A Europa impotente face à perspetiva de uma tragédia global ? Texto 1. As bolsas colapsaram, um vendaval de protestos contra Lagarde. O BCE: “Os governos gastam mais nas crises”. Por Roberto Ciccarelli

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Um mês de março intenso em reuniões, em tragédias, em desacordos afirmados, em acordos adiados, em ameaças feitas e desfeitas ou adiadas, tudo isto se passou na União Europeia que se mostra claramente impotente face à tragédia Covid 19 e à crise financeira que nos bate à porta com uma enorme violência.

Um relato destes dias que mais parecem dias de loucura é o que aqui vos  queremos deixar nesta pequena série de textos intitulada A Europa impotente face à perspetiva de uma tragédia global ?

31/03/2020

JM

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 1. As bolsas colapsaram, um vendaval de protestos contra Lagarde. O BCE: “Os governos gastam mais nas crises”.

Roberto Ciccarelli Por Roberto Ciccarelli

Publicado por Il Manifesto em 13/03/2020 (ver aqui)

Reações em cadeia. Wall Street cai como caiu em 1987, a Bolsa Italiana afunda-se como nunca antes da queda dos títulos da dívida pública italiana e da controvérsia sobre as palavras da presidente do BCE: “Não está nos meus planos entrar para a história por aplicar “ uma segunda vez, fazer tudo o que for preciso . Vamos usar a flexibilidade, mas não estamos aqui para reduzir os spreads de juros “. Gualtieri: “O BCE não vai permitir que o choque do vírus provoque uma fragmentação da zona euro”.

Texto 1 As bolsas colapsaram um vendaval de protestos contra Lagarde 1

 

Numa economia devastada por um choque de oferta criada pelo coronavírus e um contrachoque de petróleo, o poder também passa através da linguagem dos banqueiros centrais. Na aguardada comunicação do BCE ontem, as palavras da Presidente Christine Lagarde desiludiram as bolsas de valores que não só não receberam bem outro corte nas taxas já abundantemente negativas, como também “apenas” 120 mil milhões de compras de títulos a realizar até ao final do ano que se acrescentam aos atuais 20 meses, aos novos leilões de liquidez de longo prazo (Ltro) e taxas praticamente negativas para operações (Tltro) destinadas a financiar pequenas e médias empresas que serão esmagadas pelos efeitos das políticas de emergência para combater o vírus. Como consequência, a Bolsa de Milão entrou em colapso como nunca na sua história: -16,92%. Londres fez o mesmo com menos 10,85%, Frankfurt com menos 9,81%, Paris com menos 11,02%. A mesma história em Wall Street, esta bolsa entrou em colapso como nunca desde a crise histórica de 1987, com o Dow Jones a menos 8,29%, o Nasdaq a menos 6,86%. Tudo isto enquanto o Fed injetava 1,5 milhões de milhões de dólares no mercado e a administração Trump entrava em pânico depois de interditar os voos da Europa.

UM DIA DE PÂNICO. Christine Lagarde revelou que as políticas monetárias não podem salvar o capitalismo, pelo menos da mesma forma que Mario Draghi fez em 2012 ao dizer “fazer o que for preciso”. Esta afirmação serviu para combater a turbulência dos mercados com o “escudo antispread” das “Transações Monetárias Definitivas” [ou em inglês: OMT- Outright Monetary Transactions], e depois inundou os mercados financeiros com o aluvião monetário da “flexibilização quantitativa”. Ciente do esgotamento de um poder “mágico” atribuído a uma única expressão, e do facto de que hoje a crise não é financeira, mas sanitária e de produção, Lagarde disse que “não está nos meus planos entrar para a história para  “uma segunda vez para fazer o que for preciso”. Esta declaração foi acompanhada por uma outra que abalou os fracos alicerces de uma política italiana que acaba de reconquistar um clima de “unidade nacional. “Não estamos aqui para reduzir os spreads, esta não é a função ou missão do BCE, existem outras ferramentas para este e outros atores”, disse Lagarde.

A PRECISÃO sobre as atribuições do BCE amplificou a venda de obrigações europeias na corrida louca em baixa dos mercados, enquanto uma avalanche atingiu as obrigações do Tesouro (Btp) de várias maturidades. O spread com os Bunds alemães foi de quase 70 pontos, subindo para 273 pontos base, enquanto o rendimento do BTP a 10 anos atingiu o limiar dos 2%, nunca pior desde Junho do ano passado. As palavras de Lagarde, proferidas em resposta a uma pergunta feita ontem numa conferência de imprensa em Frankfurt, tiveram de ser esclarecidas, embora  os bois já tivessem escapado do estábulo. E à noite veio o ministro da Economia Roberto Gualtieri tentar interpretá-las corretamente e tentar repor o debate sobre os ataques cardíacos de alguma forma apresentável: “Lagarde – disse Gualtieri – sublinhou que não permitirá que o choque resultante da disseminação do Covid-19 cause uma fragmentação do sistema financeiro da zona do euro. Estou certo de que, para tal, o BCE utilizará todos os instrumentos à sua disposição”.

DE FACTO, é o que o BCE pretende fazer, com as suas armas contundentes, face a uma recessão, um cenário ainda tornado pior por um contrachoque  petrolífero e de naufrágio económico em Itália (PIB a menos 5% em 2020?). “Se necessário, podemos desviar-nos da regra que prescreve a compra de títulos nacionais proporcionais à quota de cada país no capital do Banco Central – disse Lagarde – a Itália, os seus bancos, as suas famílias, as suas empresas beneficiarão de todos os instrumentos que acabo de introduzir. Nós estaremos lá, não deve haver dúvidas sobre isso”.

O QUE ESCAPOU nas horas muito nervosas de forte e dura polémica, foi o polémico convite da Governadora do BCE  aos estados europeus (em apoio aos 25 mil milhões concedidos à  Itália) para “cooperarem” e levarem a cabo um poderoso empurrão orçamental contra a próxima recessão. O BCE considera insuficientes os 27 mil milhões de euros atribuídos até à data contra o vírus: por outro lado o que Lagarde mais teme é a “complacência” e os “procedimentos lentos” da política orçamental. O forte empurrão orçamental  era o que o próprio Draghi andou durante muito tempo a pedir, sem nunca obter uma resposta. Agora, diante de uma situação imprevista, ver-se-á se o Eurogrupo na  segunda-feira terá percebido a necessidade urgente de retirar os constrangimentos monetários que têm impedido, ou excluído desde o início, a mencionada política orçamental expansiva. Contudo, este é também um momento crucial para o BCE. Por causa da emergência, adiou uma reflexão sobre o BCE anunciada por Lagarde no início do seu recente mandato. Ainda não está claro se este repensar irá alguma vez afetar o mandato constitutivo de um banco central singular que não faz o trabalho de um banco central. Tender-se-á a excluir isso. No entanto, no longo debate dos últimos anos, foram indicadas várias reformas que também seriam úteis no combate à crise atual. Promover, por exemplo, a emissão de papel-moeda, a compra de euro-obrigações, criar uma garantia europeia sobre a dívida pública, completar a União Bancária e, talvez, imprimir dinheiro e dá-lo diretamente a todos os cidadãos europeus, financiando um rendimento  de base e uma amortização universal. Anos atrás chamavam-lhe “flexibilização quantitativa para o povo”. Desde o início da crise, só Hong Kong é que já pensou nisso. O enorme esforço de imaginação  poderia começar a partir daqui.

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O autor: Roberto Ciccarelli é filósofo, blogger e jornalista, escreve para o Il Mannifesto. Ele publicou, entre outros, Il Quinto Stato (com Giuseppe Allegri), La furia dei cervelli (com Giuseppe Allegri, 2011), 2035. Fuga do precariato (2011), e Immanenza. Filosofia, direito e política da vida do século XIX ao século XX (2009). Ele está entre os editores do blog La furia dei bravelli. O seu último livro é Forza lavoro. Il lato oscuro della rivoluzione digitale (Derive Approdi, 2018).

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Nota do Tradutor. Tomamos a liberdade de acrescentar algumas notas da imprensa e de blogs italianos do dia 13 de março:

No dia 12 de março, Christine Lagarde, presidente do BCE, com uma única frase, precipitou as bolsas europeias a partir da Piazza Affari, que registou a pior sessão de todos os tempos: “Não estamos aqui para reduzir os spreads”.

Lagarde, com esta sua posição, transforma um drama de saúde numa nova crise financeira. Depois de algumas horas, tentou corrigir esta afirmação numa  entrevista com a CNBC TV, mas já é tarde (“Estou determinada a evitar a fragmentação da zona do euro”).

Quase 20% de perda da bolsa de valores não é um dano, é sim um desastre. 

Texto 1 As bolsas colapsaram um vendaval de protestos contra Lagarde 2

Curiosamente, no dia seguinte o economista chefe do BCE, o irlandês  Philip R. Lane escrevia um artigo, The Monetary Policy Package: An Analytical Framework , onde se pode ler:

“Não toleraremos quaisquer riscos para a boa transmissão da nossa política monetária em todas as jurisdições da área do euro. Estamos claramente prontos para fazer mais e ajustar todos os nossos instrumentos, se necessário para assegurar que os elevados spreads que vemos em resposta à aceleração da propagação do coronavírus não prejudiquem a transmissão” [ da nossa política monetária].”

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