A GALIZA COMO TAREFA – permanência – Ernesto V. Souza

É cedo. O primeiro café é um resto. Boto um olho, por me entreter, numa miscelânea de escritos reunidos sobre arte, de Oscar Wilde*; publicações em revistas de juventude, rascunhos e roteiros resgatados, na origem conferências para o público norte-americano dos anos finais da década de 1880. E encontro aí, às poucas páginas, uma cita – intuo famosa – do todo-poderoso William Blake: “To generalize is to be an idiot”.

Os discursos sobre o renascimento estético inglês, a arte, os artesãos e o artesanato, os horrores da sociedade industrial ficam um momento suspensos. As delícias podem se demorar. Rastrejando na internet encontro a citação mais completa. E vou, na pista, até a situar, tirada numas anotações escritas de mão nas margens: um jeito de diálogo irreverente, contra as opiniões mais clássicas e ortodoxas do mestre Reynolds, menos radicais e menos prometeicas que as do Blake estudante:

To generalize is to be an idiot. To particularize is the alone distinction of merit. General knowledges are those knowledges that idiots possess.

Annotations to Sir Joshua Reynolds’s Discourses, pp. xvii–xcviii (c. 1798–1809)

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The Works of Sir Joshua Reynolds [with William Blake’s manuscript notes] .- London, 1798 (British Library Shelfmark: C.45.e.18-20)

Sir Joshua Reynolds, elevado a cavaleiro por George III, fundador e primeiro presidente da Royal Academy of Arts, foi um dos mais eminentes retratistas britânicos do século XVIII. Contertúlio da intelectualidade literária e artistica da sua época, homem de clube e associações. Pintor de sucesso, favorito das elites e celebridades. As suas pinturas e estética académica, pretendiam invocar os valores morais clássicos e os gostos idealizadores da época georgiana. A sua cuidada formação, técnica e habilidade tiveram grande influencia na época e nas gerações de retratistas posteriores. Representante do “Grand Style”, foi teórico também, preocupando-se em divulgar as suas ideias sobre a arte, em escritos, palestras e lições aos estudantes, colegas e membros da academia.

Tem a sua miga o conto. Já quando apanhei o livro, nesta manhã de domingo, com o sol entrando pelas janelas do salão, do armário de vitrinas que guarda a livraria velha, e abri ao acaso e ritual algumas páginas, a imaginação levou-me imediatamente a velhas conversas e intercâmbio epistolar eletrónico recorrente com algumas amizades.

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“Newton”, William Blake (1795), gravado, colorido com tinta e aguarela. (wikipédia)

Vou escrevendo mentalmente algum artigo, entanto começo a preparar o jantar. Vou picando cebola e adubando a carne numa variante fusion, a meio caminho entre a experiência própria e lembranças na cozinha da minha avoa e da da minha mãe.

Divago um pouco. Tenho uma divertida conversa com a minha mulher sobre história social inglesa, Wilde, Barrie, sobre Eton e a educação britânica e sobre os pérfidos, mas civilizados conservadores e liberais daquelas ilhas, tão longe do panorama político espanhol de hoje.

A conversa termina, a protesto dos filhos adolescentes que acham que é atravessante demais o teor desse diálogo para digerir o cacau com bolachas todavia com o sono posto nos olhos.

O setor tory da casa, sempre com mais iniciativa, por entanto foi metendo roupa e programando uma lavadora e bastante da agenda previsora em função do desconfinamento; o whig vai lavando a louça e esfregando a pia por ir aproveitando o tempo, filosofando, pessimista.

Limpo o corredor a vassoira e pano. Vou deixando voar as ideias, Wilde, Blake, prerrafaelismo, Morris; revolução estética, antiacademicismo, tempo, re-pensar as cousas, os objetos e as tarefas. Misturam-se os cheiros de uma casa viva em domingo, alguns objetos e pequenos trabalhos bem feitos.

Detalhes e conexões. Gosto deste soalho de madeira usada, dos móveis, dos objetos cuidadosamente fabricados e dos livros. Dos livros sobre livros, sobre fabricação e desenho de livros, e de móveis, tipografias, bibliotecas, encadernações, antiguidades, madeiras, gosto das lâmpadas de pergaminho tintado e ferro de Marrocos, as cerâmicas e chinarias brancas e azuis, a carpintaria asiática e os painéis japoneses… teríamos de fazer obras no banheiro…

Permanência, eu diria – ainda em pijama e mandil – que é a palavra que procuro há um tempo. Uma palavra perfeita quando falamos de qualidade, desenho, de renascimento, de arte, de artesania, de objetos de uso, de boas ferramentas, de detalhes, de pensamento, de estética, de livros e de prosa. Uma palavra perfeita, radical, rompedora e contrária para os tempos frívolos, exagerados, voláteis e loucos que correm.

*Obras escogidas de Oscar Wilde, XI : Palabras, ideas, crítica [traducción y notas preliminares de Ricardo Baeza] .- Madrid : Biblioteca Nueva, 1929.

One comment

  1. Abanhos

    Que maravilha de texto.
    Permanência é cousa realmente fulcral para todo, é a diferença entre se ser e a nada.
    Por isso a permanencia, que tem o seu aquele de conservador, que nada tem a ver com reacionário, pois bons alicerces conservadores são a base dos câmbios de sucesso e futuro.
    Por isso na Galiza temos um problema, em realidade carecemos de conservadores.
    Os que se chamam aqui conservadores, são os submetidos que aceitam a parafernália da dominação….e a aceitação dessa parafernália é o que chamam conservadorismo.
    Por isso não se pode geralizar, e menos em categorias como wings torys…
    E liberte-nos deus dos que não tenham umas boas raízes liberais segundo modelo anglisaxónico, pois isso dá o aquele, a chave do bom siso.

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