeições de mercado” que impedem o pleno emprego, ignora o facto de que o desemprego resulta de gastos deficientes.

De facto, como Keynes e outros demonstraram, cortar os salários para gerar níveis de emprego mais elevados é susceptível de agravar a situação de desemprego, porque os trabalhadores reduziriam as suas despesas à medida que os seus rendimentos caíssem.

Teoria do RBG e Moderna Teoria Monetária

Além de construir incorretamente o problema da insegurança de renda, a literatura sobre o RBG defende a introdução do RBG dentro de um ambiente chamado “orçamentalmente neutro”.

Por outras palavras, eles tendem a defender soluções que não têm impacto líquido sobre o resultado orçamental registado pelo governo nacional que implementa o esquema.

Isto é presumivelmente para acalmar as críticas dos neoliberais que evitam os défices do governo.

Outra forma de pensar sobre isto é que uma das questões sensíveis para os proponentes do RBG está relacionada com o “custo” percebido (em termos monetários) do programa.

Mas é aqui que apreciamos que as propostas de rendimento básico são tipicamente baseadas num entendimento errado da capacidade do governo emissor da moeda.

Uma compreensão da Teoria Monetária Moderna (MMT) permite-nos apreciar que grande parte do debate sobre a viabilidade do RBG é conduzido com base na falsa premissa de que o governo está limitado financeiramente.

Mitchell and Watts (2004: 8) defendem que:

É conveniente para os neoliberais camuflar o seu desprezo pelos gastos do governo (a menos que seja especificamente assistência que faça avançar os interesses do seu próprio grupo de pressão) no conceito de som abalizado emprestado da economia ortodoxa conhecida como a “restrição orçamental do governo” (GBC).

Mas qualquer governo soberano tem o monopólio sobre a questão da moeda e, como tal, as suas escolhas de gastos nunca são intrinsecamente limitadas pelas receitas.

O mito neoliberal de que os governos podem “ficar sem dinheiro” começa com uma falsa analogia entre orçamentos familiares e governamentais.

A analogia interpreta mal que uma família, o usuário da moeda, deve financiar os seus gastos, ex ante, enquanto o governo, o emissor da moeda, gasta primeiro e nunca tem que se preocupar com o financiamento (Mitchell e Mosler, 2002).

[Reference: Mitchell, W.F. and Mosler, W (2002) ‘The imperative of fiscal policy for full employment’, Australian Journal of Labour Economics, 5(2), 243-259.]

Todas as limitações que tal governo enfrenta são voluntárias (políticas e ideológicas) ou induzidas pela falta de recursos reais disponíveis para a compra.

Em tempos de desemprego em massa, é difícil argumentar que existem restrições reais significativas de recursos para os gastos do governo.

O governo emissor da moeda tem a obrigação de assegurar que os seus gastos líquidos (gastos do governo que excedam as receitas fiscais ou o défice fiscal) sejam suficientes para manter o pleno emprego.

É evidente que o desemprego em massa pode surgir quando o sector não governamental, no seu conjunto, deseja ganhar rendimentos, mas não deseja gastar tudo o que ganha.

O fosso entre os rendimentos ganhos e os gastos do sector não governamental tem de ser preenchido por um défice governamental (gastos superiores às receitas fiscais) para que as empresas estejam felizes a fornecer esse nível de produto (que gera um nível de rendimento equivalente).

Nessa situação, se não houver intervenção do governo, as empresas reduzirão as contratações porque não podem vender a produção que produziram.

Como resultado, o sector não governamental depende do governo para fornecer fundos tanto para a poupança líquida desejada como para o pagamento de impostos ao governo. Para obter esses fundos, os agentes não governamentais oferecem bens e serviços reais para venda em troca das unidades necessárias da moeda.

Isto inclui, naturalmente, a oferta de trabalho por parte dos desempregados. A conclusão óbvia é que o desemprego em massa ocorre quando os gastos líquidos do governo (o défice) são demasiado baixos para acomodar a necessidade de pagar impostos e o desejo de poupança líquida.

Qualquer proposta de política que justifique a sua posição com base na percepção das restrições financeiras do governo baseia-se, portanto, em fundamentos errados.

Uma vez reconhecido que não há restrições financeiras aos gastos do governo, muitos dos problemas que surgiriam se fosse introduzido um rendimento básico modesto podem ser evitados.

Em primeiro lugar, se o impacto orçamental fosse neutralizado, então haveria pouco impacto nos gastos agregados resultantes da introdução de um esquema RBG modesto.

Dado que o desemprego em massa é o resultado de gastos agregados inadequados, isto significa que a proposta de renda básica solidifica ou bloqueia a nação em estados entrincheirados de desperdício de capacidade e meramente substitui o apoio de renda para o desemprego pela renda básica.

É também altamente improvável que as taxas de participação do trabalho diminuam significativamente com a introdução de um RBG modesto, dada a crescente participação das mulheres no trabalho a tempo parcial (desejando maiores rendimentos familiares) e o forte compromisso de encontrar trabalho entre os desempregados (ver Widerquist e Lewis, 1997).

Assim, a supressão dos gastos públicos líquidos que acompanhariam a introdução de um rendimento básico provavelmente não reduziria o desemprego.

[Referência: Widerquist, K. e Lewis, M. (1997) ‘An Efficiency Argument for the Guaranteed Income’, Working Paper No. 212, The Jerome Levy Economics Institute.]

Mas poderia haver um aumento na oferta de trabalho a tempo parcial através de trabalhadores a tempo inteiro, reduzindo as horas de trabalho e combinando o RBG com o rendimento do trabalho.

Nesse contexto, os empregadores no mercado de trabalho secundário (precário, a tempo parcial) irão provavelmente utilizar este aumento da oferta de trabalho a tempo parcial para explorar o grande subsídio implícito do RBG, reduzindo os salários já baixos e precarizando as condições de trabalho.

Mesmo os defensores do rendimento básico reconheceram esta probabilidade (por exemplo, Van der Veen, 1998).

[Referência: Van der Veen, R. (1998) ‘Real Freedom versus Reciprocity: Competing Views on the Justice of Unconditional Basic Income’, Political Studies, 46(1), 140-63.]

Assim, a introdução de uma garantia básica de rendimento é susceptível de exacerbar a tendência de afastamento do trabalho a tempo inteiro para empregos de baixo salário, de baixa produtividade a tempo parcial, de desqualificação e, em última análise, de redução do nível médio de vida material.

Em terceiro lugar, para “financiar” um RBG mas manter o impacto orçamental modesto, seriam necessários impostos mais elevados que, na realidade, poderiam levar a uma redução da oferta de mão-de-obra se os trabalhadores considerassem que não valia a pena o esforço de trabalhar horas adicionais dado o aumento marginal da taxa de imposto.

Assim, mesmo com uma modesta garantia de rendimento básico, os gastos agregados e os impactos no emprego serão provavelmente pequenos, e mesmo com alguma redistribuição do horário de trabalho; é provável que persistam níveis elevados de subutilização do trabalho.

Mitchell and Watts (2004: 11) concluem que:

Em geral, esta estratégia não melhora os direitos dos mais desfavorecidos, nem proporciona trabalho para aqueles que o desejam.

Nesta linha, Little (1998: 131) assinala que embora o rendimento básico possa permitir que os indivíduos existam sem trabalho:

… não oferece nenhuma promessa firme de trabalho remunerado para aqueles que não têm emprego, mas que querem contribuir com o seu trabalho para a geração de riqueza social.

[Referência: Little, A. (1998) Post-Industrial Socialism –Towards a New Politics of Welfare, Routledge, London..]

No entanto, quer o RBG seja modesto ou não, problemas macroeconómicos profundos ainda acompanhariam a sua introdução.

 

Conclusão

Na Parte 3 vamos considerar argumentos relacionados com a inflação, coerção e transformação social.

Você adivinhou – a proposta de renda básica não se sai bem em comparação com a introdução de uma garantia de emprego.

 

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Nota

[1] NAIRU é um acrónimo de non-accelerating inflation rate of unemployment (taxa de desemprego não geradora de inflação) e refere-se ao nível de desemprego abaixo do qual a inflação sobe. O conceito foi inicialmente introduzido como NIRU (taxa de desemprego não inflacionista) por Franco Modigliani e Lucas Papademos em 1975, como uma melhoria do conceito de taxa natural de desemprego, proposta anteriormente por Milton Friedman. A política monetária conduzida nos pressupostos do NAIRU envolve a existência do suficiente desemprego na economia que evite o crescimento da inflação acima de uma meta determinada. Permite-se que os preços aumentem gradualmente e é tolerado algum desemprego. (vd. https://en.wikipedia.org/wiki/NAIRU)

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O autor: Bill Mitchell [1952 – ] doutorado em Economia, é professor de economia na Universidade de Newcastle, Nova Gales do Sul, Austrália e um notável defensor da teoria monetária moderna. É também Professor Doutor em Economia Política Global, Faculdade de Ciências Sociais, Universidade de Helsínquia, Finlândia. Autor entre outras obras de : Macroeconomics (Macmillan, Março de 2019), co-escrito com L. Randall Wray e Martin Watts; Reclaiming the State: A Progressive Vision of Sovereignty for a Post-Neoliberal World (Setembro de 2017), co-escrito com Thomas Fazi; Eurozone Dystopia: Groupthink and Denial on a Grand Scale (Maio 2015); Full Emplyoment Abandoned: Shifting Sands and Policy Failures (2008), co-escrito com Joan Muysken. Bill Mitchell tocou guitarra elétrica com várias bandas, a última das quais, Pressure Drop, se retirou em 2010.

 

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