Eleições presidenciais em Novembro: aprofundamento da queda dos EUA ? Texto 1 – Está a chegar uma onda de falências. Por Mary Williams Walsh

Espuma dos dias Eleiçoes EUA 2020

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Está a chegar uma onda de falências

Mary Williams Walsh Por Mary Williams Walsh

Publicado por The New York Times em 18/06/2020 (ver aqui)

Republicado por GonzaloRaffo logo  (ver aqui)

 

Eleições presidenciais em Novembro 1 Mary Walsh Está a chegar uma onda de falências 1

Os especialistas preveem tantos processosde falência nos próximos meses que os tribunais poderiam ter dificuldade em poder salvar os negócios que vale a pena salvar.

 

Há já empresas grandes e pequenas que estão a sucumbir aos efeitos do coronavírus. Estas incluem nomes conhecidos como Hertz e J. Crew e empresas de energia comparativamente anónimas como Diamond Offshore Perfuração e Whiting Petroleum.

E a onda de falências vai ficar maior.

Edward I. Altman, o criador da pontuação Z, um método amplamente utilizado para prever falências em empresas, estimou que este ano estabelecer-se-á facilmente um recorde para as chamadas mega falências — pedidos por empresas com US$ 1 milhar de milhões ou mais em dívidas. E espera que o número de meras grandes falências – pelo menos US$ 100 milhões – desafie o recorde estabelecido no ano seguinte à crise económica de 2008.

Mesmo uma recuperação significativa da atividade económica nos próximos meses não vai parar esta tendência, disse Altman, professor de finanças na Max L. Heine, emérito, na Stern School of Business da Universidade de Nova York. “As empresas realmente prejudicadas foram longe demais para serem salvas”, disse ele.

Muitos estão a cambalear no limite. A Chesapeake Energy, que já foi a segunda maior empresa de gás natural do país, está com cerca de US$ 9 mil milhões em dívidas. A Tailored Brands — empresa que controla a Men’s Wearhouse, Jos. A. Bank e K&G — divulgou recentemente que também pode ter que pedir proteção contra falência. Assim como a Weatherford International, uma empresa de serviços da área de petróleo que emergiu da falência apenas em dezembro.

Mais de 6.800 empresas apresentaram no ano passado um pedido de protecção contra falências do Capítulo 11, e este ano serão quase de certeza mais. A inundação de petições da pior recessão económica desde a Grande Depressão pode inundar o sistema, tornando mais difícil salvar as empresas que podem ser salvas, disseram os especialistas em falências.

A maioria das empresas de bom porte que entram em falência tentam reestruturar-se, trabalhando em acordos de pagamento das suas dívidas para que possam permanecer abertas. Mas se um plano não pode ser elaborado – ou não é bem sucedido – elas podem em vez disso ser liquidadas. Os equipamentos e imóveis são vendidos para pagar dívidas, e a empresa desaparece.

Sem reformas no sistema, “prevemos que uma fração significativa de pequenas empresas viáveis será forçada a liquidar, causando altas e irreversíveis perdas económicas”, disse um grupo de académicos numa carta ao Congresso em maio. “Os trabalhadores perderão empregos mesmo em empresas viáveis.”

Entre as suas sugestões: aumentar os orçamentos para convocar juízes aposentados e contratar mais funcionários, e dar às empresas mais tempo para elaborar planos viáveis para evitar que sejam vendidos por partes.

“Prazos apertados podem levar a planos de reestruturação excessivamente otimistas e subsequentes reclamações  que vão  congestionar os tribunais e atrasar  futuras recuperações”, escreveram eles.

A pandemia — com os seus confinamentos que acabaram de começar a facilitar — foi suficiente por si só para colocar alguns negócios sob esta pressão. A rede de ginásios 24 Hour Fitness, por exemplo, declarou falência esta semana, dizendo que fecharia 100 locais por causa de problemas financeiros que o seu diretor executivo atribuiu inteiramente ao coronavírus.

Mas, em muitos casos, a crise do coronavírus expôs problemas mais profundos, como dívidas escalonadas administradas por empresas cujos modelos de negócios já estavam a ter muita dificuldade em lidar com mudanças no comportamento dos consumidores.

A Hertz foi sobrecarregada pela dívida criada por uma compra alavancada há mais de uma década, o que ainda se agravou com a aquisição da Dollar Thrifty em 2012. Enquanto ela se debatia contra os concorrentes diretos, a ascensão da Uber e da Lyft acabou ainda mais com a indústria de aluguer de carros.

J. Crew e Neiman Marcus estava a ser sobrecarregada com pesada dívida de compras alavancadas por fundos de investimentos privados enquanto lutavam para lidar com as mudanças nas preferências dos compradores que cada vez mais compram online.

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Neiman Marcus declarou falência na mesma semana que J.Crew, para muitos pelas mesmas razões. Crédito. Mandel Ngan/Agência France-Presse — Getty Images

Empresas de petróleo e gás como Diamond e Whiting contrairam grandes empréstimos para a sua expansão quando os preços das mercadorias de base, bens primários, eram muito mais altos. Esses preços começaram a cair à medida que a produção aumentava, e caíram ainda muito mais quando a Rússia e a Arábia Saudita entraram em uma guerra de preços pouco antes das paralisações económicas começarem.

(E depois há casos que não têm nada a ver com a pandemia, mas, no entanto, tomam tempo e energia nos tribunais. Borden Dairy, uma empresa de Dallas com uma história que remonta a 1857, declarou falência em janeiro, vítima da queda dos preços, do aumento dos custos e da mudança de gostos.)

Uma série de incumprimentos parece quase inevitável. No final do primeiro trimestre deste ano, as empresas norte-americanas acumularam quase US$ 10,5 milhões de dívidas — de longe o maior endividamento desde que o Federal Reserve Bank of St. Louis começou a rastrear o número no final da Segunda Guerra Mundial.

“Uma explosão na dívida empresarial “, disse Altman.

Tendo muito mais dívidas para enfrentar é provável que as falências que virão sejam uma experiência traumática para credores inseguros, que podem incluir aposentados com pensões ou benefícios de saúde, vendedores à espera de serem pagos, requerentes sobre delitos cujos processos são interrompidos e às vezes até mesmo trabalhadores atuais. Se uma empresa entrar em falência com mais dívidas garantidas do que o valor dos seus ativos, os credores garantidos — incluindo investidores abutres que compraram a dívida por tuta-e-meia  — podem sair com praticamente tudo.

As somas em jogo em alguns desses casos serão enormes. Altman espera pelo menos 66 casos com mais de US$ 1 milhar de milhões em dívidas este ano, eclipsando a marca de 2009 de 49 casos. Ele também previu 192 falências envolvendo pelo menos US$ 100 milhões em dívidas, o que ficaria  apenas a seguir ao recorde de 242 de 2009.

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A Hertz teve problemas mesmo antes da pandemia, incluindo uma aquisição há oito anos e o aumento dos serviços de transporte de mercadorias concorrentes. Crédito.Cindy Ord/Getty Images

Robert J. Keach, um diretor do American College of Bankruptcy, disse que muitas empresas até agora conseguiram adiar a falência acumulando dinheiro e conservando-o da melhor maneira possível: levantando linhas de crédito existentes, colocando traabalhadores em layoff, atrasando projetos e aproveitando programas federais e estaduais de ajuda à pandemia.

Mas quando esses programas expirarem, as empresas começarão a queimar o seu dinheiro. É quando os pedidos de falência provavelmente aumentarão e permanecerão elevados, Disse o Sr. Keach.

Espere “um abismo Covid-19” nos próximos 30 a 60 dias, disse ele.

As empresas que receberam empréstimos no âmbito do Paycheck Protection Program podem estar à espera para apresentar um pedido de falência, disse Keach, especialista em direito de falências na firma de Bernstein Shur em Portland, Maine. Os empréstimos podem ser convertidos em subvenções se as empresas satisfizerem certos requisitos, e se os mutuários puderem adiar a falência até terem a certeza de que não terão que fazer o respetivo reembolso, terão mais dinheiro líquido quando entrarem com o pedido de proteção de falência .

Essa é uma consideração importante, porque o Capítulo 11 é caro. Uma empresa falida deve pagar os honorários dos advogados e outros profissionais que a ajudam a reorganizar-se, bem como os honorários daqueles que assessoram os comités oficiais de credores.

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A Borden Dairy não precisava da pandemia para empurrá-lo para a falência, mas os seus casos e outros só vão aumentar o trabalho dos tribunais. Lista. Crédito. Tony Placa/Associated Press

As recomendações dos especialistas ao Congresso não são muito precisas. Eles sugerem dar às empresas mais tempo para conseguirem criar os seus planos de reorganização, mesmo que os casos que podem ficar ao abrigo do Capítulo 11 devam ser rapidamente  considerados para que as empresas falidas não queimem o seu dinheiro antes de se reorganizarem.

Geralmente, quanto mais tempo uma empresa fica em situação de falência, maiores são as probabilidades de liquidação. E isso aumenta a probabilidade de que os problemas da empresa se espalhem: fornecedores de matérias-primas podem desaparecer se um fabricante definhar em situação de  falência, e lojas menores em linhas de negócios totalmente diferentes entre si podem sofrer se um centro comercial não puder ficar aberto.

Esses riscos são reais, disse Robert E. Gerber, que se aposentou em 2016 como juiz de falência no Distrito Sul de Nova York. Um dos seus casos foi a falência da General Motors em 2009, que se movimentou a uma velocidade relâmpago para evitar que a empresa falissse definitivamente.

“Se a G.M. tivesse falido, sabe Deus quantas empresas na cadeia de fornecedores teriam falido, e isso teria  gerado um terrivel  efeito em bola de neve “, disse Gerber, que agora é advogado da firma Joseph Hage. Esta cascata teria reduzido a zero a folha salarial de muita gente em toda a cadeia de fornecedores, ameaçando outras empresas e até mesmo as finanças dos governos locais que contam com eles para as suas receitas fiscais.

Isso, disse Gerber, torna imperativo que o sistema de falências tenha recursos para lidar com a próxima onda de casos.

“A falência não pode imprimir dinheiro para essas empresas”, disse ele, “mas pode dar a um bom número delas uma possibilidade de sobrevivência”.

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A autora: Mary Williams Walsh é uma repórter que cobre a intersecção das finanças, políticas públicas e o envelhecimento da população. Isto inclui pensões; dívida pública; falência, especialmente a falência municipal do Capítulo 9; e seguros, incluindo seguros fornecidos pelos governos. Antes de vir para o The Times, trabalhou para o The Wall Street Journal e para o The Los Angeles Times, principalmente em agências estrangeiras. A sua primeira colocação no estrangeiro foi no México, durante uma dolorosa crise da dívida que envolveu a América Latina, desde o Rio Grande até à Argentina. Ficou impressionada ao encontrar algumas das mesmas forças em acção nos Estados Unidos hoje em dia, em lugares como Porto Rico. Desde que aderiu ao The Times, recebeu um prémio George Polk Award por relatar a forma como as empresas vendem material médico a hospitais, e um prémio da Society of American Business Editors and Writers por relatar sobre pensões públicas.

 

 

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