2009-2019, Uma Década Infernal – 6. Como o Partido Democrático Aprendeu a Guerra de Classes Salarial. Por Melissa Gira Grant

Imagem da serie The decade From Hell

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

6. Como o Partido Democrático Aprendeu a Guerra de Classes Salarial

Melissa Gira Grant Por Melissa Gira Grant

Publicado por The New Republic em 25 de dezembro de 2019 (ver aqui)

 

Bem-vindos à Década Infernal, o nosso olhar sobre um período arbitrário de 10 anos que começou com uma grande efusão de esperança e terminou numa cavalgada para o  desespero.

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Spencer Platt/Getty Images

 

Occupy Wall Street foi amplamente ridicularizada pelos liberais. Agora, a raiva contra o grupo dos 1% é um dos temas principais das primárias de 2020.

 

Pode ter começado com o Lehman Brothers, o banco de investimentos que faliu semanas antes das eleições presidenciais de 2008. O Secretário do Tesouro Hank Paulson (ex-Goldman Sachs) e o presidente da Reserva Federal, Ben Bernanke (futuro conselheiro de um fundo de cobertura), chamou então o senador Sherrod Brown, do Ohio, segundo a Rolling Stone, dizendo: “Precisamos de 700 mil milhões de dólares, e precisamos deles em três dias”.

O resgate bancário de 2008 foi vendido ao mundo como sendo um alívio tanto para os bancos como para os proprietários das casas cujas hipotecas tinham sido vendidas sem o seu conhecimento e sustentaram uma rede opaca de apostas sobre a sua capacidade de as reembolsar. Muitos assumiram que se seguiria uma regulamentação, para evitar outra crise no futuro. Na sua tomada de posse, porém, o presidente Barack Obama nomeou o confiável amigo dos bancos Tim Geithner como secretário do Tesouro. Geithner tinha ajudado a escolher quais os bancos que seriam apoiados com dinheiro público, nomeadamente o Citi, que foi resgatado três vezes. No final, instituições financeiras como o Citi, Bank of America, JP Morgan Chase, Wells Fargo e Goldman Sachs saíram com milhões de milhões, de acordo com algumas análises financeiras. Dois anos mais tarde, as execuções de hipotecas atingiram um volume recorde. O inspetor geral do programa de resgate, Neil Barofsky, renunciou em março de 2011, declarando que o programa havia deixado os proprietários “numa situação muito pior do que aquela em que estariam se esse programa não existisse”.

Seis meses mais tarde, Occupy Wall Street nasceu – primeiro como uma manifestação num parque público privado na baixa de Manhattan, depois inspirando dezenas de outros protestos e acampamentos, espalhando-se por todo o país. Num evento que promovia uma lei de empregos, Obama foi interrompido pelos ocupantes: “Sr. Presidente. Mais de 4.000 manifestantes pacíficos. Foram presos. Enquanto os banqueiros gangsters continuam em liberdade…” A multidão vaiou-os deixando de se perceber o resto da frase, mas segundo um pedaço de papel encontrado e fotografado, esta continuava: “… para destruir a economia com impunidade. O seu silêncio. Envia uma mensagem. Aquela brutalidade policial. É aceitável. Os bancos foram salvos. Nós fomos vendidos.”

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A brutalidade policial a que se referiam entrou em erupção alguns dias antes, quando o prefeito de Nova York Michael Bloomberg desencadeou o que ele chamou de seu “exército” de polícias para remover as poucas centenas de pessoas que ainda permaneciam no Parque Zuccotti. Este movimento do prefeito serviu apenas para acrescentar um insulto aos feridos, já que a companheira de Bloomberg estava sentada no conselho da empresa imobiliária que era proprietária do parque. “Posso dizer que a conversa de travesseiro na nossa casa não é sobre o Occupy, Wall Street ou Brookfield Properties”, alegou o prefeito em sua defesa. Mas as suas lealdades eram evidentes, por exemplo, quando o Occupy protestou do lado de fora da casa do Presidente do banco JP Morgan: “Para ir lá a casa insultá-lo, não sei o que se consegue com isso”, disse Bloomberg. “Jamie Dimon é uma pessoa honrada, que trabalha muito, que paga os seus impostos.” Foram os manifestantes do Occupy , disse ele, que estavam a “tentar destruir os empregos dos trabalhadores desta cidade” – não aqueles que apostaram no seu futuro.

A repressão policial sobre as ocupações em Nova York e em todos os Estados Unidos ajudou a levar a que o movimento saísse das primeiras páginas dos jornais e dos noticiários. Mas os ativistas levavam o que aprenderam no Occupy  para defenderem habitações, para resistência à dívida e nas lutas pelo trabalho . Occupy, como escreveu a jornalista Sarah Jaffe em Necessary Trouble, a sua crónica dos movimentos sociais e revoltas desta década, conferiu “à indignação um local“, usando a ocupação para mostrar que a polícia estava do lado de banqueiros – de instituições financeiras que infringiam a lei.

Nenhuma das grandes instituições financeiras que Geithner resgatou enfrentou quaisquer consequências criminais. Eles facilmente eliminavam as multas que eram aplicadas. Mesmo assim, mesmo depois do fim das ocupações do parque, grupos de trabalho como o Occupy the SEC continuaram a fazê-lo, levando a ética do “mude-o você mesmo” do Occupy para lugares onde os ativistas são raros. Um antigo vice-presidente técnico de Wall Street, Alexis Goldstein, ajudou a formar o movimento Occupy the SEC. “Antes de ocupar Wall Street“, escreveu ela, “Wall Street ocupou-me.” Em 2012, o grupo apresentou uma carta de 325 páginas à SEC sobre a regra Volcker, destinada a controlar as instituições bancárias com apoio federal. Era fora dos parques que os ativistas do Occupy exerceriam maior influência, dando linguagem às negociações outrora obscuras: O Problema são os Bancos, Occupy a Execução da Hipoteca.

Eles também dariam início a uma nova onda de legisladores. As crescentes exigências de responsabilização das instituições financeiras ajudaram a impulsionar Elizabeth Warren dos cantos mais remotos e académicos quanto à formulação de políticas para os holofotes nacionais. “Quem estamos a tentar proteger aqui?” tinha perguntado Warren numa entrevista de 2009 com Chris Hayes para The  Nation. “É um sistema bancário que está ao serviço das famílias americanas e da economia, ou são as famílias americanas e a economia ao serviço de um sistema bancário?” Na época, ela chefiou um painel do Congresso que supervisionava o Programa de Alívio de Ativos Problemáticos. A sua ideia para um Gabinete de Proteção Financeira ao Consumidor foi concretizada quando ela ainda era professora de direito em Harvard, e Obama nomeou-a sua conselheira especial para ajudar a formar o seu gabinete. Mas, finalmente, ela foi impedida de dirigir a agência precisamente porque já havia sido tão crítica em relação ao resgate e aos seus arquitetos, como, por exemplo, Geithner. Em 2012, ela concorreu e ganhou um lugar no Senado, onde continuaria a enfrentar os chefes dos maiores bancos da América.

Occupy tinha feito uso vigoroso do vídeo para utilização nos media sociais para  documentar as suas ações e chamar a atenção dos media tradicionais. À sua maneira, Warren claramente beneficiou da popularidade da utilização dos media sociais para defender as mudanças sociais, assim como beneficiou de ativistas que ajudaram a popularizar a necessidade de regulamentar o setor financeiro. Warren forneceu à imprensa uma fonte regular de clipes virais do YouTube interrogando Wall Street. “Estou realmente preocupada”, disse ela numa das suas primeiras audiências, “que os bancos demasiado grandes para falirem se tornaram grandes demais para serem levados a julgamento”.

Os ativistas de Occupy, por sua vez, mantiveram o fogo sobre os quadros diretivos dos bancos contra quem eles tinham gritado, como o presidente da Wells Fargo, John Stumpf. Os manifestantes continuaram a interromper as suas aparições públicas até 2012 e 2013. Stumpf disse à Worth.com, em 2015, que agora levava um carro para o trabalho, depois de Occupy ter preocupado os seus colegas de trabalho com a sua própria segurança. Quando Stumpf compareceu no Congresso em 2016, Warren disse-lhe que ele se deveria demitir e ser criminalmente investigado por lucrar em enganar os clientes da Wells Fargo. Duas semanas depois, ele  tinha saído. ” Não deveria ser possível que um Diretor de um banco que esteve à frente de uma fraude massiva possa simplesmente ir-se embora para desfrutar dos seus milhões na reforma”, Warren tweeteou em resposta. No ano seguinte, 2017, ativistas do Occupy em San Marino, Califórnia, visaram a casa do sucessor de Stumpf, Tim Sloan. Sloan renunciou em março passado. O seu jornal local pintou Sloan como vítima, um “amado cidadão” alvo dos “Manifestantes de Occupy” e do Congresso – ainda, em 2019.

A nova classe de democratas no Congresso fez um uso particularmente eficaz da política populista e anti-Wall Street.

Os membros da nova classe de democratas no Congresso fizeram um uso particularmente eficaz da política populista e anti-Wall Street. Alguns rotineiramente exigem que os grandes responsáveis bancários respondam por si mesmos e pelo sistema de justiça a dois níveis que lhes é permitido. “Eu represento crianças que vão para a cadeia por saltar um torniquete porque não podem pagar um Metrocard”, disse a congressista de Nova York Alexandria Ocasio-Cortez ao CEO do JPMorgan Chase Jamie Dimon, talvez o maior inimigo dos Occupy, em conjunto com Bloomberg e o Departamento da Polícia de Nova Yorque, no início deste ano. “O senhor acha que mais pessoas deveriam ter ido para a cadeia pelo seu papel numa crise financeira que levou a 7,8 milhões de execuções de hipotecas nos 10 anos entre 2007 e 2016?” Quando Dimon criticou Warren, dizendo que ela “vilipendiou as pessoas de sucesso”, Ocasio-Cortez observou, “Os senhores, os bilionários estão a pedir um espaço seguro – o senhor entende, para além de terem toda a economia e indústria de lobby político dos EUA ao vosso serviço”.

À medida que decorrem as primárias democratas para as eleições de 2020, fica claro que a política de guerra de classes que alguns pensavam que desapareceria com os acampamentos de Occupy se tornou, em vez disso, um lugar comum. O debate público sobre o imposto sobre a riqueza proposto por Elizabeth Warren, agora candidata à presidência, tem sido visto como um ataque aos próprios bilionários. Bloomberg, a nona pessoa mais rica da América, está a concorrer à presidência, mas num clima em que a riqueza é cada vez mais um passivo e não uma vantagem. O prefeito Pete Buttigieg, depois de Warren ter dito que deveria divulgar a sua angariação de fundos à imprensa, divulgou uma lista dos seus principais angariadores que arrecadaram US$ 25 mil ou mais para a sua campanha – mas omitiu mais de 20 pessoas do mundo de Hollywood e das finanças. Pensa-se que ele tem como apoiante o terceiro maior doador bilionário de todos os candidatos que ainda estão na corrida e agora protesta-se com esses angariadores de fundos com cânticos de “#WallStreetPete!

Depois há o senador de Vermont que foi o campeão de Occupy desde o início. “Eles estão a concentrar a atenção na entidade mais poderosa do nosso país, que é Wall Street, que também é a mais secreta, e também a mais perigosa”, disse Bernie Sanders num vídeo no auge do Occupy. “Os manifestantes estão agora a forçar um debate e uma discussão neste país sobre a enorme questão da desigualdade de rendimento e riqueza… as intervenções no Senado estão a muitos metros de distância de nós, e tenho que dizer, há muito poucas pessoas que falam sobre essa questão”. Ele fechou com algo que se tornou emblemático das suas campanhas: “Temos de perguntar se é moral e economicamente importante que 400 pessoas possuam mais riqueza do que a metade mais pobre  da América, 150 milhões de pessoas” – uma enorme divisão que se aprofundou.

Uma década depois, o Occupy ajudou a integrar aquilo pelo qual eles foram ridicularizados no início: ilustrar, nas ruas e noutros lugares, como a desigualdade económica é venenosa para a democracia. Criticamente, o Occupy nomeou pelo seu nome as pessoas que atualmente se beneficiam desta ordem destrutiva. Eles também tomaram medidas para responsabilizá-los e trazer outros para a luta. Apesar de terem pouco apetite por políticas eleitorais, ganharam alguns aliados no Congresso, incluindo aqueles cujas concorrências para a Casa Branca podem ter sido inimagináveis sem eles. Nesse sentido, o movimento Occupy já estabeleceu os termos para a década que aí vem: exigir não só a prestação de contas da indústria financeira, mas também que, face à corrupção política e à vilania financeira, o povo se divorcie por completo do poder dos bilionários.

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A autora: Melissa Gira Grant é redatora da equipa que cobre a justiça no The New Republic e autora de Playing the Whore: The Work of Sex Work. Frequentou a Universidade de Massachusetts Amherst e a Universidade Estadual de San Francisco. Grant é uma ex-trabalhadora sexual que começou o trabalho sexual para pagar para ser escritora. Ela foi redatora da equipe sénior do The Appeal, bem como uma escritora colaboradora do Village Voice e Pacific Standard. As suas reportagens foram publicadas pela BuzzFeed News e pelo Guardian, e os seus comentários e críticas apareceram no The Washington Post, The New York Times, Bookforum e The New York Review of Books. Os seus ensaios estão reunidos em Best Sex Writing, The Feminist Utopia Project, e Where Freedom Starts: Sex Power Violence #MeToo.

(fonte: http://melissagiragrant.com/)

 

 

 

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