CARTA DE BRAGA – “saúde planetária” por António Oliveira

A maioria das considerações desta Carta, têm por base um dossier com o mesmo título, saído na revista ‘Philosophie’ de Junho, em que participaram especialistas de respeitados institutos e universidades, para propor algumas formas distintas de aproximação, às questões levantadas por esta pandemia.

E o título também é o nome de uma nova corrente de pensamento, que a revista convida a descobrir, tanto mais que os milhões envolvidos, tanto pelo números de pessoas, como nos de desemprego, face ao crescimento energético e um possível recrescimento industrial, revelam uma enorme dificuldade para as organizações governamentais, políticas e sociais.

E não são só de agora, talvez se tenham postergado por interesses e políticas distintas.

Já se sabia em 2015, que a poluição (85% vinda da emissão de gaz carbónico e 15% da difusão de produtos químicos tóxicos) era causadora de 9 milhões de mortes prematuras por ano, qualquer coisa como 16% das verificadas no mundo, três vezes mais do que a sida, a tuberculose e o paludismo juntos’.

Quem o afirma é Andrew Hines, especialista em epidemiologia e director de ‘The Lancet’ a revista referência para toda a pesquisa em medicina.

Mas Hines é ainda mais ‘pesado’ ao garantir ‘Daqui até 2100, o enfraquecimento dos ecossistemas terrestres, corre o risco de anular todos os progressos da medicina moderna e o nosso bem-estar ficará afectado’.

E a explicação vem logo a seguir ‘Se, por exemplo, a poluição atmosférica agravar o aquecimento climático, irá acelerar a deflorestação e reduzir a biodiversidade, por serem interdependentes. Se todos os limites forem ultrapassados, não haverá mais condições para a vida humana no nosso planeta’.

Reforça todo o pensamento de Hines, o cientista Kris Murray, do Imperial Colege de Londres especialista em pandemias numa óptica planetária, ‘Crê-se que quando uma zona é forte em biodiversidade, os vírus têm sempre uma espécie de escolha para o seu transporte e o sistema se auto-regula. Num contexto de extinção massiva, os vírus têm menos transportes e os humanos estão por todo o planeta’.

Mas em jogo está também uma enorme quantidade de factores, entre os quais a maneira como o ocidente e o oriente encaram o problema, mais a complicação daí decorrente, aliás matéria de debates em todos os círculos de estudo e análise, sobre os efeitos da actual pandemia.

Os parágrafos a seguir são um apanhado resumidíssimo, da entrevista ao antropólogo Frédéric Keck, apresentado pela ‘Philosophie’, como autor de um livro quase profético sobre a actual pandemia, ‘Les sentinelles des pendémies’.

No ocidente, uma maneira de pensar demasiado cartesiana, fazemos modelos dos problemas, dissolvemos neles a noção de perigo, mais a matemática de risco. Assumimos a probabilidade de risco e eventualmente protegemo-nos contra ele.

No oriente o mundo é impermanente, em metamorfose perpétua e, assim, devemos escutar os sinais que nos envia e transformarmo-nos ao mesmo tempo. A natureza não nos é estranha e está sempre a pedir-nos mudança.

Isto quer dizer que o mundo anglo-americano defende uma política informada pela ciência e o mudo asiático encara a saúde como sendo planetária, que a supõe ser considerada como um ‘bem comum’, exactamente como a atmosfera e o clima.

Entretanto a rivalidade entre as potências é tão grande que poderá haver uma leitura subadjacente a esta pandemia, mas também das crises ecológica e climática que já aí estão, como sendo ocasiões inesperadas para o enfraquecimento das democracias ocidentais, favorecendo um qualquer modelo não democrático, para melhor comandar as variáveis eco sistémicas, impondo medidas drásticas.

E ‘Isto é um salto no desconhecido!’ a expressão que nos deixa a pensar, para finalizar o dossier sobre ‘saúde planetária’.

Mas não podemos perder a esperança e, para tanto. basta evocar Blaise Pascal, o matemático francês e um dos fundadores da teoria das probabilidades, ao comparar o homem a uma cana, talvez o caule mais frágil da natureza, mas ao mesmo tempo, muito superior ‘até por saber que tem de morrer, que é a vantagem que tem sobre o universo. O universo não sabe de nada!

Mas as coisas mudam com muita rapidez’, diz José António Marina e, por isso ‘necessitamos ferramentas intelectuais para as manejar. A simples experiência não ensina nada. Faz falta um decidido e esforçado desejo de aprender, para se aprender alguma coisa’.

Sem isso estaremos como a Alice, no País das Maravilhas, a conversar com o gato de Cheshire.

– Pode dizer-me o caminho para sair daqui? pergunta Alice

– Isso depende do sítio para onde queres ir.

– O sítio não me importa muito… diz Alice.

– Então também não te importa muito o caminho que seguires! responde o gato.

Espero que tudo o que passamos agora, sirva de aprendizagem para o homem! Há que agir rápido, dar mais corda aos sapatos, pois a mudança de clima já está aí e a esta pandemia outras se seguirão, por muito que os boçalnaros americanos (o de cima e o de baixo!)  e outros, o queiram desmentir.

Ámen!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 
  

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