A GALIZA COMO TAREFA – imperium – Ernesto V. Souza

Característica interessante do país galego é o prolongadíssimo relacionamento da sua oligarquia nativa com a cabeça dos sucessivos conjuntos políticos de que fez e faz parte.

Da mais antiga nobreza provincial até os tempos de hoje estabeleceu-se um relacionamento sempre direto, não pouco simbionte, e portanto garante de uma notável circulação destas elites nossas nos grandes eixos das políticas centrais.

Esta prolongada intervenção e atenção no governo e administração dos impérios, reis, reinos, validos, e no estado nação parlamentos, governantes tem implicado por sua vez uma prolongada desatenção do próprio país, e um uso extrativo dos recursos económicos e humanos locais em benefício dessa circulação, carreiras individuais ou de pequenas redes no centro do poder.

O relacionamento é complexo, pois determinado pela sua estrutura de poder local antigo e praticamente imóvel, por sua vez determina a comunicação e intervenção delegada que o poder central estabelece com o território galego.

A questão é que a nível cultural, linguístico dialectal e político, poderíamos dizer que a Galiza está composta por unidades, núcleos ou espaços definidos de antigo, com forte pessoalidade e individualidade concorrentes. Pequenos países de muito velho estabelecidos, com relacionamentos para-diplomáticos, equilíbrios, interesses e redes fortíssimas ligadas entre eles, chefiados por umas oligarquias que parecem estar aí desde que o mundo é mundo.

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Pedro Froilaz, Conde de Trava, sarcófago obra do escultor compostelán Maximino Magariños, 1926, Panteão Real, Catedral de Santiago de Compostela. (fonte wiki.)

Esta narrativa é tão velha como a história da Galiza e já o Conde de Gondomar em 1614, embaixador em Londres e um dos mais importantes personagens do círculo do Duque de Lerma, todopoderoso valido do Rei Filipe III entre 1599 e 1618, na sua famosa carta ao Secretário Andrés de Prada enuncia-a com poderosa eloquência e não menos ironia:

Y del antigo poder y noblesa de Galiçia es bastante muestra el ser poseído todo aquel reyno de señores naturales, con sólo el verdadero derecho de las gentes y en memorial y antiquíssima posseçión y suçessión de sus passados, sin otras cartas executorias ni títulos ganados por derechos çiviles. Y assí en el blasón -como quien primero escogió- tomó el mejor de todos, que es el Santíssimo Sacramento. El convento de Montederrama puso pleito a Juan de Noboa, señor de Maçeda, por ciertas tierras, diçiendo que eran comprhendidas en la conçesión de un previlegio que tenía el monasterio; y viéndosse el pleito en la Chancellaría de Valladolid, en tiempo del Emperador, halláronse a la vista en los estrados el abad y Juan de Noboa, y dixo el abad al presidente que mandasse a Juan de Noboa que mostrasse el título que tenía para aquellas tierras que poseía. El Juan de Noboa le respondió con gran cólera: “Y eu qué título ey de mostrar mais que averlas erdado de meu pay, e meu pay de meu avó, e meu avó de nossos antepassados, que as posseeron desde que o mundo foi mundo; e vos em san Ber­nardo, que era de França, e a puta que os paren ¿qué tendes que ver co a minha fazenda per uns pou­cos de papés derroçadeiros que prezentáes?”

No se hallará ni por tradissão ni por escritura que gallego ninguno aya sido traidor a Dios ni a su señor, ni se ha visto gallego herege ni judaizante, ni matador alevoso, ni pueblo rebelado. Pues ¿de qué naçión en el mundo se puede deçir esto? ni ¿qué naçión conquistada sufre sin ofender a su leal­tad ni aún con los pensamientos y lo que sufre Galiçia?, que ha sido la conquistadora de lo que oy possee la Monarquía de España, pues sobre aquel çimiento y de Asturias se extendieron los reynos y se fueron ganando a los moros por Portugal y por León; además de que esta cabeça conquistadora y matriz es governada en lo espiritual y temporal por forasteros que lleban sus theso­ros, sus trabajos y su sudor y henrriquesen las otras tierras donde son naturales. Hasta las abadías de los monasterios, que la devoçión, religión y grandeça de los cavalleros gallegos fundaron y dotaron tan espléndidamente como se vee en las órdenes de san Benito y san Bernardo y otros. Todo esto y los obispados, dignidades, audiencias, corregimientos, commissiones y las adminestraçiones de las rentas reales lo posseen y gozan forasteros, y los naturales están llenos de valor, de noblesa y de san­gre tan pura y limpia, siendo feudatarios de las naçiones y reinos que an conquistado por su modes­tia y encogimiento en el pretender tan anejo y proprio al valor y bondad.

 Y sobre todo lo que no sabemos que haga otra naçión del mundo es la noblesa de Galiçia, pues todos los señores naturales sacan la sustançia de sus vassallos y su patria para irlo a gastar en las estra­ñas en serviçio de Dios y de su Rey; de que tomó origen el proverbio de “gallego trahedor”, y noso­tros mismos por donaire quitamos la “e” y ponemos la “i” algunas veçes, diciendo: “traidor”. Y assí otro portugués mejor informado que fray Bernardo de Brito deçía que los gallegos tenían tanta hon­rra y tan sobrada, que ellos mismos la arrastravan en las cosas de poca importancia, haçiendo donaire de algunos cuentos de si mismos.

(MANSO PORTO, C.: Don Diego Sarmiento de Acuña (1567-1626). Erudito, mecenas y bibliófilo. Xunta de Galicia, 1996, p.184-188.)

O interessante da hipótese é a implicação direta que exerce para explicarmos o posicionamento galego em cada uma das fases da história destas oligarquias nas crises do poder central, e no seu relacionamento com Castela e Portugal (e com Madrid na modernidade).

Tanto nos processos de independência dos condados de Portugal e Castela em Reinos, quanto nas crises dinásticas, sucessórias, históricas e territoriais, as oligarquias galegas não se comportam (a diferença dos condes de Portugal e Castela) como um conjunto único que reivindica uns interesses locais. Nobreza velha, cada qual age independentemente, e posicionando-se, por interesses particulares ou na defesa das legitimidades de casa ou clã que justificam a sua própria existência e poder, mas também por causa do relacionamento direito e responsabilidade que têm no Império.

Poderíamos dizer que a foto é praticamente fixa, quando menos até o estabelecimento do estado moderno espanhol, que arrastará a uma profunda crise as estruturas de poder tradicionais, que estavam praticamente intactas – e serviram para reagir – na altura das invasões napoleônicas.

Ponhamos por datas da grande mudança a década de 1830-1846, incluídas nelas a repartição provincial, o estabelecimento dos censos, a alfabetização e a aparição do sistema impositivo centralizado. A crise das estruturas políticas e sociais do Antigo regime na Galiza implicará por sua vez uma profunda crise identitária ou nacional para boa parte da elite cultural galega.

Porém a adaptação política da oligarquia será mais uma vez imediata é fascinante. Sendo a facção triunfadora nela, a que aposta pelo capitalismo, o centralismo, Madrid, a que soube se adaptar à permeabilidade de classes, a ascensão e a circulação pelas estruturas administrativas do estado moderno, mantendo por sua vez um controlo caciquil do território.

Poderíamos concluir, pelo momento, que o relacionamento e compromisso das oligarquias galegas é com as estruturas de poder, que por sua vez garantem e legitimam o seu poder local. Mas com o poder político legitimado, não apenas com cada uma das manifestações políticas, dinásticas, históricas ou ideológicas desse poder, pois como sabemos, os reinos, os impérios, os estados, as ideologias e as nações passam, mas governar é uma constante.

Ramon Cabanillas, na altura seródia do seu poemário Caminhos no Tempo (Compostela: Bibliófilos Gallegos, 1949) dirá belamente:

III

PEDRO FROILAZ

Conde de Caamouco e de Ferreira,
de Trastámara a Traba, a vella edade
non veu máis prestixiosa dinidade,
máis limpo corazón, man máis enteira.

Núa e invencibre espada cabaleira,
soupo soster dun neno a maxestade
en cen loitas, levando a lealdade
por brasón, por escudo e por bandeira.

Cando deixou no trono ó rei sentado,
volveu, tranquío, ó seu solar gallego,
do máis craro linaxe berce honrado.

E dos eidos nativos no sosego,
empuñando a manceira dun arado,
o que pudo reinar, morreu labrego.

 

 

 

One comment

  1. abanhos

    Na Galiza o sucesso das oligarquias é o cimento do fracasso coletivo.

    Muito bom texto que pode dar lufar a boias reflexões….deveria estar tb no PGL

    Gostar

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