A GALIZA COMO TAREFA – parálise – Ernesto V. Souza

Estamos em 2020. Não chegamos nem ao solstício de verão e já sabemos que é um ano histórico. Provavelmente as consequências económicas, políticas, sociais e estruturais do acontecido neste ano e o impacto da crise múltipla derivada, marcarão, estão já a marcar, o percorrido dos anos a seguir.

Francisco Franco Bahamonde, general galego e ditador espanhol, morreu em novembro de 1975. De 1936 a 1977 decorreram quarenta anos. Tantos como os que se sucederam de 1980 a hoje. Sem dúvida as décadas que vão de 1933 a 1950 foram brutais para boa parte da sociedade espanhola que entrava na modernidade e que queria esquecer décadas e séculos anteriores de erros. As cicatrizes são tamanhas e evidenciam feridas profundas.

Mas não é menos verdade que o mundo correu muito nestas últimas quatro décadas e que as brutalidades e chacinas mais selvagens foram acontecendo fora do território peninsular. E essas últimas décadas, talvez de jeito menos escandaloso, foram também anos de mudanças estruturais, radicais e profundas na sociedade galega, na espanhola e na europeia.

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Detalhe retábulo Igreja da Santa Cruz, Valência (Espanha)

O franquismo e os lustros de ditadura, doeram, mas passou; levou por diante, entre assassinados, mortos na fronte, reeducados e exilados, uma geração luminosa e um tempo mundial de esperança. Arrastada a sociedade espanhola na dinâmica e jogos do imperialismo e por causa imediata das loucuras do fascismo, o seu filho rebelde, mimado, ferramenta e malcriado, para martelo contra o comunismo.

Visto com um pouco de objetividade, a respeito do projeto de construção do estado nação espanhol e das dinâmicas de configuração de elites, articulação económica e territorial profunda, na realidade,  pesam menos que as fases da Restauração, (ou restaurações monárquicas e bourbónicas) de Fernando VII a Afonso XII e provavelmente menos ainda que a própria Transição espanhola atual (mais outra restauração monárquica e bourbónica). E, por descontado, pesam bem menos na sociedade galega que o quase milénio medieval, os séculos romanos, os séculos intermédios do Antigo regime e as profundas eras antigas e pré-históricas.

Acho que passou tempo avondo como para ir abrindo as janelas e tomarmos perspetiva. Não podemos continuar acreditando nem na simbologia da permanência, nem nas teses do impacto profundo, nessa alegoria teleológica da história que a propaganda desenhou como marca dos fascismos.

Não podemos permitir os fascismos se converterem em elementos estruturais ou permanentes. Não podem continuar dividindo, marcando, definindo a história, tal e como pretenderam. O genocídio civil e os anos do franquismo são um momento, numa capa mais numa história longa e repleta de massacres, dominações, levantamentos e repressões. Afinal o franquismo é um longo estado de exceção e é preciso procurar para entender o presente em fontes imediatas mais limpas e menos agitadas como a Restauração absolutista, centralista com o seu catolicismo conservador e ultra e como a tradição liberal republicana, com os seus pousos de reforma, laicismo e debates arredor do federalismo e iberismo.

Talvez por isso, o franquismo tem de ser considerado, um elemento mais, parcialmente constitutivo, que deve ser analisado e incorporado no devir do tempo galaico; um capítulo, ou uma imagem, por integrar funcionalmente, na perspetiva daquele “Diorama dramático”* da Galiza do que falava o sempre audaz Benito Vicetto.

O trauma do franquismo foi e é forte nas bases da sociedade que configurou a atual, mas nem ele, nem o anti-franquismo resultante, podem continuar centralizando a historiografia, o debate e a política, e também não monopolizando e paralisando a construção da nação, da política e da identidade galega.

 

* em El Lago de la Limia, Crunha, Imp. Castor Miguez, 1861 (p. [5]-20). Texto completo em Galiciana.

 

 

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