1º de Maio de 1962 – Assassinato de Estêvão Giro: testemunho presencial

25deabril 2020

Seleção de Francisco Tavares

Estevao Giro 1º de Maio de 1962: Assassinato de Estêvão Giro: testemunho presencial

 

Houve muitos resistentes antifascistas, homens e mulheres comuns, que pagaram com a vida a sua resistência a um regime opressor e explorador dos trabalhadores e da população em geral, o regime fascista de Salazar. Muitos desses homens e mulheres são simples desconhecidos para a maioria de nós. Foi o caso do jovem Estêvão Giro, assassinado aos 25 anos no 1º de Maio de 1962.

Hoje publicamos o testemunho direto de Adalberto Ribeiro do assassinato de Estêvão Giro nesse dia 1º de Maio.

E mais abaixo publicamos o texto “Relato dos acontecimentos em biografia” da autoria de Helena Pato de “Fascismo nunca mais” e dos “Antifascistas da Resistência”.

Amanhã publicaremos o relato de Helena Pato sobre o 1º de Maio de 1962, “A-ssa-ssi-nos, a-ssa-ssi-nos!”.

A ambos agradecemos a sua disponibilidade para nova publicação destes textos.

FT

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Testemunho presencial do assassinato de Estêvão Giro no 1º de Maio de 1962

Adalberto Ribeiro Por Adalberto Ribeiro

Em 1 de Maio de 2020

Fonte: Comentário ao post do relato dos acontecimentos, ver aqui em Fascismo Nunca Mais

 

Naquele 1º de Maio de 1962 a polícia de choque, apanhada desprevenida pela enormidade da multidão de manifestantes antifascistas (nomeadamente operários vindos da margem sul e estudantes ainda embrenhados na greve que em Março eclodira em Lisboa na sequência da proibição do dia do estudante) perdeu completamente o controle da baixa de Lisboa, controle que só veio a recuperar lenta e dificilmente, já caíra a noite, e aos tiros na Av. da Liberdade.

A meio da tarde, um grupo de antifascistas formado “ad-hoc” no Largo da Igreja da Madalena, no qual me integrei, procurou opôr-se à ocupação daquele Largo pela dita polícia de choque, puxando sistematicamente o ‘troley’ aos elétricos que ali se encontravam parados a fim de manter o trânsito engarrafado, dificultando assim a margem de manobra da polícia de choque. Quando finalmente esta conseguiu tomar conta do Largo, formou um cordão barrando a Rua da Madalena no início da subida para o Largo do Caldas, enquanto nós, tendo já escapado para o largo do Caldas, na nossa juvenil determinação (e ingenuidade) procurámos afanosamente erguer uma barricada (!!!) com os caixotes do lixo e sinais de trânsito que conseguimos arrebanhar por ali. E ali ficámos à espera deles, gritando os habituais slogans antifascistas,com os também já clássicos paralelepípedos nas mãos como únicas munições.

O cordão policial foi-se atardando lá no fundo da rua, estudando, sem pressas, as nossas insípidas e descomandadas movimentações, até que, subitamente, irrompeu correndo rua acima na nossa direção, disparando ininterruptas rajadas de pistola-metralhadora.

Arremessadas algumas pedras o grupo dispersou e fugiu desordenadamente pelas várias ruas que confluem naquele largo, tendo eu, que por ali morar conhecia bem o local, metido pela de S. Mamede (ao Caldas) e voltado pela Rua das Pedras Negras, a meio da rua da Madalena, onde, baleado, caíra o camarada – como se ali tivesse chegado naquele momento vindo de casa. Com a ajuda de outra pessoa, fizemos parar um táxi levando o ferido novamente para o Largo do Caldas onde sabíamos que havia um posto médico nas traseiras da Associação dos Empregados do Comércio, também sita naquele Largo. Aí chegados, abeirámo-nos do portão fechado e através de uma larga janela gradeada falámos com dois indivíduos de bata branca (médicos? enfermeiros?) que nos espreitavam do lado de dentro, dizendo-lhes que trazíamos no táxi um homem gravemente ferido, ou mesmo já moribundo, com um buraco de bala bem visível na nuca, que recolheramos em plena rua da Madalena. Como não mostrassem tenção de abrir a porta e, entretanto, ali se juntara um punhado de moradores do bairro (S. Cristóvão) a quem entretanto tínhamos explicado o que tinha ocorrido, voltámos à fala com o pessoal do posto médico (certamente pessoal de saúde responsável pelo mesmo) e intimámo-los a abrir o portão e acolher o ferido como era seu dever, sob pena de, com a ajuda e concordância dos moradores do bairro, arrombarmos o mesmo. Apercebendo-se da firme disposição dos presentes, o portão não tardou então a ser aberto e o ferido, afinal já morto (como era evidente até para qualquer leigo), finalmente recebido.

Tinha 20 anos nesse memorável 1º de Maio de 1962, e só hoje, graças a vós [grupo do Facebook, Fascismo Nunca mais e Antifascistas da Resistência] soube quem era esse heróico camarada: o operário tipógrafo Estevão Giro.

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Relato dos acontecimentos em biografia

Helena Pato Por Helena Pato

Fonte: Fascismo Nunca Mais, ver aqui

 

Estevao Giro (1)

Estêvão José Dangues Giro foi um jovem tipógrafo de Alcochete baleado no dia 1º Maio de 1962, em Lisboa, na maior manifestação ocorrida durante o regime fascista. Não se deixando intimidar com a violência da polícia, nem mesmo com as rajadas de metralhadora, os manifestantes ripostaram com tudo o que podiam arrancar das ruas. Houve feridos do lado dos manifestantes, mas também nas forças repressivas. O jovem operário comunista Estêvão Giro foi assassinado por uma dessas rajadas de metralhadora.(2)

«Chegaram novos homens da polícia, enquanto o grupo dos “subversivos” se ampliava, envolvendo muitos operários que até então pareciam tranquilos. Estes eventos aceleraram sobretudo depois da chegada de numerosos passageiros provindos do Barreiro e Cacilhas, momento em que a polícia começou a tentar dispersar a multidão com o cassetete, enquanto alguns manifestantes começaram a insinuar-se nas ruas perpendiculares ao Terreiro do Paço em direcção ao centro, danificando eléctricos e carros, a fim de parar o trânsito. As agitações espalharam-se noutras zonas da cidade, até à catedral, enquanto a polícia começou a usar as armas de fogo, atingindo seis manifestantes dos quais um morreu. Nos dias seguintes, os acontecimentos repetiram-se com um esquema muito semelhante no Porto e ainda em Lisboa, onde foi morta mais uma mulher que se encontrava à janela da sua habitação, alegadamente atingida, segundo a imprensa oficial, por um tiro disparado por alguns agitadores instalados em cima dum telhado.» – Guya Accornero, Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa.

«O Avante! da primeira quinzena de Maio de 1962 retrata os acontecimentos: «A partir das 5 horas da tarde, começaram a concentrar-se no Terreiro do Paço e na zona da Baixa muitos milhares de manifestantes que a polícia não conseguia fazer dispersar: operários com as suas lancheiras, estudantes, mulheres, empregados, intelectuais. De momento a momento, novas massas de trabalhadores e jovens chegavam ao centro da cidade para tomar parte na manifestação. Às 7 horas da tarde a Baixa estava ocupada por mais de 100 mil manifestantes que começaram a dar vivas à liberdade e a cantar em coro impressionante o Hino Nacional, deslocando-se com dísticos para o Terreiro do Paço.» A reacção não se fez esperar e as «companhias móveis da polícia, os esquadrões de cavalaria da GNR e as brigadas da PIDE» lançaram-se sobre o povo para o fazer dispersar, ao mesmo tempo que tentavam prender os manifestantes que mais se destacavam. Mas do outro lado encontraram uma «enérgica resistência do povo, conduzida por grupos de operários e estudantes. Travou-se uma luta violenta que se prolongou por várias horas; o centro da cidade, onde todo o trânsito fora cortado pela polícia, foi teatro de autênticas batalhas de rua que se tornaram mais duras sobretudo na Madalena, no Carmo, no Rossio e Martim Moniz. Com a selvajaria habitual, as companhias da polícia e os esquadrões da Guarda espancavam indiscriminadamente homens, mulheres e crianças, lançavam granadas e jactos de água suja sobre a multidão que recuava para se reagrupar de novo, gritando a plenos pulmões “Morra Salazar! Abaixo o Fascismo! Assassinos!”». «Não se deixando intimidar com a violência da polícia e nem mesmo com as rajadas de metralhadora, os manifestantes ripostaram «com tudo o que podiam arrancar das ruas». «Os feridos não se contavam só do lado dos manifestantes, mas também das forças repressivas», assinala o Avante!, dando conta do prolongamento da manifestação pela noite dentro «com o maior vigor». Os confrontos com a polícia continuaram até perto da meia-noite. O jovem operário comunista Estêvão Giro foi assassinado por uma rajada de metralhadora». – in Jornal Avante, N.º 2006, de 10 de Maio de 2012.

 

(1) Fotografia de Estevão Giro da Fotobiografia de Álvaro Cunhal, pág 87.

(2) A Câmara Municipal de Alcochete confirmou-nos que, em Fevereiro de 1975, deliberou atribuir o topónimo “Estêvão Giro” a uma praceta da vila de Alcochete, mas não dispõe de qualquer registo biográfico, desconhecendo inclusive o ano de nascimento. – HP.

Biografia da autoria de Helena Pato

Fontes:

– «Efervescência Estudantil Estudantes, acção contenciosa e processo político no final do Estado Novo (1956-1974)». Guya Accornero, Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa, Sociologia Histórica. 2009.

http://www.avante.pt/pt/2006/emfoco/119958/

– Contacto com Câmara Municipal de Alcochete

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Notícia publicada no Diário de Lisboa de 2 de Maio de 1962

 

Assassinato Estevão Giro 1

Assassinato Estevão Giro 2

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