A DERROTA DE CORBYN, UMA CONSEQUÊNCIA DA CRISE POLÍTICA A OCIDENTE – XII – UMA OUTRA LEITURA SOBRE O QUE É A CLASSE OPERÁRIA – O CORBYNISMO ACABOU – O PRÓXIMO LÍDER TRABALHISTA DEVE UNIR O CENTRO E A ESQUERDA – por PAUL MASON

 

 

Corbynism is over – Labour’s next leader must unite the centre and the left, por Paul Mason

Newstatesman, 13 de Dezembro de 2019

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Só um movimento pluralista pode contrariar uma perigosa aliança do conservadorismo e do nacionalismo autoritário.

Jeremy Corbyn faz uma pausa enquanto fala na contagem dos votos no seu círculo eleitoral de Islington North em 12 de Dezembro de 2019.  Getty Images

O Brexit vai acontecer, a Escócia vai tornar-se independente dentro de uma geração, o centro político no parlamento evaporou-se. E o Corbynism falhou. Falhou porque, há cerca de um ano, tem sido menos do que a soma das suas partes.

Jeremy Corbyn reduziu drasticamente a sua cota pessoal  e a dos trabalhistas, que estão ambas em  queda livre, ao adotar uma posição indefensável sobre o Brexit, guiado por uma burocracia interna que se recusou a ouvir a razão ou as provas das sondagens.

Mesmo agora, enquanto eles se insurgem contra os “Remainers ” por perderem as eleições, a esquerda trabalhista  pró-Brexit não entende as causas da situação. Porque tivemos que desperdiçar meio ano, e um  período de reflexão parlamentar  fracassada, a cativar os eleitores Liberais Democratas e Verdes, não pudemos fazer simultaneamente o trabalho preparatório em circunscrições eleitorais nas pequenas cidades, as circunscrições eleitorais no norte do pais, para vender uma política internacionalista sobre Brexit. A questão de se saber se a ideia do segundo referendo poderia ter sido vendida é discutível – mas a equipe de Corbyn, tendo sido forçada a aceitar a política, decidiu não a  tentar.

Portanto, de todas as avaliações  que têm de ser feitas antes de avançarmos, a primeira que deve  ser feita  tem de   ser sobre  a social-democracia radical e o Lexit. Em dezembro passado, Corbyn recebeu provas de que os eleitores Remainers  desertariam em massa para os Democratas Liberais e Verdes, a não ser que ele  se empenhasse em tentar  levar o Partido para  um segundo referendo com a opção de Permanecer na União Europeia. Ele  recusou-se a fazê-lo e, em 29 de abril, o Comité Executivo Nacional Trabalhista  apoiou-o.

Esse, para mim, foi o primeiro momento fatal. O voto dos Trabalhistas caiu para 22%, os Democratas Liberais subiram para quase 20% e toda a política progressista estava agora dividida. A única consolação foi que, à direita, também os conservadores tinham caído, e foram momentaneamente eclipsados pelo Partido Brexit.

Isto desencadeou um verão febris de “política quadripartidária” – exigindo uma ação estratégica tanto dos trabalhistas como dos conservadores para recuperar a iniciativa. Os Conservadores tomaram medidas decisivas. Os trabalhistas não o fizeram.

Os Conservadores elegeram Johnson; encheram Downing Street e o gabinete com funcionários alinhados com os neoliberais de  Trump; abraçaram uma guerra cultural contra as minorias e a esquerda; traçaram o rumo para um Brexit sem regras; e quando a crise chegou, durante esse   período e na base da suspensão do parlamento, eles purgaram todo o seu partido parlamentar de conservadores liberais.

O Partido Trabalhista, pelo contrário, perdeu força  – e não por incompetência, nem por sabotagem da direita do partido. Corbyn virou-se para o “segundo referendo sobre qualquer que seja o acordo alcançado pelos conservadores” após o desastre eleitoral europeu, apenas para recuar a seguir sob pressão sindical, tendo agendando um debate com os seus próprios apoiantes numa Conferência   organizada pelo  Comité Executivo Nacional (CNE), fazendo o seu melhor para depois se deter.

Só depois da votação da conferência é que a necessária pressão  sobre as Dems Lib começou a acontecer. Mas até então um segundo erro estratégico estava em curso. Corbyn tinha sido um líder eficaz da oposição contra Theresa May – mas ele era a pessoa errada para liderar a luta contra Boris Johnson. Johnson tinha a equipe, o dinheiro e a intenção de suplantar o populista Corbyn.

Durante algumas semanas no início do outono, o movimento #StopTheCoup pegou no manto da insurreição do movimento Leave. Fizemos comícios e comícios improvisados – estabelecemos a agenda. Até os Lexiteers organizaram o seu próprio comício contra o golpe. Mas o gabinete  de Corbyn permaneceu inseguro, para que o líder não fosse manchado pela associação com o Remain.

Depois, quando a crise da prorrogação acabou, e a resistência ao acordo sobre o Brexit de Johnson voltou ao parlamento, os trabalhistas no seu conjunto não reconheceram o perigo do sentimento anti-político que estava a crescer. Na altura em que Johnson manobrou o parlamento para obter autorização para eleições, a narrativa do povo contra o parlamento já tinha sido escrita e prontamente recebida.

O que estamos a enfrentar  é uma aliança de conservadorismo e nacionalismo autoritário. A única resposta é uma aliança entre o centro e a esquerda. Mas o centro e a esquerda, mesmo dentro do Partido Trabalhista, resolveram lutar um contra o outro. Os deputados trabalhistas que sugeriram alinhar com os Dems da Lib sobre as táticas parlamentares receberam mensagens dos aliados de Corbyn lembrando-lhes que os Dems da Lib eram “assassinos de crianças que defendem a  aplicação de politicas austeritárias”.

Embora o instinto de Corbyn fosse o de evitar eleições – em parte, foi que me disseram,  para abrir a perspetiva de substituição  antes da primavera – os Liberais Dems  convenceram-se  de que eram o “gabinete sombra” e o SNP decidiu limitar qualquer dano do próximo processo  Salmond, desencadeando a eleição. Aqueles que dizem que nós não tínhamos razão  ao concordar com a eleição estão a subestimar o quanto o drama egocêntrico no parlamento alimentou a viragem da última noite para a direita.

Uma vez que Farage se retirou em 317 circunscrições, a única coisa que poderia ter impedido os conservadores seria  (a) um pacto eleitoral entre partidos progressistas, (b) um comparecimento sem precedentes dos jovens eleitores progressistas, ou (c) uma votação tática massiva.

Para ver para onde vamos a partir daqui, é preciso reconhecer a gravidade do mal-entendido que assombra a esquerda inspirada por Estaline. O mantra dos aliados de Corbyn ao longo desta crise tem sido: “não vamos abandonar  a classe trabalhadora”. Eventualmente Len McCluskey teve a honestidade de acrescentar a palavra implícita que lhe falta: “branca”.

Uma visão do mundo que vê trabalhadores manuais mais velhos e pouco qualificados em cidades ex-industriais esmagadas como Leigh como de alguma forma sendo mais influentes na nossa política do que a empobrecida população multiétnica de Coventry, vai ficar severamente desorientada no  capitalismo do século 21.

Os eleitores que mantiveram Leeds, Manchester e Bristol vermelhos ontem à noite foram tão “classe trabalhadora” quanto os que se juntaram às urnas para votar Boris Johnson em  Pennines. Em nenhum momento os trabalhistas “abandonaram” a classe trabalhadora. Mas uma parte dela  abandonou-nos  ontem à noite, e não vou vacilar em afirmar que nos lugares em que o fez há agora uma narrativa tóxica de nativismo e xenofobia, o que fez algumas deputadas trabalhistas temerem fazer campanha nas suas próprias cidades.

.O caminho de volta vai ser longo. Precisamos de manter o radicalismo económico, abandonar a política que levou os eleitores a temerem em termos de  segurança nacional e transformar o Partido Trabalhista em algo que pense e aja mais como um movimento social.

Cada uma destas tarefas precisa de trabalho detalhado e de tempo. A aliança que pode fazer acontecer é bastante óbvia: a esquerda não-estalinista precisa de construir relações de trabalho mais fortes com a esquerda  moderada e o centro do  Partido Trabalhista.

Quanto à liderança, a escala da derrota e a natureza populista do governo que enfrentamos significa que agora devemos levar em conta qualidades pessoais como estatuto, resiliência e a capacidade de inspirar esperança. Estou orgulhoso por  Jeremy Corbyn  ter feito  frente a uma horrível campanha de vilipêndio e intimidação. Ele pôs fim ao domínio neoliberal sobre a política partidária de forma decisiva, ao ponto de até mesmo  os seus inimigos perceberem que não há volta a dar. Ele arrastou entusiasticamente o partido para uma agenda verde radical. E em 32%, ontem à noite, os trabalhistas continuam a ser um dos partidos social-democratas mais bem sucedidos da Europa.

Mas Corbyn nunca entendeu o que tem de ser um populista de esquerda. Ele nunca foi capaz de expressar o ódio estúpido para com as instituições políticas e para com os ricos que poderia ter inspirado os trabalhadores nas pequenas cidades inglesas. Uma vez que a falha dentro do Corbynismo se tornou irreconciliável, os seus quadros  construíram um muro à sua volta onde deveriam ter construído uma rede.

Claro que precisamos de “reflexão” – mas a melhor forma de reflexão é o debate, a teoria, a abertura – face às provas  académicas e às sondagens. E o aparato de liderança em torno de Corbyn não faz realmente nem teoria nem  abertura. Por isso, Jeremy precisa de se demitir em breve e  dar lugar a um líder zelador com um aparelho diferente.

E em breve – antes das eleições autárquicas de 2020 – precisamos de um novo líder da oposição. Tem de ser uma pessoa de envergadura e experiência para aguentar o que está para vir. Têm de ser alguém que consiga unir o centro trabalhista e a esquerda. Não são muitos os candidatos que se enquadram nesse projeto politico.

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

Deixar uma resposta

%d bloggers like this: