A GALIZA COMO TAREFA – extravios – Ernesto V. Souza

Tenho estes dias, em que ando arrumando livros pela casa, em prateleiras novas e mais funcionais, três exemplares velhos, em quarentena preventiva, dentro de umas bolsas herméticas de plástico acompanhando uma substância anti traça-dos-livros.

Esses livros já chegaram às minhas mãos com algumas perfurações. Em dous casos (um elegante Sarmiento publicado por Ibarra com encadernação de época e um venerável tomo IV do Teatro crítico de Feijó com coberta em pergaminho e impressão de Francisco del Hierro) pelas margens e sem afetarem texto. O terceiro, um pequeno volume com o primeiro tomo das obras completas de Chateaubriand, em tradução castelhana de 1850, tem notáveis cavernas de guarda a guarda, mas dado que foi um agasalho familiar e bem intencionado há que cuidar.

9780008244163

Tenho uns quantos volumes, cá e lá, do que denomino há tempos livros naufragados.

Desconhecia que Hernando Colón vinha associado ao termo. Detalhe que venho de averiguar, com satisfação e gargalhada, na leitura de The Catalogue of Shipwrecked Books (2018), maravilha ensaística de Edward Wilson-Lee, e biografia em contexto político, social e cultural do filho ilegítimo de Cristóvão Colombo, Hernando Colón (1488- 1539), e notícia dos seus projetos, compras,  arrumações, trabalhos e disposições, para criar, por em ordem, conservar e legar a biblioteca sua particular e quase universal, acumulação e sistematização com que pretendia dar ordem à vasta quantidade de informações e impressos, que estavam se tornando disponíveis nos seus agitados e muito mudantes tempos.

Eu, pela minha parte, nessa etiqueta, classifico os volumes que por alguma peripécia vieram estar expostos a líquidos, descuido ou abandono em locais ou países no que a umidade ambiente é intensa. Dado que nasci e vivi na Crunha e noutras partes da Galiza, e que passei algum tempo ou viajei por Cuba, Uruguai, Chicago (USA), Portugal, Brasil (RS), Malta e Inglaterra e que as minhas compras de livros e heranças vêm dessas partes e de Cantábria e Hong-Kong alguns da minha mulher, também não é nada extraordinário que acumulem nódoas e danos por umidade.

O contraste por outra banda é forte, dado que há uns quantos anos que moro em Valladolid, cujo frio e ambiente seco são ideais para a conservação de madeiras e papéis. Até o ponto que bem se entende que a Coroa de Castela viesse deixar cá e por perto os seus arquivos e papéis. Na Galiza desintegram-se, simplesmente, avonda com ver os que deixei cas dos meus pais. Tenho lido, ouvido e até contemplado com os próprios olhos casos notáveis e dramáticos de destruição de livros, papéis e bibliotecas, a começar pela cena que Emília Pardo Bazán, naturalisticamente descreve nos Paços da Ulhoa.

Vários dos meus, os verdadeiramente naufragados, tiveram acidentes, como uns Sonetos de Anthero de Quental que o meu amigo Carlos, marinho mercante e imitador neste caso de Maqroll me trouxe de Estados Unidos e teve, com a sua bagagem, mal desembarco; ou outro, umas Prosas galegas de Cuevillas, que numa passagem por Ourense, decidiram beber meia garrafa de licor café que estava na sua companha no porta-malas do carro do amigo Vitor Lourenço. Outros ficaram baixo a chuva, caíram em fontes ou poças por descuido, navegaram rios, ou serviram de suportes para copos ou chávenas de alguma pessoa nalgum momento. Outros comprei ou resgatei, de locais escuros e posições deformantes, com desperfeitos evidentes nas encadernações ou capas.

A questão é que muitos desses livros ultrapassam os 50, 70, 100 e até mais anos. Permanecem em uso e testemunham, em cicatrizes, notas, remendos ou marcadores de páginas diversos, vidas, peripécias e toda uma história cultural heterodoxa, que abrange do iluminismo ao exílio galego, passando pelo liberalismo, o internacionalismo interbélico e a república espanhola.

Porém, naufragados, amarelados, frágeis, retortos e tudo são um suporte que se tem demonstrado bem mais sólido que aquilo que se publica em papéis plastificados e impressão digital hoje, e que apenas suporta o tempo, o uso e não digamos os líquidos; e muito mais seguro que tanto como se publicou nas primeiras duas décadas de internet e ficou em extravios.

One comment

  1. Abanhos

    Que delícia de leitura…hai se te pego e com umas cervejinhas….nossa nossa…

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