Enésimo plano fracassado para derrubar Maduro – “O contrato dos mercenários de Guaidó sobre o venezuelano Maduro reflete a recompensa oficial dos Estados Unidos, autoriza o assassinato por esquadrões da morte”. Por Alan MacLeod

Espuma dos dias Venezuela golpe GIDEON maio2020

Seleção e tradução de Francisco Tavares

Em 19 de abril passado, divulgámos aqui no blog a denúncia feita em 3 de abril por Caroline Popovic em Franceinfo sobre o envio de guerra norte-americanos para as Caraíbas – “o maior destacamento militar dos EUA para as Caraíbas desde a invasão do Panamá em 1989” – com o pretexto de apoiar a detenção do presidente Maduro acusado de tráfico de droga. Como diz Caroline Popovic, “ironicamente, é através da Guatemala que a maioria dos estupefacientes transita para os Estados Unidos” sendo a Venezuela “um pequeno operador no setor”. Este dado é confirmado por Alan MacLeod no seu artigo de 10 de maio (“O contrato dos mercenários de Guaidó sobre o venezuelano Maduro reflete a recompensa oficial dos Estados Unidos, autoriza o assassinato dos esquadrões da morte”, ver aqui), quando diz que “…o tráfico de droga está muito menos presente na Venezuela do que em Estados vizinhos alinhados com os EUA, como a Colômbia e o Equador, como reconhecem os relatórios oficiais dos EUA”.

A partir de 5 de maio começaram a chover inúmeros artigos sobre uma fracassada tentativa de golpe de Estado, com inúmeras e variadas versões sobre o sucedido.

Depois de repassarmos estas múltiplas notícias sobre a tentativa de golpe, concluímos que ele se produziu na madrugada de domingo 3 de maio, quando dois antigos membros das forças especiais dos Estados Unidos – Airan Berry e Luke Denman – foram detidos no mar, antes mesmo de porem os pés em solo venezuelano. Pensa-se que na operação morreram 8 pessoas e mais de 100 acabaram detidas.

Seguindo o relato de eldiario.es de 8 de maio, os dois norte-americanos detidos apareceram na televisão pública venezuelana e deram detalhes sobre o plano para assaltar o palácio do Presidente Maduro e enviá-lo para os Estados Unidos. Publicamente, o governo de Trump desmentiu qualquer envolvimento. Mas as evidências mostram, mais uma vez, o gato escondido com o rabo de fora.

Ou seja, enquanto na Venezuela, entre outras frentes, se luta contra o Covid-19, os Estados Unidos, através da sua marionete Guaidó dedicam-se a lançar tentativas de golpe de Estado contra o Presidente Maduro.

A seguir ao relato de Leonardo Flores, analista político, sobre esta atamancada incursão, divulgamos agora, pela escrita de Alan MacLeod, mais detalhes sobre a fracassada tentativa de golpe e sobre o contrato estabelecido entre Guaidó e os mercenários.

FT

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O contrato dos mercenários de Guaidó sobre o venezuelano Maduro reflete a recompensa oficial dos Estados Unidos, autoriza o assassinato por esquadrões da morte

Alan MacLeod Por Alan MacLeod

Publicado em 10 de maio por The Grayzone (ver aqui)

 

O contrato que entre Juan Guaidó e a empresa mercenária Silvercorp USA assemelha-se muito a uma recompensa atribuída pela DEA à cabeça do Presidente Nicolas Maduro e aos membros do seu círculo interno em Março deste ano. O acordo autoriza tacitamente a eliminação dos venezuelanos da classe trabalhadora nas actividades propostas dos esquadrões da morte.

 

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Juan Guaidó esperava estar agora no palácio presidencial da Venezuela. Mas a tentativa de invasão cómica de 3 de Maio por mercenários dos EUA e membros da oposição foi a última indicação das medidas desesperadas a que ele e os seus camaradas recorreram.

Os combatentes contratados sob o nome de Guaidó foram imediatamente dominados na adormecida aldeia costeira de Chuao por membros descontentes da Casa dos Pescadores Socialistas, e alguns dos mercenários altamente treinados pareceram molhar-se literalmente de terror quando foram detidos.

Agora, foi divulgado um contrato de 41 páginas que descreve os pormenores e as condições da tentativa de golpe. Ele lança uma nova luz sobre o acordo entre Guaidó e a Silvercorp, a empresa americana de segurança privada que ele contratou. O auto-declarado presidente interino da Venezuela prometeu pagar a Jordan Goudreau, fundador da empresa sediada na Florida, 212,9 milhões de dólares para capturar, deter ou “remover” o Presidente Nicolas Maduro e instalá-lo a ele no seu lugar.

O contrato entra em pormenores sobre quem os mercenários estavam autorizados a envolver-se em “ataques cinéticos” (ou seja, assassinar e matar). Nomeia em primeiro lugar uma série de organizações paramilitares como as FARC colombianas, e bizarramente, o Hezbollah. Mas também estão na lista várias das “forças ilegítimas venezuelanas”, que incluem quaisquer apoiantes armados de Maduro e do Presidente da Assembleia Constituinte, Diosdado Cabello.

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Acontece que Maduro e Cabello são as figuras colocadas no topo de uma lista de alvos da US Drug Enforcement Administration. O Governo dos EUA ofereceu 15 e 10 milhões de dólares, respectivamente, pela sua captura, efectivamente pondo a prémio as cabeças do presidente eleito e do principal membro do principal órgão legislativo do seu país.

O contrato assinado por Guaidó e a Silvercorp também permite o assassinato de qualquer pessoa que eles considerem “colectivos armados e violentos”. Para um setor da oposição de classe alta da Venezuela, o termo “colectivo” é um termo desumanizador e frequentemente utilizado para designar qualquer pessoa da classe trabalhadora.

Os sindicalistas, os manifestantes pró-governamentais, mesmo quem ande de motocicleta, são presumivelmente parte de um bando armado e perigoso, nas fantasias lúbricas dos elitistas de pele clara de Caracas Oriental. Por conseguinte, o contrato permite essencialmente à Silvercorp matar impunemente qualquer membro da base de apoio popular do governo.

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Um novo esquadrão da morte

No entanto, mais preocupante ainda é aquilo que a Silvercorp previa ser o seu papel após um golpe de Estado bem sucedido.

O contrato estipula que a organização mercenária “se converteria numa Unidade Nacional de Ativos que actuaria sob a direcção da Administração [Guaidó] para combater as ameaças à estabilidade do governo, as ameaças terroristas e trabalhar em estreita colaboração” com outras forças de segurança.

As suas missões incluiriam, entre outras, a vigilância, operações encobertas e programação de alvos.

Por outras palavras, a Silvercorp transformar-se-ia num esquadrão paramilitar privado responsável apenas perante Guaidó, esmagando qualquer oposição à sua ditadura, de forma muito semelhante aos esquadrões da morte na Colômbia e noutros países da América Latina que operam há décadas.

A ligação dos EUA

O Secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo anunciou recentemente que os seus planos para “restaurar a democracia” no país estavam a “ganhar impulso” e previu que, muito em breve, iríamos assistir a uma mudança de governo.

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Outros planificadores de mudança de regime, como John Bolton, passaram o fim-de-semana a tweetar de forma não tão críptica de que um golpe estava prestes a acontecer.

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A recompensa do DEA por Maduro e Cabello está estreitamente alinhada com o contrato Guaidó-Silvercorp, incluindo a obsessão de matar ou capturar especificamente esses dois indivíduos, e a retórica incessante sobre os traficantes de droga. (Na realidade, o tráfico de droga está muito menos presente na Venezuela do que em Estados vizinhos alinhados com os EUA, como a Colômbia e o Equador, como reconhecem os relatórios oficiais dos EUA).

Nos dias que antecederam a atamancada invasão da Silvercorp, Trump ordenou à Marinha que se deslocasse e navegasse para a Venezuela, supostamente para contrariar um quase inexistente fluxo de drogas.

O contrato estipula também especificamente que o comandante da operação pode utilizar drones AC-130 e Predator. Estas plataformas de armamento são utilizadas quase exclusivamente pelos militares americanos, o que levanta ainda mais questões. Será que se limitaram a copiar alguns documentos americanos existentes ou estavam à espera de reforços?

Na sequência do fracasso, Pompeo emitiu uma negação extremamente tímida, alegando apenas que “não houve qualquer envolvimento direto do Governo dos EUA” na operação falhada. O Secretário de Estado confirmou que estava ciente de quem a financiava, prometendo “desembalar” essa informação mais tarde.

A honra entre os ladrões

Uma análise do documento sugere uma sensação de que Goudreau via Guaidó como um pássaro tonto pronto para ser desplumado. Apesar de cobrar quase um quarto de milhão de dólares por um eventual dia de trabalho, a Silvercorp também inseriu uma miríade de cláusulas e aumentos onerosos, incluindo um bónus de 10 milhões de dólares por uma missão bem sucedida. Os mercenários acrescentaram juros sobre os pagamentos e uma taxa administrativa de 10% (portanto, mais de 20 milhões de dólares) sobre todas as transacções.

No entanto, parece que os mercenários americanos acabaram por ser os otários, pois Goudreau admitiu que Guaidó não lhe transferiu nem um cêntimo, nem sequer a taxa de retenção, desde Outubro. “Eles continuaram a prometer pagar, semana após semana”, disse Goudreau a uma estação de televisão de língua espanhola.

Guaidó é famigerado por não ser digno de confiança com o dinheiro e tem sido amplamente acusado de desviar dezenas de milhões de fundos de ajuda norte-americanos. Porquê avançar com uma missão tão perigosa? Talvez tenha ficado cego com a perspectiva de um dia de pagamento massivo, recolhendo quantias tanto do DEA como da equipa de Guaidó.

Ao mesmo tempo que cobrava centenas de milhões de dólares, Goudreau também estava a enganar os seus próprios funcionários, prometendo pagar aos mercenários americanos agora detidos apenas entre 50 000 e 100 000 dólares para arriscarem as suas vidas pela operação, tudo isto enquanto permanecia na sua casa na Florida. Continua a não ser claro quem foi o maior idiota da operação: Guaidó, Goudreau, ou os seus ingénuos cúmplices.

Negação oficial

Numa entrevista à CNN, o consultor político latino-americano de direita J.J. Rendon, com sede em Miami, confirmou que o contrato era genuíno.

Por seu lado, Guaidó insiste agora que todo o projecto era uma operação de bandeira falsa do governo. “Ninguém acredita nas suas mentiras”, disse ele a Maduro através do Twitter.

No entanto, a moeda política de Guaidó continua em declínio. Uma sondagem realizada em Janeiro por uma empresa anti-Maduro revelou que a sua taxa de aprovação tinha baixado cerca de 20 pontos desde Abril de 2019. Dias mais tarde, Guaidó recusou-se a renunciar ao seu papel de liderança após o fim do seu ano de mandato, encenando uma manobra publicitária embaraçosa e muito ridícula em que tentou e não conseguiu subir a cerca que rodeava o edifício da Assembleia Nacional.

Mais tarde, Guaidó “demitiu-se” do seu próprio partido, optando por saltar antes de ser empurrado. No meio do seu embaraço nacional, deixou o país para ser um convidado de honra no discurso do Estado da União de Trump, em Fevereiro, onde recebeu uma ovação bipartidária de pé.

Enquanto Guaidó viaja pelo mundo fazendo pressão para que sejam aplicadas sanções e supervisionando golpes e operações terroristas no seu país, numa tentativa de alcançar o poder por meios decididamente antidemocráticos, ainda não foi detido pelo Governo da Venezuela.

Mas, como mostrou o seu último e embaraçoso fracasso, uma das armas mais potentes contra a oposição poderão ser os actos bufões que Guaidó comete rotineiramente como homem livre.

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O autor: Alan MacLeod é um académico e jornalista. É redator da Mintpress News e colaborador da Fairness and Accuracy in Reporting (FAIR). Ele é o autor de “Bad News from Venezuela: Twenty years of fake news and misreporting”. É membro do Grupo de Media da Universidade de Glasgow. O seu último livro, Propaganda in the Information Age: Still Manufacturing Consent, foi publicado pela Routledge em maio de 2019. Siga-o no Twitter: @AlanRMacLeod.

 

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