A Lombardia, fazendo ziguezagues, enfrenta o governo italiano ante a impossibilidade de mitigar os efeitos do coronavírus. Por Manuel Tori

Espuma dos dias Coronavirus

Seleção e tradução de Francisco Tavares

Manuel Tori Por Manuel Tori, correspondente em Itália

publico es es, em Roma, 17 de abril de 2020 (ver aqui)

 

Prolongar ou levantar o confinamento? O que é melhor para a economia da região mais produtiva de Itália para lidar com o coronavírus? Matteo Salvini, líder da Liga soberanista a que pertence também o Presidente da Lombardia, Attilio Fontana, quer usar a região norte como trunfo político contra o primeiro-ministro Conte para desgastar a sua presidência.

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Imagem de uma bandeira italiana projetada em Milão. REUTERS

 

Abrir ou fechar? O que é melhor para a economia da região mais produtiva de Itália para lidar com o coronavírus? Este é o grande dilema da região da Lombardia, o motor económico do país transalpino, que nos últimos dias tem vindo a fazer ziguezagues, apostando demasiadas vezes em soluções opostas. Até há poucos dias, o seu presidente, Attilio Fontana, estava firmemente convencido de que tinha de ser implementado um encerramento total, ainda mais duro do que o atual. Hoje, porém, ele gostaria de ver um regresso à normalidade no dia 4 de Maio, em que “todos usem máscaras” de forma obrigatória. Mas a verdade é que a região de Milão representa agora um terço das pessoas atualmente infetadas – 33 000 – e mais de metade das que morreram – 11 000 – por covid-19 em Itália.

A Lombardia enfrenta o Governo italiano para atenuar, de alguma forma, os duros efeitos do coronavírus na região. Parece não haver solução sanitária a curto prazo, o que se traduz, para a Lombardia, em vaivéns que acabam por se revelar um desafio para o primeiro-ministro transalpino, Giuseppe Conte.

A isto devemos acrescentar um pormenor importante, como o facto de o chefe do Executivo italiano liderar uma coligação governamental de centro-esquerda, enquanto o Presidente lombardo, Attilio Fontana, pertence à Liga do soberanista Matteo Salvini, que com 28% nas sondagens é o líder do primeiro partido em Itália, mas na oposição. Salvini quer, portanto, utilizar Fontana e a região da Lombardia como trunfo contra o Primeiro-Ministro Conte para desgastar a sua presidência. Mas são as constantes mudanças de posição que estão a desgastar ainda mais a Lombardia na sua luta no âmbito da difícil crise sanitária contra o coronavírus no país em forma de bota. A primeira página do conhecido jornal italiano La Repubblica desta quinta-feira foi eloquente ao falar sobre “o ziguezague lombardo”.

A Lombardia pede ao Governo italiano que regresse à normalidade aplicando “os quatro D”: a obrigação de respeitar o metro de distância interpessoal, a obrigação de usar máscaras, a obrigação de teletrabalho para os setores que o possam fazer e testes de diagnóstico em massa para verificar a positividade da população em relação ao covid-19. Estas quatro linhas principais orientarão o Presidente lombardo, Fontana, ao negociar com o Governo Transalpino como e se será possível regressar, de forma escalonada, a uma normalidade económica no motor industrial do país com forma de bota. Em todo o caso, o Conselho de Ministros, presidido pelo Primeiro-Ministro Giuseppe Conte, terá a última palavra.

“A região da Lombardia teve a coragem e o orgulho de dizer que no dia 4 de maio haverá um retorno gradual ao trabalho”, assegura o líder da Liga soberanista, Matteo Salvini, tentando iludir a posição radicalmente oposta da Lombardia até alguns dias atrás. Do Governo italiano, alguns recordam que “Fontana sempre defendeu uma linha rigorosa e fortemente restritiva”. Hoje, porém, de forma surpreendente, decidiu reabrir”, assegura Stefano Buffagni, vice-ministro do Desenvolvimento Económico. Para o Executivo Transalpino, a mudança na posição da Lombardia é, em partes iguais, uma “surpresa” e um “erro”.

“A suspeita do Governo é que por detrás da estratégia de Fontana está o comando de Matteo Salvini, interessado em instrumentalizar boas notícias da Lombardia”, explica o conhecido diário italiano Corriere della Sera, numa reconstrução política. Como afirma o centenário jornal transalpino, “o Executivo acredita que Salvini e Fontana estão a erguer uma cortina de fumo para esconder os problemas” relacionados com a difícil situação sanitária ligada ao covid-19 no território da Lombardia.

Parece que associação patronal e sindicatos coincindem em que a saúde pública deve ser uma prioridade: “Penso que no dia 4 de Maio a questão não estará resolvida”, explica Stefano Scaglia, presidente do CEOE italiano na cidade lombarda de Bérgamo, uma das mais afetadas em Itália pelo coronavírus. Embora Scaglia esclareça nas páginas do Corriere que “é verdade que todos os dias contam para a sobrevivência ou encerramento de uma empresa”, o representante patronal admite que “a saúde pública continua a ser o bem primário”. O dia 4 de Maio é, por enquanto, o último dia de aplicação do atual confinamento nacional decretado pelo Primeiro-Ministro Conte. Tendo em conta o ritmo diário constante de novos positivos, é muito provável, porém, que a atual quarentena generalizada tenha de ser prolongada até se observar não só um achatamento, mas também uma queda na curva das infeções por coronavírus em Itália.

 

 

 

 

 

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