A disputa pela narrativa do Covid-19. Por José María Agüera Lorente

Espuma dos dias Coronavirus

Seleção e tradução de Francisco Tavares

José Maria A Lorente Por José María Agüera Lorente

Publicado por nueva tribuna, em 17 de abril de 2020 (ver aqui)

 

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Sem uma narrativa não podemos existir, nem individualmente nem socialmente; mas através da narrativa nunca poderemos sair do drama das oposições identitárias (Santiago Alba Rico: Ser ou não ser (um corpo)).

 

Já começou a disputa pela narrativa. Aquilo a que chamam “a narrativa”, que nada mais é do que a versão pós-moderna do mito. No início era o mito, não a filosofia, não a ciência, não o conhecimento. O Homo sapiens sabia – ou pensava saber – que devia adorar o Deus Sol (qualquer que fosse o nome que ele tivesse em cada religião) em vez da sua posição real no universo.

O ser humano é um animal mitogenético, dado ao delírio, porque precisa de ilusões para viver, a começar pela ilusão da sua própria identidade (uma história que contamos a nós próprios e que nos permite compreender todas as histórias). Em momento algum isto é mais verdadeiro do que num momento como o atual, em que a realidade nos infligiu um golpe tão severo que nos revelou a natureza de castelo de cartas de muitas das coisas que temos.

 

Esta crise sanitária, social, económica e política, causada por un microorganismo surgido da opaca espontaneidade material da natureza, que não faz caso algum a nenhuma lógica de nenhuma narrativa moral, teria que ser percebida pelo ser humano como uma oportunidade de luxo para pensar”

O conhecimento da verdade como único caminho válido para a felicidade terrena foi a proposta de uma utopia libertadora para a humanidade proposta pelo Século das Luzes. Não se pode viver sem ilusões, mas também não se pode viver de ilusões. Antagonismo existencial dramático em que o ser humano se desenvolve. É uma dura prova para a racionalidade e as suas instituições, a primeira das quais a sofrê-la é a ciência, que admite necessariamente, devido à honestidade intelectual que lhe é intrínseca, a incerteza que a realidade sempre impõe, pela força que não pode ser plenamente compreendida dentro das margens essencialmente limitadas do nosso entendimento.

Por conseguinte, o mito, a história em qualquer das suas formas é libertadora para os seres humanos. O romântico Friedrich Hölderlin escreveu no seu romance Hyperion: “O homem é um deus quando sonha, e um mendigo quando pensa”. Auguste Comte, o pai do positivismo, foi ingénuo quando no seu Curso de Filosofia Positiva (1830-1842) postulou a lei dos três estádios. Com ela sintetizou o processo histórico seguido pela humanidade no seu desenvolvimento do conhecimento. O teológico, o metafísico e o positivo ou científico são os três estádios, cada um dos quais constitui uma etapa no progresso do conhecimento. Na opinião de Comte, tratava-se, de facto, de uma progressão; o que significa que, uma vez atingida a última das etapas, não havia justificação para manter as duas anteriores, uma vez que foram completamente afastadas da perspectiva que permite o reconhecimento objetivo dos factos. O último deles, o positivo, como culminação definitiva dessa progressão implica a superação para sempre das formas míticas de entendimento, uma vez que se assume com todas as suas consequências que o conhecimento se baseia na relação entre os factos da sua observação e da sua medição. A ciência – como Francis Bacon já antecipara alguns séculos antes – tem um valor prático inestimável, uma vez que ver torna possível prever. Positivismo é, portanto, sinónimo de cientismo, e certamente o cientismo implica, em grande medida, um reducionismo que põe em risco a riqueza de perspetivas que podem ser adotadas sobre a realidade em geral e sobre a realidade humana em particular. O Homo sapiens é incapaz de prescindir de tudo aquilo que a utopia positivista decretou como proibido. O Homo sapiens é também demens [louco]- como Edgar Morin viu – tal como demonstram no extremo do delírio as “teorias da conspiração”, concebidas e postas em circulação também para este acontecimento desastroso.

Não, a ciência não é suficiente. Sobretudo quando as pessoas numa situação altamente vulnerável, como a atual, precisam de certezas que a ciência por si só não pode proporcionar. Insisto: no trabalho do cientista há sempre um elevado grau de incerteza e o investigador convive com ela. Porque a investigação é estimulada pela ausência de certeza sobre alguma questão. É paradoxal, se não contraditório, que na janela da opinião pública a ciência seja sinónimo de certeza quando, de facto, cada avanço científico projecta o nosso olhar para um vasto território de incerteza.

A verdade raramente é um conforto e é, com demasiada frequência, decepcionante. A começar pela verdade de que o nascimento de cada feito científico lança necessariamente uma sombra inelutável. Isto é mal tolerado pela política, que tem sido praticada há demasiado tempo com uma dose elevada de miopia histórica e com as vendas fixas do cálculo (não pensamento) economicista, sempre sujeitos ao curto prazo dos dados do último trimestre ou à projeção, no máximo, de um ano à frente. A política exige que as decisões sejam tomadas na maioria dos casos em contra-relógio e sob a pressão de vários interesses, se não mesmo conflituosos. Quando coincidem pressão política, incerteza consubstancial à investigação e à medicina, qualquer decisão tomada tem uma percentagem significativa de probabilidade de erro. Poder-se-ia dizer que cada decisão é um corte que ataca o real e simultaneamente produz o verdadeiro e o falso. Ou será que nos esquecemos do que aconteceu em 2009 com a gripe A (gripe A, subtipo H1N1 no jargão; vulgarmente, gripe suína)? A OMS declarou-a pandémica na altura, fazendo que os governos – incluindo o Governo espanhol na altura de Rodríguez Zapatero – acumulassem preventivamente medicamentos para a gripe que finalmente ficaram por utilizar. Isto levou a importantes críticas ao desperdício injustificado de dinheiros públicos naquela conjuntura de crise financeira muito dura. Neste caso, a incerteza científica levou todos a ficarem prematuramente vigilantes. Com a atual pandemia, aconteceu o contrário.

E onde a ciência não nos dá certezas suficientes, o mito terá de no-las dar. Uma história gerada através da elaboração linguística de factos, submetida ao ditame da criação de sentido através das acções dos agentes. As causas e os seus efeitos são substituídos por intenções, responsabilidades e culpas. Certamente por tudo isto foi implantada quase desde o início desta crise a retórica da guerra, com o vírus como inimigo, o nosso pessoal de saúde como o exército heróico que nos defende da pandemia, e – claro – também com os seus vilões e traidores à pátria.

Diz-se que a primeira vítima de uma guerra é a verdade. Isto é certamente verdade no caso da narrativa em termos da correspondência com os factos e as suas relações causais; isto é, o que deu origem a quê, quando e em que circunstâncias e precedido por quê. No entanto, no centro da narrativa está sempre a verdade oculta do que se procura através da sua divulgação.

Esta crise sanitária, social, económica e política, causada por um microorganismo que surge da opaca espontaneidade material da natureza, que não faz caso de nenhuma lógica de qualquer narrativa moral, deve ser entendida pelo ser humano como uma oportunidade de luxo para pensar. Uma ocasião para rever com rigor e profundidade o sistema concebido ao longo dos séculos pela chamada civilização ocidental, mundialmente hegemónica, através da qual são definidas as hierarquias de poder entre os indivíduos e em relação à natureza, origem única e verdadeira do sustento de todos. Este esforço de reflexão crítica vem a ser feito desde há muito e em diferentes frentes, seja filosófica, científica, económica ou política; mas eu diria que é uma espécie de ladainha de fundo de praticamente nenhum efeito sobre o fluxo diário das nossas tarefas, absorvidos como todos estamos nos nossos problemas particulares e diversos, todos entendidos como de importância primordial e urgente a partir do observatório pessoal do egocentrismo de cada um. Assim, instalados nesta inércia que nos conduz (“normalidade”), e mais ou menos satisfeitos com a ajuda do generoso repertório de distrações que o sistema de consumo nos proporciona, toleramos o que temos devido às imperfeições de um modo de vida que já é mundial e que nos parece estar a progredir. E, evidentemente, em muitos aspetos e para muitas pessoas está a progredir; mas o mesmo ideal moderno de progresso exige que o seu progresso seja continuamente revisto à luz do conhecimento dos factos e da reflexão com base nesse conhecimento.

Mas isso exige submeter a exame a narrativa dominante. Uma narrativa que sobreviveu à grande crise de 2008, resultado do funcionamento de um paradigma económico que foi forjado a partir dos anos 70 e 80 do século passado sob as ideias de Friedrich Hayek e Milton Friedman e as propostas dos rapazes de Chicago na economia; e na política, com o sucesso da revolução neoconservadora sob a liderança vigorosa de Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Desregulamentação e financeirização da economia sob a premissa ontológica de que não há sociedade a não ser o indivíduo e que, consequentemente, era imperativo que a política favorecesse a liberdade individual, colocasse a protecção da propriedade privada acima de qualquer outra consideração e eliminasse as restrições estatais para o pleno exercício do mercado livre e do enriquecimento pessoal através da promoção do empreendedorismo e da iniciativa privada. Tudo isto acompanhado por um discurso com uma elevada carga moralista de descrédito do setor público da economia e dos serviços sob administração direta do Estado que tem vindo a justificar nas últimas décadas um processo quase mundial de privatizações que tem significado uma prodigiosa transferência da riqueza comunal para alguns. O resultado: um aumento notável das desigualdades que prejudica uma grande maioria dos cidadãos e favorece uma minoria exclusiva (este facto é atestado, por exemplo, por relatórios recentes da OCDE e da Oxfam Intermón).

Porque é muito importante exercitar a memória e cultivar a história para combater o curto-prazismo hiper-capitalista, recordemos como, nesse fatídico 2008, a necessidade de “capitalismo refundador” quase não foi expressa por nenhum líder político, como o então presidente da França, Nikolas Sarkozy, e foi anulada pelo discurso da austeridade e da necessidade de “reformas estruturais” que minaram notavelmente o Estado Providência. Rapidamente, e com fria eficiência, foi imposto o que Naomi Klein chama “a doutrina do choque”, cuja ideia fundadora é atribuída a Milton Friedman, provavelmente o economista mais influente das últimas quatro décadas. A ideia é tirar partido de crises reais ou sentidas para provocar uma mudança de paradigma. Friedman estava bem ciente de que as decisões tomadas dependem, em grande medida, das ideias predominantes. Daí a importância da narrativa, que irá definir as ideias dominantes, que convertem o politicamente possível em politicamente inevitável. Os 15M em Espanha e o movimento de Occupy Wall Street foram belos gestos que pouco puderam fazer contra a única política considerada válida (no mesmo ano do 15M o PP varreu as urnas para depois no governo aplicar a política económica de acordo com os cânones do paradigma atualmente dominante). “Isto é o que temos” e “não há outra opção” foram sintagmas muito pronunciados nos anos seguintes. A Grécia é um doloroso testemunho disso, que foi capturado em toda a sua crueza pelo realizador Costa-Gavras no seu recente filme intitulado “Adultos na sala”.

 

“Para os que querem a manutenção do atual status quo, é imperativo evitar a todo o custo a propagação da suspeita de que a crise do coronavírus possa significar a trágica morte do ‘neoliberalismo’ “

Aqueles que persistem em manter este estado de coisas não tolerarão uma revisão séria do mesmo. Estão, portanto, bem conscientes de como é crucial construir uma narrativa eficaz contra aqueles que procuram tirar partido deste estado de choque em que a pandemia nos coloca a todos para propor alternativas que atenuem os danos e distribuam os custos de forma justa. Uma narrativa – sublinho – contra os críticos, não uma análise dos factos e das suas verdadeiras causas. Porque os críticos já estavam supostamente derrotados quando foi decretado o fim da história e a proibição de todos os caprichos utópicos. A vitória tinha sido esculpida de uma vez por todas nas mesas do mito da omnipotência do capitalismo de mercado livre com a queda da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Devemos, pois, estar prontos a abafar esta tentativa de rebelião que a atual situação de incerteza pode causar. Temos de enterrar qualquer expressão de esperança na melhoria do nosso julgamento do valor das coisas com uma barragem de ataques e acusações contra o governo inepto de “filocomunistas” que, através das suas decisões, estão a pôr em perigo a estabilidade de um sistema, o único que garante o bem-estar e a prosperidade de todos os cidadãos, mesmo que isso signifique um nível significativo de injustiça social e de desigualdade económica.

Prevalecer na disputa pela narrativa tem por objetivo evitar o ressurgimento da guerra ideológica que já foi ganha nos anos 90. Foi então que a revolução neoconservadora pôs fim ao paradigma político-económico que tinha emergido das cinzas da Segunda Guerra Mundial, com base em três princípios: forte proteccionismo nos domínios social e laboral, elevados impostos sobre o rendimento e uma presença decisiva do setor público em áreas estratégicas da economia, particularmente em setores como a energia, as telecomunicações e as finanças. O Estado social foi construído sobre estes alicerces. Tudo isto é compatível, a propósito, com três décadas (“os gloriosos anos trinta” como os franceses chamam a esses anos) de crescimento económico elevado e contínuo (mais de 4% de crescimento médio do PIB no ambiente europeu, quando agora, se se chega aos 2%, dão-se pulos de alegria).

Por conseguinte, para os que querem a manutenção do atual status quo, é imperativo evitar a todo o custo a propagação da suspeita de que a crise do coronavírus possa significar a trágica morte do “neoliberalismo”, que é o que o jornalista Carlos Sánchez, um especialista em questões económicas, escreveu há alguns dias num meio digital – pecando por uma certa candura, atrevo-me a dizer. Para isso, há que afastar o foco da atenção do exame da estrutura institucional, normativa e ética que nos mantém sujeitos a certas formas de vida que podem ser muito lesivas para uma parte muito significativa da humanidade, e mantê-la obsessiva e agressivamente centrada na tomada de decisões de um governo que se transforma em bode expiatório que se entrega em sacrifício a uma opinião pública cega pela incerteza, angústia e medo. Assim, as críticas limitam-se ao anedótico e estão longe de ser o essencial. Congruente com este propósito é o uso primordial da linguagem dos memes como meio de divulgação da narrativa, o artifício ideal por cuja frivolidade o pensamento daqueles que o partilham não vai além da epiderme da compreensão. Uma prática que é uma caricatura da tese de Hölderlin, uma vez que nos liberta de toda a sujeição aos fatos e ativa as fontes emocionais dos nossos impulsos ideológicos.

Para ser eficaz, esta narrativa tem de se tornar viral. Assim, ironicamente, o seu contágio nas redes sociais prevalece sobre o do coronavírus no nosso corpo. Não há necessidade de que seja verdade. Já disse que a verdade desilude a maior parte das vezes e não é popular. Quem quer parar e pensar e estudar rigorosamente o que aconteceu, investigando as suas causas profundas, especificando a genealogia dos acontecimentos?

Para ser eficaz, esta narrativa – como todos os mitos – tem de se conformar aos cânones do drama, porque tem, antes de mais, de ser eficaz do ponto de vista emocional. É por isso – insisto – que lhe assenta tão bem a retórica da guerra e dos hinos (a omnipresente canção Resistiré) e a contagem dos mortos e os aplausos para os heróis que lutam na linha da frente e para os vilões (uns ou outros dependendo de quem são) e os patriotas e os traidores (porque parece que não se nos mete na cabeça que não se trata de pátrias mas sim da humanidade) e as bandeiras com mirto nas varandas. Tem de atingir em cheio o alvo dos nossos preconceitos e ansiedades tribais e manter-nos acobardados e submissos à ameaça do mal. Mal que por força há-de ter a sua explicação e que há-de ser racionalizado a fim de nos preservar do medo que a sua indiferença e falta de critérios morais implicam. O vírus, impiedosamente impessoal, mata indiscriminadamente, mas essas mortes têm de ter os seus culpados identificados; não lhe pode faltar discernimento moral, tal como se pretendia com o vírus da SIDA quando este apareceu. Porque é através da magia da narrativa e da sua lógica antagónica que o efeito cego da natureza se transforma numa fábula moral. Desta forma, as consciências que vislumbram o significado na escuridão da tragédia ficam apaziguadas. Isto faz certamente parte do que Nietzsche quis dizer quando escreveu que “não nos vamos livrar de Deus porque continuamos a acreditar na gramática… “.

A disputa sobre a narrativa é o esforço incansável para manter intacta a ordem atual das coisas, manipulando a nossa perceção da realidade. Puro ilusionismo. Mas quem é capaz de viver sem ilusões?

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O autor: José María Agüera Lorente, licenciado em Filosofia pela Universidade de Granada e em Comunicação Audiovisual, Filosofia, Jornalismo e Meios Audiovisuais pela Universidade de Málaga. Professor de Filosofia do ensino secundário.

 

1 Comment

  1. Que houve e há uma conspiração para continuar a assegurar – a todo e a qualquer custo – uma hegemonia mundial baseada na força da prepotência política não tem nada de falso.Denunciá-lo é uma obrigação que só contribui para ajudar a eliminar o erro em que, pela imposição imperialista, tem estado a viver-se e não é querer afirmar uma nova verdade. Para alcançar-se valor cientifico tem de afirma-se a eliminação dos erros e não o anuncio de novas verdades. CLV

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