A Europa impotente face à perspetiva de uma tragédia global ? – Texto 35. Temos de concentrar a nossa atenção nos nossos próximos passos. Por Martin Wolf

Berlim encontro refazer o muro

Um mês de março intenso em reuniões, em tragédias, em desacordos afirmados, em acordos adiados, em ameaças feitas e desfeitas ou adiadas, tudo isto se passou na União Europeia que se mostra claramente impotente face à tragédia Covid 19 e à crise financeira que nos bate à porta com uma enorme violência.

Um relato destes dias que mais parecem dias de loucura é o que aqui vos queremos deixar nesta série de textos intitulada A Europa impotente face à perspetiva de uma tragédia global ?

31/03/2020

JM

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Martin Wolf mai2020 Por Martin Wolf

Publicado por FTimes em 07/04/2020 (“We must focus attention on our next steps”, ver aqui)

Texto 35. Temos de concentrar a nossa atenção nos nossos próximos passos 1
© James Ferguson

 

Os confinamentos são necessários para controlar a doença – mas devem ser breves

 

Uma viagem de mil milhas começa com um único passo. A viagem através desta pandemia vai ser longa e difícil. Não podemos saber onde vai acabar, embora seja difícil não especular.

O que temos de fazer é concentrarmo-nos nos passos que temos pela frente, se quisermos evitar sair do nosso estreito caminho e depararmos, depois, ou com mortes em massa de um lado, ou com uma enorme devastação económica do outro. Se não evitarmos cair numa qualquer destas duas calamidades num futuro próximo, arriscamo-nos ao caos que se avizinha.

Mesmo que o consigamos fazer, não voltaremos à normalidade que tínhamos tido como um dado garantido até recentemente. Para isso, temos pelo menos de esperar por uma cura ou uma vacina. Os danos económicos e sociais vão permanecer ainda por mais tempo.

A análise da OCDE esclarece-nos sobre as perturbações económicas que se avizinham. Não se trata de uma recessão ou mesmo de uma depressão vulgar, causada por um colapso da procura. A atividade económica está a ser interrompida, em parte porque as pessoas receiam o contacto e em parte porque os governos lhes disseram para ficarem em casa. O impacto imediato destas ações poderá ser uma redução do produto interno bruto no grupo dos sete principais países de elevado rendimento, entre 20 e 30 por cento. Cada mês, quando grandes partes das nossas economias permanecem fechadas, o crescimento anual pode cair 2 pontos percentuais.

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Além disso, os custos são repartidos de forma desigual. Os trabalhadores não qualificados são os que mais sofrem com a perda de empregos. As pessoas e as empresas capazes de trabalhar em teletrabalho, continuam a trabalhar. As que não o podem fazer, não o fazem.

Os custos também não são equitativamente partilhados a nível global. Muitos países emergentes e em desenvolvimento estão a ser atingidos pelo colapso da procura externa, pela queda dos preços das matérias-primas e por uma fuga de capitais sem precedentes, enquanto têm de gerir a pandemia com sistemas de saúde altamente inadequados.

Os confinamentos são especialmente brutais em países com Estados-Providência limitados ou inexistentes e com um grande número de pessoas que subsistem com os seus rendimentos diários de uma economia informal frágil.

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É correto perguntar se essa carnificina económica pode ser justificada. Entre os países de elevado rendimento, a Suécia tem adotado a abordagem menos restritiva. Uma comparação com a Noruega torna claro o compromisso: o desemprego também aumentou na Suécia, mas muito menos do que no seu vizinho; no entanto, o número de mortes é também mais elevado na Suécia. Deveríamos estar gratos pela experiência sueca. Podemos aprender com ela, de uma forma ou de outra.

No entanto, a minha opinião, em consonância com a dos especialistas em saúde e dos principais economistas, é que os confinamentos  são necessários para salvar os sistemas de saúde do colapso e para controlar a doença. Mas têm de ser breves. É impossível manter as pessoas presas indefinidamente, sem grandes sofrimentos pessoais e prejuízos sociais e económicos. Isto é particularmente verdade quando os governos são incapazes de oferecer as dispendiosas medidas de proteção social viáveis nos países de elevado rendimento.

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O confinamento deve ser um curto espaço de manobra antes de passarmos ao que um grupo de peritos alemães chama uma “estratégia adaptada ao risco”. Durante os confinamentos , os governos devem fazer o que for necessário para evitar ter de recorrer de novo a intervenções tão pesadas. Não têm muito tempo para o fazer: alguns meses, não mais. Caso contrário, podem não ter outra alternativa senão imitar a Suécia.

Fazer com que os confinamentos valham a pena, para nos permitir viver sem eles, é o primeiro passo essencial. O segundo passo é minimizar os prejuízos económicos. Aqui, a tónica deve ser colocada no hoje e não no elevado endividamento público e noutros encargos do futuro. O mal é suficiente para o dia de hoje. Tal como na guerra, é preciso sobreviver ao presente para que haja um futuro que valha a pena ter.

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Ao considerar o que deve ser feito para gerir o devastador impacto económico, para além de reabrir as economias tão rapidamente quanto é razoavelmente seguro fazê-lo, há três considerações essenciais.

Em primeiro lugar, proteger os mais fracos, tanto no interior dos países como entre eles. Uma doença ameaça a todos. A forma como se reage é uma medida dos nossos padrões éticos. É essencial garantir a segurança económica básica para todos se não puderem trabalhar.

Um rendimento básico universal temporário é uma opção óbvia. Do mesmo modo e de forma crucial, há que encontrar formas de apoiar economias vulneráveis.

Há muitas possibilidades radicais. Uma delas é uma nova e enorme emissão dos Direitos de Saque Especiais do FMI, com a doação pelos países de elevado rendimento da sua quota-parte para um fundo em benefício dos países em desenvolvimento mais vulneráveis. Também será crucial uma paragem nos pagamentos do serviço da dívida durante toda a crise.

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Em segundo lugar, não causar danos. A ferida mais profunda resultaria da destruição total do sistema de comércio internacional. Isso tornaria muito mais difícil restabelecer a prosperidade global depois da crise ter terminado.

Em terceiro lugar, abandonar as ideias já desacreditadas. Os governos já abandonaram as velhas regras orçamentais, e com razão. Os bancos centrais também têm de fazer o que for preciso.

Isto significa o financiamento monetário dos governos. Os bancos centrais fingem que o que estão a fazer é reversível e por isso mesmo não é financiamento monetário. Se isso os ajudar a agir, tudo bem, mesmo que provavelmente não seja verdade. Na zona euro, eles falam muito de euro-obrigações, também chamadas eurobonds.

Mas o apoio que importa terá de vir do Banco Central Europeu. Não há alternativa. Ninguém se deve preocupar com isso. Há formas de gerir as consequências. Mesmo o “dinheiro de helicóptero” pode muito bem ser plenamente justificável numa crise tão profunda.

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Surgem escolhas mais dolorosas do que estas. Uma emergência como esta será utilizada pelos aspirantes a tiranos para reforçar o seu domínio. Ao mesmo tempo, algumas liberdades devem ser abandonadas, temporariamente.

A gestão de compromissos tão dolorosos depende de elevados níveis de confiança e fiabilidade, características pouco salientes das democracias de hoje. Mas o teste é agora.

Os governos que não conseguirem enfrentar estes desafios correm o risco de entrar em colapso. Os sistemas políticos que produzem tais governos correm o risco de perder a sua legitimidade.

Temos de dar estes  próximos passos de forma correta. Tudo depende de os darmos assim ou não.

 

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O autor: Martin Wolf (1946-) é um jornalista britânico que se concentra na economia. É o editor associado e comentarista-chefe de economia do Financial Times. Bibliografia: The Shifts and the Shocks: What We’ve Learned—and Have Still to Learn—from the Financial Crisis (Penguin Press 2014), Fixing Global Finance (The Johns Hopkins University Press 2008), Why Globalization Works (Yale University Press 2004), The Resistible Appeal of Fortress Europe (AEI Press 1994).

 

 

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