Um testemunho sobre o 1º de Maio de 1962 – “A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos!” Por Helena Pato

25deabril 2020

Seleção de Francisco Tavares

“A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos!”

Helena Pato Por Helena Pato, 23 de janeiro de 2020 (publicação original aqui)

 

H Pato Assassinos Assassinos

 

Seguíamos num Volkswagen – eu acompanhava-os, até ver. O Alfredo tinha recebido do chefe de redacção do República (Artur Inês) a incumbência de fazer a reportagem. Para a censura cortar, inevitavelmente, de alto a baixo, é claro. Ao seu lado, um amigo, um camarada que ia connosco por ser um dos organizadores. No banco de trás seguia eu, impaciente e receosa. Nas vésperas tinham sido lançados panfletos por toda a cidade, chamando o povo a comemorar o 1.º de Maio, a manifestar-se. Se a ditadura proibia toda e qualquer manifestação, o «1.º de Maio» era matéria subversiva, cuja referência pública, escrita ou falada, só por si podia valer prisão. Nos últimos meses, reuniões e mais reuniões na nossa casa, em Campo de Ourique – tudo muito discutido, muito preparado à porta fechada, mas nada passara por mim. Apenas sabia que algumas dezenas de brigadas clandestinas, furtivamente e durante noites e noites, iriam cobrir de propaganda a cidade de Lisboa e os arredores. Papéis, aos milhares, por todos os sítios: apelos à manifestação contra o regime e abundante informação acerca das greves que nos últimos meses despontavam, umas a seguir às outras, nas fábricas e empresas dos arredores de Lisboa. Chegámos à Praça do Comércio uns dez minutos antes das 6 da tarde. «1.º Maio de 1962»: uma data histórica que durante muitos anos teimou em sobrar-me, em ficar-me para trás, sempre que escrevi sobre a resistência ou sobre a repressão fascista. Talvez por ter sido a única vez que, em circunstâncias semelhantes, passei ao lado da morte. Depois desse dia, foram décadas a gritar: «A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos!» Não se tratava de um grito demagógico, eles eram realmente assassinos.

O nosso carro ia devagar. As ruas estavam praticamente desertas e, ao olharmos para as lojas e para os cafés, a calma e a aparente normalidade assustaram-nos. Estaríamos à beira de um fracasso? Seria aquele o resultado de tanto trabalho de organização, em tantos meses a fio? «Tem calma, Lena, ainda não são 6 horas!». Tanta reunião, tanta agitação, e um ambiente que parecia explosivo, no crescendo das greves, iria dar assim em nada? Seria que o povo não tinha coragem de assumir nas ruas o descontentamento que vinha manifestando à boca calada e que já revelara de forma tão convicta, tão expressiva, nas manifestações de 1961 e nas eleições do Delgado? Afinal onde estava esse povo? «Tem calma, Lena, ele vai aparecer!». O Povo amedrontara-se? Não se atrevia a enfrentar as forças policiais que os estudantes haviam já defrontado por mais de uma vez, durante esse mesmo ano? «Esta manifestação é política, amiga, não é associativa… hoje é mais complicado arriscar!», lembrava o camarada, detentor de uma experiência de luta que eu admirava. Algo me dizia que a tarde estava mais quieta do que o habitual à mesma hora. A Baixa parecia adormecida. Dava-me a impressão de que a acção prevista teria sido prematura ou as expectativas demasiado grandes, que o medo trancara os lisboetas em casa e que os empregados e os lojistas – comércio, moda, capelistas, pastelarias, cafés – estariam a abandonar os estabelecimentos, aos poucos, para fugirem da confusão. Mas por onde parariam os bancários, que tinham prometido uma boa adesão? Continuávamos ansiosos, a rodar, rua abaixo, rua acima, insistindo em repetir as voltas, devagarinho, varrendo metodicamente um espaço cruzado por artérias quase vazias. Emudecêramos. Somente meia dúzia de estudantes nossos conhecidos passou por nós. Que era feito do pessoal da outra banda? Então o Barreiro? A Cova da Piedade? Então os operários da Siderurgia? E os da Lisnave? «Espera e verás, camarada… Hão-de vir, virão em peso… Sabemos que vão estar em força». Qual quê! Algum comércio ia-se fechando ao nosso lado, e eu desanimada. Havia quem, à porta das lojas, se metesse para dentro e quem saísse para os passeios, todos a caminharem imperturbáveis, eles de chapéu na cabeça, elas de malinha no braço. Fugiriam da confusão? «São donos das lojas e caixeiros, já se sabia, Lena… Pouco se contava com eles…» Começámos por ver a guarda nacional republicana a cavalo, em grupos – três agora, quatro depois –, a avançarem pela Rua Augusta, vindos do Terreiro do Paço. Postura sobranceira, a exibir força. Quando se cruzaram connosco, o Alfredo apressou-se a colocar no vidro do automóvel, em posição de boa visibilidade, uma pequena cartolina branca com os dizeres IMPRENSA – JORNAL DIÁRIO, desenhados na véspera, omitindo tratar-se do República para não chamar a atenção. Não queria dar-lhes qualquer pretexto para detenção, pois referir o jornal República era falar de oposição ao regime. Percorríamos as ruas lentamente, circulando da Praça do Comércio até ao Rossio; aí dávamos a volta e regressávamos à Rua do Ouro, num movimento cada vez mais desesperançado. O silêncio vindo de fora tinha-nos contagiado. Às 6 em ponto foi como se houvesse uma explosão… – Olhem, olhem! Espantoso! Extraordinário! – Exclamei estupefacta. Era o milagre nesse Maio de luta contra o fascismo. Em poucos segundos a Baixa ficara repleta de gente. Pareciam nascidos do chão. Surgiam pessoas de todos os cantos e do interior das lojas. Bem-postos, sim, bem-postos, vinham em passo acelerado das ruas transversais. A Rua da Conceição, da Vitória, do Crucifixo, abarrotavam. Santa Justa em clamor. Muitos corriam em bandos, vindos dos lados do Tejo, outros desciam o Chiado aos magotes ou afluíam dos Restauradores. A Rua da Madalena, a dos Fanqueiros e todas as ruas que desembocavam na Praça da Figueira encheram-se, num ápice, de gente que se dirigia para o Rossio. Seis horas da tarde. Nessa altura, a multidão bradava uma palavra de ordem qualquer, não sei o quê, não me lembro. – Pára, Alfredo, vou sair! – Gritei, na Rua da Prata, a saltar do carro meio em andamento, sem levar carteira, nada, a não ser uma algibeira atulhada de pimenta.

Que me lembre, não havia carros de água nem bombas lacrimogéneas. A polícia era treinada para obedecer às ordens superiores e, desta vez, as ordens superiores estariam concentradas em duas frases: «Dêem cabo deles! Acabem-lhes com a raça!». Os polícias invadiram o Rossio e pareciam drogados, saindo como animais de camionetas, bruscamente estacionadas. Empunhando cassetetes, avançavam com olhares de ódio que nos perpassavam, como se espumassem de fúria. Não me esqueço de um deles, perto de mim, fardado, empunhando uma pistola. Lembro-me de que largaram em corrida para todas as direcções, ameaçando ser mais violentos do que nunca, piores do que em concentrações anteriores. Juntei-me à multidão. De repente, a repressão abateu-se com tal violência que desencadeou em nós um só grito: «A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos!» (E eram). Caíram sobre todos os que agarraram, malhando indiscriminadamente em homens e mulheres. Missão cumprida: homens novos e velhos caídos no chão, alguns cheios de sangue. Prisões aqui e ali. A pancada brutal assustou-me. Assustava-nos, mas não nos paralisava. Na face de muitos populares, a expressão era de raiva, mas também de medo. Havia gente lívida a escapar-se para dentro do Café Nicola e do Café Gelo. [Constou que a Pastelaria Suíça tinha fechado as portas de imediato para que a polícia não lhe destruísse o interior, mas também para não acolher ninguém]. Houve quem, a custo, conseguisse fugir para as margens da refrega e ficasse a descansar. Outros, por momentos, juntaram-se àqueles lisboetas que, desde o princípio, se tinham mantido encostados às montras, nas esquinas do Rossio e perto do Arco Bandeira – populares do reviralho, do fado e da ginjinha, solidários, mas, até Abril, pouco afoitos. Eu, ali parada ao lado do Teatro D. Maria, sem encontrar ninguém conhecido, quase em pânico, com as pernas a tremer; mas, revoltada com tudo o que via – numa ira crescente – procurava ganhar terreno e coragem para atirar com a pimenta aos cavalos que a GNR lançava sobre as pessoas. [Numa luta, suponho hoje, entre o ódio e o medo, e entre a coragem que os camaradas esperavam de mim e a cobardia que, momentaneamente, me impedia de agir]. Assustei-me com os animais a relinchar, patas ao alto, avançando sobre nós, enquanto clamávamos: «A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos!». Finalmente, a dois metros do local onde me encontrava, em poucos segundos, uns quantos cavalos tombaram. Estavam agora de joelhos, os agentes a procurarem levantá-los, e nós: «A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos!». Começou o tiroteio. A multidão resistia, sem se conseguir perceber donde vinham os tiros. De repente, dois amigos puxaram-me e corremos desenfreadamente em direcção à estação de comboios do Rossio. Depois subimos as Escadinhas do Duque e, a seguir, rua acima, numa subida cansada, violenta e dramática – os tiros sucediam-se nas nossas costas. Aquele som ainda nos perseguia quando nós, ofegantes, parámos junto ao Quartel do Carmo. Lembro-me de ter um ataque de choro. Raiva ou medo, não sei. «A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos!» é uma forte memória que guardo desse eco da resistência no coração da cidade.

– Há montes de feridos, prenderam muita gente… – gritava-me uma amiga, a dois passos de nós.

– Parece que mataram um gajo, um operário, um rapaz dos nossos… [Estêvão Giro] – disse eu, em pranto.

Ao princípio da noite sentei-me na Cervejaria Trindade com o Alfredo, uns amigos e a certeza de que, a partir dali, a efeméride que comemoraríamos com verdadeira emoção não voltaria a ser o 5 de Outubro. Aquele tinha sido um grande «1.º de Maio» de luta para muitos milhares de pessoas em todo o país, um passo importante no combate político contra a ditadura. Dos confrontos com a polícia de choque resultou a morte do tipógrafo Estêvão Giro, além de vários feridos.

Segundo posterior informação do PCP, foram distribuídas 300 mil tarjetas para a mobilização desta manifestação. No livro Rumo à Vitória, Álvaro Cunhal descreveu a manifestação do 1.º de Maio de 62 como «uma das maiores, se não a maior jornada de luta antifascista desde o advento da ditadura»

Em 1974 centenas de milhares de portugueses desfilaram no dia 1 de Maio, Dia do Trabalhador. Comemorava-se a liberdade, era dia de festa, mas poucos saberiam a história dos anteriores.

 

[A noite mais longa de todas as noites, Helena Pato. Ed. Colibri, Janeiro 2020. 3ª edição]

 

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A autora: Helena Pato foi presa em junho de 1967. Resistitu seis meses em regime de isolamento na cadeia de Caxias. Tinha 28 anos e já era viúva. Alfredo [Noales] morrera um mês depois de ser detido pela PIDE. O seu 25 de Abril [de 1974] chegou dois dias depois, quando o segundo marido, José Manuel Tengarrinha, saiu da prisão de Caxias. Foi professora do secundário e sabe que os mais novos querem conhecer a História. Foi esta uma das razões que a levaram a criar a página “Antifascistas da Resistência” no Facebook, que já tem 400 biografias e milhares de seguidores.

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