CARTA DE BRAGA – “de intelectuais e moscas” por António Oliveira

 

Num dos seus últimos artigos, Boaventura Sousa Santos afirmou ‘O deus, o vírus e os mercados são as formulações do último reino, o mais invisível e imprevisível, o reino da gloria celestial ou da perdição infernal. Só ascendem a ele os que se salvam, os mais fortes (os mais santos, os mais jovens, os mais ricos). Abaixo desse reino está o reino das causas. É o reino das mediações entre o humano e o não humano’.

As possíveis especulações sobre esta afirmação do sociólogo português, dariam para mais de uma tese, pois nada do que ali está expresso é de fácil entendimento, ou de indiscutíveis conclusões.

Mas BVS ainda acrescenta um outro e nada fácil pormenor, ‘Os intelectuais devem aceitar-se como intelectuais de retaguarda, estar atentos às necessidades e aspirações dos cidadãos comuns e saber partir delas para teorizar. Doutro modo, os cidadãos estarão indefesos perante os únicos que sabem falar a sua linguagem e entender as suas inquietações’.

Há muito que o papel dos intelectuais no mundo de hoje (tão avesso a intelectos pela velocidade das respostas, mas não de certezas) tem vindo a ser analisado e discutido pois, também não é fácil isolá-los das ‘instituições’ onde (ou para quem) trabalham.

Enzo Traverso, catedrático da filosofia da Historia em Cornell, ‘retiraria esse atributo a quem se diz, só para servir os poderes estabelecidos’, pois o sociólogo, o economista, o pensador que trabalha para a fundação de um banco, ou para um partido, sujeita-se a que, quem o mande pensar, nem sequer ser intelectual.

E Traverso explica depois ‘Em França são chamados «intelectuel ambiance» por analogia com a música ambiente, como a música das lojas dos centros comerciais. E há ainda os intelectuais que só servem o próprio ego, o que corresponde ao modelo neoliberal. Acreditam que o indivíduo é o centro do universo e isso, é ser intelectual!’

São os mesmos que antes eram os profetas do comércio livre, de derrubar fronteiras, de abater os ‘caríssimos’ sistemas da saúde, educação e reformas, como a melhor forma de criar o ‘Estado mínimo’ e, agora, aparecem a pedir o resgate das empresas privadas, à custa do erário público.

E mais uma vez recorro a Pepe Mujica, o ex-presidente do Uruguai que, no final de Março afirmou ‘agora que as coisas fervem, todos se lembram do Estado. O Estado tem de tomar medidas, mas quando tenho de ganhar dinheiro só para mim, o Estado que não se meta, por favor!

Mais uma das consequências desta crise ‘covidiana’, até pela quantidade de ‘servidores do Estado’ que vemos a crescer no mundo inteiro, entusiasmados por poderem encher o vazio com passados gloriosos, sem terem qualquer o mínimo conhecimento da História.

É um, talvez o maior, dos prejuízos causados pelo desinvestimento material e humano na Educação, por substituir tudo pela electrónica informatizada, pois ‘com a facilidade da exibição electrónica, grande parte da leitura e da música passa a ser algo puramente exterior e o texto ou a obra de arte correm o perigo de perderem a massa crítica, o poder implosivo nas câmaras de eco do indivíduo singular’, garantiu Steiner numa das suas últimas entrevistas.

É óbvio que as grandes massas estão no campo oposto ao da intelectualidade. Falar-lhes ou tweetar-lhes directamente, recorrendo a textos curtos e marteladores, apelativos pelas promessas e invocações de medos e sonhos, é o sistema usado pelos líderes popularmente bem-sucedidos, unicamente para lhes alimentar a parte emocional.

Basta pensar nos remédios sugeridos pelos dr. trump e dr. bolzo, para este ‘corona’ e logo percebemos como poderá ficar o mundo se estas avantesmas se mantiverem no poder.

Lembra mais uma das estórias de Grouxo Marx, aconselhando uma senhora hipocondríaca, a agitar os braços continuamente e, ‘Vou curar-me com isso?’ pergunta a senhora, espantada, ‘Não, mas também não vai ficar nem uma mosca’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

 

One comment

  1. Maria de sa

    Abençoada ironia . Obrigada PROFESSOR pelo que ironicamente comunica . Muito tenho aprendido . Maria

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