A mercantilização das Universidades e da Investigação: o caso da grande indústria farmacêutica em período de Covid-19 – 4. Um infectologista marroquino passa a pente fino o estudo de The Lancet que critica a cloroquina. Por Kamal Louadj

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Seleçção e tradução de Francisco Tavares

4. Um infectologista marroquino passa a pente fino o estudo de The Lancet que critica a cloroquina

Kamal Louadj Por Kamal Louadj

Publicado por Sputnik em 26/05/2020 (ver aqui)

Republicado por Resisitir (ver aqui)

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Um especialista em doenças infecciosas marroquino revelou cinco limites do ponto de vista metodológico e epistemológico do estudo publicado por The Lancet sobre a eficácia da cloroquina, pondo em causa as suas conclusões, segundo Médias24. Ele apresentou os resultados obtidos por ele próprio com este protocolo.

 

O epidemiologista e infectologista marroquino, Prof. Jaâfar Heikel, diretor-geral de uma clínica privada que no quadro de um trabalho voluntário cuida dos doentes atingidos pelo Covid-19 em Casablanca, reagiu ao estudo publicado por The Lancet sobre a eficácia do protocolo baseado na hidroxicloroquina e na azitromicina. O estudo que integrou os dados de registos informatizados de 96 mil doentes no mundo concluiu pela ineficácia deste protocolo além de efeitos indesejáveis, nomeadamente arritmia cardíaca. Numa declaração ao sítio Médias 24, o Prof. Heikel mostrou os limites deste estudo e, em consequência, pôs em causa o seu valor científico.

Países onde a hidroxicloroquina é recomendada

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Legenda: Vermelho: países onde se recomenda o uso de hidroxicloroquina/cloroquina; Azul: Uso profilático de hidroxicloroquina.
Fonte: Méditerranée Infection, https://www.mediterranee-infection.com/coronavirus-pays-ou-lhydroxychloroquine-est-recommandee/

 

“Atenção, é preciso compreender que este não é um estudo clínico, mas sim uma análise de registos [informatizados] de dados de diferentes hospitais e países. É evidentemente uma publicação importante que é preciso considerar pelo que ela vale, nem mais nem menos”, indicou. Acrescentou que “se tiver lido com atenção, não se trata de um estudo ou de ensaio clínico mas sim da análise estatística de dados de registos [informatizados]”.

No mesmo sentido, o especialista afirmou que “é preciso aguardar a publicação da grande série mundial, aquela de Raoult e das outras equipes de diferentes países, baseadas verdadeiramente na investigação clínica e terapêutica e não na análise de dados de dossiers informatizados”.

 

Os problemas da metodologia seguida

Para sustentar sua análise, o Prof. Jaâfar Heikel citou cinco limitações, segundo ele reconhecidos mesmo pelos redatores do estudo publicado por The Lancet.

A primeira é o facto de que “eles não podem associar a mortalidade ao tratamento pois não têm outras informações sobre as morbilidades cardiovasculares ou certos fatores de risco”. E explica que “com efeito, quando certas características clínicas não estavam informatizadas [mas relatadas] nos registos [manuais], os autores consideraram que elas estavam ausentes nos pacientes!”. “Isto é uma hipótese que de facto enviesa numa certa medida a análise prognóstico”, sublinhou.

A segunda: segundo o professor, os redatores do estudo também não “mediram o segmento QT [segmento representando a despolarização miocárdica sobre o traçado do electrocardiograma (ECG), NR].

A terceira: além disso, o Prof. Heikel recordou que os pacientes retidos no estudo “são de continentes diferentes e com estirpes virais diferentes (várias variantes existentes de virulência provavelmente diferente – e na África isto é ainda mais verdadeiro)”

As duas últimas limitações avançadas pelo especialista são “as posologias e as durações de tratamentos diferentes” e o facto de que “vários autores, inclusive o principal, reconhecem serem pagos ou receber uma remuneração ou fundos de laboratórios ou outras empresas”.

 

Os resultados obtidos em Marrocos

Partindo do princípio de que qualquer estudo estatístico tem necessidade do ponto de vista metodológico e epistemológico de ser verificado por factos e ensaios clínicos com dados de protocolos idênticos (fase da doença, posologia e duração do tratamento apropriado), Jaâfar Heikel explicou que “isto significaria dizer que os milhões de pessoas [atingidas pelo] Covid-19 que tomaram a hidroxicloroquina curaram-se espontaneamente ou por outra razão”.

Assim, em conclusão, o Prof. Heikel declarou que “honestamente, não posso falar senão da minha experiência com 3200 pacientes na região de Casablanca em coordenação com a direção regional da Saúde”. “Nós temos 94,3% de cura, 5,7% de casos graves dos quais 2,8% com letalidade. Além disso, [registámos] 0,8% de efeitos indesejáveis sérios e 12% de efeitos indesejáveis menores”, precisou. “Isto são factos, ainda que evidentemente os nossos pacientes sejam em média mais jovens (45 anos) e que tratamos todos os casos positivos que foram despistados, mesmo assintomáticos”, concluiu.

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O autor: Kamal Louadj é jornalista de Sputnik News desde 2017, especialista em geopolítica, economia e questões de desenvolvimento. Engenheiro de Estado em Física, Engenharia Nuclear, pela Universidade Ferhat Abbas em Sétif (Marrocos) e tem o diploma de Estudos Aprofundados em Física e Tecnologia de Reatores Nucleares pelo Instituto Nacional de Ciências e Técnicas Nucleares de Paris. Foi engenheiro investigador no Centre de Recherche Nucléaire de Birine (Argélia).

 

 

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