UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (323)

 

AS PRAIAS E O MAR DA FOZ

Memórias

Foi, no já longínquo Julho de 52, o meu primeiro contacto com a Foz, com as praias, com o mar e com o mundo.

Ainda o Julho se não findara quando, pela primeira vez, o sol da praia de Gondarém e uns salpicos do seu mar me baptizaram. Fiquei para sempre marcado, vacinado contra qualquer mal, e amante indefectível daquela parcela de terreno a que eu passei a chamar minha.

 

PRAIA DE GONDARÉM E O GILREU LÁ AO FUNDO

Na minha praia havia um café (Casa de Chá do Pavilhão de Carreiros). Feito de ferro e vidro, foi, durante anos o que se poderia chamar um “café de charme”. Tinha duas entradas, uma pela avenida, lá em cima, com esplanada no passeio, rodeada por árvores, mesmo ao lado da paragem do eléctrico, e outra no passeio da praia, também com esplanada, virada ao mar.

Ontem um café charmoso, desde a década de sessenta e durante anos seguidos tapado e destruído, hoje é uma estrutura aberrante, de duvidoso efeito estético, sem serventia de apoio à praia e com um desagradável debitar de ruído e cheiro, mesmo em cima da areia, que muito prejudica os veraneantes, penalizando grandemente a qualidade da praia de Gondarém, no seu lado Norte, não se percebendo o porquê de, as entidades competentes, não terem ainda tomados medidas preventivas sobre este assunto.

A partir da idade dos dez anos, passei a ter autorização dos meus pais para me ausentar durante longos períodos, desde que acompanhado dos amigos e conhecidos das barracas ao lado da minha. Íamos, invariavelmente, para a praia do Molhe. Lá, havia coisas que a praia de Gondarém não tinha. Por essa altura já o café não existia, e o sítio mais próximo, onde podíamos beber água ou comprar uma laranjada ficava no Molhe. Para além disso, no Molhe havia matraquilhos, debaixo das arcadas, e o Molhe propriamente dito, onde os mais velhos iam saltar para a água. Maravilhava-me vê-los. Cada um melhor que o anterior, faziam, no ar, figuras lindas. O mortal à frente e à rectaguarda, o anjo, a carpa, o soldado de chumbo, entre outros, eram os que eu mais gostava de ver e ambicionava chegar a conseguir fazer. Mas não tinha autorização para tal, e eu, até era cumpridor das ordens que recebia.

Teria perto dos doze anos quando me aventurei a tomar banho ali, na ponta do paredão do molhe, e cerca de quatorze a saltar. Primeiro do primeiro degrau, depois do segundo e por aí fora (ou por aí acima), até que, feitos os quinze anos no dia anterior, saltei, pela primeira vez, do bordo de pedra do paredão. Um salto simples, com mergulho de cabeça, sem quaisquer arrebiques. Fui um herói durante dois ou três dias. O salto da borda estava reservado aos corajosos. Fui o primeiro do meu grupo a fazê-lo, mas logo depois todos os outros o fizeram.

 

OS SALTOS DOS BRAVOS, ANOS ANTES DOS MEUS

Fot. Internet

Saltar do varandim, esses saltos, sim, reservados aos verdadeiramente corajosos e dentro deles aos mais hábeis, demorou ainda dois ou três anos, e só o fiz meia dúzia de vezes. Num dos saltos, tentei fazer a “carpa”, virei de mais e caí mal, magoando-me nas costas. Nunca mais saltei do varandim, e poucas mais vezes saltei da borda do paredão. Aos poucos, essas aventuras começaram a fazer parte de um passado recente.

Ao longo desses anos, entre os dez e os dezoito, tanto eu como dois ou três dos meus amigos, tínhamos o hábito de nos sentarmos, ao longo do paredão mais baixo, esperando a hora de tomar banho. Não nos esqueçamos que, nesses anos, era impensável não fazer três horas completas de digestão de, fosse o que fosse que comêssemos. Ali, junto da rebentação, havia um lugar que para todos era predilecto. Uma rocha que saído do chão do paredão. Ali nos sentávamos, crianças adolescentes, conversando, pensando, olhando o mar, pensando, olhando a lonjura das águas… olhando …, sem bibe azul e branco, sem chapéu de palha ou boina de marinheiro, e, sobretudo, sem fazermos a mínima das ideias de que, um dia, muitos anos atrás, um homem, portuense como nós, ali tinha estado sentado, e mais tarde escrito sobre isso. Não fazíamos também, a menor das ideias do nome que ele tinha dado àquele penedo, “A Flor Granítica”. Ele, Ramalho Ortigão, cujo centenário da morte se celebra no dia 27 de Setembro, escreveu:

“No paredão do quebra-mar sobressai da superfície plana da cantaria uma ponta da rocha negra, áspera, duramente recortada, como uma grande flor granítica.”

MOLHE DE CARREIROS

A placa que, no centenário do seu nascimento (24/11/1936) a direcção e os alunos do colégio Brotero inauguraram em homenagem a Ramalho, já lá não está há muitos anos. Foram muitos os anos que nada lá esteve. Agora, e desde 2015, por acção da União de Freguesias e do “O Progresso da Foz”, lá está outra vez (uma cópia da placa original).

A PLACA NA “FLOR GRANÍTICA”

Por vezes íamos em sentido contrário. Aproveitávamos uma ida às sentinas públicas, que ainda hoje existem, e continuávamos em direcção a sul. Antes de chegarmos à praia da Luz havia uma pequena praia onde ninguém ia. Ficava mesmo em frente ao Gilreu e tinha sobre nós, miúdos de pouco mais de doze anos, um enorme fascínio. Encostado ao mar, havia um penedo escuro que, aquando da subida da maré, fazia um ruído enorme. Gostávamos de ir até lá e de nos sentarmos na borda de enorme buraco que havia no cimo, como se fora uma cratera. Dizia-se que era ali que afogavam os cães, já que quem ou o que lá caísse dentro, por causa das águas do mar, não conseguiria sair e por via disso, afogava-se. Na realidade, nunca tivemos conhecimento de que alguma vez, alguém, tivesse feito tamanha atrocidade. Mas o nome com que foi baptizada ainda hoje se mantém; a praia do Afoga-Cães.

Durante anos, vi da janela do meu quarto, uma nesga de mar, e, por entre árvores, adivinhava a presença do Gilreu, vendo-lhe a espuma branca em seu redor.

Nasci e morei algum tempo na esquina da rua do Monte da Luz com a rua de Gondarém, e ainda hoje, tantos anos passados, o Gilreu me fascina.

 

GILREU

Da praia de Gondarém, o Sr. Joaquim Lavadeira, o banheiro e ajudante do concessionário da praia, para além de fazer umas sardinhadas, de ensinar a nadar (embora ele mesmo o não soubesse), e de ser um patusco conversador, levava turistas (na altura eram escassas) até ao Gilreu, no barco a remos, azul, e deixava-as lá durante algumas horas a tomar banhos de sol (dizia-se que por lá praticavam o nu integral). Também, uma ou outra vez acompanhou os nadadores, como barco de apoio, que queriam ir e vir desde a praia até ao penedo. Numa dessas vezes eu também fui. Teria talvez dezassete ou dezoito anos, e não correu muito bem. A pouco mais de meio caminho da ida, fiquei muito cansado, e tive de desistir, subindo para o barco. O resto do percurso, a parte da ida que faltava e o regresso, foi penoso e desmotivante. Nunca mais tentei repetir essa aventura, nem outras que os mais velhos, um dos meus primos incluído, faziam, como seja vir a nadar desde a praia do Molhe até à praia de Gondarém, em “corrida”. Numa dessas vezes, já eles vinham a mais de meio do caminho, atirei-me da parte de trás do “salão azul” e fui ter com eles. Poucos minutos depois tive uma “breca” no músculo da perna esquerda, e, não fora o meu primo, que me espetou uma agulha, por certo teria ficado lá. Foi o ponto final da minha carreira efémera, como aventureiro, no mar da Foz. A minha pouca formação como nadador, a minha pouca capacidade atlética (na altura, depois melhorei um pouco) e a temperatura da água do mar que muitas vezes andava pelos 14 ou 15 graus, contribuíram para estes desenlaces.

 

GILREU

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About José Fernando Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

5 comments

  1. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (323) | joanvergall

  2. Inácio M. Sousa

    Olá Zé Magalhães. Tal como eu, o fascínio da Foz. Bem-haja por esta Crónica. Um forte abraço

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  3. Adriano Silva

    Fotos magníficas. Que inveja. Bem gostaria de conhecer melhor essa praia. Já a percorri a pé… até com a família. Belíssima praia e moças!

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