EM VIAGEM PELA INDOCHINA (4) – por ANTÓNIO GOMES MARQUES

 

     Obrigado a John Moen e ao worldatlas

 

II – CAMBOJA – Economia

 

A paz agora reinante no Camboja tem permitido um rápido crescimento do PIB per capita do país —1.385 US dólares em 2017, 1512 em 2018—, só comparável, em termos de percentagem de crescimento, a países como a China e o Vietname, mas, evidentemente, o PIB cambojano é ainda muito baixo quando o comparamos com outros países da região, apesar de ter crescido, nos últimos anos, a uma média de 5,4%. Em Portugal, o PIB per capita era, em 2018, de 23.437 US dólares.

Segundo o Atlas Economic Complexity (1), o Camboja, em 2017, exportou produtos no valor de 21,1 mil milhões de US dólares, o que significou um aumento médio anual, nos últimos cinco anos, de 11%, tendo igual crescimento anual as exportações não petrolíferas. Como as importações atingiram um valor total de 17,3 mil milhões de US dólares no mesmo ano de 2017 significa que, nesse ano, o Camboja teve um «superavit» comercial em bens e serviços.

Como é natural, a população rural depende, fundamentalmente, da agricultura, destacando-se a produção de arroz, com um cultivo intenso nos vales fluviais, tabaco, café, chá, pimenta-do-reino, cana-de-açucar, borracha com bons contributos para as exportações, assim como a produção de têxteis, madeira e pescado.

Nas conversas havidas com cambojanos, criei a convicção de que o arroz, com fama de alta produtividade, teria uma grande percentagem nas exportações do país; no entanto, os dados fornecidos pelo Atlas of Economic não confirma tal convicção, do que julgo poder concluir que a produção do arroz, apesar de intensiva, é ainda para consumo interno. A produção de cereais, segundo os dados do Atlas of Economic, atingiu, em 2017, 11.100.000 toneladas métricas, dados estes relativos apenas às colheitas de grãos secos, excluindo, portanto, as culturas de cereais colhidas para feno ou verde para alimentação, ração e as utilizadas para pastoreio. Nas exportações de 2017, o arroz representa apenas 1,52%, cabendo a maior fatia à rubrica «Viagem e Turismo» (17,22%), também a grande fonte de divisas estrangeiras.

Ao falar da produção do arroz, vale a pena falar um pouco da hidrografia do Camboja.

Informa-nos a Wikipédia de que, entre as bacias hidrográficas em todo o mundo, apenas a Amazónia tem uma maior diversidade de plantas e animais, o que constitui um factor fundamental na vida dos cambojanos.

Um dos principais rios do Camboja é o Mekong, com quase 4.200 km, o que faz dele o 12º maior rio do mundo, rio este que esteve bem presente nesta viagem na Indochina, tendo tido a oportunidade de nele navegar no Laos e, depois, no Vietname, no mítico delta —que assim apelido após a derrota dos americanos—, de que falaremos quando tratarmos destes dois países, na cobertura que pretendemos fazer de toda a viagem. O outro rio importante é o Tonle Sap, afluente do rio Mekong e que acaba por ligar o Mekong ao grande lago, no centro do Camboja, também chamado Tonle Sap.

Ficheiro:Old man on tonle sap.jpg
                                                                             Rio e Lago Tonle Sap (in Wikipédia)

O caudal do rio Mekong sofre alterações, atingindo naturalmente o menor caudal na estação seca, indo de 15.000 m³ nesta estação a 60.000 m³/segundo no resto do ano, variando o nível até 12 metros, provocando a inundação da sua bacia no Camboja, para isto muito contribuindo o derretimento no Himalaia, a que se junta a estação das chuvas. Para se ter uma ideia do que é esta inundação, basta referir que a superfície do lago Tonle Sap varia entre os 2.700 e os 16.000 km².

Infelizmente, também o Camboja não foge ao problema bem sério que afecta vários países destas zonas do mundo: a poluição. Para além do lixo que é atirado ao rio, em que se destaca o plástico, também os pesticidas utilizados no cultivo do arroz e os combustíveis que fazem mover os muitos barcos, com motores muito poluentes, contribuem para essa elevada poluição, com as terríveis consequências de todos conhecidas.

Quando era Angkor a capital do Império Khmer —ver capítulo sobre a História— era o Tonle Sap que fornecia a água aos seus habitantes e à indústria existente, assim como o peixe e outros alimentos.

Depois da rubrica «Viagem e Turismo», vem a exportação de camisolas, pulôveres, tricô, etc. (9,59%), seguindo-se fatos de mulher, de malha (6,92%). Superior à exportação de arroz, está a rubrica «bicicletas», com 1,85%. Tudo dados das exportações de 2017.

Os principais países para onde o Camboja exportou foram os Estados Unidos da América (USA), com 18,26%, seguindo-se a Alemanha com 10,22%, o Reino Unido com 7,48%, a Itália 7,25%, o Japão 7,25%, a França com 5,98%, a China 5,79%. Para Portugal, em 2017, as exportações do Camboja representaram 0,08% do total.

Nas importações, o Camboja regista em 2017 um montante de US $ 17,3 mil milhões, correspondendo, para dar alguns exemplos, a 11,52% na rubrica «Outros tecidos de malha», 8,32% na de «Transporte», 7,88% em «Ouro», 4,28% em «Viagem e Turismo», 3,79% em «Óleos de petróleo refinados», «Carros» 2,8%, 1,24% em «Partes de motocicletas ou cadeiras de rodas». Acrescento uma curiosidade: o Camboja, nesse mesmo ano de 2017, do total das importações, 1,96% refere-se à rubrica «Charutos e cigarros».

Parece-nos interessante abordar aqui a questão da dívida da Administração Pública, comparando com a portuguesa. Assim, segundo a Pordata (2), a dívida da Administração Pública de Portugal atingia, em 2019, a percentagem de 121% do PIB (segundo recentes notícias dos media, esta percentagem teria diminuído para pouco mais de 118%, mas, o que me parece, é que também diminuiu a percentagem por via do aumento do PIB e não exclusivamente pela efectiva diminuição do montante da dívida.), sendo no Camboja de 28,6%, dados de 2018, segundo a mesma fonte (Atlas). O meu amigo Júlio Marques Mota, Professor Aposentado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, com quem tenho discutido estes assuntos —e este texto não fugiu à regra que temos até por eu não ser economista—, chamou-me a atenção para a necessidade de ter uma ideia da evolução da dívida, ao que respondo dizendo que, em 2007, a dívida bruta da administração pública do Camboja era ligeiramente superior à acima indicada, atingindo 29,4%.

Uma outra chamada de atenção do Júlio, muito pertinente, tem a ver com o tipo de exportações cambojanas, que são, de um modo geral, «de baixo valor acrescentado, de indústrias ditas banalizadas com preços fixados pelos mercados mundiais ou, pior ainda, impostos pelos operadores “import-export”, daí que eu não augure um futuro tão bom como tu podes pensar imaginar».

Fica o reparo, que destas coisas da economia o Júlio sabe mais a dormir do que eu bem acordado.

Perante estes dados, parece poder afirmar-se que o Camboja está em franca recuperação. Estima-se que nos próximos anos o Camboja venha a crescer a uma taxa superior a 5%/ano, o que em Portugal não acontece nem parece vir a acontecer nos anos mais próximos, se atentarmos no que recentemente foi divulgado pelo Polígrafo (3), “os 10 países que entraram na União Europeia em 2004 cresceram de tal forma nos últimos 15 anos que estão prestes a ultrapassar Portugal no PIB per capita, avisa a Comissão Europeia”. Vejamos, por exemplo, o caso da Letónia, que, em 1995, tinha um PIB de 4.623,7 euros e, em 2018, o PIB foi já de 21.319,4 euros, enquanto Portugal, nos mesmos anos, o PIB era, respectivamente, de 12.111,4 e PRO 23.765,3 euros (o que difere, para Portugal, do que se diz no início deste capítulo, sendo as fontes diferentes mas os valores não muito divergentes, sendo aqui uma projecção).

Perante esta realidade e a confirmar-se o crescimento indicado para o Camboja, também viremos a ser ultrapassados por este país a médio prazo? Esperemos que no caso de Portugal venhamos a ter razões para mais optimismo.

Infelizmente, a maioria dos portugueses pouco reflecte sobre isto e, sobretudo, sobre o que lhe dá origem, sentindo-se essa maioria, ao que parece, muito feliz por ir tirando umas «selfies» com o Presidente da República.

Voltando ao Camboja, razão deste texto, espero que o futuro venha a confirmar o crescimento anunciado, para bem deste país e do seu povo, que bem o merece, o que não deixará de ser também para bem de todos nós. No entanto, o contraste entre a cidade e o campo é ainda muito grande, como as fotografias que reproduzo a seguir —uma imagem vale mais do que mil palavras, não é assim?— nos ajudam a ver.

                                                         Na cidade de Siem Reap (fotografia de AGM)
                                  A umas dezenas de quilómetros de Siem Reap (fotografia de AGM)

Dos dados da Wikipédia que temos vindo também a utilizar, vou aproveitar uma fotografia que ajudará a reforçar essa visão dos contrastes cidade/campo em comparação com uma outra:

Ficheiro:Russian Blvd, P.P..JPG
             Edifícios comerciais em construção na cidade de Phnom Penh, a maior do país, que não visitei (in Wikipédia)

 

                                      Estabelecimentos no campo, junto à estrada (fotografia de AGM)

 

(CONTINUA)

NOTAS

Economia

  1. http://atlas.cid.harvard.edu/countries
  2. https://www.pordata.pt/Retratos/2019/Retrato+de+Portugal-83
  3. https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/os-10-paises-que-entraram-na-ue-em2004-estao-prestes-a-ultrapassar-portugal-no-pib-per-capita

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