Tentando dinamizar a actividade cultural em tempos de pandemia e de confinamento, a Editora Colibri programou uma série de antologias temáticas integradas precisamente na colecção “Antologias de Memórias & Narrativas”. Destas antologias, cuja intenção editorial pretende envolver sobretudo os “autores da editora”, acabam de sair: Antologia do Conto Alentejano, coord. de Fernando Mão de Ferro; Antologia – O 25 de Abril de 1974. Testemunhos da Luta pela Democracia e pela Liberdade, coord. de Carlos de Almada Contreiras e Fernando Mão de Ferro; Antologia de Contos Originais, coord. de João de Mancelos; e Antologia de Contos do Algarve, coord. de Fernando Mão de Ferro e Nuno Campos Inácio. A estas acresce ainda a Antologia de Crónicas da Vida no Mar, com coordenação de Carlos de Almada Contreiras e João Freire, de próxima publicação.
A Antologia de Contos Originais, organizada, como se disse, por João de Mancelos, reúne 33 contos de autores na sua quase totalidade com experiência literária pouco visível, o que significa que a metodologia aqui aplicada coincidiu com o «espírito de abertura a novos valores», no dizer do próprio coordenador, que acrescenta: «O título […] foi proposto pelo editor […] e envolveu-me de imediato pela sua polissemia. Assim, “originais” tanto pode significar “inéditos”, ou seja, “não publicados”, como “singulares”, isto é, “histórias diferentes”. Faz todo o sentido, pois a maioria dos colaboradores desta colectânea ou é estreante ou não possui ainda uma obra vasta no campo da narrativa» (p. X).
Louve-se, portanto, a organização desta antologia, pensada com o propósito de conceder espaço a novas vozes no âmbito da narrativa breve, vozes que, no cômputo geral, exibem, porém, um percurso mais ou menos persistente noutras áreas literárias, com prevalência para o ensaio e a poesia. E acentue-se o carácter intencional destes escritos, em grande parte incidindo sobre o tempo de pandemia/peste, com as ramificações que o vírus misterioso criou no corpo e no espírito da colectividade. A colectânea contém até algumas vozes já conhecidas e afirmadas na literatura portuguesa contemporânea, entre as quais saliento Teresa Martins Marques (ensaísta mas também autora de um romance e de quatro livros de contos), João Rasteiro, Jorge Tinoco, Paula De Lemos ou o próprio João de Mancelos, por exemplo.
Ao contrário do que sucede noutras geografias literárias, a narrativa breve não é um género privilegiado em Portugal, onde, como se sabe, prevalece o romance (antes de 1974 era a poesia). O conto, todavia, não é um género menor, e pressupõe uma técnica e uma fluidez de escrita que tem muito a ver com a capacidade de síntese, o que o aproxima do texto poético. Esta excelente iniciativa vem potenciar, por isso mesmo, o florescimento deste género nas culturas de língua portuguesa.