BOLSONARO SE ACHA CAPAZ DE ESCONDER OS CORPOS – entrevista a VLADIMIR SAFATLE por MARINA AMARAL

OBRIGADO A VLADIMIR SAFATLE, MARINA AMARAL, AGÊNCIA PÚBLICA E CAMILO JOSEPH

Agência Pública, 6 de Abril de 2020 

Selecção de Camilo Joseph

 

 

Em entrevista à Pública, o filósofo Vladimir Safatle afirma que, no Brasil, combate à pandemia passa por uma “mobilização de forma horizontal” da população em direção ao impeachment do presidente

 

O Estado brasileiro tem todas as condições para lidar com a crise do coronavírus, protegendo a população. Mas o Brasil não tem como enfrentar a pandemia com Jair Bolsonaro na presidência do país. Para o filósofo Vladimir Safatle, professor livre-docente da Universidade de São Paulo, o presidente “potencializa a crise” ao travar e desarticular as medidas de combate à epidemia e proteção às pessoas, o que deve motivar a maioria da população a se mobilizar “de forma horizontal” pelo impeachment do presidente.

“Uma coisa que poderia nascer dessa experiência de uma luta coletiva contra a pandemia é um afeto político fundamental, de solidariedade genérica: ‘minha vida depende de pessoas que eu nem sei quem são’. Elas não parecem comigo, não fazem parte do meu grupo, e essas pessoas são fundamentais; o que demonstra que nós temos um destino coletivo. Só que a esquerda, de tão presa que ela está em outro tipo de pauta, não consegue vocalizar uma pauta de solidariedade genérica universal”, diz o filósofo que assinou uma proposição de três deputados do PSOL que obteve mais de 1 milhão de assinaturas pelo impeachment do presidente. A direção do partido criticou publicamente a iniciativa.

Confira a entrevista de Safatle, que também falou sobre o trauma da sociedade diante da impossibilidade de enterrar seus mortos e dos cenários que imagina no Brasil e no mundo depois da pandemia.

 

No caos em que estamos com a pandemia do coronavírus se acelerando, o senhor tem defendido o impeachment do presidente Bolsonaro. O senhor acha que temos condição de viver um processo como esse em um momento em que estamos fechados em casa e o Congresso trabalha a distância, ocupado com as medidas de combate à pandemia?

Acho que a única coisa sensata a fazer nessa condição exatamente de pandemia é lutar pelo impeachment porque ficou claro que o Brasil não tem condições de gerir duas crises ao mesmo tempo – e o Bolsonaro é uma crise ambulante. Ele trava todas as medidas, desarticula todas as medidas, mobiliza setores da população para que burlem as medidas que são necessárias para contenções mínimas e ele aproveita essa situação para criar um sistema de destruição de qualquer possibilidade de garantias da classe trabalhadora, da classe mais desfavorecida. Essa MP, a flexibilização de demissões em uma situação como essa, os trabalhadores terem até 70% do seu salário reduzido, isso mostra como ele potencializa a crise, ele multiplica a crise. O Brasil não tem a menor condição de suportar isso por mais tempo.

Sobre mobilização: só uma ação feita por três deputados do PSOL, completamente minoritários, foi capaz de levantar 1 milhão de assinaturas que foram entregues pela deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS) ao presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia. As últimas pesquisas que temos, do Atlas Político, dá que 47% são a favor do impeachment e isso sem nenhuma mobilização. Você pode imaginar o que aconteceria se todos os setores oposicionistas, ou pelo menos todos os setores de esquerda, tivessem uma mobilização contínua? Esse grupo [a favor do impeachment] aumentaria substancialmente, fazendo com que você tivesse uma força muito clara, por um lado. E por outro, você pode não conseguir botar gente na rua mas há vários outros dispositivos pra pressionar o governo, pra mostrar pra um governo que ele não tem mais nenhuma legitimidade de cobrança. Greve geral, recusas em colaborar em diversos níveis, desobediência civil. O problema é que a esquerda não tem mais nenhuma gramática de combate.

Em seu artigo no El País o senhor também disse: “os que falam que o momento é cedo para um pedido de impeachment, que é necessário compor calmamente com todas as forças, diria que isto nunca ocorrerá. A esquerda brasileira já se demonstrou, mais de uma vez, estar em uma posição de paralisia e esquizofrenia.” Vimos a disputa dentro do próprio PSOL por essa questão e não há progressos na ideia de uma frente ampla de esquerda. Então quem lideraria este movimento pelo impeachment?

De fato, esse é um ponto central. Aliás, eu não diria mais que a esquerda brasileira está paralisada, eu diria que ela morreu. Nesse processo de combate aos descalabros do governo federal quem tomou a frente nem foi a esquerda, quem tomou a frente da oposição foram os governos de São Paulo e do Rio. O Doria e o Witzel. A política brasileira se resume a uma luta entre a direita e a extrema direita. Não há mais esquerda simplesmente. Acho que essa questão do coronavírus demonstrou isso de maneira pedagógica. A esquerda é completamente irrelevante. O que aconteceu no PSOL também acho um exemplo claríssimo disso. Um partido que vai à imprensa desautorizar deputados que tomam uma iniciativa pelo impeachment, que é popular – isso é uma espécie de atestado de óbito da esquerda no sentido mais forte do termo. Então, esse é o problema mais sério: não é só uma questão de quem vai liderar o impeachment, mas o que você faz com a oposição daqui pra frente.

A esquerda foi a reboque de todas as decisões, não teve capacidade de tensionar nenhum processo, de colocar uma pauta ou algo parecido, e acho que tem coisas muito mais profundas aí, né? Porque uma coisa que poderia nascer dessa experiência de uma luta coletiva contra a pandemia era um afeto político fundamental de solidariedade genérica. Uma solidariedade que demonstra muito claramente: ‘minha vida depende de pessoas que eu nem sei quem são’. Que não parecem comigo, que não fazem parte do meu grupo, que não têm minha identidade, e essas pessoas são fundamentais; nós temos um destino coletivo.

Só que a esquerda, de tão presa que ela está em outro tipo de pauta, não consegue vocalizar uma pauta de solidariedade genérica universal. Ela tem medo até de falar uma coisa dessa. Então, pelo menos no Brasil, essa capacidade da esquerda de reorientar as discussões a partir da experiência coletiva de algo como essa epidemia é pequena.

 

Continue a ler esta entrevista no sítio da AGÊNCIA PÚBLICA, clicando em:

https://apublica.org/2020/04/safatle-bolsonaro-se-acha-capaz-de-esconder-os-corpos/#Link1

 

2 Comments

  1. *É*
    > https://youtu.be/vZEUQbfkY0A

    *NOSSO PAÍS É UM IMENSO SHOW DE BARBARIDADES*
    > https://gustavohorta.wordpress.com/2020/04/06/nosso-pais-e-um-imenso-show-de-barbaridades/

    NÃO SE ENGANE DE NOVO… É SÓ MAIS UM GOLPISTA TRAIDOR DO POVO!

    …Autoridades que deveriam estar a serviço do Povo estão determinadas a estabelecer o caos e a destruir este próprio povo.

    As instituições republicanas, estruturadas de modo administrar conflitos, ao redor de uma mesa tripartite, passaram a estar todas assentadas do mesmo lado desta mesa, e aparentemente, de forma deliberada, contra este mesmo povo.

    Em nosso país sempre prevaleceu uma…

Leave a Reply