RUMINAÇÕES SENTADO SOBRE O VULCÃO (A MINHA VERSÃO). Por Gonzalo Raffo de Lavalle

Espuma dos dias Ruminações Vulcão

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Publicado por Gonzallo Rafo em 18/06/2020 (ver aqui)

 

A bolha económica global rebentou em 2008.

As cadeias de pagamento globais foram quebradas.

Todos os bancos universais foram à falência.

Sim, todos eles.

JP, BOFA, IITC, GOLDMAN, SG, Santander, Deutsche, e al.

Também muitas indústrias, tais como fabricantes de automóveis, como a General Motors, entre outras.

Fannie Mae e Freddy Mac. Todo o sector da construção está disfuncional, falido.

E enormes seguradoras, como a AIG, entre muitas outras mais   “mortas” nesta cadeia .

O sistema ficou disfuncional.

Mas não foram feitos quaisquer ajustamentos.

Preferiu-se manter a festa em andamento.

E a orquestra continuou e continuou a tocar.

Hoje chamam-lhes “zombies”.

Porque  são os mortos vivos da economia e da finança .

Muitas empresas e bancos, e mesmo economias, como a economia global, por exemplo, permaneceram nesse estado, enquanto o Fed e todos os bancos centrais do mundo com ele, a partir desse momento iniciaram o trabalho de “ressuscitar” os “mortos”. E mantê-los “ressuscitados”.

Pelo menos, aparentemente.

Para evitar o pânico a todo o custo.

E assim, manter o aspeto de normalidade. Que tudo continuava a andar normalmente, como sempre, enquanto os Estados emitiam e emitiam papel-moeda suficiente sem garantias, para manter a liquidez do sistema e dos mecanismos económicos e de emprego a funcionar, contraindo empréstimos para além de todas as possibilidades, manipulando os mercados, fazendo com que as taxas de juro fossem zero ou negativas, “empurrando” os investidores para os mercados bolsistas, despojando aforradores e reformados, para manter a ficção e evitar o enorme desemprego e caos social, que essa grande depressão ou esse grande ajustamento trariam nessa altura. E, com ela, a perda do poder.

Após dezenas de milhões de milhões de dólares emitidos nos últimos dez anos, os preços dos títulos e de muitos outros ativos financeiros e imobiliários estão, uma vez mais, claramente sobrevalorizados.

Acima de tudo, naturalmente, em comparação com os mínimos da correcção 2008/2009.

Entretanto, desde essa altura, só a dívida dos EUA aumentou de 7,2 milhões de milhões de dólares com um PIB de 14 milhões de milhões de dólares em 2008, para 21 milhões de milhões de dólares com um PIB de 20,5 milhões de milhões de dólares em 2019, para dar apenas um exemplo.

Por outras palavras, a dívida triplicou. E o crescimento do valor económico só aumentou 50% no mesmo período.

As dívidas dos indivíduos, empresas e países, acumularam-se até limites insustentáveis.

O dinheiro está a aumentar nos bolsos dos 1% e nos balanços das empresas, estas últimas por falta de procura para motivar novos investimentos, e os primeiros devido ao risco crescente de estar a investir em mercados altamente voláteis com rendimentos inaceitáveis.

E as diferenças sociais tornaram-se abissais.

A desordem social vai crescer e as tensões só vão aumentar.

Atualmente, a maioria dos investidores são mais “ricos” do que eram em 2008 em termos de valores financeiros.

Mas será que isto é mesmo verdade para todos eles?

Numa economia global disfuncional e em franca degradação, onde a aparência de bem-estar é mantida apenas pelos preços dos títulos nos mercados financeiros e dos ativos, embora estes possam não refletir efetivamente o valor real, o valor económico do bem, no nosso balanço de investimentos.

A iniquidade tornou-se evidente.

A trajetória do crescimento global sincronizado chegou ao fim.

Sem mais endividamento, o consumo acabou.

A procura global atingiu os seus limites e está a começar a contrair-se.

A China e os EUA entraram numa guerra comercial que está apenas a começar.

E para completar, o Covid-19 chega para agravar a situação económica e social, bem como a situação sanitária do mundo.

E assim, veio também para fortuitamente roubar aos políticos e aos banqueiros o mérito e a responsabilidade do tremendo colapso económico global, que também se seguiria.

E agora estamos aqui. Diante dessa maior bolha na história da humanidade e ninguém pode prever o caos que iremos enfrentar. Alguns de nós nem parecem estar cientes de que estamos  aqui.

Outros acreditam que o FED nos salvará a todos.

Poderá voltar a fazê-lo?

O grande analista do Financial Times de Londres, Martin Wolf, escreveu num dos seus últimos artigos, hoje ninguém pode saber ou prever como é que tudo isto vai acabar.

Estamos na terra de ninguém.

Isso foi antes da chegada do Covid-19.

A economia não pode ser manipulada indefinidamente sem criar ineficiências e consequências imprevistas e desastrosas.

Por outras palavras, para resumir, não há almoços gratuitos.

Este cenário é o vulcão em que estamos sentados.

Como disse Oscar Wilde, um cínico é aquele que conhece o preço de todas as coisas, mas o valor de nada.

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O autor: Gonzalo Raffo de Lavalle é consultor externo e assessor de investimentos financeiros na Societe Generale Private Banking (Suisse) S.A. Licenciado em administração de empresas pela Universidade del Pacifico (Perú) e MBA pela Kellog Graduate School of Management, Northwestern University (Illinois). Autor do site Gonzalo Raffo Infonews.

 

 

 

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